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21 março, 2018

Dia Mundial da POESIA


“… a poesia ou nos fala de imediato ao coração ou pura e simplesmente não nos diz nada. Um lampejo de revelação e um lampejo de resposta. Como um relâmpago. Como quem se apaixona.”

 J. M. Coetzee, escritor sul africano (1940-), in “Desgraça”, ed. D. Quixote, 2000
Foto da net.

15 novembro, 2013

"Desgraça" - J.M. Coetzee

Talvez seja bom sofrer uma queda de vez em quando. Desde que não nos quebremos.
Quem o diz é David Lurie, 52 anos, divorciado, professor adjunto de comunicação na Universidade Técnica de Cape, na Cidade do Cabo.
Lurie não gosta de ensinar dá aulas apenas para ganhar a vida, mas gosta de poesia e de escrever sobre pessoas mortas.
Do que ele gosta mesmo, mesmo é de mulheres. Muito!
Cresceu rodeado delas e cedo aprendeu a seduzi-las, amá-las e... abandoná-las. Transformou-se num amante das mulheres, num mulherengo.
… durante anos, décadas, foi essa a espinha dorsal da sua vida.
Os anos passam e um dia, sem aviso prévio, Lurie perde os seus poderes de sedução. As mulheres passam a ignorá-lo e ele entra numa fase de nervosismo e promiscuidade: tem casos com as mulheres dos colegas, engata turistas nos bares, paga a prostitutas, persegue alunas. É raro passar um período sem se apaixonar por alguma das suas alunas.
Ora, numa tarde, ao regressar a casa, avista uma delas, Melanie Isaacs, trinta anos mais nova do que ele, aluna do curso de teatro. Sedutor, aproxima-se dela, sorri, ela... devolve-lhe o sorriso.
- Eu vivo aqui perto. Posso convidá-la para um copo?
Melanie diz que sim e o professor Lurie, um homem solitário, com dois casamentos falhados e uma filha ausente, vai cometer um erro, um enorme erro.
“Professor acusado de assédio sexual”…
Lurie admite publicamente a culpa, demite-se da universidade, fecha a casa, abandona a cidade e parte para junto da filha, Lucy.
- Ficas cá algum tempo? – pergunta ela.
- Uma semana? Podemos pensar numa semana? Só receio que te aborreças.
- Não me aborreço.
- Bom, sabes que és bem-vindo se quiseres ficar.
- É muito simpático da tua parte, querida, mas eu gostava que continuássemos amigos. Longas visitas não são boas para as amizades.
- E se não lhe chamarmos visita? Se lhe chamarmos refúgio? Aceitarias um refúgio sem termo certo?
Aceitou.
Lucy, filha de mãe holandesa, vive sózinha numa pequena quinta, isolada, que comprou com a ajuda do pai, desde que Helen, a companheira, partiu para Johannesburg.
Na quinta, Lucy cultiva hortaliças, frutas e flores. Cria gado. Tem um canil.
Tem o apoio de Petrus, antigo colaborador, agora co-proprietário, que vive na quinta com a família. Amigos, amigos, apenas os vizinhos Bev e Bill Shaw, dois acérrimos defensores dos direitos dos animais.
Lurie aprende a relacionar-se com a filha, a interessar-se pelos animais, a defender o vegetarianismo, a viver numa nova sociedade e a aceitar as complexidades raciais.
Tudo corre bem, até uma tarde de pesadelo, de violência extrema, que os vai modificar, a ambos, de forma profunda e imprevisível.
A história de um país em mudança, falou através da brutalidade de três homens… uma história de maldade.
Segue-se o choque, o medo, a dor, o silêncio, a descoberta, a vergonha.
Lurie sugere que Lucy deixe a quinta, até que as coisas melhorem no país.
- Se eu partir agora… nunca mais volto.
Ele volta para a cidade, experimenta o arrependimento, pede perdão e volta. Volta para dar e receber amor.
O que acarretará ser avô?
Tem de ler novamente Victor Hugo, o poeta dos avós. Poderá aprender alguma coisa.
Aconselho a todos a leitura desta história dura, carinhosa, comovente, grandiosa.
Não se esquece.
 
Desgraça, de J.M. Coetzee (Prémio Nobel de Literatura 2003)
Ed. Dom Quixote, 2000
229 págs.

21 setembro, 2013

A vida (es)corre...

Tão breve o Verão, antes do Outono e, depois, o Inverno.
In "Desgraça", de J.M. Coetzee, ed. Dom Quixote, 2000

(Foto tirada da net)

28 março, 2011

"Verão" - J.M. Coetzee


Cabe a nós próprios construir a história das nossas vidas, dentro das restrições impostas pelo mundo real, ou mesmo contra elas.
Inteligente a estrutura narrativa deste livro de J.M. Coetzee, galardoado em 2003 com o Prémio Nobel de Literatura.
Inteligente, engenhosa e original, baralhar-nos a desenvoltura com que o autor se revela enquanto personagem da sua própria ficção, num exercício de auto-depreciação avassalador.
Confuso? 

O biógrafo inglês, Mr. Vicent, trabalha num livro sobre o falecido escritor John Coetzee.
O seu projecto centra-se entre 1972 e 1977, época em que Coetzee, então na casa dos 30, compartilhava com o pai viúvo uma degradada casa rural nos arredores da Cidade do Cabo.
Entrevista, então, várias pessoas: Julia, a mulher casada com quem Coetzee teve um caso e que define essa relação como uma “narrativa sem corpo”; Margot, a prima preferida, com quem ele abria o coração; Adriana, uma bailarina brasileira mãe da jovem Maria Regina a quem ele dava aulas particulares de inglês; Martin e Sophie amigos, colegas e, como ele, professores universitários.
A partir destes testemunhos chega a um retrato pouco lisonjeiro do jovem Coetzee como um indivíduo desajeitado, incapaz de se relacionar com os outros, emocionalmente reprimido, incompetente com as mulheres, um macambúzio, um atraso de vida, um desmancha-prazeres.

O que é real e o que é ficção?
O autor nasceu na Cidade do Cabo, na África do Sul, em 1940. Viveu vários anos nos Estados Unidos, regressou à África do Sul e vive, actualmente, na Austrália.
No regresso à África do Sul publica os primeiros livros, revolta-se contra o poder político e… cuida do pai viúvo e doente.
O resto descubra neste empolgante, comovente e divertido livro.

Verão, de J.M. Coetzee
D. Quixote, 2010
Tradução de J. Teixeira de Aguilar
279 págs.