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01 agosto, 2016

Vou de férias… depois de reproduzir outra história de Rubem Fonseca

HUMILHAÇÃO
Você já foi humilhada? Menosprezada? Desdenhada? Aviltada? Eu já, e antigamente ficava pálida, envergonhada, com vontade de morrer. Isso acabou. E vou dizer como. É uma história breve, não vai ocupar o tempo de vocês. Botei um anúncio no jornal, sabe, naquelas páginas usadas por prostitutas, fregueses, sujeitos em busca de sexo. Todo o jornal tem isso. Escondido no meio daquelas páginas de pequenas propagandas.
Cristina, mulher jovem, esbelta, bonita. Preço razoável. Faz tudo, inclusive coisas que o freguês nem imagina. Vou a casa do interessado. Caixa postal 555.
Fui a casa do primeiro que respondeu ao meu anúncio. Toquei a campainha. Um sujeito calvo, de cabelos grisalhos abriu a porta.
«Sou a Cristina.»
«O quê?»
«Sou a Cristina, do anúncio.»
Depois que o sobressalto da sua surpresa passou ele disse:
«Você não era jovem, esbelta e bonita? O que estou vendo na minha frente é uma gorda de mais de cem quilos.»
«Cento e dez», corrigi.
«Está achando que eu vou pagar para foder um bagulho como você? Pode dar o fora, baleia.»
Então cravei uma faca no corpo do sujeito. Cravei fundo.
Os gordos têm muita força nos braços e usam roupas largas, ótimas para esconder facas ou outras armas.
Ele caiu no chão. Verifiquei que estava morto. Procurei e encontrei o recorte do meu anúncio, que coloquei no bolso, junto com a faca, que lavei na pia do banheiro. A carteira do indivíduo estava cheia de dinheiro. Mas não sou ladra.
Saí e passei na confeitaria. O garçon recebeu-me amavelmente.
Garçons sempre gostam muito de mim.
«O de sempre, senhorita? A torta, a caixa de sorvete e os chocolates?»
«Vou querer também um pacote de balas amanteigadas.»
Peguei o embrulho e fui para casa. Comecei comendo a torta, depois os chocolates, depois o sorvete. Chupei as balas enquanto via televisão.
Eu tinha que ficar gorda, muito gorda, não podia ter menos de cem quilos. Era a única maneira de me vingar daqueles que gostavam de humilhar os outros.
Amanhã sai outro anúncio meu no jornal.”

Agora sim, vou de férias do meu rol de leituras.
Nos próximos trinta dias nada postarei mas continuarei a ler, claro!
Seleccionei:





Até Setembro.
Boas férias para todos, com cativantes e divertidas leituras.
(Rubem Fonseca, me desculpe, cara!)

29 julho, 2016

"Histórias curtas" - Rubem Fonseca

Eu sou ladrão.
Como é que o sujeito se torna ladrão? A polícia sabe? Não, não sabe. O advogado criminalista sabe? Não, não sabe. O psicólogo sabe? Não, não sabe. O psiquiatra sabe? Não, não sabe. O Psicanalista sabe? Não, não sabe. (…)
Pobreza? O sujeito se torna ladrão porque é pobre? Que besteira. Tem ladrão mais rico do que ladrão pobre, está provado que quanto mais dinheiro o sujeito tem mais dinheiro ele quer ter. (…)
Distúrbio mental? Eu sou ladrão e não sou maluco, nem tenho distúrbio mental. E que merda é exatamente isso de distúrbio mental? (...)
(Um bom trabalho)

Antes de comprar este livro nada conhecia de Rubem Fonseca. (Grande falha minha, eu sei, nada de críticas.) 
Então, por que razão o comprei?
Confesso que a capa dourada me lembrou o sol de verão; confesso que histórias curtas são o melhor que há para ler esparramada numa toalha de praia; confesso que sou louquinha por banhos de mar - em água fria, morna ou quente, no mar eu entro sempre (mas fujo apavorada da ondulação), depois, ou saio rapidamente ou por lá fico “a salgar” de satisfação; confesso que na praia a minha rotina é: caminhar, banho de mar, ler, banho de mar, ler….;  confesso que enquanto durou a leitura deste livro essa rotina passou a ser: caminhar, banho de mar, ler, ler, ler, banho de mar, ler, ler, ler… e rir muito!
Trata-se de uma colectânea com 38 histórias curtas (algumas curtíssimas) brilhantes, irreverentes, destrambelhadas, loucas e divertidas, que, agora muita atenção, de forma rigorosa, implacável mas ao mesmo tempo delicada, relatam temas seríssimos como: velhice, degeneração da mente, preconceito racial, violência urbana, luxúria, sexo, erotismo, prostituição, obesidade, desumanidade, riqueza, miséria, etc., etc.,
Que me desculpe o autor mas não resisto a reproduzir uma, sem censura:

A PREFERIDA
Minha mulher Raquel é ciumenta. Ela costumava me seguir, disfarçadamente, ou então contratava alguém para fazer isso.
Tenho que tomar muito cuidado quando abraço a minha Preferida. Sinto uma espécie de eflúvio, que vem da terra, que vem do ar, um perfume embriagador.
Minha mulher me perguntou:
«Você não gosta mais de fazer amor comigo, Pedro?»
«Gosto… gosto…»
«Então por que não faz?»
Abraço minha mulher, penso na minha Preferida e consigo cumprir minha obrigação de marido
Confesso que antes de encontrar a minha Preferida eu era um sujeito promíscuo. Não sei quantas abracei, às escondidas, algumas vezes à noite, sempre tendo o cuidado de não ser visto por ninguém.
Mas tornei-me outra pessoa depois que encontrei a minha Preferida. Quando eu a abraçava, ficava excitado, encostava o meu pénis nela e ejaculava, Isso me criava um problema, ou melhor, dois problemas. Eu tinha que entrar em casa, correr para o banheiro e lavar aquela cueca. Depois, na cama, era um problema com Raquel. Por uma dessas coincidências – quando penso em coincidência vem-me à mente a frase de Einstein «Coincidência é a maneira que Deus encontrou para permanecer no anonimato», cujo significado nunca entendi direito, mas também nunca compreendi sua fórmula de equivalência massa-energia, E=m2, a equação mais famosa do mundo. Alguém entende? Uma vez pedi ao meu professor de física, na universidade, que me explicasse aquilo e ele não conseguiu-, mas, como eu ia dizendo, por uma dessas coincidências, em um dos dias que encontrei a minha Preferida, Raquel quis fazer amor comigo.
«Novamente, Pedro? O que está havendo? Você tem outra mulher? Anda, diz a verdade, seu farsante, você anda com outra mulher?»
«Não, Raquel, estou apenas cansado.»
«Cansado de ficar sentado no escritório? Você pensa que eu sou alguma idiota?»
Raquel me agarrou pelo pescoço com tanta força que quase desmaiei.
«Se eu pegar você com outra mulher eu… mato os dois, os dois», ameaçou Raquel.
Certa ocasião eu li, não lembro onde, uma frase que dizia que existe um tempo para ousadia e um tempo para cautela, e o homem sábio conhece o momento de cada um deles. Eu me considerava um homem sábio, mas infelizmente estava cada vez mais ousado e menos cauteloso.
Um dia eu estava fazendo sexo com a minha Preferida quando fui surpreendido pelo flash de uma máquina fotográfica. Alguém me agarrou, senti uma pancada na cabeça e desmaiei
Acordei numa cama de hospital, com os pulsos presos no gradil da cama.
Um sujeito de avental branco entrou no quarto.
«Está na hora da sua injeção», ele disse.
«Injeção? Por que estou preso aqui nesta cama?»
«O senhor sofre de uma doença muito grave. Dendrolatria patológica de terceiro grau.»
«Não sofro de doença nenhuma, quero ir embora, solte os meus pulsos, quero ir embora.»
«Temos fotos que comprovam o seu comportamento psicopatológico.»
«Fotos? Que fotos?»
«O senhor quer ver?»
«Quero, muito.»
Ele tirou do bolso uma foto e me mostrou. Eu estava fazendo amor com a minha Preferida, vestido, mas com o pénis de fora, enfiado nela.
«Desde quando a cópula é um comportamento psicopatológico?»
«Desde que ocorra com uma árvore. O exame de DNA vai provar que os inúmeros vestígios de esperma no caule são da sua autoria.»
A foto continuava na minha mão. A minha Preferida era mesmo uma árvore de caule grosso. Então ocorreu uma revelação arrebatadora: eu sempre fizera sexo com árvores, eu copulava com as árvores.
Antes que eu pudesse raciocinar sobre isso, o médico me aplicou uma injeção e perdi os sentidos.”

Filho de portugueses transmontanos que emigraram para o Brasil, Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1925, mas é carioca desde os oito anos.
Contista, romancista, ensaísta, guionista e «cineasta frustrado», foi galardoado com diversos prémios literários, nomeadamente com o Prémio Camões, 2003.
Procure na net e leia tudo o que encontrar sobre este “ jovem senhor”, dono de uma escrita original, simples, irónica, inteligente, sagaz, risível.
«Tudo o que é bom é ilegal, imoral ou engorda.»
Bolas!

Histórias curtas, de Rubem Fonseca
Sextante Editora, 2016
163 págs.