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21 abril, 2020

Rubem Fonseca (1925-2020)


O sucesso sempre incomoda os medíocres ambiciosos, os sonhadores incapazes, os fracassados em geral. (Rubem Fonseca)

"Eu sou um ladrão.
Como é que o sujeito se torna ladrão? A polícia sabe? Não, não sabe. O advogado criminalista sabe? Não, não sabe. O psicólogo sabe? Não, não sabe. O psiquiatra sabe? Não, não sabe. O Psicanalista sabe? Não, não sabe. (…)
Pobreza? O sujeito se torna ladrão porque é pobre? Que besteira. Tem ladrão mais rico do que ladrão pobre, está provado que quanto mais dinheiro o sujeito tem mais dinheiro ele quer ter. (…)
Distúrbio mental? Eu sou ladrão e não sou maluco, nem tenho distúrbio mental. E que merda é exatamente isso de distúrbio mental? (...)"
(Excerto do conto "Um bom trabalho")

"Meu nome é Maria da Graça e tenho 62 anos de idade. (É mentira, tenho 72, mas pareço ter bem menos,então  digo para todo o mundo que tenho 62, e ninguém duvida.)
Não pensem que fiz isso que chamam de operação plástica, ou coloquei Botox, essa coisa que todas as mulheres fazem. Me disseram que alguns camelôs fazem Botox nas regiões pobres da cidade. Eles vão pelas ruas gritando «olha o Botox, bom e barato», às vezes usam até alto-falantes. E a coisa é feita ali no meio da rua, ninguém acha nada de mais. E funciona. Dizem que é um Botox que vem da China, por isso é barato. Tudo o que vem da China é barato, mas na maioria das vezes é também uma porcaria. Por exemplo, o tal cigarro electrónico,aquela coisa que vaporiza falsa nicotina que está na moda. O palerma pensa que está fumando um cigarro com gosto de  tabaco, mas é um aerossol químico. Ainda bem que eu não fumo. Beber eu bebo um pouco, champanhe é claro, quem é que não gosta de uma champanhe? Ou é um champanhe? Preciso comprar um dicionário para eclarecer essas coisas. (...)"
(Excerto do conto "O mundo é nosso")

"Meu netinho querido, sabe por que o mundo antigamente era melhor? Sou um velho ranzinza  e gosto de fazer afirmações que certas pessoas consideram infundadas. Mas uma coisa é certa: o mundo antigo era melhor porque havia apenas ricos e pobres, só duas categorias. E sabe o que aconteceu? Os pobres, lentamente, foram deixando de ser pobres. E isso acabou por influenciar o comércio, os comerciantes passaram a fazer coisas para os pobres, uma porcaria, é claro. E pobre gosta de fazer filhos, mas antes, graças a Deus, eles morriam de doenças. Quando os pobres passaram a ter dinheiro para cuidar dos filhos, pagando médicos e dando-lhes de comer melhor, essa praga dos filhos foi aumentando. Por que a população do mundo chegou a esse nível catastrófico? São os pobres fazendo filhos.(...) Que é isso? Meu netinho, larga o meu pescoço, você está apertando com muita força, me sufocando, estou sem ar, ai... ai... estou..."
(Excerto do conto "Netinho querido")

Filho de portugueses transmontanos que emigraram para o Brasil, Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1925. Faleceu no Rio de Janeiro, onde vivia desde os oito anos, no passado dia 15 de Abril.
Contista, romancista, ensaísta, guionista e «cineasta frustrado», foi galardoado com diversos prémios literários, nomeadamente com o Prémio Camões, em 2003.
Leia tudo o que encontrar sobre este «senhor contista», dono de uma escrita original, simples, irónica, inteligente, sagaz, risível.
Eu vou, com certeza, ler mais sobre o escritor que «gritava vivas à Língua Portuguesa».

Mais sobre a vida e obra de Rubem Fonseca aqui.
Mais contos aqui no Rol.

(foto da net)

10 maio, 2019

"Televisão", conto de Rubem Fonseca

TELEVISÃO
“Eu gostava de desenhar. Estava sempre desenhando. Isso antigamente. Agora perdi a vontade de desenhar, ou melhor, não sei o que desenhar. Eu desenhava tudo, mulheres nuas, homem morto, flor - flor eu não gostava muito, só do cheiro -, desenhava ruas, letreiros luminosos, pessoas em volta de uma mesa jantando (ou almoçando), dois sujeitos jogando sinuca, aleijadinho - aleijadinho eu gostava de desenhar, vários tipos de aleijadinho, sem perna, em cadeira de rodas, sem braço, mas o que eu mais gostava mesmo era do aleijadinho com duas muletas e sem as pernas. Eu desenhava a cara desse aleijadinho como a de um homem feliz, feliz porque podia passear pelas ruas, ainda que fosse de muletas.
Havia uma coisa que eu detestava: desenho abstrato. «Abstracção: uma coisa de difícil compreensão, obscura», diz o dicionário. Novamente o dicionário: «Abstrato: que não é claro para o espírito, que é difícil de compreender, de explicar.»
Você desenha uma porcaria que não quer dizer nada e diz «é uma abstracção», e os bestalhões dizem «muito interessante». Será que essa gente não sabe que arte tem que ter significado? Tem que exprimir algo?
Voltando ao meu problema. Eu sento à mesa, o papel e os crayons na frente, e não consigo desenhar. Na verdade nem sento mais à mesa. Vou direto pra televisão ver uma das porcarias que exibem.
Falta inspiração? Isso parece coisa religiosa e eu sou ateu. Falta motivação? O artista precisa estar motivado? Isso me parece pueril, uma tolice.
Eu sento à mesa, com o material para desenhar, espero um minuto. Desenhar o quê? Vou para a poltrona e ligo a televisão. Vejo televisão todos os dias. Isso é coisa de débil mental. Mas vejo televisão, e vejo novamente, e novamente, e novamente. Ver televisão deixa o sujeito maluco.
Compro um revólver, vou dar um tiro na cabeça.
Mas em vez de dar um tiro na cabeça atiro na televisão. Vários tiros, destruo aquele monstro.
Não demorou muitos dias para que eu voltasse a desenhar.
Televisão? Nunca mais. Sem televisão eu fico bom, deixei de ser um neurótico, ou coisa parecida.
Mas quando passo na vitrine de uma loja e vejo um aparelho de televisão confesso que o meu coração bate apressado e minha boca se enche de saliva.”
Confesso que sou apaixonada por contos, narrativas curtas com começo, meio e fim.
Há dias alguém me disse que podem ser escritos em verso. Vou pesquisar e depois partilharei o que encontrar.
De Rubem Fonseca há mais contos no Rol.
Desligue a televisão,  leia e divirta-se!

(Fotos da net.)

16 novembro, 2018

"A Preferida", conto (sem censura) de Rubem Fonseca

A PREFERIDA
"Minha mulher Raquel é ciumenta. Ela costumava me seguir, disfarçadamente, ou então contratava alguém para fazer isso.
Tenho que tomar muito cuidado quando abraço a minha Preferida. Sinto uma espécie de eflúvio, que vem da terra, que vem do ar, um perfume embriagador.
Minha mulher me perguntou:
«Você não gosta mais de fazer amor comigo, Pedro?»
«Gosto… gosto…»
«Então por que não faz?»
Abraço minha mulher, penso na minha Preferida e consigo cumprir minha obrigação de marido. Confesso que antes de encontrar a minha Preferida eu era um sujeito promíscuo. Não sei quantas abracei, às escondidas, algumas vezes à noite, sempre tendo o cuidado de não ser visto por ninguém.
Mas tornei-me outra pessoa depois que encontrei a minha Preferida. Quando eu a abraçava, ficava excitado, encostava o meu pénis nela e ejaculava, Isso me criava um problema, ou melhor, dois problemas. Eu tinha que entrar em casa, correr para o banheiro e lavar aquela cueca. Depois, na cama, era um problema com Raquel. Por uma dessas coincidências - quando penso em coincidência vem-me à mente a frase de Einstein «Coincidência é a maneira que Deus encontrou para permanecer no anonimato», cujo significado nunca entendi direito, mas também nunca compreendi sua fórmula de equivalência massa-energia, E=m2, a equação mais famosa do mundo. Alguém entende? Uma vez pedi ao meu professor de física, na universidade, que me explicasse aquilo e ele não conseguiu -, mas, como eu ia dizendo, por uma dessas coincidências, em um dos dias que encontrei a minha Preferida, Raquel quis fazer amor comigo.
«Novamente, Pedro? O que está havendo? Você tem outra mulher? Anda, diz a verdade, seu farsante, você anda com outra mulher?»
«Não, Raquel, estou apenas cansado.»
«Cansado de ficar sentado no escritório? Você pensa que eu sou alguma idiota?»
Raquel me agarrou pelo pescoço com tanta força que quase desmaiei.
«Se eu pegar você com outra mulher eu… mato os dois, os dois», ameaçou Raquel.
Certa ocasião eu li, não lembro onde, uma frase que dizia que existe um tempo para ousadia e um tempo para cautela, e o homem sábio conhece o momento de cada um deles. Eu me considerava um homem sábio, mas infelizmente estava cada vez mais ousado e menos cauteloso.
Um dia eu estava fazendo sexo com a minha Preferida quando fui surpreendido pelo flash de uma máquina fotográfica. Alguém me agarrou, senti uma pancada na cabeça e desmaiei.
Acordei numa cama de hospital, com os pulsos presos no gradil da cama.
Um sujeito de avental branco entrou no quarto.
«Está na hora da sua injeção», ele disse.
«Injeção? Por que estou preso aqui nesta cama?»
«O senhor sofre de uma doença muito grave. Dendrolatria patológica de terceiro grau.»
«Não sofro de doença nenhuma, quero ir embora, solte os meus pulsos, quero ir embora.»
«Temos fotos que comprovam o seu comportamento psicopatológico.»
«Fotos? Que fotos?»
«O senhor quer ver?»
«Quero, muito.»
Ele tirou do bolso uma foto e me mostrou. Eu estava fazendo amor com a minha Preferida, vestido, mas com o pénis de fora, enfiado nela.
«Desde quando a cópula é um comportamento psicopatológico?»
«Desde que ocorra com uma árvore. O exame de DNA vai provar que os inúmeros vestígios de esperma no caule são da sua autoria.»
A foto continuava na minha mão. A minha Preferida era mesmo uma árvore de caule grosso. Então ocorreu uma revelação arrebatadora: eu sempre fizera sexo com árvores, eu copulava com as árvores.
Antes que eu pudesse raciocinar sobre isso, o médico me aplicou uma injeção e perdi os sentidos."
 Leia e divirta-se!
BOM FIM DE SEMANA!

01 agosto, 2016

Vou de férias… depois de reproduzir outra história de Rubem Fonseca

“HUMILHAÇÃO
Você já foi humilhada? Menosprezada? Desdenhada? Aviltada? Eu já, e antigamente ficava pálida, envergonhada, com vontade de morrer. Isso acabou. E vou dizer como. É uma história breve, não vai ocupar o tempo de vocês. Botei um anúncio no jornal, sabe, naquelas páginas usadas por prostitutas, fregueses, sujeitos em busca de sexo. Todo o jornal tem isso. Escondido no meio daquelas páginas de pequenas propagandas.
Cristina, mulher jovem, esbelta, bonita. Preço razoável. Faz tudo, inclusive coisas que o freguês nem imagina. Vou a casa do interessado. Caixa postal 555.
Fui a casa do primeiro que respondeu ao meu anúncio. Toquei a campainha. Um sujeito calvo, de cabelos grisalhos abriu a porta.
«Sou a Cristina.»
«O quê?»
«Sou a Cristina, do anúncio.»
Depois que o sobressalto da sua surpresa passou ele disse:
«Você não era jovem, esbelta e bonita? O que estou vendo na minha frente é uma gorda de mais de cem quilos.»
«Cento e dez», corrigi.
«Está achando que eu vou pagar para foder um bagulho como você? Pode dar o fora, baleia.»
Então cravei uma faca no corpo do sujeito. Cravei fundo.
Os gordos têm muita força nos braços e usam roupas largas, ótimas para esconder facas ou outras armas.
Ele caiu no chão. Verifiquei que estava morto. Procurei e encontrei o recorte do meu anúncio, que coloquei no bolso, junto com a faca, que lavei na pia do banheiro. A carteira do indivíduo estava cheia de dinheiro. Mas não sou ladra.
Saí e passei na confeitaria. O garçon recebeu-me amavelmente.
Garçons sempre gostam muito de mim.
«O de sempre, senhorita? A torta, a caixa de sorvete e os chocolates?»
«Vou querer também um pacote de balas amanteigadas.»
Peguei o embrulho e fui para casa. Comecei comendo a torta, depois os chocolates, depois o sorvete. Chupei as balas enquanto via televisão.
Eu tinha que ficar gorda, muito gorda, não podia ter menos de cem quilos. Era a única maneira de me vingar daqueles que gostavam de humilhar os outros.
Amanhã sai outro anúncio meu no jornal.”

Agora sim, vou de férias do meu rol de leituras.
Nos próximos trinta dias nada postarei mas continuarei a ler, claro!
Seleccionei:


Até Setembro.
Boas férias para todos, com cativantes e divertidas leituras.
(Rubem Fonseca, me desculpe, cara!)

29 julho, 2016

"Histórias curtas" - Rubem Fonseca

Eu sou ladrão.
Como é que o sujeito se torna ladrão? A polícia sabe? Não, não sabe. O advogado criminalista sabe? Não, não sabe. O psicólogo sabe? Não, não sabe. O psiquiatra sabe? Não, não sabe. O Psicanalista sabe? Não, não sabe. (…)
(Excerto do conto "Um bom trabalho")

Antes de comprar este livro nada conhecia de Rubem Fonseca. (Grande falha minha, eu sei, nada de críticas.) 
Então, por que razão o comprei?
Confesso que a capa dourada me lembrou o sol de verão; confesso que histórias curtas são o melhor que há para ler esparramada numa toalha de praia; confesso que sou louquinha por banhos de mar - em água fria, morna ou quente, no mar eu entro sempre (mas fujo apavorada da ondulação), depois, ou saio rapidamente ou por lá fico “a salgar” de satisfação; confesso que na praia a minha rotina é: caminhar, banho de mar, ler, banho de mar, ler….;  confesso que enquanto durou a leitura deste livro essa rotina passou a ser: caminhar, banho de mar, ler, ler, ler, banho de mar, ler, ler, ler… e rir muito!
Trata-se de uma colectânea com 38 histórias curtas (algumas curtíssimas) brilhantes, irreverentes, destrambelhadas, loucas e divertidas, que, agora muita atenção, de forma rigorosa, implacável mas ao mesmo tempo delicada, relatam temas seríssimos como: velhice, degeneração da mente, preconceito racial, violência urbana, luxúria, sexo, erotismo, prostituição, obesidade, desumanidade, riqueza, miséria, etc., etc.,

"CEM ANOS"
Quem disse a Manuel que ele naquele dia fazia cem anos foi a sua vizinha, dona Adelina.
«Como você sabe?, perguntou Manuel.
«Sei a idade de todos os vizinhos. Quer que eu lhe diga?»
Manuel foi até o cubículo da casa que ele chamava de escritório, fuçou a papelada e achou a certidão. Dona Adelina estava certa. Ele fazia cem anos naquele dia.
«Não vai comemorar? Cem anos merecem uma comemoração», disse dona Adelina, quando se encontraram novamente.
«Comemorar como? Todos os meus parentes e amigos morreram.»
Manuel morava na mesma casa há muitos anos. Os móveis eram os mesmos, os livros eram os mesmos, só as toalhas, os lençóis e as cuecas não eram muito velhos. Até o clister era o mesmo. Antigamente as coisas duravam, pensou Manuel, agora todo o ano sai uma nova versão do mesmo produto, dizem que esse é um método de comércio denominado obsolescência planejada. Então, subitamente lembrou que clister era uma palavra que vinha do grego, significando seringa.
Ele sofria de prisão de ventre e fazia clister diariamente. O seu aparelho era uma espécie de jarra de vidro, com uma pequena torneira que abria e fechava, na qual era colocado um tubo comprido de borracha com um recipiente na ponta. Ele enchia a jarra com um líquido especial e deitado sobre o lado esquerdo introduzia o recipiente no ânus e abria a torneira da jarra, permitindo que o líquido entrasse nos seus intestinos, até sentir vontade de evacuar.
Mas essa não pode ser a maneira de comemorar os meus cem anos, eu faço isso há dezenas de dezenas de anos, pensou.
Cem anos não se comemoram. Cem anos de quê? A vida é um sofrimento contínuo, o corpo sofre, a mente sofre, doenças - e ele pensou em todas as doenças que existiam, eram tantas que davam para encher um livro de quinhentas páginas. Era isso que ele ia comemorar?
Então teve uma ideia. A melhor maneira de comemorar cem anos é morrendo na cama sem incomodar ninguém.
«Vou deitar e morrer», decidiu.
Deitou na cama e morreu. Mas antes teve a consciência de uma sensação de bem-estar. Ele estava feliz."

«Tudo o que é bom é ilegal, imoral ou engorda.»
Bolas!

Histórias curtas, de Rubem Fonseca
Sextante Editora, 2016
163 págs.