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14 fevereiro, 2020

"Uma beleza que nos pertence" - José Tolentino Mendonça


Porque hoje é dia de de São Valentim, dia de celebração do amor, decidi partilhar seis pequenos textos sobre o Amor de José Tolentino Mendonça, seleccionados neste que é há dias o meu livro de cabeceira.  
Trata-se de uma compilação de textos breves (aforismos) sobre 60 temas (palavrinhas), retirados de obras de JTM publicadas no período  de 2004 a 2018 (obras essas enumeradas em «Nota do editor», no fim do livro).
No fim do livro surge ainda o índice temático ordenado alfabeticamente, e os índices onomásticos de «personagens bíblicas» e de «autores e santos» referidos ou citados na obra.
Porque gosto de palavras e frases inspiradoras e gosto (muito) de as partilhar, é certo e sabido que este livro encantador irá saltar mais vezes da minha mesa de cabeceira para o Rol. 
Compre para si, ofereça, leia-o sozinho ou acompanhado, hoje, amanhã, todos os dias!
"O amor é mais uma exposição do que uma posse; é mais uma súplica do que um dado; é mais uma sede do que uma barragem; é mais uma conversa de mendigos do que um diálogo de triunfadores."

"Não gostamos, não amamos. E somos infelizes."

"Amar é dar o nosso amor ao outro sem controlar aquilo que o outro pode fazer com o nosso amor."
"O que nos salva não é uma negociação. O que nos salva é um excesso de amor, uma dádiva que vai para lá de todas as medidas. É essa a bem-aventurança que nos salva. É esse assombro de amor que nos relança. Não é um acordo, um pacto. Isso é para os negócios."

"No amor, dizemos uns aos outros: «Guardar o teu segredo é o meu segredo.»

"Respirar, viver, não é apenas agarrar e libertar o ar mecanicamente: é existir com, é viver em estado de amor."


Agora... vou namorar!
Namorem também. Muito!!!

Uma beleza que nos pertence, de José Tolentino Mendonça
Quetzal Ed., 2019
213 págs.

((corações... da net)

20 dezembro, 2019

FESTAS FELIZES com alegria, paz e harmonia!
















"Onde foi parar a alegria do mundo?”
(Rosa Montero, in "Instruções para salvar o mundo")


O PAPA FRANCISCO ESCOLHE O TÓPICO DA ALEGRIA PARA TRAÇO MAIOR DO SEU PONTIFICADO

"É uma arte difícil, a alegria. Por uma lado, sabemo-la próxima e acessível, como se os nossos dedos pudessem, a cada momento, e sem esforço, alcançá-la. Mas sabemos também como nos escapa, como é precária, dolorosa e inexplicável a alegria. Como nos obriga a procuras extenuantes e a desertos cujo fim não de divisa. Não admira, por isso, que muitos desistam da alegria e se metam a caminhar, vida fora, excluindo-a do seu alforge. A alegria, porém, é uma condição necessária da existência. Sempre que ela nos falta temos de interpretar isso como uma iniludível sintoma, a que é preciso atender. Temos de nos interrogar sobre o porquê do nosso viver burocrático e tristonho, o porquê do nosso passo precocemente anoitecido, do nosso errar entre o peso e a cinza de onde a alegria se ausenta.
Não raro o problema é fazer depender a alegria de motivações acidentais, que nada têm que ver com a sua essência julgamos extrair a alegria do sucesso, da abundância, da força, da afirmação, de eficácia, do poder, mas o tempo encarrega-se de demonstrar o nosso equívoco. Os mestres espirituais ensinam, por exemplo, que a alegria não depende do imediato ou conjuntural: a alegria liga-se às razões profundas do viver. De facto, ela não deve ser reduzida a uma espécie de estado de graça que nos toca em certas estações ou a uma maravilhosa isenção face à turbulência e aos contrastes do mundo. Pelo contrário. Se pensarmos bem, a maior parte do tempo, a nossa vida é a experiência de inacabamento e incompletude, é esboço e é projecto, é movimento transformante."

(Excerto da crónica "A perfeita alegria", de José Tolentino Mendonça, publicada na revista "E", do jornal  Expresso de 23 Fevereiro 2019.)



"Paz e harmonia: eis a verdadeira riqueza de uma família."
(Benjamin Franklin)




Há um ditado que diz: “cada vez que um homem ri aumenta alguns dias à sua vida".
Seja grato pela vida! Ria muito!



QUERIDOS AMIGOS, TENHAM UM NATAL ABENÇOADO 
E UM NOVO ANO ILUMINADO!
Que todos os vossos sonhos se tornem realidade.

Brindemos à Vida, uma sequência de instantes!
Brindemos à Amizade, ao Amor, à Alegria!


Volto dia 10 de Janeiro do novo ano. Até lá, sejam felizes!

(Fotos da net.)

28 maio, 2019

À terça - imagens e palavras: "vida"


“Se pensarmos bem, a maior parte do tempo, a nossa vida é experiência de inacabamento e incompletude, é esboço e projecto, é movimento transformante.”


JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, teólogo e poeta português (1965-)
(Foto da net.)

22 fevereiro, 2019

Bom dia, alegria!

Tenho uma relação intrigante e perturbadora com livros, revistas, jornais, lápis e tesouras: sublinho nos livros as frases de que mais gosto, recorto artigos de revistas e jornais, e guardo. Guardo tudo!
Ando há dias a (tentar) organizar caixas e gavetas apinhadas de papéis. Tiro de um lado, guardo em outro. Não passo disto. Deitar fora, que é o que devia fazer, não consigo. Gosto de tudo!
E não desisto de arrumar, desarrumando. E só sossego de tanta desatinação quando encontro o tesouro entre os tesouros. Desta vez achei várias crónicas incríveis de José Tolentino Mendonça, que logo reli e uma escolhi para partilhar no Rol. Espero que gostem tanto quanto eu gostei.

O VERBO SAUDAR
"A aldeia global tornou-nos apenas próximos: não nos apresentou aos outros. Passamos a partilhar uma quantidade colossal de informações, mas continuamos perfeitos estranhos. Quanto muito tem crescido o voyeurismo que sobrevoa a existência alheia e nos dispersa da nossa.
Às nossas sociedades hipertecnológicas faltam os protocolos de encontro, por exemplo, das sociedades primitivas.
Entre os povos do deserto, quando os desconhecidos eram aceites como hóspedes, seguia-se este ritual de aproximação: “Considera-te bem-vindo! Recebe as minhas saudações. Como prosseguem os teus dias? Como vão os filhos de Adão? E a tua família? E a tua tenda? E a tua gente? E a tua mãe? E tu, como corre a viagem que estás a realizar?"
Na Bíblia hebraica encontramos o “Quem és? De onde vens? Para onde vais?", trocado, com cordial curiosidade, entre viandantes.
Os gregos e romanos, por seu lado, vulgarizaram o aperto de mão, como se pode ver nos monumentos figurativos e sobretudo nas estelas funerárias.
As fórmulas de cumprimento tornaram-se tão sincopadas a Ocidente que perderam a sua força expressiva. A maior parte das vezes são hoje repetidas de maneira automática. 
Por isso sabe bem recordar outras possibilidades: como entre os etíopes, onde se recorre a um termo que significa “Vejo-te”, ou ente os ameríndios, que usam uma expressão que diz qualquer coisa como “Recebo agora o teu cheiro”
O protocolo de encontro tem ainda uma plasticidade visceral que demonstra a centralidade que ocupa nessas práticas sociais. Facto que soará estranhíssimo numa época como a nossa em que nos tornamos cosmopolitas, de uma hora para a outra, só porque esbarramos com mais estranhos na rua, sem aumentar o número de vezes que dizemos “bom-dia”.
As fórmulas mais belas de saudação que conheço são as trocadas entre os padres do deserto. Aqueles anacoretas, exploradores de silêncios abissais, tinham como ideal tornarem-se irreversivelmente estranhos ao modo comum de atravessar a terra, e viver exactamente “como um homem que não existe". Mas eles, que comunicavam por monossílabos e gestos para não ferir a ciência sagrada do silêncio, nas ocasiões em que se encontravam faziam-no com solenidade máxima: "Ave, guardião da manhã, montanha inacessível”; “Ave, coluna que sustentas com a tua solidão o inteiro universo”."

"Os Padres do Deserto ou Pais do Deserto foram eremitas, ascetas, monges e freiras que viviam majoritariamente no deserto da Nítria(Scetes), no Egito a partir do século III. O mais conhecido deles foi Santo Antão (ou Santo António, o Grande), que mudou-se para o deserto em 270-271 e se tornou conhecido tanto como o pai quanto o fundador do monasticismo no deserto. Quando Antão morreu em 356, milhares de monges e freiras tinham sido atraídos para a vida no deserto seguindo o exemplo do grande santo."
(Mais aqui.) 

"A oração é fruto da alegria e do reconhecimento."
(Um dos muitos Ditos dos Padres do Deserto.)


Aprender, sempre!

Excertos da crónica "O Verbo Saudar", de José Tolentino Mendonça, publicada na "E", revista do Jornal Expresso de 19 Agosto 2017.
Fotos da net.

12 outubro, 2018

Versos de José Tolentino Mendonça


MURMÚRIOS DO MAR
«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

«pago-te um café se me contares
o teu amor»

A FALA DO ROSTO
És Tu quem nos espera
nas esquinas da cidade
e ergue lampiões de aviso
mal o dia se veste
de sombra

Teu é o nome que dizemos
se o vento nos fere de temor
e o nosso olhar oscila
pela solidão
dos abismos

Por Ti é que lançamos as sementes
e esperamos o fruto das searas
que se estendem
nas colinas

Por ti a nossa face se descobre
em alegria
e os nossos olhos parecem feitos
de risos

É verdade que recolhes nossos dias
quando é outono
mas a Tua palavra
é o fio de prata
que guia as folhas
por entre o vento
José Tolentino Mendonça, arcebispo da Igreja Católica, escritor e poeta português, é desde 1 de Setembro de 2018 Arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e Bibliotecário da Biblioteca Apostólica Vaticana, cargos na Cúria Romana.
É professor e foi vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, até à sua nomeação episcopal em 26 de Junho de 2018. Foi também director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.
Nasceu a 15 de Dezembro de 1965, no Machico, Madeira-Portugal.
(Fotos da net.)

09 outubro, 2018

À terça - imagens e palavras: "livro"

“Um livro é um enigma como as pirâmides do Egito. É um laboratório em combustão. Uma saída de emergência. Um clube de socorro a náufragos. Um intercomunicador entre silêncios. Um lança-chamas. Um abrigo de floresta. Um trilho mais adiante.”


Frase de José Tolentino Mendonça, teólogo e poeta português (1965-)
Foto da net.

09 setembro, 2018

"Preciso do teu rosto esta manhã" - José Tolentino Mendonça

Não resisti! Não resisti a publicar hoje um excerto da crónica do teólogo e poeta José Tolentino Mendonça, publicada na revista “E”, do jornal Expresso de ontem.

Começa assim:
“Retornemos às Bem-Aventuranças.
É o grande discurso de Jesus. Bem-aventurados os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os construtores da paz, os perseguidos… Santo Agostinho dizia tratar-se do Evangelho breve, a síntese de toda a boa nova. Mahatma Gandhi, que não sendo cristão se apaixonou pelas Bem-Aventuranças quando estudante, declarou esta coisa espantosa: se, por uma calamidade, se perdesse toda a literatura e apenas permanecesse esta página das Bem-Aventuranças, teríamos o fundamental daquilo que foi dito, escrito, procurado, sonhado… Permaneceria vivo o melhor da humanidade.”

E mais adiante:
“ «A experiência de bem-aventurança é a de que a vida é, ou pode ser, completa e plena. Quem não deseja ser feliz? (…) fomos criados para a felicidade, essa é a nossa verdade. E quando não a experimentamos sentimos que não somos, que algo de fundamental faltou, julgamo-nos vazios e náufragos. É como se a vida tivesse falhado.”

E lá para o fim, ficamos a saber onde foi buscar o espantoso título  da crónica - a uma página diarística do escritor norte-americano Jack Kerouac:
“Ó Deus, preciso do teu rosto esta manhã, preciso de entrever o teu rosto através dos vidros empoeirados da janela, entre o fumo e o furor; preciso de escutar a tua voz acima do grande ruído da metrópole. Sinto-me exausto, ó Deus.»”

E termina com uma frase soberba:
"... temos de reconhecer, o coração humano é uma jangada em chamas na direcção do infinito."

VALE A PENA LER NA ÍNTEGRA.
Bom domingo!
(Foto da net.)

04 setembro, 2018

À terça - imagens e palavras: "gentileza"



"«Não há suficiente gentileza no mundo.»
Qual é o nosso problema? Por que razão não somos mais gentis? O escritor George Saunders explica-o assim: porque cada um de nós se deixa capturar por uma série de equívocos congénitos. Primeiro, achamos que somos o centro do mundo e que a nossa história é a mais importante, interessante, quando não mesmo a única que conta. Segundo, porque nos vemos desligados do Universo: existimos nós e, depois, a outro nível coexiste confusamente tudo o resto. Terceiro, porque vivemos na prática como se fôssemos eternos sobre a Terra. Sabemos que a morte existe, mas para os outros, não para nós. Ora, estes equívocos levam-nos a construir a nossa existência antepondo (ou sobrepondo) as nossas necessidades às necessidades de todos os demais."

Excerto da crónica "Algumas notas sobre a gentileza" de José Tolentino de Mendonça, teólogo e poeta português(1965-)
Foto da net.

19 junho, 2018

À terça - imagens e palavras: "fracasso"

“O fracasso pode ter muitos nomes. Podemos chamá-lo insucesso, falhanço, lacuna, erro, imperfeição. Mais importante do que os nomes, porém, é aprender a interpretar e a trabalhar o quinhão de fracasso que nos cabe viver. Admitir que o fracasso existe em nós faz-nos sofrer, e não pouco. Mas uma coisa que quem já viveu o suficiente sabe por experiência é que, quanto menos investimento fazemos em reconhecê-lo, mais o fracasso, em versão negativa, se infiltra, se agiganta e nos derruba.”


Frase de José Tolentino Mendonça, presbítero, poeta e teólogo português (1965-)
Foto da net.

10 abril, 2018

À terça - imagens e palavras: "muros"

“A nossa vida está cheia de instâncias restritivas e muros que ocultam. Deus vê-se menos.”

Frase de JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, presbítero e poeta português (1965-)
(Veja mais no blogue "Pétalas de Sabedoria")
Foto da net.

02 fevereiro, 2018

"Teremos de reaprender a arte de consolar..."

 

“(…) Esta coisa a que chamamos vida requer de nós a força de não soçobrar ao crepúsculo só porque não vemos logo, ou não vemos como, de tamanha escuridão possam irromper os improváveis traços da aurora. Teremos de reaprender a arte de consolar, rompendo com esta narcisista cultura da indiferença, que tende a universalizar-se como padrão para as relações humanas (…) Teremos talvez de estabelecer uma nova relação com a palavra e o silêncio, com o que nos é familiar e desconhecido, com a exterioridade e o nosso mundo interno acreditando mais na força reparadora das coisas simples, dos gestos quotidianos, dos tráficos minúsculos que melhor espelham a nossa humanidade e que, porventura, não encaramos ainda como uma reserva de sentido. É um erro pensarmos que, afundados numa provação, deixamos de contar para os outros e um desligamento ontológico nos isola, implodindo os laços. Não vemos que o mesmo sofrimento que nos fere também nos torna mestres em relação à vida e permite-nos dizer o que é que nos dá e retira vida, o que é que a nutre, o que é que a apaga. A partilha da provação pode ser incrivelmente fecunda. (...)"

Excerto da crónica “Da nossa necessidade de consolação”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 18 Novembro 2017
Vale a pena ler na íntegra.
(Foto da net)
CONSOLAR, acalentar, confortar, animar, alegrar e, porque não, abraçar.
Depois de ler esta crónica, tive o desejo genuíno de abraçar todo o mundo. Pudesse eu, ninguém ficaria sem conhecer o calor e sabor dum ABRAÇO.
Como nem todos os desejos se tornam realidade, grito para que todos me ouçam: O ACONCHEGO DUM ABRAÇO FAZ A VIDA ACONTECER.
Abracem muito!

09 dezembro, 2017

"Olá, tapete!"


“(… ) as folhas todas juntas são um grandioso espetáculo.
São uma imensa população que se despede em festa, riscando ao acaso, com lápis de cor, o uniforme do chão. Não fazem ruído quando tombam, quando se sobrepõem em camadas, quando se apresentam solitárias, quando os nossos pés as condenam, quando se estilhaçam por si e se dispersam, quando se fundem com a terra a ponto de não as distinguirmos. Nestas semanas de outono são um cinema que não encerra: exibem em contínuo o amarelo, o ocre, o verde-barro, o verde mate, o azeitona vítreo, o avermelhado, o laranja, o pontilhado negro. E estão sempre a chegar. Basta um sopro de vento e, imediatamente, centenas delas se soltam no ar, numa dança inventiva, rodopiada e lenta; numa incrível chuva de ouro; numa música silenciosa que desce. Se calha atravessarmos um jardim, esta visão ganha a magistral precisão de uma coreografia. Contudo, ela também é bela de seguir no imprevisto de uma rua que se dobra ou surpreendida de uma janela, numa daqueles momentos em que coincide erguermos os olhos e esse presente nos é oferecido.

As crianças, neste assunto de folhas, sabem mais do que nós. Lembro-me de ter perguntado a uma miúda dos seus quatro anos se já tinha reparado no tapete maravilhoso que as folhas nos oferecem. Ela ouviu-me interessada. Eu expliquei-lhe como aquele era um tapete fofo, como as corresse divertiam a espalhar-se numa evidente brincadeira, como era bonito e precioso. Ela então largou a minha mão, deu um salto para o meio das folhas e disse alto, com aquela solenidade que se tem aos quatro anos de idade: “Olá, tapete!” Saudava assim com entusiasmo não só aquele fragmento do mundo que identificava, mas o inteiro outono ou mesmo a inteira vida. (...)"


Excerto da crónica “As folhas”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 8 Dezembro 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

26 setembro, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


Há um provérbio norte-americano que diz «Ser velho não é divertido». É uma verdade. Ser velho é ter de começar do zero a qualquer momento, e fazê-lo muitas vezes, constrangido a reaprender coisas básicas que inclusive se ensinaram aos outros a vida toda. Coisas simples (e inacreditavelmente complexas como andar, organizar o seu espaço, cuidar da alimentação, sair de casa, comunicar. Um dia acorda-se e nada disse é óbvio como antes era. Ser velho é fazer o que se fazia, mas muito mais devagar, segmentando por etapas, doseando o esforço desmesurado que atividades mínimas agora obrigam. Ser velho é desistir muitas vezes, tombando de uma angústia que as palavras já não exprimem; é as lágrimas correrem dos olhos, não por pieguice, mas porque nenhuma esperança as sustém; e, ao mesmo tempo, ter a teimosia inexplicável de recomeçar quando já não parece possível. Ser velho é, no extremo da fragilidade, mostrar que se tem sete vidas. Ser velho é aceitar o presente, sentindo rondar a imprevisibilidade muito perto, e sabiamente rir-se disso. Ser velho é fazer mais com menos: saber que só se pode contar com a força de uma das mãos ou com o apoio de um dos lados, e mesmo assim insistir e continuar. Ser velho é compreender o valor das migalhas, que foram sempre o nosso grande alimento sem que nos déssemos conta. Ser velho é lutar para estabelecer uma conversa com um quinto do vocabulário, ainda assim entrecortada por hesitações e esquecimentos, mas com os olhos a falarem cinquenta vezes mais, para quem os souber ouvir. Ser velho é sentir-se transferido para o interior de uma casa alheia e grande, desejando unicamente não se perder. Ser velho é não contar com ninguém a certas horas – horas longas que parecem não ter fim – procurando manter vivo, dentro dessa total incerteza, o inapagável fio do amor.

Sim, o provérbio tem razão. Mas há uma coisa que ele não diz: que ser velho é também um milagre. Na verdade, torna-se urgente vulgarizar um verbo que os dicionários não trazem e que os velhos conjugam continuamente, o verbo milagrar. (…) Os velhos milagram. Eles são responsáveis pelo incessante prodígio que é a vida.


Excerto da crónica “O verbo milagrar”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 26 Agosto 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

28 maio, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Cada vez mais se ouve pais hesitantes do seu papel que perguntam se a tarefa que lhes cabe é a de serem pais para os seus filhos ou simplesmente grandes amigos. Tornarem-se amigos dos filhos, vencendo a distância simbólica que a parentalidade estabelece, aparece hoje a mães e a pais como uma solução tentadora que os colocaria melhor na órbita existencial dos filhos, cúmplices das etapas que estes percorrem, confidentes privilegiados das suas vivências e, desse modo, com maior capacidade de influenciar e de intervir. Será verdade? (…)
Os pais precisam aceitar que cada filho é uma vida distinta e autónoma, ao mesmo tempo gerada por eles e inacessível, à maneira de um segredo que protegem mas cujo conteúdo está destinado a escapar-lhes. (…)
A tarefa da vida dos filhos é fazerem-se criativos herdeiros de um dom recebido que também eles não entendem até ao fim ou não entendem logo. Ora, ser herdeiro não significa apenas receber a parte de bens que lhe corresponde, mas construir em diálogo com essa vida recebida uma identidade original. (…)
Mas uma função inalienável dos pais é recordar que a vida humana é fundada em limites e sinalizá-los. Precisamente o contrário da promessa consumista das nossas sociedades, onde tudo aparece pronto para ser adquirido, devorado e esquecido.”

Excerto da crónica “Pais ou amigos dos filhos?”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 27 Maio 2017
Vale a pena ler na íntegra.

Pintura “A sagrada família do passarinho”, do espanhol  Bartolomé Murillo (1617-82)

05 maio, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Como chegamos a ser o que somos? Por um trabalho longo e paciente, que decorre entre muita incerteza. (...)

«Estás a ouvir? Perguntou o principezinho. – Acordámos o poço e ele pôs-se a cantar…». Não se espera que existam poços num deserto. O pequeno herói de Saint-Exupéry garante, porém, que «o que torna belo um deserto é que ele esconde um poço em algum lugar». Resmungamos com a vida. Falta-lhe alguma coisa, nunca nada é perfeito, nada está acabado ou resolvido. É como se estivéssemos a jogar um jogo insolúvel: se temos o poço, falta-nos a corda; se temos a corda, falta-nos o balde; se temos a corda, o balde e o poço, falta-nos a força de ir até ao fundo da nascente buscar a água que nos dessedente. «O Principezinho» declara que não nos falta nada. Cada um de nós tem tudo o que precisa para experimentar a alegria. Não é um problema de conhecimento, é uma questão de olhar. Olharmos para o que somos e para o que nos rodeia com o coração simples, capaz de perceber o dom que nos habita. Pois, se encostarmos o ouvido até mesmo junto das nossas maiores derrotas compreenderemos que a nossa vida canta!”

Excerto da crónica “Do bom uso do fracasso”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 29 Abril 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Pintura de Salvador Dali , pintor espanhol (1904-89)

05 abril, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei – e que lhes disse – foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo”. Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. (…)"


Excerto da crónica “Quando os filhos não leem”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 1 Abril 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

06 janeiro, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça




"(...)Entre um ano que acaba e um ano que começa, a contas com o tempo que corre fora e dentro de nós, sentindo-nos talvez de forma mais sensível modelados por esse oleiro invisível que é o tempo, percebemos que a nossa vida é uma vida exposta. É impossível não detetar as marcas do tempo em nós: linhas de fragilidade, sombras, estremecimentos, erosões, zonas mais desvitalizadas, desvios. A unidade interior é um trabalho imenso. Parece-se ao manto que Penélope tecia durante o dia e desmanchava durante a noite, na sua espera quase sem esperança. Mas não podemos desistir de construir essa unidade de ser. Só aquilo que amamos com o extremo do amor não nos será tirado.(...) Dizer por exemplo, que a vida é marcada pela vulnerabilidade é reconhecer quando ela está exposta à possibilidade de ser ferida. (...) A vulnerabilidade é um acontecimento total. Descobrimos, no entanto, que através dela nos chega também o que nos redime. Só a vulnerabilidade nos eleva à altura do infinito à maneira de uma dança, onde a gravidade é vencida pela graça. E a dança não conhece fronteiras. O seu vocabulário é infinito pois é a emoção humana que ressoa no movimento. Tudo dança, tudo é dança. Os nossos olhos dançam, os nossos corpos rodopiam, a natureza (a nossa e a das coisas) manifesta-se num deslizar que se calhar não vemos.(...) E recorda Marta Graham: "A dança é a linguagem escondida da alma, é uma canção do corpo, um sopro de alegria e de dor. Importa apenas isto: levanta-te e dança". 

Excerto da crónica “Levanta-te e dança”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 30 Dezembro 2016
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)