"A Humanidade divide-se entre aqueles que gostam de se meter na cama à noite e aqueles a quem ir dormir desassossega. Os primeiros consideram que os seus leitos são ninhos protectores, enquanto os segundos sentem que a nudez de dormitar é um perigo. Para uns, o momento de se deitar implica a suspensão das preocupações; aos outros, pelo contrário, as trevas provocam um alvoroço de pensamentos daninhos e, se fosse por eles, dormiriam de dia, como os vampiros. Sentiste alguma vez o terror das noites, a angústia dos pesadelos, a escuridão a sussurrar-te na nuca o seu hálito frio que, embora não saibas o tempo que te resta, não passas de um condenado à morte? E no entanto, na manhã seguinte a vida volta a explodir com a sua alegre mentira de eternidade."
15 outubro, 2019
Sentiste alguma vez o terror das noites...?
"A Humanidade divide-se entre aqueles que gostam de se meter na cama à noite e aqueles a quem ir dormir desassossega. Os primeiros consideram que os seus leitos são ninhos protectores, enquanto os segundos sentem que a nudez de dormitar é um perigo. Para uns, o momento de se deitar implica a suspensão das preocupações; aos outros, pelo contrário, as trevas provocam um alvoroço de pensamentos daninhos e, se fosse por eles, dormiriam de dia, como os vampiros. Sentiste alguma vez o terror das noites, a angústia dos pesadelos, a escuridão a sussurrar-te na nuca o seu hálito frio que, embora não saibas o tempo que te resta, não passas de um condenado à morte? E no entanto, na manhã seguinte a vida volta a explodir com a sua alegre mentira de eternidade."
11 outubro, 2019
Afonso Reis Cabral venceu o Prémio José Saramago 2019

Afonso Reis Cabral, escritor português de 29 anos, licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, venceu em 2014 o Prémio LeYa com "O meu irmão", um corajoso primeiro romance.
Regressou em 2018 com o atordoante romance/ficção de um crime real "Pão de Açúcar", e com ele venceu, no passado dia 8, o Prémio José Saramago 2019.
Curiosamente, é de poesia o primeiro livro que publicou. Tinha 15 anos.
E mais curioso ainda, ele é trineto de Eça de Queirós, um dos nomes maiores da literatura portuguesa.
Parabéns Afonso! Ansiosa, espero pelo terceiro romance!
Como é que se vivia assim (…) no fundo de uma cave, no fundo de uma barraca, no fundo da vida.
“Pão de Açúcar”, ficciona a morte trágica, no Porto, de Gilberta Salece Júnior, brasileira, transexual, sem-abrigo, toxicodependente, com sida e outras doenças. Morte que deixou o país inteiro em estado de choque.
Em Fevereiro de 2006, os Bombeiros Sapadores resgataram o corpo sem vida de Gilberta do poço/buraco, com cerca de 10 metros de profundidade, escondido na cave de um prédio inacabado e votado ao abandonado. Nu da cintura para baixo, o corpo apresentava marcas de um espancamento brutal.
Semanas depois, os órgãos de comunicação social divulgaram que Gilberta fora agredida dias a fio por um grupo de 14 rapazes e atirada ainda com vida para o poço. Rapazes com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos, alguns problemáticos, retirados a famílias negligentes e acolhidos na Oficina de São José, onde o acompanhamento dos jovens não era o melhor.
«O que pode levar pessoas da minha idade, da minha cidade, a fazer isto? E a fazer isto a alguém, desamparado?» pensou incrédulo Afonso Reis Cabral, então com 16 anos, nascido em Lisboa e criado no Porto.
Dez anos depois do horrendo crime, o autor decide investigar os factos na tentativa de compreender o que realmente se passou na cave do prédio conhecido como “Pão de Açúcar”. Durante mais de um ano pesquisou as vidas da vítima e dos agressores, percorreu as «zonas sujas» da cidade, leu decisões do Tribunal de Família e Menores do Porto, visitou a cave (o edifício continuava abandonado), leu notícias, visionou reportagens, foi a bares que a vítima frequentara, falou com amigos e conhecidos dos rapazes e de Gilberta, esteve dentro da última casa onde ela viveu, percorreu ruas, estudou trajectos. (...) meti-me ao trabalho de campo sem o qual um livro como este não se escreve (...) depois baralhei com ficção, que é como se faz um romance.
Não chegou a falar com os rapazes mas fez deles personagens meticulosamente desenhadas, e para que nada o afastasse da matriz ficcional entregou a narração dos acontecimentos a um protagonista do hediondo crime: Rafael Tiago (Rafa).
Na “Nota antes” (antes do primeiro dos 56 capítulos do romance) o autor engana o leitor (e o leitor permite o engano) quando diz ter recebido uma carta de Rafael sobre o crime, que começa com «Às vezes, a vida é uma coisa tão bela que choro de ternura e não ligo ao que dizem», ter tido com ele encontros e conversas no Porto, e que num deles lhe prometeu: «A história é tua, como se fosses tu a contá-la, mas eu escrevo-a por ti».
Rafael, 12 anos, foi o primeiro rapaz a ver Gilberta (Gi), 45 anos, na cave onde ela doente e sozinha sobrevivia. Chocado com o desamparo em que vivia na barraca que «fedia», voltou muitas vezes, com comida, água e tudo o que conseguia pilhar no trajecto da Oficina - "Pão de Açúcar". Tornaram-se amigos e confidentes. Ela era um segredo apenas seu, não o partilharia com os amigos.
Mas o dia chegou em que ele o partilhou e... na escuridão da cave seres humanos comportaram-se como monstros.
… os lugares certos na vida são os lugares errados. Como na cave, ao lado de Gi.
(O primeiro romance de Afonso Reis Cabral "O meu irmão" está também aqui no Rol.)
08 outubro, 2019
Uma só manhã no Porto, mas «bi» muito, carago!
PORTO, manhã de sexta-feira, 4 de Outubro. O sol tarda em aparecer e o cinzento do céu acentua o ar melancólico da cidade do norte de Portugal, agora procurada por viajantes de todo o mundo.
As ruas fervilham de turistas.
No céu veem-se gruas e mais gruas, utilizadas na recuperação-remodelação de inúmeros imóveis.
Aqui e ali dança-se e canta-se. Um par de dançarinos encanta e uma tuna académica toca, canta e, claro, também encanta.
As pastelarias enchem as montras de guloseimas acabadas de sair do forno. Não entrei, não provei, juro! E também não entrei (era grande a fila) no belíssimo Café Majestic, localizado na Rua de Santa Catarina (a tal, a rua das compras, que nós mulheres tanto gostamos de percorrer para baixo e para cima...).
Não resisti e tirei da net uma foto do sumptuoso interior do histórico café, para o motivar a si a aguardar na fila, entrar e tomar um café. É uma experiência inesquecível!
O passeio terminou no Restaurante Antunes, na Rua do Bonjardim. Desta vez deliciámo-nos com um pernil assado e uma rabanada à Antunes (e só por ela, eu voltarei lá!). Fotos do almoço... não tive coragem de tirar. Acontece! Mas tirei muitas em outros locais da cidade. Um dia mostrarei, aqui.
Bora ao Porto, pessoal?!
As pastelarias enchem as montras de guloseimas acabadas de sair do forno. Não entrei, não provei, juro! E também não entrei (era grande a fila) no belíssimo Café Majestic, localizado na Rua de Santa Catarina (a tal, a rua das compras, que nós mulheres tanto gostamos de percorrer para baixo e para cima...).
O passeio terminou no Restaurante Antunes, na Rua do Bonjardim. Desta vez deliciámo-nos com um pernil assado e uma rabanada à Antunes (e só por ela, eu voltarei lá!). Fotos do almoço... não tive coragem de tirar. Acontece! Mas tirei muitas em outros locais da cidade. Um dia mostrarei, aqui.
Bora ao Porto, pessoal?!
01 outubro, 2019
Imagens e palavras: "tempo" e "homens"
"Ovídio escreveu que o tempo destrói as coisas, mas enganou-se. Só os homens destroem as coisas, destroem os homens e destroem o mundo dos homens. O tempo vê-os fazer e desfazer."
“A maioria dos homens não suspeita da existência da parte sombria que, no entanto, todos possuem. Frequentemente, são as circunstâncias que a revelam – guerras, fomes, catástrofes, revoluções, genocídios. Então, quando a contemplam pela primeira vez, no segredo da sua consciência, ficam horrorizados e tremem.”
escritor francês (1962), in “O arquipélago do cão”, Sextante (Porto Editora), 2019
(Fotos da net: Amazónia a arder, derrama de petróleo no mar e...)
(Fotos da net: Amazónia a arder, derrama de petróleo no mar e...)
24 setembro, 2019
À terça: imagens e palavras: "perda"
"Os livros sobre a perda são monumentos funerários, jazigos públicos de dores privadas. São também viagens pessoais a lugares inóspitos de onde se regressa, sim, mas com o quê? Com os mortos? Com uma ilusão consoladora mas fugaz? (...) a literatura não traz ninguém de volta, mas ajuda os vivos a sobreviver num presente partido, mais que imperfeito."
Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Manobras de guerrilha”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)
17 setembro, 2019
À terça - imagens e palavras: "claridade"
“... por vezes é necessário atravessar as trevas para vislumbrar de novo a claridade do dia que nasce."
Philippe Claudel, escritor francês (1962), in “O arquipélago do cão”, Sextante (Porto Editora), 2019
(Foto da net.)
Voltei... cheia de saudades!
Voltei de onde? Dos Açores, o paraíso ali no meio do oceano Atlântico, onde a beleza natural é tamanha e as vacas tantas e felizes e curiosas, que chegam a fugir das pastagens verdes para o empedrado negro das calçadas. Verdade!
Amei, claro! E fotografei, muito!
Aguardem, que eu mostrarei tudo!
10 setembro, 2019
À terça - imagens e palavras: "alegria" e "felicidade"
“Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria – ou um cigarro de liamba, ou um novo amor – porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria, pois, tende a ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo-de-artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes.”
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, escritor angolano (1960), in “Barroco Tropical”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)
03 setembro, 2019
Agora sim, vou de férias!
Agora sim, vou de férias. Merecidas, acreditem!
Será apenas uma rapidinha cá dentro... lá fora.
Confuso?
Prometo desvendar por onde andei, logo após o meu regresso.
Hum, será que escolhi o lugar certo para uma avó "amada, babada e amassada" descansar?
Não tenho a resposta, juro. Nunca lá estive antes!
Desde que tenha à minha espera uma cama, uma cadeira à beira-mar e outra junto da piscina... basta!
Não posso esquecer a máquina fotográfica. (Calma, Teresa, já está dentro da mochila!) Mochila?! Mas não era para levar apenas um saco de praia, biquinis e cremes bronzeadores?
Esquisito! Pelo sim pelo não vou meter na mochila uma parka impermeável e botas para caminhadas longas.
Esquisito! Pelo sim pelo não vou meter na mochila uma parka impermeável e botas para caminhadas longas.
Virei de lá ainda mais cansada? Espero que não. Socorro!!!
Porque hoje é terça-feira não podia fugir para o bem-bom sem partilhar convosco algumas palavras retiradas do belíssimo romance "A mulher certa", de um dos meus escritores favoritos: Sándor Márai.
A foto é da net. (Não queriam que eu fotografasse a minha cama, pois não?!)
Na próxima terça-feira aparecerão aqui no Rol (regressado de férias) mais palavras. De quem? Depois verão!
Entretanto, fiquem bem!
Entretanto, fiquem bem!

“Depois de uma certa idade, exige-se toda a verdade, logo, também na cama, na dimensão mais física e obscura do amor. Não é importante que a pessoa amada seja bela - após um certo tempo, já nem reparas na sua beleza – nem importa que seja mais ou menos extraordinária, excitante, inteligente, bem informada, curiosa, cúpida e que te responda com o mesmo ardor. O que é importante? A verdade. Tal como na literatura e em todas as coisas de âmbito humano: a espontaneidade, surpreendermo-nos a nós mesmos com o dom maravilhoso do prazer, e, simultaneamente, apesar do nosso egoísmo e da nossa avidez, sermos capazes de dar alegria com a mesma generosidade, sem calculismos e segundas intenções, com leveza e quase distraidamente… É esta a verdade, na cama.”
ESTOU DE VOLTA, DEVAGAR, MUITO DEVAGAR,
DEVAGARINHO.
DEVAGARINHO.
AS SAUDADES QUE EU JÁ TINHA...
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