12 setembro, 2014

"A Irmã" - Sándor Márai

O que sabemos sobre a vida? Nada que seja real.
Este romance de Sándor Márai – o último que escreveu antes do exílio - divide-se em duas partes.
Na primeira parte, um escritor (narrador do romance) relata a sua estadia numa albergaria isolada nas montanhas da Transilvânia, e o reencontro com Z., o famoso Z., o célebre e laureado pianista e compositor húngaro que uma doença rara afastou dos palcos.
O mau tempo de meados de Dezembro, com avalanches de neve, uma chuva misturada com granizo e muito nevoeiro, “aprisionava” na albergaria os poucos hóspedes, apenas sete, o dono e a mulher, duas criadas e um pastor, que no inverno ajudava como criado.
Os hóspedes esperavam e desesperavam, naquele castigo forçado. Passavam o dia na sala escura e húmida a fumar, conversar, jogar às cartas, ouvir no rádio de pilhas as notícias sobre a guerra, as cidades destruídas, os milhares de mortos.
… já não havia paciência e a boa vontade também parecia esgotar-se.
Aquele isolamento, terminará no dia de Natal, o terceiro desde que começara a Segunda Guerra, depois de um casal de amantes, de meia-idade, ambos casados, com filhos, cumprir, no melhor quarto da albergaria, o triste desejo de arrumar a desordem da vida. São encontrados deitados na cama, lado a lado, serenos, ele morto, ela ainda consciente. Não resistirá.
Dias depois, já no exterior da albergaria, o escritor cruza-se com Z.. Falam sobre a estranha doença, diagnosticada no início da guerra, que o afastou dos palcos: Nunca mais vou dar consertos… Simplesmente, não posso voltar a tocar. Nunca mais.
Passados alguns meses, o escritor lê num jornal a notícia do falecimento de Z., na Suíça. Três semanas depois, recebe um envelope com o espólio de Z.. Dentro está o relato detalhado e comovente da dolorosa doença que o impediu de voltar a tocar, do longo internamento no hospital de Florença, e da sua relação com E., uma mulher casada que ambos conhecem.
A reprodução integral do manuscrito, onde Z. reflecte sobre as questões da vida e da morte, sobre as grandes emoções que movem o homem, como a fé, o amor e a paixão, é a segunda parte deste romance.
No auge da sua carreira de pianista e compositor, Z. é convidado pelo governo italiano para visitar e tocar em Florença. O convite é feito através do embaixador do país, um homem estranho que ele conhecia da casa de E, uma das casas do círculo fechado e hermético da “alta sociedade”, que ambos frequentavam. Há bastantes anos que Z. mantinha uma estranha relação com E. e o marido. Muitos viam ali um triângulo amoroso – um artista célebre, uma mulher formosa e culta e um marido diplomata, já um pouco velho. Pensaria o mesmo o embaixador e daí o convite e o encorajamento a viajar e a dar concertos?
Z. aceita o convite - depois de se aconselhar com E. e o marido - e parte.
A guerra está longe. Os jornais noticiam a queda de Varsóvia. O comboio aproxima-se da fronteira italiana e Z. é acordado às quatro horas da manhã. Senta-se no beliche. Sente uma tristeza profunda.
Já em Florença, onde é recebido com honras de convidado do estado, sozinho no quarto do hotel, como se estivesse definitivamente só no universo, continua sem perceber o que lhe aconteceu no comboio.
À noite, no concerto, não sabia se tocava bem ou não… estava no palco pela última vez, como quem morre e volta a nascer…
No final da actuação diz sentir dores atrozes. É levado ao hospital.
- Qual é a minha doença? - Vou ficar paralisado?
- A doença que tem não é nada comum mas, de certeza, um dia ficará curado…esta doença é uma prova de paciência.
Seguem-se três meses de internamento, e de contacto diário com profissionais conhecedores da sua estranha enfermidade: o médico (o professor), o médico assistente e quatro irmãs-enfermeiras.
Com o médico Z. terá intensos e interessantes diálogos:
- O senhor ... teve durante quarenta anos, uma relação extremamente íntima com a música. Nem os deuses conseguiriam aguentar isso.
- Mas o que me sugere para substituir a música?
- Vire-se para a vida…
Certa noite, no torpor de mais uma injecção de morfina, Z. escuta, ao lado da cama, uma voz feminina sussurar: “Não quero que morra”.
- Porque é que não quer que morra?
Seguiu-se um silêncio longo… um silêncio que o ajudou a entender o passado e a repensar o futuro, já que finalmente percebeu que não era completamente inocente em relação à doença….
Mattutina, Cherubina, Charissima, Dolorissa,  as ajudantes silenciosas, os anjos celestes, uma delas é a Irmã do título deste romance.
Descubra qual é e “perca-se” numa história extraordinária sobre o mistério da vida.
A vida é um veneno, quando apenas serve para a vaidade, a ambição e a inveja…
Fabuloso!

“A irmã” – Sándor Márai
Tradução de Piroska Felkai
Ed. D. Quixote, 2013
213 págs.

05 setembro, 2014

"Felizes os felizes" - Yasmina Reza

“Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
Felizes os felizes.”
(Jorge Luis Borges)
Um casal é a coisa mais impenetrável do mundo. Não conseguimos compreender um casal, nem mesmo quando fazemos parte dele.
Quem o diz é Jean Erhenfried, um dos dezoito personagens-narradores deste romance, ou melhor, deste rendilhado de momentos íntimos, estranhos, angustiantes e hilariantes, da vida a dois.
São vinte e um capítulos. São vinte e uma histórias fascinantes, sobre o amor, a amizade, a tristeza, a dor, a mentira, a hipocrisia e a fragilidade das relações humanas. Histórias que mostram que os sentimentos são mutáveis e mortais. Como todas as coisas na Terra.
De início tomei-as por histórias independentes, mas logo percebi que as personagens “saltitavam” de história em história, como familiares, amigos, colegas, amantes, ou  apenas conhecidos dos outros narradores.
O painel de personagens-narradores, que tudo contam sobre si mesmos, é brilhante - "... elas são atormentadas, cheias de raiva, histéricas, coladas a um quotidiano que já não controlam; eles, obcecados por um futuro que não conseguem imaginar, um futuro de desejos gorados, doenças e crises… “.
Interessante é irmos percebendo que o retrato que cada um "pinta" de si mesmo, vai sendo retocado pela visão dos outros. Para melhor ou para pior, nada escapa.
- Odile Toscano, convive mal com os silêncios de Robert , o marido.
Devia um dia estudar-se este silêncio noturno, típico das viagens de carro nos regressos a casa, após se ter exibido a felicidade à frente do público, um misto de arregimentação e de mentira autoinfligida.
- Philip Chemla, o médico homossexual que pergunta aos jovens amantes: esbofeteias-me?
O que realmente desejo não pode ser enunciado. Ser esbofeteado, oferecer a face aos golpes, pôr à disposição os meus lábios, os meus dentes, os meus olhos, e depois subitamente ser acariciado quando não estou à espera, e de novo esbofeteado a bom ritmo...
- Ernest Blot, o idoso hesitante sobre o lugar onde deverão deitar as suas cinzas.
… gostaria de me fundir numa corrente…. Ou então no mar. Mas o mar é demasiado grande (e tenho medo dos tubarões). Digo a Jeannette, queria que tu lançasses as minhas cinzas num curso de água mas ainda não escolhi qual… Não posso ter uma conversa séria com a minha mulher... no interior de um casamento onde tudo vira tribunal.
- Jeannette Blot, a complicada mulher de Ernest Blot.
Ernest Blot, o meu marido, é parecido com aquelas sombras da noite. Pérfido, mentiroso, desprovido de piedade. Eu própria devo ser retorcida para ter querido ser amada por aquele homem... Deixei passar quarenta anos. Vivemos na ilusão da repetição, como o dia que se levanta e se deita.
É sério, divertido, diferente e delicioso este romance de Yasmina Reza. E muitíssimo bem escrito.
Aconselho vivamente!

Para ou Pára?
Abomino o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
"- Nada me enerva mais do que estes atritos súbitos em que tudo para, e que tudo petrifica.
- … quando ela para a meio dos condimentos com um ar apalermado de ofendida e infeliz.
- O carro empina, bate e raspa na barreira branca. Depois para.
- Marguerite para defronte de uma casa baixa com janelas emolduradas por tijolos vermelhos."
Que confusão!

Felizes os felizes, de Yasmina Reza
Tradução de Ana Cristina Leonardo
Ed. Quetzal, 2014
144 págs.

02 setembro, 2014

1º - Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?


"Levantou-se Blimunda do mocho onde estava sentada, ergueu a tampa da arca e lá de dentro tirou o frasco de vidro, quantas vontades ali haveria, talvez umas cem, quase nada para as necessidades, e mesmo assim fora uma longa e custosa caçada, muito jejum, às vezes perdida num labirinto, onde está a vontade que a não vejo, só vísceras e ossos, a rede agónica dos nervos, o mar de sangue, a comida pastosa no estômago, o excremento final, Irás, perguntou o padre, Irei, responde ela, Mas não sozinha, disse Baltazar."

O nome destas duas personagens é uma grande ajuda, logo, decidi elevar o grau de dificuldade com outra pergunta:
Como se chama o padre?
Se não identifica o livro, depois eu direi qual é.
Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

01 setembro, 2014

Volto ao meu "rol de leituras" com a resposta do 12º Primeiro parágrafo

Fácil, fácil, fácil!
Claro que é de "Equador", o magnífico primeiro romance de Miguel Sousa Tavares.
Foi publicado pela Ed. Oficina do Livro, em 2003.
Eu li-o numa semana, em Ibiza, há uns anitos atrás. É viciante.
Se você ainda não o leu... não sabe o que perde. A sério!
Vou voltar a este romance. Um dia destes.
Ao meu "rol de leituras" voltarei já amanhã, com um desafio relacionado com a obra do nosso Nobel.

Que saudades eu já tinha deste cantinho...
Um ENORME abraço (feito de livros, muitos livros) a todos os que passaram por aqui no mês de Agosto.

01 agosto, 2014

Vou de férias...

… e durante trinta dias nada postarei no meu rol de leituras.
Não postarei mas continuarei a ler. Claro!
Para já vou começar o mês de Agosto a combater uma “bruta gripe" que me deixa prostrada e sem força, sequer, para pegar num livro. Trato o desconsolo com canja de galinha quentinha, muito sofá e Paracetamol.
Em Setembro voltarei com posts sobre quatro livros que espero ler neste mês de férias:
- “O Progresso do amor” de Alice Munro (onze contos sobre escolhas e experiências amorosas).
- “A Irmã” de Sándor Márai (uma história sobre a paixão, o sofrimento e o mistério da morte).
- “A verdade sobre o caso Harry Quebert” de Jöel Dicker (um triller aventureiro e louco).
- “Felizes os felizes” de Yasmina Reza (crónicas sobre a idade adulta, estonteantes e carregadas de humor).
Bem, tenho de confessar que já li os dois primeiros contos do livro de Alice Munro. O segundo, “Líquen”, é fabuloso!
O livro de Jöel Dicker foi aqui deixado em casa pela Rosário, uma boa amiga, que já o leu e insistiu para que eu o lesse também. Como ela sabe que eu não leio livros emprestados porque gosto de os sublinhar, deu-me carta-branca para o fazer. Vamos ver como me saio nesta aventura, a primeira, de ler um livro que não é meu.
Até Setembro.
Boas férias, com muitas e empolgantes leituras.

31 julho, 2014

12º - Você sabe em que livro se esconde este "primeiro parágrafo"?

“Depois das coisas acontecerem, é quase irresistível reflectir sobre o que teria sido a vida, se se tem feito diferente. Se soubesse o que o destino lhe reservava nos próximos tempos, talvez Luís Bernardo Valença nunca tivesse apanhado o comboio, naquela chuvosa manhã de Dezembro de 1905, na estação do Barreiro.”

Resposta do 11º “Primeiro Parágrafo”:
Em “Rosa Brava”, de José Manuel Saraiva, ed. Oficina do Livro, 2005

25 julho, 2014

TOLSTOI em "O enredo conjugal" de Jeffrey Eugenides

"… Tolstoi contava uma fábula russa sobre um homem que, perseguido por um monstro, se lança para dentro de um poço. Todavia, quando vai a cair pelo poço abaixo, o homem vê que está um dragão no fundo, pronto para comê-lo. Nesse momento, o homem repara num galho que se destaca da parede, agarra-se a ele e fica pendurado. Assim evita cair nas mandíbulas do dragão, ou ser comido pelo monstro que o persegue, mas nessa altura surge um pequeno problema. Dois ratos, um preto e um branco, correm pelo galho, que vão roendo à volta. É apenas uma questão de tempo até roerem o galho todo e o homem cair. Enquanto pensa no seu destino irremediável, o homem repara noutra coisa: do extremo do galho a que está agarrado escorrem umas gotas de mel. O homem estende a língua para lamber o mel. 
É esta, dizTostoi, a sina do ser humano: somos o homem agarrado ao galho. A morte espera por nós. Não podemos fugir-lhe. E por isso distraímo-nos lambendo qualquer gota de mel que esteja ao nosso alcance."

21 julho, 2014

"O enredo conjugal" - Jeffrey Eugenides

O mal de amor é muito engraçado para toda a gente menos para quem dele sofre.
Estarão as grandes histórias de amor do século XIX mortas? Ou existirá uma história nova, escrita para os nossos dias e atenta às realidades do feminismo, da liberdade sexual, das convenções antenupciais e do divórcio?
Depois do empolgante e extraordinário “Middlesex” (2002), decepcionou-me este romance de Jeffrey Eugenides. Reconheço que ele continua a escrever muito bem, mas o enredo desta história de amor, que poderia ser simples e cativante, é massudo, intrincado e desinteressante. Do total das 500 páginas, cativaram-me as primeiras 166 e mais algumas lá para o fim. As restantes, bem, as restantes… enfastiaram-me por completo.
A história começa no dia da cerimónia de formatura dos jovens estudante da Universidade de Brown, em Providence, que concluíram os respectivos cursos. Está-se no início na década de 1980. O país está numa recessão profunda e a vida, depois da universidade, é mais dura do que nunca.
Logo nos primeiros parágrafos conhecemos Madeleine Hanna. Ela é filha de pais cultos e ricos. Uma aluna aplicada de Estudos Ingleses – a opção de quem não sabia que opção tomar - e uma romântica incurável. Está no quarto, deitada na cama, com uma almofada a tapar-lhe a cara. Tenta dormir, depois de uma noite de excessos. Os pais, Alton e Phyllida, tocam à campainha do apartamento que ela partilha com duas raparigas. Chegaram cedo de Nova Jérsey, para a verem receber o diploma. Querem comemorar não apenas o sucesso da filha mas também o seu próprio sucesso de pais.
O problema é que ela… tinha perdido a fé no significado do dia e naquilo que ele representava.
Madeleine adora ler. No quarto tem a obra completa de Henry James, todos os romances de Edith Wharton, muito Dickens, um cheirinho de Trollope, boas doses de Austen, George Elliot, Brönte, os romances de Colette. Leu-os a todos. Alguns várias vezes. Também lá está a primeira edição de Casais Trocados, pertença da mãe, que Madeleine usa como apoio textual na sua tese de bacharelato sobre o enredo conjugal na literatura inglesa.
Em assuntos do coração Madeleine era contra a ideia do sexo sem compromisso mas extremamente gratificante e seguia algumas regras: não andava com rapazes que não gostassem dos pais… não gostava de rapazes nervosos... não namorava rapazes que iam a psiquiatras.
Teve alguns “casos” com colegas até se apaixonar por dois rapazes que “furam” todas as regras: Mitchell Grammaticus e Leonard Bankhead.
Mitchell é um rapaz inteligente, com fraca auto-estima. Apaixonado por  Madeleine só pensa: “Vou-me casar com esta rapariga.”
No final do curso de estudos religiosos, depois de um verão de tédio, sem o amor de Madeleine e alguns empregos de último recurso, viaja durante quatro meses por nove países diferentes. Numa espécie de peregrinação, ele tenciona encontrar o significado das várias religiões e respostas sobre o sentido da vida.
Começa por Paris, segue-se Atenas, depois… muitas peripécias depois (contadas em muitas, muitas páginas) Calcutá, a cidade mais pobre do mundo, onde faz voluntariado.
Quatro meses depois regressa e encontra o país ainda em recessão e Madeleine casada com o rival Leonard.
Leonard, é filho de pais alcoólicos, um aluno brilhante de ciências, introvertido, frenético, carismático. Quer seguir investigação. Aos dezoito anos, no primeiro ano de faculdade, foi-lhe diagnosticada uma doença que não tinha cura, uma doença que só se podia “gerir” - psicose maníaco-depressiva. Eu sou mercadoria estragada, dizia ele.
Quando Madeleine descobriu já estava apaixonadamente envolvida e nem a leitura diária das desconstruções do amor, de Barthes ajudavam a diminuir o seu amor por ele.
E mais não conto.
Como irá Madeleine resolver o seu próprio “enredo conjugal”?
Leia e saiba que as pessoas não salvam outras pessoas. Salvam-se a si próprias. 
Leia e encontre a padaria portuguesa e a peixaria portuguesa que vendia sardinhas e lulas.
A sério!

O enredo conjugal, de Jeffrey Eugenides
Ed. D. Quixote, 2014
500 págs.