06 outubro, 2015

1º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


4 - (1913?) - Nossa Senhora do Silêncio 
"Ás vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e só posso ter como sonho o pensar nos meus sonhos, folhei-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens lentas e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. (…)
Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um Sonho que eu sonhe?"

6 - (1913?) Nossa Senhora do Silêncio (?)
"A minha vida é tão triste, e eu nem penso em chorá-la; as minhas horas são falsas, e eu nem sonho o gesto de parti-las."

Leia (tudo) e deslumbre-se!


02 outubro, 2015

"Abraço" - José Luís Peixoto

Eu não tomo café, faz-me mal, e só em ocasiões raras aceito algum licor, por isso, após almoços e jantares, para ajudar a digerir, converso abundantemente. (O peso do tecto)
Começo por dizer que nunca li um livro como este. Nunca!
É um livro feito de abraços ternurentos, que nos enleiam da primeira à última página.
Lançado em 2011, “Abraço” reúne cento e sessenta e duas crónicas intimistas - José Luís Peixoto escreve sobre si com invulgar desassombro - publicadas ao longo de uma década (2001-2011) em revistas e jornais.
“Precisava de organizar tudo o que tinha. Não no sentido de organizar os papéis que tinha lá em casa, mas organizar a minha cabeça e para poder ter novas ideias. É muito importante tirarmos do nosso sistema o que temos para termos novas ideias.”, disse ele ao “Correio da Manhã", em Dezembro de 2011.
Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. (Impossível é não viver)
As crónicas discorrem sobre temas variados, uns mais complexos, outros mais ligeiros e estão agrupadas em três idades do autor: seis anos; catorze anos; trinta e seis anos. São todas interessantes e cativantes. E desvendam tanta coisa…
. a infância e a adolescência no Alentejo - Vale a pena nascer, crescer, vale a pena a adolescência inteira, todos os sacrifícios, vale a pena a responsabilidade, vale a pena sair pelo desconhecido e ter de estar preparado para o impossível. (Miau)
. os pais, as irmãs, a avó - A minha avó era uma mulher do campo. Passou a mocidade e a vida adulta a trabalhar no campo, na terra. Chamava-se Joaquina Pulguinhas. A minha avó escrevia cartas muito devagarinho. Com letra tremida, escrevia o nome dos netos nos embrulhos dos presentes. Em casa, viúva, reforma de trinta contos, sozinha, começou a ler livros. Não sei quanto tempo demorava a lê-los, mas sei que os lia com o esforço da atenção, palavra a palavra. (Alma)
. os filhos -  Assistirmos ao sofrimentos do nosso filho é estarmos em carne viva por dentro, é não termos pele, é um incêndio a arder no mundo inteiro, mesmo no mundo inteiro.(Acompanhante: pai)
. bibliotecas, livrarias, livros, escritores (Sophia e Saramago estão entre os muitos escritores aludidos.)
. a escrita - Quando acabei de escrever o meu primeiro romance, fechei-me em casa durante duas semanas. Nesse tempo fechado do mundo vivi cada olhar de cada personagem, cada esperança, cada angústia. Na altura era muito novo. Creio que se o tivesse feito hoje me teria suicidado no último dia dessas duas semanas, como desfecho lógico. (O cadáver de James Joyce)
. cidades, aeroportos e viagens - As primeiras viagens que fiz não se destinavam a chegar a algum lado, mas sim a fugir de qualquer coisa. Por sorte, quando se foge de qualquer coisa, chega-se sempre a algum lado. (Literatura de viagens)
. música e cinema
. tatuagens
. amor, muito amor
. vida - Uma única vida é pouco. Para se fazer aquilo que se sabe, se pode, se quer e se deve fazer é preciso deixar muitas outras coisas para trás. (Desistir)
. etc., etc., etc.
Leia, por favor.
Não “salte” nenhuma das crónicas. Leia-as todas. A última, (Manifesto branco), é um deslumbramento. 
Pureza, repito a palavra apenas pelo prazer de articulá-la. Experimenta. Se te sentires ridículo ao fazê-lo, sabe que essa é uma armadilha que deixaste que te colocassem. Ignora-a. Diz: Pu-re-za. (…)
Pureza, repito agora para que se instale e se respire. Retira a maldade até das coisas más. Se te sentires ingénuo ao fazê-lo, sabe que, uma vez mais, essa é uma armadilha que deixaste que te colocassem. Se não conseguires evitá-la, ignorá-la, aceita a ingenuidade. A ingenuidade faz o sangue circular com mais fluidez do que o cinismo. A ingenuidade desconhece o colesterol. O cinismo é hipertenso. (…)
Pureza, repete. Tu tens direito à felicidade.
Agora vai. Tens a vida à espera de abraçar-te.
Abrace você, quem tão bem escreve na nossa língua. Abrace a vida.
Ponto final.

Abraço, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2014
655 págs.

29 setembro, 2015

Os livros, em...


“A ridícula ideia de não voltar a ver-te”, de Rosa Montero
"Os livros nascem de um germe ínfimo, de um ovinho minúsculo, de uma frase, de uma imagem, de uma intuição; crescem como zigotos, organicamente, célula a célula, diferenciando-se em tecidos e estruturas cada vez mais complexas até se transformarem numa criatura completa e, frequentemente, inesperada."

"Abraço", de José Luís Peixoto
"Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, no ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão.
(…)
Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhe tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas."

(Foto tirada da net)

25 setembro, 2015

"O caminhante solitário" - W.G. Sebald

A escrita é claramente uma actividade de que não nos libertamos com facilidade, mesmo quando se nos torna detestável ou impossível.
Este é um livro diferente.
Trata-se de uma colectânea de seis histórias que se lêem e admiram. Porque são ilustradas, interessantes e surpreendentes. Isso mesmo!
Seis histórias, seis retratos de artistas que W.G. Sebald homenageia: Johann Peter Hebel, Jean-Jacques Rousseau, Eduard Mörike, Gottfried Tripp, Robert Walser e o pintor Jan Peter Tripp. Artistas cuja vida e obra tanto o intrigaram como o iniciaram.
Histórias (ensaios/reflexões) que desvendam particularidades da vida e obra dos retratados e nos convidam a descobrir a paisagem pré-alpina, região da qual os sete são oriundos.
Diz Sebald na introdução: é sobretudo como leitor que pretendo prestar o meu tributo aos colegas que me precederam sob a forma de marginália algo dilatada, mas sem particulares intenções. Forçoso é que no final se encontre um ensaio sobre um pintor, não apenas porque Jan Peter Tripp e eu andámos bastante tempo juntos na escola (…) mas também porque os seus quadros me ensinaram que a arte requer trabalho e que quem quiser contar coisas deve esperar grandes dificuldades.
Em seguida, celebra a seu modo a perseverança, os sacrifícios e o génio dos retratados, com uma prosa brilhante e ilustrações magníficas. Grandes dificuldades? Não notei.
Destaco o texto sobre Robert Walser (1878-1956) e as fotografias que o acompanham. Chocou-me a tristeza, a pobreza, a solidão, a angústia negada do atormentado mas enorme contista. Dele já li a colectânea de “Histórias de amor”, e recomendo.
Os vestígios que Robert Walser deixou da sua vida são tão ténues que quase se apagaram. (…) Nunca se apegou a um sítio, nunca adquiriu nada para si. Nunca teve casa nem qualquer morada duradoura, nenhum móvel, e por único guarda-roupa somente um fato melhor e outro mais modesto. Não possuía sequer o que um escritor necessita para exercer o seu ofício. De livros, ao que creio, não tinha nem os que ele próprio escreveu. O que lia era quase sempre emprestado. Até o papel para escrever lhe chegava em segunda mão. Distante toda a sua vida dos bens materiais, esteve-o também dos outros seres humanos. (…) Como havemos de compreender um autor que tantas sombras ameaçadoras acossaram, e que no entanto derrama a cada página a mais cativante luz?
Luz é o que também encontramos na escrita de W.G. Sebald.
Confira!

O caminhante solitário, de W.G. Sebald
Tradução de Telma Costa
Ed. Teorema, 2009
163 págs.

22 setembro, 2015

Para que conste, o titulo do livro nº 12 é:


Se acertou… merece um enorme aplauso.

Ponto final!
(Algo mais se seguirá. O quê, a seu tempo saberá.)

18 setembro, 2015

"O poder do agora" - Eckhart Tolle

"Há mais de trinta anos que um pedinte se sentava na berma de uma estrada. Um dia, passou por ali um estranho. “Dá-me uma moedinha?” pedinchou o pobre, estendendo automaticamente o seu velho boné de basebol. “Não tenho nada para te dar”, disse-lhe o estranho. Depois perguntou: “O que é isso em que estás sentado?” “Nada”, respondeu o pedinte. “Apenas uma caixa velha. Sento-me nela desde que me lembro.” “Algum dia viste o que tem dentro?”, Tornou o estranho. “Não”, respondeu o pobre. “De que me serviria?” Não há nada lá dentro.” “Vê o que tem dentro”, insistiu o estranho. O pedinte conseguiu forçar a tampa. Com surpresa, incredulidade e exaltação, verificou que a caixa estava cheia de ouro.
Eu sou aquele estranho que não tem nada para lhe dar, mas que lhe diz para olhar para dentro. Não para dentro de uma caixa qualquer, como na parábola, mas para dentro de uma coisa ainda mais próxima: para dentro de si.
«Mas eu não sou um pedinte», dirá você.
Todos aqueles que não encontraram a sua verdadeira riqueza, que é a radiosa alegria do Ser e a paz profunda e inabalável que a acompanha, são pedintes, por maior que seja a fortuna material que possuem. Esses, para terem valor, segurança ou amor, procuram fora de si vislumbres de prazer ou de realização pessoal, enquanto que dentro de si próprios possuem um tesouro que não só inclui todas aquelas coisas, mas é também infinitamente maior do que tudo o que o mundo tem para lhes oferecer."

Este livro de Eckhart Tolle é arrebatador.
De forma simples e concisa ensina a combater as ilusões da mente, que nos levam a criar os nossos próprios problemas.
A experiência deste tipo de leituras é sempre proveitosa e gratificante.
Mudar comportamentos e escolher novos caminhos é algo espinhoso, mas...há que tentar.
Tentar sempre!

15 setembro, 2015

"Poemas escolhidos" - Vasco Graça Moura

quando os dias se movem

usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
se escolheu os limites para a pele aderir

no fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas
e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparência (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

e contudo se movem se quem amamos fere
e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginário
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando

11 setembro, 2015

"A ridícula ideia de não voltar a ver-te" - Rosa Montero

Para viver temos de narrar-nos…
Foi o que fez Marie Curie (1867-1934), uma polaca naturalizada francesa, um dos maiores génios da ciência do século XX, ganhou dois prémios Nobel: um de Física, em 1903, em parceria com o marido, Pierre Curie, e outro de Química, em 1911, sózinha. Descobriu o polónio e o rádio. A radioatividade acabou por destrui-la, mas manteve-se activa até à sua morte, aos sessenta e sete anos.
A mágoa aguda é uma alienação. Calamo-nos e fechamo-nos.
Foi o que fez Marie Curie quando lhe trouxeram o cadáver de Pierre: encerrou-se no mutismo, no silêncio, numa frieza pétrea e aparente. Estavam casados há onze anos e tinham duas filhas, a mais pequena com catorze meses. Nessa manhã, Pierre saíra a caminho do trabalho, como sempre, almoçou com colegas, ao voltar ao laboratório, escorregou e caiu diante de um pesado carro de transporte de mercadorias. Os cavalos evitaram-no, mas uma roda traseira rebentou-lhe o crânio. Faleceu de imediato.
Foi na história desta mulher, que Rosa Montero encontrou inspiração e força, para voltar à escrita depois da morte de Pablo, o marido, em 2009, seis meses depois de lhe ter ser diagnosticado um cancro.
Depois de ler o diário do luto de Marie - onde anota com obsessivo pormenor os últimos dias que viveu com Pierre, os seus últimos atos, as últimas palavras – e todas as biografias que encontrou, decidiu contar a vida dolorosa daquela mulher, “como medida” para entender a sua própria dor e acatar inquietações.
O método escolhido foi o entrelaçar das suas memórias pessoais com as memórias colectivas daquela mulher pequenina, triste, inteligente, ousada, invejada, reconhecida mundialmente.
Pablo, o companheiro de uma vida, “aparece” pouco neste livro. Sobre ele, diz ela: possuía uma inteligência enorme e originalíssima (…) era teimoso, resmungão, sedutor, honesto, escrevia muito bem e era um ótimo jornalista, além de elegante, atlético e meticuloso, e gostava tanto do silêncio como das discussões (…) julgo que não posso dizer mais nada sobre Pablo: o seu lugar fica no centro do silêncio.
É triste mas belo, este último livro de Rosa Montero.
Sobre a morte, ela aconselha: … é preciso fazer alguma coisa com a morte. É preciso fazer alguma coisa com os mortos. É preciso pôr-lhes flores. Falar com eles. Dizer que os amamos e que sempre o fizemos. É melhor fazê-lo ao vivo; senão, também o podemos declarar depois. Podemos gritá-lo ao mundo. Ou então escrevê-lo num livro como este. Pablo, que pena ter esquecido que podias morrer, que podia perder-te. Se tivesse essa consciência, ter-te-ia amado não mais, mas melhor, Ter-te-ia dito muito mais vezes que te amava. Teria discutido menos por tontices. Ter-me-ia rido mais.
Mas, avisa, e eu confirmo, este não é um livro sobre a morte. É sim, sobre a superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

Habituei-me a rir com a escrita de Rosa Montero em "A louca da casa", romance que continuo a considerar, excelente, apaixonante, hilariante e muito inteligente. Ao lê-lo, ri, ri, ri.
Agora, com “A ridícula ideia de não voltar a ver-te” - bem, não chorei, mas pouco faltou - aprendi a celebrar serena e plenamente a vida com os meus entes queridos, porque... breve é o nosso dia e imensa a noite.
Celebremos, todos!

A ridícula ideia de não voltar a ver-te, de Rosa Montero
Tradução de Helena Pitta
Porto Editora, 2015-09-05
175 págs.