11 julho, 2014

"Contos Municipais" - António Manuel Venda

Chegou às bancas mais um livro de António Manuel Venda.
É um livro pequenino, com dez contos que retratam situações vividas num pequeno município do interior do país.
São histórias bem imaginadas, bem escritas, cheias de humor, ironia e personagens surpreendentes: um presidente, alguns vereadores, os inevitáveis técnicos, uma empregada de limpeza, uns tipos da inspecção (da capital), um ouriço-cacheiro com um cargo que não é nada de deitar fora, uma bruxa, o diabo, secretárias, amantes, uma toupeira de risca azul, um ladrão, uma “préfeita” e outros mais.
Gostei de todas, mas destaco três. São perfeitas, bizarras, risíveis. 
“As grandes opções do plano” - O caso começou quando uma empregada de limpeza, mulher já de uma certa idade, deu com um vereador e a assessora mais próxima, os dois em cima da mesa de uma das salas de reuniões, muito concentrados a tratar das grandes opções do plano…a empregada, ao acordar depois de recolhidas pelos bombeiros após um desmaio em cujo tombo abriu a cabeça, só falava das grandes opções do plano e de que o vereador e a assessora estavam em cima da mesa. Não conseguia dizer mais nada, apenas isto:
- Estavam os dois em cima da mesa a tratar das grandes opções do plano!
”Duas nuvens furiosas em pleno verão” - Num belo dia de verão, a meio da semana, duas pequenas nuvens muito escuras aproximaram-se da sede do concelho… começou a juntar-se gente, tentando perceber aquele fenómeno… noutro belo dia desse mesmo Verão, ainda com mais calor, as duas nuvens voltaram a aparecer… notaram que havia qualquer coisa que começava a desprender-se das nuvens. Era granizo…. O ataque seguinte foi completamente inesperado… foi uma chuva de diospiros, todos muito maduros, mesmo não sendo a época deles.
“Ligação umbilical” - Muitas pessoas na câmara já tinham ouvido falar no município brasileiro de Turibim de Parapapá, mas poucas sabiam dizer bem o nome. Ou nenhuma, tirando um dos vereadores, que era quem tratava do caso. E o caso tinha a ver com um processo de ligação umbilical… Claro que o município de Tupiribim de Parapapá não existia, mas nunca ninguém se tinha preocupado em ir comprovar… A verdade é que o vereador tinha uma conhecida no Brasil, uma rapariga ainda nova, que às vezes aparecia no concelho em visita oficial como perfeita de Tupiribim Parapapá, a tratar de assuntos da ligação umbilical… a ligação à rapariga era forte. Umbilical.
Mas que histórias bem “esgalhadas”!
A brincar, a brincar, dizem-se coisas sérias .
Há "fartura" de municípios, portanto, venham mais contos.
Gostei!

Contos municipais, de António Manuel Venda
Ed. Just Media, 2014
87 págs.

04 julho, 2014

"A mulher certa" - Sándor Márai

A vida magoa-nos de tantas maneiras.
Se gosta de boas histórias de amor, este romance foi escrito para si. Se gosta delas com laivos de paixão, desejo, ciúme, ilusão, riqueza, pobreza, mentira, crueldade, solidão e morte, continuo a dizer que este romance foi escrito para si. Se gosta de enredos realistas e inteligentes, de apuro na descrição dos ambientes, de rigorosa caracterização das personagens, repito, este romance foi escrito para si.
Acredite em mim, esta é uma poderosa, surpreendente e inesquecível história de amor, narrada por três vozes e sensibilidades diferentes.
Confuso?
Eu explico: este romance - do mestre das paixões e dos triângulos amorosos, onde se encontram as páginas mais íntimas e arrojadas, as mais sábias, de Sándor Márai - demorou quarenta anos a ser concluído.
Em 1940, foi publicado Az Igazi (A mulher certa), um romance composto por dois monólogos.
Em 1949, o autor adicionou-lhe um terceiro monólogo, escrito durante o seu exílio em Itália.
Em 1980, reescreveu a terceira parte e juntou-lhe um epílogo.
O primeiro monólogo é de Marika. Ela está com uma amiga numa elegante cafetaria de Budapeste, e vê entrar o ex-marido. Relata, então, à amiga, como descobriu que o marido estava entregue de corpo e alma a uma paixão secreta que o consumia e como tentara, em vão, reconquistá-lo.
Tu, olha, aquele homem. Espera, não olhes agora, vira-te para mim, conversemos. Eu não gostaria que reparasse em mim, me visse, nem gostaria que me cumprimentasse… Aquele alto, pálido, de gabardina preta, que fala com a empregada loira e magra. Acabou de embrulhar casca de laranja cristalizada. Interessante, a mim nunca me comprou casca de laranja cristalizada… Já se foi? Diz-me, quando se for…. Se posso dizer-te quem era? Claro que posso, minha querida, não é segredo. Esse homem foi meu marido… há três anos que não falo com ele… Sabes quem era o meu marido? O fenómeno mais raro deste mundo. Era um homem… Sofri muito a seu lado. Mas sei que gostava dele… Talvez algumas paixões sejam mais fortes do que a vida, do que a razão, do que o tempo. Queimam e deixam tudo em cinzas? É possível… E aqui estou sentada contigo, enquanto o meu marido manda embrulhar laranja cristalizada para outra… Para quem? Ora, para outra mulher. Não me agrada pronunciar o seu nome. Com quem casou, a seguir. Não sabias que voltou a casar?
O segundo monólogo é de Péter. Na mesma cidade, uma noite, num bar, ele confessa a um amigo como deixou Marika para se casar com Judit, a mulher que desejava há anos, e como depois a perdeu.
Tu, olha aquela mulher... A loira de chapéu redondo? Não, a alta, num casaco de pele de marta – sim, a morena, a mulher alta, que não traz chapéu. Ajuda-as um homem atarracado, certo?... Aquele é o homem com quem tive esse doloroso e estúpido duelo. Por causa da mulher?... Pois claro, por causa da mulher… Se posso dizer quem é a mulher?... Posso, meu velho. Essa mulher foi minha mulher. Divorciámo-nos há três anos. Logo a seguir ao duelo… Áldozó Judit era o seu nome. Era uma camponesa. Veio com dezasseis anos para servir em casa dos meus pais… A primeira era perfeita. Não posso negar que a amei. Só tinha um pequeno defeito… era burguesa, uma mulher burguesa. Não entendas mal, eu também sou burguês. Vens tu agora dizer-me que sou um homem ressentido. Que alguém me magoou. Talvez aquela mulher, a minha segunda mulher. Ou a primeira. Algo falhou… Estou cheio de cólera. Não confio nas mulheres, no amor, na humanidade… 
O terceiro monólogo é de Judit. De madrugada, numa pequena pensão romana, ela conta ao seu amante como o seu casamento com um homem rico sucumbiu ao ressentimento e à vingança.
O que estás a ver, meu amor? Fotografias?... Sabes que te adoro. Porque és belo. Porque és um artista. Porque és único… Não quero que rias… só porque estou apaixonada por ti… É a velhice… essa ladra e assassina… tenho ainda o direito a amar-te e, como vês, não me faço rogada, devoro a felicidade que me dás… Virá o dia em que não terei direito de te amar, porque serei velha…O ventre flácido, os seios caídos… Não me consoles. Eu sei bem a lição… Verás que é assim… Aprendi que nos devemos ir embora no tempo certo… Queres saber quem me ensinou? Sim, aprendi com esse homem cuja fotografia tens na mão… O que queres saber? Se foi meu marido? Não, tesouro, não foi o meu marido. Meu marido foi o outro, aí, no canto do álbum, com casaco de pele… Os ricos são muito estranhos, meu anjo. Olha, também eu vivi uns tempos nessa espécie de riqueza… Não me envergonhava nada no meio deles, acredita. Nunca me mostrei tímida, nem púdica, e enchi bem a bolsa… Já te disse que não o amava. Houve um tempo em que o amei… em que estava apaixonada, porque não vivia com ele. As duas coisas não se dão juntas, sabias?
Segue-se o epílogo, para mim, desnecessário.
(Seleccionei frases de cada um dos monólogos e juntei-as com reticências.)

Sándor Márai nasceu em 1900, numa pequena cidade húngara, que hoje pertence à Eslováquia. Passou por um período de exílio voluntário na Alemanha e na França durante o regime de Horthy, nos anos 20, até que abandonou definitivamente o seu país em 1948, com a chegada do regime comunista, tendo emigrado para os Estados Unidos. A subsequente proibição da sua obra na Hungria fez cair no esquecimento quem nesse momento era considerado um dos escritores mais importantes da literatura centro-europeia. Foi preciso esperar várias décadas, até à queda do regime comunista, para que o escritor fosse redescoberto no seu país e no mundo inteiro. Sándor Márai suicidou-se em 1989, na Califórnia, poucos meses antes da queda do muro de Berlim.

Bem, está decidido, vou continuar a procurar o deslumbramento nos romances de Sándor Márai. O próximo será "A Irmã".
Você, leia "A mulher certa" munido de um lápis afiado. Vai precisar dele para sublinhar as palavras certas, colocadas nas frases certas. E são muitas.
Nunca se é bastante sábio para dizer por que motivo se juntam um homem e uma mulher, e porque, depois, se separam.
...porque é que na escola não se ensina nada sobre as relações entre homens e mulheres?
Não sei!

A mulher certa, de Sándor Márai
Tradução de Ernesto Rodrigues
Ed. Dom Quixote, 2007
418 págs.

02 julho, 2014

11º - Você sabe em que livro se esconde este "primeiro parágrafo"?





“No mesmo dia em que Briolanja Mendes foi a sepultar, na campa rasa de um montesinho situado a pouco menos de uma légua das terras pertencentes à casa do conde de Barcelos, D. Leonor Teles de Menezes cumpriu uma jura antiga: abandonou o marido e o filho, virou costas a Pombeiro e partiu  para Lisboa.”

Resposta do 10º “Primeiro Parágrafo”:
Em “A louca da casa”, de Rosa Montero, ed. ASA, 2004

01 julho, 2014

Primeiro de Julho



"Primeiro de Julho. O dia que divide o ano como uma risca ao meio divide o cabelo."



Em  “O inverno do nosso descontentamento”, de John Steinbeck, Ed. Circulo de Leitores, 1993
(Foto tirada da net)

27 junho, 2014

Frases soltas... "Levantado do chão" de José Saramago

"O que há mais na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.
…
Não faltam cores a esta paisagem. Porém, nem só de cores. Há dias tão duros como o frio deles, outros em que se não sabe de ar para tanto calor: o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte.
…
Tanta paisagem. Um homem pode andar por cá uma vida toda e nunca se achar, se nasceu perdido."


(Pintura de Maria Manuel Delgado - foto tirada na net)

20 junho, 2014

"Amor" - António Mega Ferreira

Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso...

Alguma coisa se passou na vida de Winnie, no dia em que fez dezasseis anos. O quê, não se sabe ao certo. Vinte anos depois de a ter conhecido e amado, um homem parte à descoberta do segredo. No final, espera-o a revelação de um vazio e uma pergunta: onde reside a essência do amor?

É belíssima esta história de amor.
Os protagonistas são uma mulher à beira dos cinquenta anos e um  jovem de pouco mais de vinte.
Eu li-a num ápice e dificilmente a esquecerei.
Saiba qual é o segredo de Winnie lendo as 77 páginas. Aconselho que pegue num lápis, pois há nelas muitas pétalas de amor para sublinhar.
Como esta:
Amo-te absoluta, impossível e fatalmente... E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos.
E esta:
... eu amo não a ideia de amar-te... mas a ideia de perder-me no meu amor por ti.
E ainda esta:
... quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida, é em ti que penso.
Encontre outras e aprenda a chamar amor ao amor.
Amei!

Amor, de António Mega Ferreira
Ed. Assírio & Alvim, 2002
77 págs.

13 junho, 2014

"Rebeldes" - Sándor Márai

Só quem peca se purifica.
Publicado em 1930, este é o terceiro romance de Sándor Márai (o mestre das paixões), autor do aclamado “As velas ardem até ao fim”. (Se ainda não leu, leia).
Neste romance o tema principal não é o amor, é a amizade. Aqui não há um triângulo amoroso, há um bando de rapazes, revoltados contra tudo e a tudo dispostos.
O que os une?
É muito difícil dizer o que aglutina as pessoas, especialmente na juventude, quando os interesses ainda não tecem as amizades.
A história conta as aventura e desventuras do bando, num enredo de erros e fúrias, cumplicidades e traições, sofrimentos e cobardia – de inconfessáveis atracções e de ambíguas repulsas, no final da I Guerra, numa pequena cidade húngara, longe da frente.
Enquanto esperam pelo dia em que terão de vestir a farda e partir para o turbilhão da guerra, entregues a si próprios, os rapazes distraem-se com brincadeiras, jogos, leituras, representação de histórias, passeios.
Com os pais longe, a combater, eles são livres, independentes, sem limites.
Nos primeiros tempos, não precisavam de dinheiro para as brincadeiras. A questão do dinheiro só surgiu quando a realização de certas experiências e iniciativas veio exigir recursos cada vez mais complexos.
Béla foi o primeiro a roubar. Roubou dinheiro da caixa do pai…
Muitos roubos depois… alugam um espaço, um esconderijo, fora do perímetro de acção dos pais, professores, autoridades.
Ali começam a conhecer-se e unem-se numa cumplicidade secreta, feita de descobertas, excessos, segredos, mentiras, intrigas e brincadeiras perigosas.
Ali libertam os demónios da sua revolta contra o mundo.
Ali experimentam tudo, confessam tudo, falam de tudo - nunca da guerra, isso deixam para os adultos
Esse foi o tempo das brincadeiras a sério. Essa foi a segunda infância, mais consciente da culpa, mas sem limites, mais excitante e mais doce.
Já o bando se consolidara quando Amadé - o actor - chega à cidade. É o dançarino cómico da companhia. Tem quarenta e cinco anos. Tem barriga e papada. Usa peruca. Tem a cabeça de um cavalo. Tem a mandíbula saliente. É míope. Não joga às cartas. Usa dois anéis nos dedos carnudos.
O actor vivia os movimentos verdadeiros da vida apenas quando representava; tal como eles sentiam mais verdadeira do que qualquer realidade a própria vida escondida por trás da realidade.
Certo dia os rapazes conhecem o actor. Logo na primeira hora ele propôs que se tratassem por tu. Duas semanas depois convidou-os para sua casa. Conquista-os com festas teatrais divertidas. Entra para o bando.
Quem é ele? O que pretende deles? Em que perversas tramóias os vai meter? Será trágico o fim do bando?
"Rebeldes" é um romance perturbador. Recomendo-o a adolescentes... 
Os senhores… não conhecem ainda a vida. Aprende-se devagar.
... e a adultos, claro!

Rebeldes, de Sándor Márai
Tradução de Ernesto Rodrigues
Ed. Dom Quixote, 2008
239 págs.

06 junho, 2014

10º - Você sabe em que livro se esconde este “primeiro parágrafo"?

"Habituei-me a ordenar as recordações da minha vida através de uma relação de namorados e livros."

Resposta do 9º “Primeiro Parágrafo”:
Em “Solar”, de Ian McEwan, ed. Gradiva, 2010