10 maio, 2013

"Mel" - Ian McEwan

 
Chamo-me Serena Frome (rima com plume) e há quase quarenta anos fui enviada numa missão secreta para os serviços de segurança britânicos. Não regressei incólume.
Serena é a protagonista/narradora desta história de espionagem, vivida no período da guerra fria, numa Inglaterra em plena crise política e económica, com convulsões sociais e actos de terrorismo. Mas é, também, uma empolgante história de amor, intriga, traição e livros, muitos livros.
Apesar do ritmo acelerado com que ela fala da sua infância e adolescência, ficamos a saber que até aos dezoito anos de vida nada de estranho ou de terrível lhe aconteceu; que é filha de um bispo anglicano, de uma mãe ambiciosa e autoritária; tem uma irmã mais nova (que não tem a sua beleza, nem inteligência); cresceu numa casa recheada de livros; sabe jogar ténis, adora ler romances e é dotada para a matemática. Sabemos, também, que queria tirar um curso de Inglês, mas acabou por tirar Matemática, em Cambridge. Graças à minha mãe, estava a tirar o curso errado, mas não parei de ler.  Ler... era a minha maneira de não pensar.
Enquanto estudante universitária, Serena mantém os hábitos de leitura e… coleciona namorados.
No último ano do curso escreve uma coluna “O Que Li na Semana Passada”, na revista ?Quis? É um sucesso, mas, uma mudança dos seus gostos literários e o cunho anticomunista das crónicas semanais, leva ao seu despedimento: o declínio teve início com os cinquenta minutos que passei com Um dia na vida de Ivan Denisovitch, de Alexandre Soljenitsine.
Nesse mesmo ano, tem uma relação com Tony Canning, um atraente homem de cinquenta e quatro anos, casado, professor de História, com duas paixões na vida: beber e conversar. O caso dura poucos meses, mas os suficientes para mudarem a vida de Serena. Com um determinado fim em vista, o amante impõe que ela abandone os romances e passe a ler livros sobre história. Faz-lhe verdadeiros exames orais sobre essas leituras.
…passadas algumas sessões e alguma rabugice… comecei a dar-me conta da própria história.
Tony Canning, candidata Serena aos serviços de segurança britânicos MI5 e prepara-a para uma entrevista de emprego.
Logo de seguida, o professor de história, ele próprio um veterano do MI5, termina de forma estranha a relação com ela e… desaparece.
No início dos anos 70, Serena é admitida nos serviços secretos, na categoria mais baixa do funcionalismo público, responsável pelo arquivo, indexação e trabalho afim de biblioteca. Desolada, a matemática e jogadora de xadrez, considera o cargo um insulto mas aceita, decidida a pôr ordem na sua vida.
Meses depois, Serena é convidada a participar numa missão secreta, com o nome de código Mel.
O objectivo é convencer Thomas Haley, um promissor romancista que procura um editor, a aceitar uma bolsa oferecida por uma organização de fachada, para que possa trabalhar a tempo inteiro na escrita, durante dois ou mesmo três anos.
Serena arranja para si uma vida secreta e vai conhecê-lo, conviver com ele e, dissimuladamente, convencê-lo a escrever temas que interessem... ao governo.
A fundação considera-o um talento único e extraordinário…
Tom Harley pensa na oferta, desconfia… mas aceita.
E Serena, a agente secreta "angariadora de talentos", a representante da Fundação da Liberdade que promove a cultura junto de um certo tipo de intelectuais, a matemática, a leitora compulsiva … apaixona-se e perde-se num mundo de segredos, mentiras e desilusões.
O que vai acontecer quando o escritor descobrir que lhe andámos a pagar a bolsa? Vai ficar furioso.
Ficará?
Não posso desvendar mais nada sobre o que se passa a seguir. Tenho de guardar segredo.
Para descobrir vai ter de “espiar” as voltas e reviravoltas deste extraordinário thriller de espionagem, que é, também, um manual de História e uma original homenagem aos escrevedores de livros.
Deixe-se levar por uma escrita elegante e rigorosa e penetre nos bastidores da política e dos serviços secretos. 
Perca-se num empolgante jogo da espionagem e descubra quem espia quem.
O final é surpreendente.
Divirta-se e aprenda… História.
“Manipular o leitor é o meu prazer principal”, disse o autor numa entrevista.
Comprovei!

Mel, de Ian McEwan
Ed. Gradiva,
Tradução de Ana Falcão Bastos
386 págs.

07 maio, 2013

Desafio nº 17 – Esta é uma história de “fazer chorar as pedras da calçada”. Verdade! E não acredito que haja quem a não conheça.

Não me fujas ainda, Teresa. Já não vejo a força, nem a morte. Meu pai protege-me, e a salvação é possível. Prende ao coração os últimos fio da tua vida. Prolonga a tua agonia, enquanto te eu disser que espero. Amanhã vou para as cadeias do Porto, e hei-de ali esperar a absolvição ou comutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda a parte há céu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a pedra do sepulcro é que nunca se levanta. Vive, Teresa, vive!... Ontem, vi as nossas estrelas, aquelas dos nossos segredos nas noites da ausência. Volvi à vida e tenho o coração cheio de esperanças.

Ajuda se eu disser que quem assim ama se chama Simão?
Ajuda se eu disser que esta história foi escrita na cadeia da Relação do Porto?
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Resposta do Desafio nº 16:
Foi fácil este desafio. Claro que é “O Estrangeiro”, de Albert Camus, publicado em 1942.
O escritor venceu o Prémio Nobel de Literatura,1957.
Parabéns para quem acertou.

03 maio, 2013

"Ofício Cantante - poesia completa" - herberto helder

É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta..
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.

(Em "Última Ciência", 1988)

Pintura de Maria Henriques - foto tirada da net.

27 abril, 2013

"As intermitências da morte" - José Saramago

… de deus e da morte não se têm contado senão histórias, e esta não é mais que uma delas.
Na verdade, esta é uma história desconcertante, que tem como personagem principal: a Morte. Sim, a morte, enquanto inevitabilidade humana.
Não se assustem, nem ponham o livro de lado, que a história é surpreendente. Leiam-na e escutem-na com atenção, pois há uma “melodia” em cada palavra. O tema é negro, mas a mestria de Saramago faz milagres e a história passa de macabra a divertidíssima. Mas atenção, também é seria, muito séria.
… desde a entrada do novo ano, mais precisamente desde as zero horas deste dia um de janeiro em que estamos, não havia constância de se ter dado em todo o país um só falecimento que fosse… O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme….
Saramago parte de uma hipótese improvável - num único país (será Portugal?!) de um dia para o outro as pessoas deixam de morrer – e traça um retrato amargurado / humorado dos problemas causados por tão estranho fenómeno.
A história pode dividir-se em três partes:
Na primeira parte, o povo de um país com cerca de dez milhões de habitantes, passa de perplexo a eufórico, ao perceber que a morte fizera greve e ninguém mais morreria. Sem pensar nas complicações de tão estranho facto, o povo celebra nas ruas e por todo o país a bandeira nacional aparece pendurada em varandas e janelas. Era impossível resistir a um tal fervor patriótico…
Mas…as consequências do estranho fenómeno surgem de imediato: os doentes ficam em eterno sofrimento; as famílias veem-se obrigadas a levar os seus moribundos ao outro lado da fronteira, onde a morte ainda trabalha; os lares de idosos e os hospitais “rebentam pelas costuras”; as companhias de seguros entram em colapso, devido ao cancelamento maciço dos seguros de vida; as agências funerárias limitam-se a fazer funerais de cães, gatos e canários; a igreja sai à arena do debate montada no cavalo-de-batalha do costume e avisa o governo: Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja…
E o que faz o governo? Vê-se metido até aos gorgomilos numa camisa-de-onze varas.
Na segunda parte, depois de sete meses de trégua da morte, a população continua agitada, o poder confuso, a autoridade diluída.
Eis senão, quando, inesperadamente, a morte faz chegar à televisão uma mensagem anunciando que a partir da meia-noite daquele mesmo dia se vai voltar a morrer, agora com uma diferença, a morte será anunciada, por carta, com uma semana de antecedência, para que a pessoa possa fazer testamento e dizer adeus à família …
Na terceira parte, a morte, que em todos os seus traços atributos e características, era, inconfundivelmente, uma mulher, não resiste a conhecer pessoalmente o destinatário de uma carta já por três vezes devolvida à procedência. Diz a ficha, que o destinatário é um homem de quarenta e nove anos, estado civil desconhecido, violoncelista de profissão.
Uma força alheia, misteriosa, incompreensível, parecia opor-se à morte da pessoa.
Intrigada a morte decide ir entregar-lhe a carta em mão.
Vê o violoncelista pela primeira vez, no palco do teatro onde toca.
…e a carta não é entregue.
Nos dias seguintes, espreita-o no conforto do lar.
… e a carta continua a não ser entregue.
É então, que a morte se veste de mulher, sai à rua, se apaixona e, no dia seguinte ninguém morreu.
Fabuloso!
A morte está zangada. É a altura de lhe deitarmos a língua de fora.
 
As intermitências da morte, de José Saramago
Ed. Caminho, 2005
214 págs.

19 abril, 2013

"A incrível e triste história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada" - Gabriel García Márquez

Voltei aos contos.
Voltei à escrita encantatória de Gabriel García Márquez.
Este pequeno livrinho é composto por sete contos.
Sete contos de um realismo mágico, escritos por um escritor extraordinário, que utiliza a prosa como pura poesia.
Sete histórias sobre o quotidiano de personagens inesquecíveis, alguns já nossos conhecidos de outras obras do autor.
Apenas um conto é anterior à fase de plena maturidade de GGM, alcançada com “Cem anos de solidão”, a história mágica que publicou em 1967 e que deslumbrou milhões de leitores por todo o mundo.
Eis os sete
. Um senhor muito velho com umas asas enormes (1968)
A história do anjo cativo, procurado pelos doentes mais infelizes das Caraíbas: uma pobre mulher que desde menina contava os baques do coração e já não lhe chegavam os números, um jamaicano que não podia dormir atormentado pelo ruído das estrelas, um sonâmbulo que se levantava de noite para desfazer adormecido as coisas que fizera acordado…
. O mar do tempo perdido (1961)
. O afogado mais bonito do mundo (1968)
. Morte constante para além do amor (1970)
Faltavam – lhe seis meses e onze dias para morrer quando o senhor Onésimo Sánchez encontrou a mulher da sua vida…Fora os médicos, ninguém sabia que estava condenado a prazo fixo, pois tinha decidido padecer a sós o seu segredo, sem qualquer mudança de vida, e não por soberba, mas por pudor.
. A última viagem do navio fantasma (1968)
Agora vão ver quem sou, disse para si mesmo, com o seu novo vozeirão de homem.
Começa assim esta história, contada em sete páginas, num único parágrafo.Ufa!
. Blacamán o bom, vendedor de milagres (1968)
. A incrível e triste história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada (1972)
Eréndira tem catorze anos e vive com a avó. Uma noite, cansada do trabalho árduo do dia, recolhe ao seu quarto, poisa o candelabro na mesinha de cabeceira, adormece rapidamente e… ao amanhecer, gotas de chuva grossa apagavam as últimas brasas do incêndio que destruiu a casa da avó.
Minha pobre filha… a vida não te vai chegar para me pagares este percalço.
Começou a pagá-lo nesse mesmo dia… quando a avó a "ofereceu" ao tendeiro da aldeia, um viúvo esquálido…
E, quando na aldeia já todos os homens tinham pago pelo amor de Eréndira, avó e neta partem para terras distantes.
Tinham decorrido seis meses desde o incêndio quando a avó conseguiu ter uma visão completa do negócio.
- Se as coisas continuarem assim – disse ela a Eréndira -, pagas-me a dívida dentro de oito anos, sete meses e onze dias.
Tudo muda quando aparece Ulisses, filho de um contrabandista de laranjas. Sim, laranjas perfumadas e... pesadas. Mudará?
Como acaba esta história de amor, perversão, inocência e maldade?
Eu sei...
 
A incrível e triste história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada, de Gabriel García Márquez
Quetzal Editores, 1992
Tradução de Pedro Tamen
135 págs.

13 abril, 2013

"A música da fome" - J.M.G. le Clézio

Não escolhemos a nossa história. Esta apresenta-se-nos sem que a procuremos, e não podemos, não devemos rejeitá-la.
É muito autobiográfica esta história, sobre a decadência de uma família oriunda da ilha Maurícia, exilada em França.
O autor não o esconde e avisa que escreveu esta história em memória de uma jovem que, involuntariamente, foi heroína aos vinte anos. Essa jovem é Ethel, alter-ego da mãe do escritor.
Ethel é a única filha de um casal de exilados em França. O pai, Alexandre Brun, era jovem quando deixou a ilha Maurícia. Em Paris, ocupa os dias a delapidar a herança, em negócios pouco recomendáveis.
Na infância, o único prazer de Ethel é a companhia do excêntrico tio-avô Samuel Soliman. Tudo o que sabe do mundo, foi ele que lhe contou. Tudo o que conhece de Paris, foi ele que lhe mostrou. Pouco antes de Ethel completar doze anos, no fim de 1934, Monsieur Soliman adoeceu e morreu, e o pequeno mundo de Ethel começou a desmoronar.
Quando eu já cá não estiver, terás de prestar muita atenção, dizia-lhe o avô, preocupado.
Na adolescência, Ethel descobre a amizade, pela mão de Xénia, uma colega de escola pobre e misteriosa, filha de exilados russos. Tornam-se amigas inseparáveis. Mas, se de desabafo em desabafo a amizade entre as duas cresce, de desilusão em desilusão acaba por morrer.
Da vida familiar, Ethel recorda as discussões entre os pais e os almoços que ofereciam, no primeiro domingo de cada mês, a visitas, amigos e parentes. Nessas reuniões, onde a música se misturava com riso e as conversas fluíam, começa a ouvir-se, repetidamente, o nome de Hitler. Avizinha-se o declínio da família Brun: a ruína, a guerra, a fome.
A vida é um saco muito pesado, diz Justine, a mãe de Ethel.
Aos dezoito anos, Ethel assume o controlo dos negócios da família. Depois de pagar as dívidas, resta-lhe a ruína e a angústia do futuro. O seu mundo fica reduzido à água de um canal.
 
É excelente, o retrato do quotidiano desta família, na alegre Paris dos anos 20 e 30, depois em Nice e de novo em Paris, já libertada pelos aliados.
É excelente, o retrato da sociedade francesa durante a ocupação nazi.
É excelente, o retrato da inconsciência dos cidadãos e dos políticos pelo bolchevismo, pelo  anti-semitismo e pelo sofrimento do povo.
Os rios lavam a História, é sabido.
Recomendo.
 
A música da forme, de J.M.G. Le Clézio (Prémio Nobel de Literatura, 2008)
Tradução de Isabel St. Aubyn
Dom Quixote, 2009
188 págs.

05 abril, 2013

"Terra dos homens" - Antoine de Saint-Exupéry

… só há uma verdadeira riqueza: a das relações humanas.
Quando se fala do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry vem imediatamente à lembrança o pequenino-ENORME livrinho “O Principezinho”, que todos já lemos. Não duvido!
Acontece, que Saint-Exupéry nos deixou outros livros, outras histórias mágicas.
“Terra dos homens” é uma história sobre pilotos e aviões, escrita em pleno deserto do Sara, onde o escritor-aviador foi forçado a aterrar em consequência de uma tempestade.
Meu Sara, meu Sara, eis-te encantado, inteirinho, por uma fiandeira de lã!
Sim, porque Saint-Exupéry para além da escrita tinha um fascínio por máquinas voadoras e, depois de cumprir o serviço militar na força aérea, em 1920, tornou-se aviador. O aviador que entre um voo e outro escrevia histórias encantadas.
Certo que o avião é uma máquina – mas que instrumento de análise! Tal instrumento fez-nos descobrir a verdadeira face da Terra.
“Terra dos homens” é o testemunho comovente das experiências do autor sobre os medos, as angústias, as alegrias, os triunfos, os acidentes, a perda, o progresso da aviação.
Uma história comovente, de experiências feita, sobre relações humanas, amizade, solidariedade e muita solidão.
Uma história sobre o Homem, o mundo, a vida e a morte. Sobre o Sara.
E os bens da terra escapam-se-nos por entre os dedos como a areia fina do deserto.
Em 31 de Julho de 1944, o avião que Saint-Exupéry tripulava desapareceu na proximidade da Córsega. Segundo declarações oficiais, é provável que tenha sido destruído por aviões de reconhecimento alemães.
Só o espírito, quando sopra sobre a argila, pode criar o Homem.
Gostei e recomendo.
Lê-se de um só fôlego e... sublinha-se, sublinha-se, sublinha-se...
 
Terra dos homens, de Antoine de Saint-Exupéry
Tradução de Nuno Lobo Salgueiro
Ed. Vega, 1995
131 págs.

02 abril, 2013

Desafio nº 16 – Lê-se e não se esquece, este romance que aborda o tema da vulnerabilidade do homem perante o absurdo? Quem o escreveu é Nobel, sim senhor!

Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.» Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.
….
Quando estava lá em casa a mãe passava o tempo a seguir-me em silêncio com os olhos. Nos primeiros dias de asilo, chorava muitas vezes. Mas era por causa do hábito. Ao fim de alguns meses, choraria se a tirassem do asilo, ainda devido ao hábito. Foi um pouco por isto que, no último ano, quase não a fui visitar. E também porque a visita me tomava o domingo – sem contar com o esforço para ir até ao autocarro, comprar os bilhetes e fazer duas horas de viagem.
 
Ajuda se eu disser que é um clássico da literatura moderna?
Ajuda se eu disser que é muito estranho o personagem/narrador desta história, mas não conseguimos deixar de gostar dele?
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Resposta do Desafio nº 15:
Pois é, mesmo sabendo que todos acertaram (será?) aqui vai a resposta: é “O crime do padre Amaro”, do grande Eça de Queirós, publicado em 1875.
Parabéns para quem acertou.