16 junho, 2017

Os pobres não gritam...


"Os pobres não gritam. A morte faz parte do seu lúgubre cortejo de amigos, tem um cantinho no seu leito e um lugar à sua mesa: quando chega, pode levar tudo; quando transpõe a porta, aberta de par em par, com a sua presa, não vê à sua volta, a escoltar-lhe o fatídico vulto negro, senão cabeças curvadas num gesto de resignação, braços caídos, braços de quem deu tudo, de quem não tem mais nada para dar. A dor dos pobre é resignada e calma; traz às vezes consigo as aparências da revolta mas, no fundo, é cheia de um imenso, dum infinito desapego de tudo. Os pobres vêm ao mundo já sem nada; o pouco que a vida lhes deixa é emprestado. Que lhes hão-de tirar que seja deles?! Aos pobres toda a gente chama desgraçados."

Florbela Espanca, poetisa portuguesa (1894-1930), in “As máscaras do destino - Conto A paixão de Manuel Garcia”, Bertrand, 1981
Pintura "Interior de Pobres" (1921), do pintor e escultor brasileiro Lasar Segal (1891-1957)

10 comentários:

  1. Um texto muito interessante.
    Não conhecia, apesar do conhecimento que tenho da autora.
    Bom fim de semana, amiga Teresa.
    Beijo.

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  2. Refletir sobre o assunto é bem importante!
    Sobretudo...a pobreza de espírito!
    Bj

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  3. A Valsa do Adeus deve ser um livro muito interessante; vou anotar para as minhas leituras de Verão, Teresa.
    Quanto a este texto, se pensarmos bem, a Florbela tem toda a razão, principalmente quando diz ;" Aos pobres toda a gente chama desgraçados" e nem sempre é assim ; depende do significado que dermos à palavra, mas acho que há ricos muito desgraçados, ricos que só têm dinheiro, mas a vida deles é uma miséria, uma desgraça. Teresa, obrigada pelas belas " dicas" de leitura que aqui nos deixas. Um bom fim de semana, amiga. Beijinhos
    Emilia

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    1. Olá Emília!
      Lê "A Valsa do Adeus" que vais gostar
      Sándor Márai, um dos meus escritores preferidos, diz no romance “A mulher certa” que «Entre pobreza e riqueza, há tonalidades terríveis.» Bem verdade, não?!
      (Já agora, postei sobre este romance no meu rol. É excelente!)
      Bom domingo, amiga.

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  4. Tenho estes contos. Já os li. E tudo que Florbela diz é assim mesmo. Há assim esta pobreza. Mas não é única. Ou nem todos os pobres são estes pobres.

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  5. Florbela é realista, não enfeita nada. Diz as coisas como as vê. Como sente. Pra muitas é dramática, claro, sabemos.

    Mas quanto aos pobres, são resignados, mas não calmos...Há muitos anos escutei, de um escritor, numa roda, que os pobres não sofrem por não terem, estão acostumados com o sofrimento.
    Escutei e nunca me saiu da cabeça. Bota preconceito nisso, sendo pobre não sofre tanto? É um tema muito bom para se discutir, conversar.
    Beijo, amiga!

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    1. Olá Tais!
      Escritor sábio esse.
      Guardei para o meu "Pétalas de sabedoria".
      Beijo.

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    2. Mas pra mim essa frase do escritor foi um desastre! Pobre sofre, sente, almeja ter coisas melhores. Achei um insensato. São apenas resignados, como alguém que não tenha perna, aceita, mas sofre.
      beijo!

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  6. Uma escolha brilhante.
    Bom fim de semana
    Beijinhos
    Maria de
    Divagar Sobre Tudo um Pouco

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  7. Olá Teresa, gosto das poesias de Florbela
    Estou com a Taís, nunca conheci um pobre resignado e calmo resignado com o sofrimento, aliás sofrimento ou resignação independem de pobreza, não no mundo em que
    vivo! Gostei da postagem dá o que pensar.
    beijinhos, Léah

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