06 abril, 2011

"Histórias de amor" - Robert Walser

“A fantasia tem olhos que tudo vêem”.

Robert Walser – “o poeta mais escondido que alguma vez existiu”, nasceu em Biel, na Suiça, em 1878.
Entre 1904 e 1933 publicou uma vasta e original obra poética e romanesca que entusiasmou a crítica da época, mas depressa foi votado ao esquecimento.
Filho de mãe esquizofrénica, vivia em permanente estado de depressão até que em 1929 decide entrar voluntariamente num manicómio. No dia de Natal de 1956 foi encontrado morto, na neve, por um grupo de crianças. Tinha saído para um dos seus habituais passeios solitários.
Volker Michels, um profundo conhecedor da obra de Robert Walser, seleccionou 80 das cerca de mil narrativas que o autor escreveu. São pequenas histórias sobre os sonhos da adolescência, sobre o erotismo e o amor, repletas de humor corrosivo, que nos enternecem e nos divertem vendo o autor brincar com o leitor, ou, como diz o próprio autor, são “tragédias em poucas linhas escritas por um novato”.
Veja-se estes pequenos excertos:
“Era uma vez uma rapariga que crescia num quartinho. O quartinho era simpático, a rapariga era bonita e engraçada., e disso mesmo se convencia diante do espelho que tinha por hábito interrogar. A casa onde se encontrava o quartinho que albergava a rapariga era apenas uma casinha. O juízo da rapariga era apenas um juizinho; o seu coração, só um coraçãozinho; a sua esperança, não mais que uma esperançazinha, e o seu pé, um pezinho apenas.
A rapariga era amada por um homem novo e bonito… A rapariga nova e bonita, por sua vez, também o amava, um pretexto para que o autor da presente historiazinha, conhecendo o enredo e o desenlace da mesma, se divirta às suas custas.”

“Um rapaz e uma rapariga, gente jovem a valer dos nossos tempos. Oskar e Emma de seu nome, amavam-se. Era profundo o seu amor, e ninguém duvidava menos e acreditava com mais fervor neste facto do que eles próprios. Até aqui tudo perfeito, só que havia qualquer coisa que lhes faltava, e vamos já dizer o que era esta qualquer coisa estranha e fabulosa que lhes faltava. Ninguém, para onde quer que olhassem, os impedia. Tinham licença, por assim dizer, para se amarem, beijarem, beijocarem e explorarem, sempre que para tal tivessem vontade. Mas era precisamente esse o problema: na ausência de entraves, cada vez menos tinham vontade de se dedicar a esta edificante ocupação. Os dois bons e excelentes jovens adoeciam por virtude de uma abundância de liberdade, e os seus suspiros tinham por motivo a falta de obstáculos."

“É uma tarefa cansativa, esta de contar histórias”.
Simplesmente irresistíveis!

Histórias de amor, de Robert Walser
Relógio d’Água, 2008
Tradução de Isabel Castro Silva
236 págs.

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