23 novembro, 2020

o ódio propaga-se

“Um pingo de ódio na tua alma é o suficiente para descolorir tudo, como um pingo de tinta preta no leite." (*)

Alguns dicionários definem ÓDIO como um intenso sentimento de raiva, rancor, ira, desprezo, aversão,  antipatia, repulsa, horror.
Todas palavras repelentes, emoções negativas sentidas vezes sem conta nas relações sentimentais e nas relações sociais.
Nas relações sentimentais, com demasiada facilidade o amor se transforma em indiferença, e mesmo em ódio. A forma deficiente como comunicamos uns com os outros, a forma fria como transmitimos os afectos, provoca desilusão e afastamento.
Nas relações sociais, o ódio manifesta-se nos fanatismos religiosos, com consequências trágicas; nos conflitos raciais, com fronteiras marcadas por preconceitos, e intolerâncias; nos grupos organizados, onde a agressividade sobrevive pelo poder do colectivo; nas redes sociais, onde discursos incendiários, insultos e ameaças são frequentes.
Eu, orgulhosamente, não odeio ninguém, nem me desgasto com atitudes tóxicas. Simplesmente, ignoro.
Aprendi a afastar-me de pessoas perturbadas, de comportamentos destrutivos, de venenos emocionais. 
A vida é demasiado preciosa, e curta, para ser desperdiçada desejando mal a alguém. 
Não me tenho dado mal! 
(Teresa Dias)


(*)  "O progresso do amor", de Alice Munro.

(foto Pinterest)

20 novembro, 2020

"Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos" - Olga Tokarczuk


«- Que mundo é este? Um corpo transformado em calçado, em almôndegas, em salsichas, em tapete estendido junto à cama, em caldo feito com os ossos de outro ser… Sapatos, sofás, malas de pendurar ao ombro feitas da barriga de outros seres, aquecer-se à custa do pelo de outrem, comer o corpo de outrem, cortá-lo aos pedaços e fritá-lo no óleo… Será verdade? Será possível tal pesadelo macabro, tamanha matança, cruel, desapaixonada, mecânica, sem pesos na consciência, sem a mínima reflexão, reflexão que é afinal o objectos dos engenhosos campos da Filosofia e da Teologia? Que mundo é este, onde a norma é matar e infligir dor? O que se passa realmente connosco? 
- A senhora está a exagerar (…)
- A senhora leva o assunto muito a peito (…) 
- A senhora é mesmo louca.» 

Publicado em 2009, "Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos” é uma surpreendente mistura de policial negro, fábula macabra bem doseada de humor, que questiona a nossa posição acerca dos direitos dos animais e responsabilidade sobre a natureza, bem como todas as ideias preconcebidas sobre a loucura, a justiça e a tradição. 
A acção decorre numa terriola polaca «não mais que meia dúzia de casas (…), longe do resto do mundo», onde o «vento não pára de soprar», e é difícil viver de Outubro a Abril. 
Ali vive, sozinha, a excêntrica idosa Janina Duszeijko, engenheira de pontes «construí pontes na Síria e na Líbia», professora reformada, tradutora, astróloga. 
Durante o inverno rigoroso Janina, continua a fazer rondas pelos campos e baldios; a cuidar da ponte sobre a ribeira;  a tomar conta das casas desabitadas dos vizinhos que vivem parte do ano na cidade. Resta-lhe tempo para ajudar um amigo a traduzir poemas de William Blake; interpretar os sinais dos astros; fazer horóscopos; ver tudo sobre Meteorologia na televisão; cuidar do cemitério dos animais; tratar das suas Maleitas (não saberemos quais são) «as minhas Maleitas aparecem traiçoeiramente e eu nunca sei quando». 
A pacatez dos dias desta mulher estranha, a quem chamam «velha tresloucada» por preferir a companhia dos animais à das pessoas, termina quando um dos seus vizinhos aparece morto, engasgado com um osso. Acidente ou crime? A esta morte seguem-se outras, violentas, todas de caçadores furtivos membros de um clube de caça local. 
«- Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!, Oh, meu Deus! - repetia mecanicamente, o que me tirou do sério, pois é sobejamente sabido que nenhum deus há-de vir para pôr ali as coisas em ordem.»
Então, a Dona Janina - protagonista-narradora desta história - decide investigar os estranhos homicídios e chega a uma teoria muito própria que espalhará o terror na comunidade.

Quer saber o que se passou naquele lugarejo agreste, onde  «as manhãs de Inverno são feitas de aço, têm um sabor metálico e arestas afiadas»? Não posso, não quero, não desvendo!
Genial, inteligente, surpreendente. Leia!
(o título deste romance é uma citação de William Blake)

Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk, Prémio Nobel de Literatura, 2019
Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Ed. Cavalo de Ferro, 2019
286 págs.

18 novembro, 2020

Versos (soltos) do poeta professor José Régio

Por caminhos só rectos, não sei ir.
Nos ínvios por que vou, não sei ficar.
Suspenso do passado e do porvir,
Venho e vou!, venho e vou!, não sei parar.



Sonho-te! Para te humilhar 
E me vingar da tua ausência, 
Nesse instante supremo, estrídulo, e vulgar, 
Em que o delírio atinge o cúmulo da urgência.


Na voz do mar só me ouço a mim, que choro;
Nos lamentos do vento, a mim me escuto;


Sim!, só a mim me entrego e me possuo,
Porque eu me basto para achar o mundo!


Tudo o que penso de mim, 
A minha boca o gritou.


Tinha alegrias profundas, 
Só comparáveis 
Aos meus desânimos… 
…Tenho-as.


Ah, se eu pudesse dizer tudo! E calo 
Cousas íntimas, novas, insondáveis e subtis, 
Todo esse mundo que desminto quando falo, 
Que eu valho…, mas pelo que a voz não diz.


Ai vida sem alegria,
Sem desespero nem nada!...
A gente deita-se..., é noite;
Levanta-se a gente..., é dia;



JOSÉ RÉGIO, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, foi um escritor, poeta, dramaturgo, romancista, novelista, contista, ensaísta, cronista, crítico, autor de diário, memorialista, epistológrafo e... (saiba mais, aqui)

Versos retirados do livro "Cântico Negro".

Fotos tiradas no paredão de Cascais.


16 novembro, 2020

Sou Dragão, no zodíaco chinês!


Sou do signo Virgem e DRAGÃO no zodíaco chinês.
Dizem os entendidos neste assunto (sinceramente, não me interessa por aí além mas respeito quem muito se interessa) que Dragão é um dos signos mais fortes e afortunados do Zodíaco chinês. Hum, hum!!!
Estes dois dragões foram comprados no país do sol nascente, com a promessa (do vendedor) de muita saúde, luz e serenidade, tudo o que necessito para levar a vida sorrindo.
Confesso que gosto de os olhar, apesar do sobressalto que sempre me causam os seus dentes afiados.


E você, sabe qual é o seu signo? Se não sabe procure aqui: https://www.horoscopochines.net/
Se pretender saber mais sobre o zodíaco chinês, leia aqui: Wikipédia

(Cá em casa eu sou Dragão e o maridão é Rato. Não queira saber o rebuliço que para aqui vai!)






Viagem à China (Pequim, Xi'an, Xangai, Cantão, Guanzhou, Hong Kong, Macau), em 2006.

13 novembro, 2020

A "peste" - Albert Camus

Ah! Se fosse um tremor de terra... Um boa sacudidela e não se fala mais nisso. Contam-se os mortos, os vivos e pronto. Mas esta porcaria desta doença! Até os que a não têm trazem-na no coração.
Sinopse: 
Na manhã de um dia 16 de Abril dos anos 1940, o doutor Bernard Rieux sai do seu consultório e tropeça num rato morto. Este é o primeiro sinal de uma epidemia de peste que em breve toma conta de toda a cidade de Orão, na Argélia. Sujeita a quarentena, esta torna-se um território irrespirável e os seus habitantes são conduzidos até estados de sofrimento, de loucura, mas também de compaixão de proporções desmedidas. 

“Houve no mundo tantas pestes como guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. (…) Quando rebenta uma guerra, as pessoas dizem: «Não pode durar muito, seria estúpido.» E, sem dúvida, uma guerra é muito estúpida, mas isso não a impede de durar. A estupidez insiste sempre e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. Os nossos concidadãos, a esse respeito, eram como toda a gente: pensavam em si próprios. Por outras palavras, eram humanistas: não acreditavam em flagelos. O flagelo não está à medida do Homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um mau sonho que vai passar. Ele, porém, não passa, e de mau sonho em mau sonho, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções. Os nossos concidadãos não eram mais culpados do que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo era ainda possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, as viagens e as discussões? Julgavam-se livres e nunca ninguém será livre enquanto existirem flagelos.” 
 
««Doutor, salve-o!» (...) «O senhor não tem coração», disseram-lhe um dia. Sim, ele tinha um coração. Servia-lhe para suportar as vinte horas por dia em que via morrer homens que haviam sido feitos para viver. »

«O gráfico dos progressos da peste, com a sua subida incessante, depois o longo planalto que lhe sucedera, parecia inteiramente reconfortante (…) na realidade, nada se podia prever, dado que a história das epidemias comportava saltos imprevistos.»

«O dia de Todos os Santos, nesse ano, não foi o que era costume (…) os cemitérios estavam desertos.»

- Tens medo, mãe?
- Na minha idade já se tem medo de pouca coisa.
- Os dias são mais compridos e eu agora nunca estou em casa.
- Não me faz diferença esperar, desde que saiba que vais chegar.

Ufa! Não foi fácil!
Agora, porque palavras minhas aqui não fariam qualquer sentido, digo apenas que "A Peste" - uma parábola de ressonância intemporal, um romance magistralmente construído, uma história arrebatadora sobre o horror, a sobrevivência e a resiliência do ser humano  -  foi publicado em 1947, repito, em 1947.
Leia. Se eu consegui ler, também conseguirá.

A peste, de Albert Camus - Prémio Nobel de Literatura, 1957
Livros do Brasil/Porto Editora, 2016
261 págs.

10 novembro, 2020

"há praias onde vale a pena morrer" (*)






















(*) Frase retirada do romance "O gesto que fazemos para proteger a cabeça" , de Ana Margarida de Carvalho.


Viagem à Jamaica (ClubHotel Riu Ocho Rios), em 2012.
Na terceira maior ilha do Caribe as praias têm um colorido estonteante: areia fina e branca, mar azul-turquesa cristalino, palmeiras verdes manchadas de amarelo. 
Praias inesquecíveis, lugares onde vale a pena... voltar!

06 novembro, 2020

"Teoria geral do esquecimento" - José Eduardo Agualusa


Este belíssimo romance - uma mistura de realidade com ficção - cruza histórias angolanas com a história de vida de Ludovica Fernandes Mano (Ludo), a portuguesa que na véspera da independência de Angola, sozinha, desamparada e aterrorizada com o evoluir dos acontecimentos, em vez de fugir opta por barricar-se em casa. Ergue uma parede no corredor que separa o seu apartamento do resto do prédio e ali se mantém enclausurada durante 28 anos. Faleceu na Clínica Sagrada Esperança, em Luanda, no dia 5 de Outubro de 2010, contava oitenta e cinco anos.
Ludo sobrevive com pouco, lê, escreve diários, poemas, reflexões, desenha a carvão nas paredes, olha através da janela para uma Luanda a cada dia mais violenta, louca.  
Testemunhos de Ludo: 
«OS DIAS DESLIZAM COMO SE FOSSEM LÍQUIDOS. Não tenho mais cadernos onde escrever. Também não tenho mais canetas. Escrevo nas paredes, com pedações de carvão, versos sucintos. Poupo na comida, na água, no fogo e nos adjetivos. »

«A fraqueza, a vista que se esvai, isso faz com que tropece nas letras, enquanto leio. Leio páginas tantas vezes lidas, mas elas são já outras. Erro, ao ler, e no erro, por vezes, encontro incríveis acertos. No erro me encontro muito. 
Algumas páginas são melhoradas pelo equívoco. 
Se ainda tivesse espaço, carvão e paredes disponíveis, poderia escrever uma teoria do esquecimento. 
Dou-me conta de que transformei o apartamento inteiro num imenso livro. Depois de queimar a biblioteca, depois de eu morrer, ficará só a minha voz. 
Nesta casa todas as paredes têm a minha boca.»

«SINTO MEDO DO QUE ESTÁ PARA ALÉM DAS JANELAS, do ar que entra às golfadas, e dos ruídos que traz . Não compreendo as línguas que me chegam lá de fora, que o rádio traz para dentro de casa, não compreendo o que dizem, nem sequer quando parecem falar português, porque o português que falam já não é o meu.»
Para quem escrevo?
Escrevo para quem fui. Talvez aquela que deixei um dia persista ainda, de pé e parada e fúnebre, num desvão do tempo - numa curva, numa encruzilhada - e de alguma forma misteriosa consiga ver as linhas que aqui vou traçando, sem as ver.

"Teoria geral do esquecimento" (2012), inicialmente escrito para argumento cinematográfico, venceu o Prémio Literário Fernando Namora, em 2013; foi finalista do Man Booker International, em 2016; venceu o International Dublin Literacy Award, em 2017 (prémio atribuído pela primeira vez a um livro originalmente escrito em português).
Em Nota Prévia diz o autor:“(…) fotografias da autoria do artista plástico Sacramento Neto (Sakro), sobre os textos e desenhos a carvão (…) os diários, poemas e reflexões de Ludo ajudaram-me a reconstruir o drama que viveu. Ajudaram-me, creio, a compreendê-la. Nas páginas que se seguem aproveito muitos dos testemunhos dela. O que vão ler, contudo, é ficção. Pura ficção.” 

Ora bem, porque não devemos desvendar as histórias que nos contam, para saber mais sobre a vida desta portuguesa de Aveiro vai ter de ler tudo o que eu li.
Não se esqueça, leia.

Teoria geral do esquecimento, de José Eduardo Agualusa
Ed. Quetzal, 2018
233 págs.

03 novembro, 2020

a VIDA numa só linha

"A vida é toda feita de coincidências."
JOSÉ SARAMAGO, in “O ano da morte de Ricardo Reis”

"A vida é uma farsa."
PHILIPPE CLAUDEL, in “O arquipélago do cão"

"A vida é o que fazemos dela"
FERNANDO PESSOA, in “Livro do desassossego"

"A vida é um saco muito pesado."
J.M.G. LE CLÉZIO, in “A música da forme"

"A vida é um colar."
MIA COUTO, in “O fio das missangas"

"A vida é uma luta de todos contra todos."
MILLAN KUNDERA, in “A festa da insignificância"

"A vida é o que se vê nos olhos das pessoas."
VIRGINIA WOOLF, in “Contos"


Fotos tiradas nos jardins do HOTEL VILA GALÉ COLLECTION PALÁCIO DOS ARCOS, Paço de Arcos / Portugal.