"- Está a chover com toda a força.
- E hás-de amar-me sempre, é verdade?
- Hei-de.
- E a chuva não fará diferença?
- Não.
- Ainda bem. Porque eu tenho medo à chuva.
- Porquê?
- Não sei, querido. Sempre tive medo à chuva.
- Eu gosto dela.
- Gosto de passear à chuva. Mas é mau para o amor.
- Eu hei-de-gostar sempre de ti.
- Hei-de amar-te quer chova, quer neve, quer saraive e… que mais é?
- Não sei. Creio que estou com sono.
- Dorme, querido, hei-de amar-te de qualquer maneira.
- Não tens de facto medo à chuva, pois não?
- Quando estou junto de ti não tenho.
- Porque tens medo dela?
- Não sei.
- Diz.
- Não quero.
- Diz.
- Não.
- Diz.
- Está bem. Tenho medo à chuva porque às vezes vejo-me morta no meio dela."
- Não!"
18 novembro, 2014
16 novembro, 2014
Vale a pena ler... José Pacheco Pereira
"Vale a pena ler livros novos?
Todas as vezes que lemos um livro deixamos de ler outro. É mesmo assim, positivo e negativo, para os poucos milhares de livros que podemos ler, mesmo sendo grandes leitores. Já uma vez fiz este cálculo e na melhor das hipóteses, numa vida de grande leitor, dificilmente se pode ultrapassar os 4000-5000 livros e já a contar por cima.
…
Vale a pena ler livros novos? Ou dito de outra maneira, se não temos tempo para ler o património fundamental da literatura dos últimos 2500 anos, vale a pena perder tempo a ler livros “novos”, a esmagadora maioria dos quais desaparece da memória literária a alta velocidade, porque, no fundo, nada tinham a acrescentar de novo ao património anterior?
…
Não está tudo já escrito e reescrito com qualidade já testada e com real ligação com o que de mais indispensável existe na nossa história cultural? Como podemos viver sem Ibsen, Molière, Bocaccio, Stendhal, Cervantes, Safo, Virgílio, mesmo quando já não temos tempo para os ler como merecem sem também já escolhermos entre Proust ou Claudel, ou Dickens e Conrad, ou Nabokov e Updike?
…
É um problema que tem sentido colocar, porque, sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema. Tem de existir por isso argumentos a favor de o “novo” por testar e perder assim algo do antigo já testado."
Vale a pena ler excelentes crónicas, como esta publicada no jornal Público de 15 Novembro 2014
(foto tirada da net)
14 novembro, 2014
"Com a cabeça nas nuvens" - Susanna Tamaro
… para a minha fuga não acabar por se converter numa série de movimentos desordenados e inúteis, deveria ter uma meta precisa e que essa meta só poderia ser o império do tio Isaac, lá longe, naquele país onde tudo podia acontecer, isto é, na América.
Este romance de Susanna Tamaro – galardoado em 1989 com o Prémio Elsa Morante – relata a história de um adolescente que procura escapar ao destino inevitável de se tornar adulto refugiando-se num mundo de sonhos, fantasia e liberdade.
Ruben, o protagonista e narrador da história, vive com a avó e a bisavó (ambas mudas e cegas) nunca casa grande onde impera o silêncio, a tranquilidade e muita liberdade. Quando Ruben fez quinze anos e um professor chegou à casa grande para acompanhar a sua educação, a vida tranquila começou a esboroar-se como um biscoito sob as lagartas de um carro de combate.
O professor é severo, exigente e obriga-o a cumprir regras.
Era indispensável descobrir o mais depressa possível um remédio para aquela tirania.
Como as avós não o podem salvar, Ruben foge, rumo à América, onde crê ser possível continuar a ser criança. A viagem é mirabolante e hilariante.
Desiludido, Ruben regressará a casa e descobrirá que...
… não vou contar mais nada, logo, vai ter que ler para saber.
Vale a pena conhecer o Ruben.
Leia e divirta-se!
Com a cabeça nas nuvens, de Susanna Tamaro
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
Ed. Presença, 1996
123 págs.
11 novembro, 2014
"As pontes da vida" - Vítor Gomes e Alfredina Ribeiro
TRAPOS DE TERNURA
Sabes
Queria ter sido a tua boneca
Feita de trapos e segredos
Pintada com as cores
Da tua inocência
E vestida com mil afectos
Queria ter sido a tua boneca
Para descobrir o mundo contigo
Dentro do teu próprio mundo
Recolheria os teus medos
Mas noites escuras da imaginação
Queria ter sido a tua boneca
Para te ver crescer na vida
E caminhar por ela suavemente
Queria ter sido a tua boneca
E sobre as rugas do tempo
Saborear os frutos da tua existência
Em velhas brincadeiras com sangue novo
Queria ter sido a tua boneca
Para um dia te ver partir
Na empoeirada prateleira da memória
Carregada de sonhos escondidos
Num recanto profundo da tua alma
Queria sido a tua boneca.
Lindo, lindo, lindo!
Sabes
Queria ter sido a tua boneca
Feita de trapos e segredos
Pintada com as cores
Da tua inocência
E vestida com mil afectos
Queria ter sido a tua boneca
Para descobrir o mundo contigo
Dentro do teu próprio mundo
Recolheria os teus medos
Mas noites escuras da imaginação
Queria ter sido a tua boneca
Para te ver crescer na vida
E caminhar por ela suavemente
Queria ter sido a tua boneca
E sobre as rugas do tempo
Saborear os frutos da tua existência
Em velhas brincadeiras com sangue novo
Queria ter sido a tua boneca
Para um dia te ver partir
Na empoeirada prateleira da memória
Carregada de sonhos escondidos
Num recanto profundo da tua alma
Queria sido a tua boneca.
Lindo, lindo, lindo!
07 novembro, 2014
"O triunfo dos porcos" - George Orwell
Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.
Duvido que haja alguém que não tenha lido este romance satírico de George Orwell, - uma critica aos regimes políticos totalitários do século XX, nomeadamente a ditadura repressiva e violenta exercida por Josef Stalin na União Soviética, entre 1922 1953 - que narra a revolta dos animais da Quinta «Manor» contra a exploração e dominação dos humanos, e aborda temas como corrupção, traição, opressão e exploração.
Não deis ouvidos a quem vos disser que o homem e os animais têm interesses comuns, que a prosperidade de uns é a prosperidade dos outros. Isso é tudo mentira! Afirmava o velho porco Major, cérebro da revolta que levará ao afastamento do proprietário da quinta, o Sr. Jones.
Depois da morte de Major, dois porcos robustos e inteligentes assumem a liderança da quinta: Snowball e Napoleão. Como ambos sabem ler e escrever, cabe-lhes a missão de condensar os princípios dos Animais em sete mandamentos:
1) Tudo o que anda com dois pés é inimigo.
2) Tudo o que anda com quatro patas ou tem asas é amigo.
3) Nenhum animal usará roupa.
4) Nenhum animal dormirá na cama.
5) Nenhum animal beberá álcool.
6) Nenhum animal matará outro animal.
7) Todos os animais são iguais.
Para os animais menos inteligentes, incapazes de aprender os sete mandamentos, Snowball cria a máxima: «Quatro pernas bom, duas pernas mau» e todos se entendem.
Passa o verão, passa o outono, e no inverno gelado a polémica à volta da construção de um moinho de vento abala a liderança dos dois porcos. Vão a eleições. Os restantes animais, divididos em dois grupos, gritam palavras de ordem:
- Votai por Snowball e três dias de trabalho por semana!
- Votai por Napoleão e muita comida!
Napoleão, seduzido pelo poder, não espera pela contagem dos votos e, com a ajuda do seus cães, expulsa Snowball. De seguida, estabelece na quinta uma ditadura opressiva e corrupta, muda-se para casa do Sr. Jones, dorme na cama, bebe álcool, executa outros animais, anda sobre as duas patas traseiras, altera o texto de alguns mandamentos.
A vida é dura para os restantes animais, mas não deixam de aclamar o líder «Nosso Chefe, Camarada Napoleão».
Na primavera, a Animal Farm proclama a República e Napoleão é eleito, por unanimidade, presidente.
Na quinta, agora mais próspera e melhor organizada, apenas enriquecem os porcos e os cães.
Os mais velhos recordam os primeiros tempos da Revolta, sem perder a esperança nem o sentimento da honra e do privilégio de fazem parte da Animal Farm.
Actualíssimo, não?!
Se ainda não leu, por favor leia.
O Triunfo dos porcos, de George Orwell
O Triunfo dos porcos, de George Orwell
Tradução de Maria Antunes
Ed. Perspectivas e Realidades, 1980
111 págs.
04 novembro, 2014
3º - Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?
“Está demonstrado, portanto, que o revisor errou, que se não errou confundiu, que se não confundiu imaginou, mas venha atirar-lhe a primeira pedra aquele que não tenha errado, confundido ou imaginado nunca. Errar, disse-o quem sabia, é próprio do homem, o que significa, se não é erro tomar as palavras à letra, que não seria verdadeiro homem aquele que não errasse. Porém esta suprema máxima não pode ser utilizada como desculpa universal que a todos nos absorveria de juízos coxos e opiniões mancas, Quem não sabe deve perguntar, ter humildade, e uma precaução tão elementar deveria tê-la sempre o revisor…”
Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!
O título do livro nº 2 é:
“O ano da Morte de Ricardo Reis”, Editorial Caminho, 1984
01 novembro, 2014
"A rainha da neve" - Michael Cunningham
As visões são respostas. Respostas implicam perguntas.
Nas primeiras dezassete páginas deste romance, o protagonista Barrett Meeks é maltratado pelo amor e dias depois vê no céu uma luz celestial. Como o romance tem 278 páginas, a história promete, não?
Novembro 2006
(Não vão reeleger George Bush. Não podem reeleger George Bush.)
(Não vão reeleger George Bush. Não podem reeleger George Bush.)
Barrett Meeks está a viver mais um desgosto amoroso. O seu último amante, um canadiano de forte compleição que chegou a dizer-lhe “Podia até amar-te”, com quem partilhara cinco meses de sexo, comida e piadas, pusera fim à relação, inesperadamente e por SMS: Olá Barrett. Calculo q sabes do q se trata. Olha, demos o melhor de nós, certo?... Desejo-te felicidades e sorte no futuro. xxx
Aos trinta e oito anos, Barrett já passou por várias separações abruptas e dolorosas - nunca comunicadas por mensagem - mas continua a não saber lidar com o desamor.
Quatro dias depois, quando caminha de cabeça baixa pelo Central Park, dirigindo-se para casa depois de um exame dentário, é impelido a olhar para o cima e vê no céu uma luz a olhar para ele. Não. A olhar, não. A captá-lo. É uma pálida luz azul-cobalto, translúcida, um retalho de véu, à altura das estrelas, que logo depois se desvanece e deixa no céu a normal escuridão nocturna.
Por momentos, Barrett - que não acredita em visões, nem em Deus - continua parado a olhar para o céu, depois, incrédulo e perturbado, prossegue o caminho para casa. (Casa que não é sua. A sua perdeu-a e como não tinha dinheiro para alugar outra, foi viver com Tyler e Beth).
Tyler é o seu irmão mais velho. Tem quarenta e três anos, é formado em Ciência Política, é um músico falhado que toca em bares. De momento, Tyler busca inspiração nas drogas, que esconde na gaveta da mesa-de-cabeceira, para compor a mais bela canção de amor para Beth, a noiva que luta contra um cancro em fase terminal. Mas voltemos a Barrett.
Na manhã seguinte a ter visto a estranha luz, durante a sua corrida habitual de dois quilómetros, a pergunta surge: O que é que a luz quereria, precisamente, que ele levasse por diante ou fizesse?
Barrett vai manter tudo como está: o regime de exercício e dieta sem hidratos de carbono; a releitura de Flaubert; o emprego na loja de venda a retalho de Liz, (ainda não disse, mas Barrett formou-se em Yale); o quarto em casa do irmão, num bairro pobre de Brooklyn; a procura do verdadeiro amor.
Barrett, o jovem que parecia tão obviamente destinado a voos vertiginosos, está à beira da catástrofe: falido e destroçado. Talvez comece a ir à igreja.
Acabou, não desvendo mais…
Novembro 2008
(Este país não está preparado para um Presidente negro.)
Terá Barrett encontrado o amor?
Tyler é o seu irmão mais velho. Tem quarenta e três anos, é formado em Ciência Política, é um músico falhado que toca em bares. De momento, Tyler busca inspiração nas drogas, que esconde na gaveta da mesa-de-cabeceira, para compor a mais bela canção de amor para Beth, a noiva que luta contra um cancro em fase terminal. Mas voltemos a Barrett.
Na manhã seguinte a ter visto a estranha luz, durante a sua corrida habitual de dois quilómetros, a pergunta surge: O que é que a luz quereria, precisamente, que ele levasse por diante ou fizesse?
Barrett vai manter tudo como está: o regime de exercício e dieta sem hidratos de carbono; a releitura de Flaubert; o emprego na loja de venda a retalho de Liz, (ainda não disse, mas Barrett formou-se em Yale); o quarto em casa do irmão, num bairro pobre de Brooklyn; a procura do verdadeiro amor.
Barrett, o jovem que parecia tão obviamente destinado a voos vertiginosos, está à beira da catástrofe: falido e destroçado. Talvez comece a ir à igreja.
Acabou, não desvendo mais…
Novembro 2008
(Este país não está preparado para um Presidente negro.)
Terá Barrett encontrado o amor?
- Queres contar-me o que era aquilo sobre uma luz? – pergunta Sam.
- Isso é uma história estranha. – diz Barrett.
- Eu gosto de histórias estranhas.
- Gostas, não gostas? Gostas mesmo de histórias estranhas.
De estranho não tem nada este romance “brilhante”, inteligente, divertido e comovente, sobre as emoções humanas. A trama está bem urdida. As personagens são consistentes e cativantes. A escrita é, como tudo o que o autor já nos deu a ler, envolvente.
Falta apenas dizer que me fascinou a ligação fortíssima dos irmãos Meeks; me emocionou o amor de Tyler por Beth; me cativou a força de Liz (a patroa de Barrett) e o seu amor estranho e secreto por... não digo.
Gostei!
(Mas continuo a preferir... "Sangue do meu sangue".)
Gostei!
(Mas continuo a preferir... "Sangue do meu sangue".)
A rainha da neve, de Michael Cunningham
Tradução de Lucília Filipe
Ed. Gradiva, 214
278 págs.
28 outubro, 2014
O Céu piscou-te o olho, não foi?... em "A rainha da neve", de Michael Cunningham
"O Céu piscou-te o olho, não foi? Talvez. Talvez o tenha feito. Ou talvez fosse apenas um avião ou uma nuvem. Mas, se o Céu pisca o olho a qualquer pessoa, é provavelmente aos menos evidentes, aos que procuram entre trapos e farrapos do lixo, àqueles que optam pela vereda em vez da avenida, o buraco na sebe em vez dos portões triunfais. Talvez por isso não existam provas verificáveis, não é? O universo só pisca o olho àqueles em que ninguém irá acreditar.”
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