17 abril, 2015

"A história do amor" - Nicole Krauss

Era uma vez um rapaz que amava uma rapariga, e o riso dela era uma pergunta que ele queria passar a vida inteira a responder.
É lindíssimo este romance. Lindo, misterioso, desconcertante.
Entrelaça memórias de Leo e de Alma, narradores de uma história original, cheia de ternura, amor e humor.
Leo Gursky é um velho e solitário judeu polaco a viver na América, que tenta sobreviver mais algum tempo, batendo no radiador todas as noites  para dar a saber ao seu vizinho de cima que ainda está vivo. 
Muitos anos passaram desde o seu nascimento numa aldeia polaca. Aldeia onde aos dez anos se enamorou de uma menina da mesma idade e pediu-a em casamento. Amavam-se. Tinham dezassete anos quando o pai da rapariga a mandou para a América. Ele ficou. No verão de 1941 foram mortos milhares de judeus. Ele passou três anos e meio escondido na floresta, a pensar na rapariga. Tornou-se invisível e escapou  à morte. E escreveu um livro sobre o amor que o salvou.
Embora ele o não saiba, esse livro também sobreviveu, atravessou oceanos e gerações e mudou vidas.
Vai saber, antes de morrer.
Alma Singer. Assim chamada em honra de todas as personagens femininas de um livro chamado A História do Amor. Livro escrito por um jovem polaco de vinte anos apaixonado. Livro que a mãe lia e relia sem cessar.
Leo e Alma. O que os une?
Mistério!

Cito Alma, porque gosto:
SEMPRE QUE EU SAÍA PARA BRINCAR, A MINHA MÃE QUERIA SABER EXACTAMENTE ONDE É QUE EU ESTAVA
"Quando eu entrava, ela chamava-me ao seu quarto, tomava-me nos braços, e cobria-me de beijos. Afagava-me o cabelo e dizia, «Gosto tanto de ti», e quando eu espirrava, ela dizia, «Santinho, sabes como eu gosto de ti, não sabes?», e quando eu me levantava para ir buscar um lenço de papel ela dizia, «Deixa estar que eu vou-to buscar, gosto tanto de ti», e quando eu procurava uma caneta para fazer os trabalhos de casa ela dizia, «Usa a minha, tudo por ti» e quando eu tinha uma comichão na perna ela dizia, «É aqui neste sítio, deixa-me dar-te um abraço», e quando eu dizia que ia subir para o meu quarto ela vinha atrás de mim e dizia, «O que é que eu posso fazer por ti, gosto tanto de ti», e eu tinha sempre vontade de dizer, embora nunca o dissesse: não gostes tanto de mim."

O MURO DE DICIONÁRIOS ENTRE A MINHA MÃE E O MUNDO TORNA-SE MAIS ALTO A CADA ANO QUE PASSA
"Às vezes as páginas dos dicionários soltam-se e juntam-se aos seus pés, chalmugra, chalo, chaloca, chalorda, chalota, chalrar, chalreada, como as pétalas de uma flor imensa. Quando eu era pequena pensava que as páginas no chão eram palavras que ela nunca mais poderia voltar a usar, e tentava colá-las novamente no sítio onde pertenciam, com medo que um dia ela ficasse sem palavras."
Há mais, muito mais.
Procure. Deslumbre-se.

A história do amor, de Nicole Krauss
Tradução de Pedro Serras Pereira
Ed. Dom Quixote, 2006
319 págs.

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