01 Junho, 2012

"O amor nos tempos da cólera" - Gabriel García Márquez

Só Deus sabe quanto te amei.
Estas foram as últimas palavras do doutor Juvenal Urbino para Fermina Daza, a mulher com quem viveu um casamento de cinquenta anos.
Mas podiam ser as primeiras palavras de Florentino Ariza para Fermina Daza, agora viúva, no primeiro encontro a sós, depois de cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias de amor eterno.
E é essa longa história de amor que Gabriel García Márquez conta neste extraordinário romance. E conta-a de forma mágica, sem pressa, como só ele sabe.
Mas vamos à história em que os sintomas do amor são idênticos aos da cólera.
Local: uma pequena cidade do Caribe. Tempo: final do séc. XIX, princípio do séc. XX.
No dia do funeral do doutor Juvenal Urbino, Florentino Ariza vai apresentar condolências a Fermina Daza e repete-lhe o juramento da fidelidade eterna e do seu amor para sempre.
O amor torna-se maior e mais nobre na adversidade.
Tinham passado cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias sobre o momento em que Fermina, então com dezoito anos, o repudiara e apagara da sua vida, depois de um longo namoro de cartas diárias, serenatas pungentes, poemas suplicantes e flores perfumadas.
Já Florentino, que na altura do rompimento tinha vinte e dois anos, pensara nela todos os dias, mantendo a paixão viva à custa de memórias, numa solidão sem revolta, atenuada esporadicamente em relações ocasionais.
As memórias de um e outro são o corpo principal deste romance, um verdadeiro hino ao amor, à velhice, à morte.
…a memória do coração elimina as más recordações e exalta as boas e, graças a esse artifício, conseguimos suportar o passado.
Tudo começa com a casual troca de olhares de Florentino (funcionário dos Correios) e Fermina (estudante e filha de um comerciante de mulas); segue-se um atribulado e secreto namoro de três anos de correspondência apaixonada; continua com a partida dela para a viagem do esquecimento (por imposição do pai); o regresso ano e meio depois; a carta dela que o deixa à beira da loucura: Hoje, quando o vi apercebi-me que o que se passou connosco não foi mais do que uma ilusão; a desilusão dele; o casamento dela com um médico e a entrada na sociedade; a decisão dele de ganhar nome e fortuna para a recuperar; o afastamento silencioso de ambos até à primeira noite de viuvez de Fermina.
Florentino Ariza sabia que estava predestinado a fazer feliz uma viúva, e que ela o faria feliz, e isso não o preocupava. Pelo contrário: estava preparado.
Assim aconteceu, num dos mais belos finais que já li.
Foi um prazer voltar a este romance fabuloso!
Como diz João de Melo (na Introdução): É um livro para viver.

O amor nos tempos da cólera, de Gabriel García Márquez
Círculo de Leitores, 1987
Tradução de Margarida Santiago
365 págs.

30 Maio, 2012

Vale a pena partilhar... Princesa Laurentien da Holanda


P: Pode dar-me um exemplo de algo que ajude a combater a iliteracia?
R: Ler em voz alta. Não custa dinheiro – o que, em tempos de crise económica, é uma solução low-cost. E podemos fazê-lo desde o início da vida de uma criança, em bebé. Mas requer um contexto familiar em que tem de se investir: A escola só não basta. E, aí, nem todos os adultos têm noção do papel que podem desempenhar na literacia das crianças.
P: Lê alto para os seus filhos?
R: Todos os dias. E, quando não estou em casa, alguém lê para eles. Fazemos isso desde que têm 6 meses. Percebo perfeitamente que pareça estranho ler em voz alta para um bebé de 6 meses. O meu próprio marido achou que eu era louca. Podem ser livros muito simples. Mas devemos tornar os pais conscientes da importância desse ato.

Excerto da entrevista publicada na Revista, jornal Expresso, de 19 Maio 2012
Foto tirada da net.

29 Maio, 2012

Fiquei sem palavras...

Pois é, "perdi-me de amores" por uma lua cheia e luminosa que avistei da minha janela e fiquei sem palavras para o meu rol.
Não há drama...

25 Maio, 2012

"A livraria" - Penelope Fitzgerald

Um bom livro é o precioso sangue vital de um espírito mestre, embalsamado e entesourado de propósito para uma vida para lá da vida, e como tal deverá seguramente ser um bem de primeira necessidade.
Em 1959, Florence Green, uma mulher de meia-idade, solitária, pequena, delgada e seca, decide abrir uma livraria, em Hardborough.
Será a primeira livraria de Hardborough, uma vila costeira longe de tudo e onde tudo falta, uma vila fria e triste.
Com a pequena soma que o falecido marido lhe deixara, e um empréstimo bancário, compra a Old House, um edifício há muito abandonado e em mau estado de conservação, que diziam estar assombrado. Ali vai viver. Ali vai instalar a sua livraria. Ali vai abrir, depois, uma biblioteca. Ali vai enfrentar as pessoas que se julgam importantes, a traição, a inveja e até forças naturais adversas.
Ouve quem a avisasse: Diz-se por aí que está prestes a abrir uma livraria. Isso demonstra que está preparada para enfrentar coisas imprevisíveis.
Está preparada?
Não!
O negócio é sabotado desde o primeiro dia. À frente dos sabotadores está Mistress Gamart, uma mulher má e poderosa, que vai fazer tudo para fechar a livraria.
A Florence só resta o apoio de Christine, uma garota de dez anos, a sua assistente, a sua ajudante, a sua companhia nos finais de tarde frios e cinzentos na livraria.
Seis meses depois da abertura, seis meses de muito esforço, seis meses de poucos lucros e muitos dissabores, um cliente sugere a Florence que encomende e coloque à venda a primeira edição de Lolita, de Nabokov. Será a sua fortuna, diz-lhe.
Florence hesita e pede conselho ao velho e solitário Mr. Brundish, o habitante mais culto da vila, aquele que a incentiva a manter o negócio.
Diz-lhe ele: É de facto um bom livro e, portanto, deveria tentar vendê-lo aos habitantes de Hardborough. Não irão compreendê-lo, mas melhor assim. Compreender torna a mente indolente.
Quando Lolita chega à livraria, os lucros aumentam proporcionalmente à fúria dos habitantes. A vila sofre um “terramoto” devastador.
Estranhamente, a seguir o Parlamento aprova uma lei que viabiliza a aquisição compulsiva da Hold House para ali ser instalado um Centro de Artes.
Cansada e derrotada, Florence começa a suspeitar que: uma terra sem uma livraria é, muito possivelmente, uma terra que não merece qualquer livraria.
O que fará?
Gostei de ler esta história triste sobre o mundo dos livros, sobre os sonhos e as vicissitudes da vida.
Falta-lhe, talvez, um pouco mais de “corpo”. O enredo é interessante e envolvente e as personagens convincentes, mas no final experimentamos aquela sensação de… falta aqui algo.
A caracterização das personagens é perfeita. Sentimos desagrado por Mistress Gamart, uma mulher sem escrúpulos; simpatia por Mr. Brundish, um velhinho que admira a virtude e a coragem do ser humano; carinho por Christine, uma estudante-trabalhadora com talento para a organização e classificação de livros; assombro por Mr. Keble, o gerente bancário, não ler porque isso exigia tempo.
Como disse o Daily Mail - Um livro que é uma jóia.

A livraria, de Penelope Fitzgerald
Clube do Autor, 2011
Tradução de Eugénia Antunes
174 págs.

22 Maio, 2012

Poema de... Ana Marques Gastão

PAPIRO
Branco pranto em folha de papiro. As palavras deste texto são abandono, reflexo antigo, regresso em excesso a um tempo solar; modificam um rumo, o nosso, contraditório, irreal, não permitem a fala, o vocabulário abissal, agitam-se, sobem, riem, extenuam-se, inauditas, revoltam-se, possuem, pálidas, um resto de luz; são caligrafia deformada, sonoridade anterior, restauro, esboço, bosque. As palavras deste texto são a outra que me vê em branco pranto numa folha de papiro onde me firo afinal.

Poema de Ana Marques Gastão, Portugal (1962-)
Desenho de Almada Negreiros, Portugal (1893-1970)

18 Maio, 2012

"Um amor feliz" - David Mourão-Ferreira

… sempre me fez a maior impressão o raio de semelhança que existe entre a palavra «adulto» e a palavra «adúltero».
Adultos, adúlteros. Curioso!
David Mourão-Ferreira (1927-96) era já autor consagrado com vários contos, novelas, textos para teatro, ensaios e poesia publicados, quando, na década de oitenta, se estreia no romance e publica “Um amor feliz”.
No ano da sua publicação, 1986, este romance conquistou vários prémios e o reconhecimento dos leitores e críticos, que o consideraram um dos mais belos romances publicados em língua portuguesa no séc. XX.
Li pela primeira vez este romance em 1990, na tranquilidade de umas férias junto ao mar, e recordo que estranhei a narrativa original, arrojada e por vezes despudorada, utilizada pelo autor para contar uma história de amor.
Recordo que estranhei, ainda mais, a forma nua e crua, mas ao mesmo tempo fantástica, como é retratado o universo feminino.
Sabendo nós que a imagem de sedutor sempre se colou à pele de David Mourão-Ferreira – poeta dos amores e dos sentidos – entendemos o conhecimento e aplaudimos a subtileza.
O romance é feito de memórias desfolhadas pelo narrador / personagem, um artista plástico, próximo dos sessenta anos, casado, à mulher que lhe confiou a fórmula de certas circunstâncias indispensáveis à existência de “um amor feliz”: uma pessoa casada… só com outra pessoa casada.
Memórias de vários amores e desamores, encontros e desencontros, destacando-se a história de amor vivida com uma mulher estrangeira – a quem chama simplesmente Y – vinte e um anos mais nova e também ela casada.
Tal como o nome, ainda menos que o nome, também a idade não deveria ter grande importância. Mas tem. Oh, se tem!
Mas enganem-se os que pensam que este romance se limita a descrever simples relações adúlteras.
Não!
O autor faz um retrato impiedoso de Lisboa e do país: a crise de valores, a opressão social e política, a crise económica e muito, muito mais.
Como é triste Lisboa
em tempos de amores vivos!
… fala de forma enternecedora sobre a família, os amigos, a vida, a doença e a morte, os segredos, a alegria e a tristeza, a arte e a cultura: a relação com a mulher, pediatra; a relação com a mãe, doente; o regresso aos amigos do passado; o enfado com os conhecidos do presente.
… descreve de forma poética o trabalho e os encontros adúlteros no espaço do atelier – onde o Amor era o centro do Mundo - poesia que, aliás, perpassa por todo o livro.
Os amores felizes não têm história.
Será?
Vou lembrar e guardar para reler de novo este extraordinário romance, escrito em português.
Se ainda não leu... corra a ler!

Um amor feliz, de David Mourão-Ferreira
Presença, 1986
299 págs.

15 Maio, 2012

Contos de... Nelson Saúte

Contos, contos e mais contos.
Não há dúvida, este ano estou “virada” para os livros de contos.
Este é um pequenino livro (126 págs.) de um escritor moçambicano (o meu país do coração), com dez histórias sobre tradições relacionadas com a morte e o ritual dos funerais.
Dez histórias mágicas sobre um povo que aceita a morte como a continuidade da vida
Mórbido? Nem pensar.
Magnífico!

Sobre este livro, disse Mia Couto:
“Este Rio dos Bons Sinais” é uma deambulação pela história recente de um país recém-chegado ao mundo e de gente que não se demarcou do estado de fantasma. Há, nestas histórias, mortos que encontram a Morte, homens de luto perpétuo que apenas visitam a vida nas cerimônias fúnebres, jovens que amanhecem pendurados numa corda de sisal. A morte atravessa todos estes relatos mas a sua marca não é a do definitivo desfecho: os mortos permanecem vivos, eternos sussurra dores de luzes e lendas”.

Começa assim a história “A sombra vagabunda”:
- Estou a apodrecer vivo.
Olhei para trás e dei de chofre com o homem que pronunciara aquela frase. Mais do que uma pessoa parecia o fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixamente. Tinha um olhar que encenava a sua própria tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e parecia levitar. Caminhava empurrado pela aragem. Com ele, havia a manhã de sol e algum frio naquele sábado findava. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.
Gostei!
Kanimambo, Nelson Saúte.

11 Maio, 2012

"Para uma voz só" - Susanna Tamaro

A vida é tudo menos sábia.
Numa “sessão” de arrumação das estantes cá de casa (onde já não cabem mais livros – socorro!) encontrei este livro de Susana Tamaro, comprado em 1997 e que nunca li.
Estranho porque, por norma, eu só coloco os livros na estante depois de lidos. Até lá andam à deriva no sofá, na mesa-de-cabeceira e até em torres inestéticas, mas estáveis, que crescem por todo o lado.
Este escapou à norma.
Curiosa, abri-o de imediato e deparei-me com um conjunto de contos (eu que gosto tanto de livros de contos deixei escapar este), cinco no total, e que contos…
Diz a sinopse: São histórias de crianças solitárias, ultrajadas, tristes; de criaturas expostas, denunciadoras de um mal-estar contemporâneo que transparece nas palavras dos seus diários, dos seus diálogos.
E são mesmo!
São histórias belíssimas mas terríveis sobre a vulnerabilidade e o sofrimento infantil, temas que muitos continuam a ignorar.
São histórias brutais que arrepiam a alma, nos afligem o coração e nos inquietam os sentidos.
São histórias que podem passar-se na nossa casa, na casa de familiares, na casa de amigos, na casa de um vizinho, e que nós ou não vemos ou não queremos ver.
São histórias contadas por uma escritora sensível e inteligente que nos encaminha, com subtileza, pelas profundezas da alma humana.
Dizem que os papões já não existem, mas os papões ainda existem. O meu pai de dia é advogado e de noite é um papão. Quando estou a dormir e tenho medo que a porta se abra, agarro-me ao Teddy. O Teddy é o meu urso, há muito tempo que somos amigos.
Aconselho este livro a todas as mães, ou melhor, a todas as mulheres, ou melhor ainda, a toda a gente.
Comprem, leiam, deslumbrem-se… e desculpem a noite de insónias.
Seja como for, amanhã é um novo dia.

Para uma voz só, de Susanna Tamaro
Editorial Presença, 1997
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
157 págs.

08 Maio, 2012

Desafio nº 6: Espelho meu, espelho meu, há quem não saiba quem isto escreveu?

Aureliano Buendía e Remedios Moscote casaram-se num domingo de Março diante do altar que o padre Nicanor Reyna mandou montar na sala de visitas. Foi o culminar de quatro semanas de sobressaltos em casa dos Moscote, porque a pequena Remedios atingiu a puberdade antes de superar os hábitos de infância. Apesar do que a mãe lhe ensinara sobre as mudanças da adolescência, certa tarde de Fevereiro irrompeu aos gritos pela sala onde as irmãs estavam a conversar com Aureliano e mostrou-lhes as cuecas sujas de uma substância achocolatada. Marcou-se o casamento para daí a um mês. Mas houve tempo para lhe ensinar a lavar-se e a vestir-se sozinha, a compreender os assuntos elementares de um lar. Deu muito trabalho a convencê-la da inviolabilidade do segredo conjugal, porque Remedios andava tão perturbada e ao mesmo tempo tão maravilhada com a revelação, que queria comentar com toda a gente os pormenores da noite de núpcias.

Ajuda se eu disser que é considerado o maior escritor hispano-americano desde Cervantes?
Ajuda se eu disser que é um romance mágico sobre o amor e a condição humana?

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Reposta do Desafio nº 5:
Trata-se de “Afirma Pereira” (1994), autoria do, recentemente falecido, Antonio Tabucchi.
O romance é a história atormentada da tomada de consciência de um velho jornalista solitário e infeliz, e tem como pano de fundo o salazarismo português, o fascismo italiano e a guerra civil espanhola.
Parabéns para quem acertou.

04 Maio, 2012

"O teu rosto será o último" - João Ricardo Pedro

… além dos cabelos brancos, o pai parecia-lhe profundamente triste. Mas, pela primeira vez, era uma tristeza que Duarte compreendia. Uma tristeza que não era apenas um olhar vago, uma certa maneira de fumar, um alheamento, um azedume. Era uma tristeza que se materializava em sinais inequívocos. Palpáveis. Na pele. Na carne. Nos olhos. Nas mãos.
Li este romance, escrito na nossa língua, emocionada, a exultar de curiosidade e aconchegada numa manta quentinha, num dia frio de Abril, enquanto…
Lá fora, a chuva caía, como se escorresse por invisíveis fios de prumo.
A história, surpreendente, séria e ao mesmo tempo risível, arrebatou-me desde o primeiro capítulo e deixou-me, literalmente, sem palavras para escrever sobre ela.
Por diversas vezes parei de ler e me interroguei:
Como é que JRP, um estreante, escreve tão bem?
Como é que JRP, um estreante, tem uma imaginação tão extraordinária?
Como é que JRP, um estreante, tem o dom de me levar à leitura compulsiva desta história?
Mas, também por diversas vezes, dei por mim a aplaudir a atribuição do prémio Leya 2011 a JRP.
Lembro que JRP se viu forçado a fazer uma mudança na vida, quando, em 2009, foi demitido da empresa onde trabalhava como engenheiro eletrotécnico e se viu “ metido” numa situação embaraçosa, com dois filhos, casado e uma casa por pagar. Não demorou a tomar a decisão – acertada – de escrever um livro, este que o levará à ribalta das letras portuguesas, tenho a certeza.
A estrutura do romance é original - uma vertigem de histórias soltas mas entrelaçadas, que tanto avançam no tempo como recuam.
A escrita é inteligente – simples mas apurada, com elementos repetitivos que não cansam, com palavrões que não ofendem.
A trama é genial – memórias e segredos de três gerações de uma família marcada por anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial.
Tudo começa no dia 25 de Abril de 1974, numa pequena aldeia com nome de mamífero, no sopé da Serra da Gardunha, onde vive o doutor Augusto Mendes, médico de profissão, filho de uma das mais abastadas e notáveis famílias do Porto, com negócios no Brasil e em África.
O doutor Augusto Mendes adquire a propriedade onde vive ao amigo Policarpo, que abandona o país quando Salazar sobe ao poder. Este país não interessa nem ao menino Jesus. Antes a Rússia. Mil vezes a Rússia. Por isso, enquanto for novo e dinheiro não me faltar, adeusinho ó pátria lusa mais as estrofes de Camões, que só um país miserável tem um poeta zarolho como herói nacional.
Policarpo cumpriu a promessa que fez ao amigo e escreve-lhe longas cartas que relatam o que se passa no mundo: Da invasão de Paris pelos alemães à salvação da Europa pelas tropas aliadas. Da morte de Estaline aos golos de Eusébio. Da primeira pegada na Lua ao fim do império britânico. Tudo ele relatava.
Mas a história não se fica pelas cartas de Policarpo e continua em Queluz, onde vive António, filho do doutor Augusto Mendes, casado com a madrinha de guerra que conheceu numa livraria no Chiado, quando se preparava para partir para a segunda comissão em Angola e o seu neto Duarte, que nasceu com um dom extraordinário para a música, um pianista precoce que deixa de tocar por “ódio” ao seu dom.
Entre a aldeia com nome de mamífero e Queluz, nos arredores da grande cidade, vivem-se histórias tristes e alegres e recorda-se a guerra colonial, a campanha de Humberto Delgado, o terror da PIDE, a revolução dos cravos, a descoberta da liberdade, o ruir das ilusões nascidas em Abril, o fim da União Soviética, etc., etc.. …
...um dia, Duarte perguntou: «Pai, quem é que foi o Salazar?»
O pai responde sem hesitações: «Foi um defesa esquerdo do Belenenses.»
Apesar do ar sério do pai, a resposta afigurou-se-lhe totalmente incompatível com o pouco que sabia de Salazar. Tentou circunscrever o contexto: «Não, pai, o Salazar mau, aquele mesmo muita mau de que às vezes falam na televisão.»
O pai pousou os óculos sobre o jornal, olhou o teto, olhou o filho e disse: «Foi o cabrão que matou o teu avô, o pai da tua mãe.»
A mãe veio a correr da cozinha: «António, francamente.» Duarte virou-se para ela: «É verdade, mãe?»
Ela disse: «Não, filho, não é verdade, não ligues ao teu pai, um dia a mãe explica-te.»
Esse dia só haveria de chegar alguns anos depois.
Mas que grande primeiro romance!

O teu rosto será o último, de João Ricardo Pedro
Leya, 2012
207 págs.

01 Maio, 2012

Poema de... José Manuel Carreira Marques

POR QUE RIOS TE PERDESTE
Por que rios te perdeste
de que chuvas te lavaste
em que águas a mim chegaste?

Diz-me neste lugar de silêncios
diz-me devagar
a que árvore te entregaste
enquanto a minha erosão te buscava

Num poente de distâncias
uma ténue pedra branca
me ancorou a ti
ferida a ferida
barco a barco
até chegares

E agora meu amor
se chegar for partir?

Poema de José Manuel Carreira Marques, Portugal (1943-)
Pintura de Maluda, Portugal (1934-99)

27 Abril, 2012

"Corre, Coelho" - John Updike

Como um barco à deriva. Continua a bater nas mesmas rochas…
“Corre, Coelho” (Rabbit Run), foi editado pela primeira vez em 1960 e é o primeiro de 4 volumes da série dedicada à personagem Harry (Rabbit) Angstrom, que Updike escreveu ao longo de cerca de 30 anos.
Considerado um clássico de culto da literatura americana, a leitura de “Corre Coelho” – uma crónica avassaladora do comportamento humano na sociedade conservadora americana dos anos sessenta - não é fácil e tem de ser feita com calma, sem correrias.
Ao longo de 301 páginas espreitamos a vida sufocante e insignificante de Harry (Coelho) Angstrom. E que vida…
Harry, vinte e seis anos, antiga estrela do basquetebol no liceu, vive nos subúrbios da Pensilvânia e ganha a vida a fazer demonstrações com a MagiPeeler, uma máquina destinada a facilitar a vida na cozinha à típica dona de casa americana. Harry está casado com Janice, uma mulher frágil, desajeitada e alcoólica que espera a vinda do segundo filho.
Logo no início do romance, Harry sai de casa para ir buscar o filho Nelson à avó, quando a mulher o chama da cozinha onde prepara o jantar e lhe diz:
- Querido, trazes-me por favor um maço de cigarros?
Harry sai… e não volta.
Ao volante do seu Ford conduz através da noite cerrada, numa fuga desesperada em busca de uma vida melhor.
Pelo caminho vai encontrar-se com Marthy Tothero, o antigo treinador, vai viver com Ruth , uma prostituta a meio tempo, e vai desabafar com o clérigo Jack Eccles, que o tenta convencer a voltar para casa.
- Então pensa que Deus quer que faça sofrer a sua mulher?
- Deixe-me perguntar-lhe: pensa que Deus quer que uma queda-d’água seja uma árvore?
- Não, diz Eccles depois de pensar. – Mas julgo que ele deseja que uma pequena árvore se transforme numa grande árvore.
O medo, o remorso e o orgulho em ser de novo pai, levam Harry a abandonar Ruth e a voltar para casa na altura do nascimento da filha Rebecca.
Tudo se compõe. Reata a relação com a família e o sogro oferece-lhe um emprego num dos seus stands.
O caminho em linha recta estende-se direito em frente de Harry, sem os obstáculos que tinha imaginado.
Mas não é verdade e Harry abandona de novo a família, volta para Ruth e de novo volta a fugir dela. Corre Coelho. Ah corre! Corre!
Fabuloso!

Corre, Coelho, de John Updike
Civilização Editora, 2006
Tradução de Carmo Romão
301 págs.

25 Abril, 2012

Politiquices...


Há 38 anos comemorámos, com alegria, a Revolução dos Cravos. E hoje?

“Estamos hoje a viver problemas novos que afectam gravemente as conquistas sociais: o Serviço Nacional de Saúde, a dignidade do trabalho, a Segurança Social, o empobrecimento de milhões de portugueses, com a recessão e o desemprego a crescer exponencialmente. Os cortes e as privatizações sem critério que vendem a retalho as jóias da coroa. A austeridade, imposta pela Troika e pela ideologia do actual Governo (o FMI já percebeu que a continuar será um desastre) não nos leva a parte alguma ou, para ser mais preciso, conduz-nos, cada ano, de mal a pior. Essa é a terrível realidade com que nos temos de confrontar.
Mas tenhamos esperança. O Povo Português é um grande Povo. Não vai deixar, pacificamente, espero, de reagir. Atrás de tempo, tem vem.”

Excerto do artigo de opinião “Breve testemunho” de Mário Soares, publicado no jornal Público de 25 Abril 2012.

24 Abril, 2012

Vale a pena partilhar... Debbie Mandel

Na verdade, ando um pouco stressada…
Ando eu, e muitas outras mulheres portuguesas.
O stress está enredado na nossa vida, levando à fadiga, insónia, distúrbios alimentares, falta de concentração e dores.
Se é assim, o que devo fazer para acabar com o stress?
Comece por sorrir agora mesmo, mesmo que acredite que não tem qualquer razão para o fazer. O seu sorriso, mesmo que seja um pouco ténue ou estranho, pode servir como uma deixa para o seu corpo começar a libertar serotonina e parar com a negatividade.
Boa! Estou a sorrir neste preciso momento.

Não sendo eu grande fã de livros de auto-ajuda, gostei de ler este livro de Debbie Mandel, especialista em gestão de stress.
Basicamente, ela ensina a ultrapassar situações de stress, e dá dicas para relaxarmos, sermos mais alegres e confiantes e, mais importante, para que a nossa luz interior brilhe intensamente.
Uau!
Transforme o stress em força.
Eu vou fazê-lo!

(... palavra que a mudança de visual do Blogger me está a deixar stressada...)

20 Abril, 2012

"História do cerco de Lisboa" - José Saramago

Certas relações harmoniosas criam-se e duram graças a um sistema complexo de pequenas inverdades, de renúncias, uma espécie de bailado cúmplice de gestos e posturas, tudo resumido no nunca assaz citado provérbio, ou sentença, que muito melhor lhe assenta esta designação, Tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei.
Os primeiros capítulos deste livro de Saramago são difíceis de compreender. Que raio de enredo é este que entrelaça o passado com o presente? Questionamo-nos diversas vezes.
Sem resposta, apetece largar o livro e esquecer de vez o revisor Raimundo Silva.
Não faça isso. Continue a ler e rapidamente vai entender que num só livro estão contadas duas histórias, daí a dificuldade inicial. A partir daí o deleite será total.
É isso possível? Sim, com Saramago tudo é possível.
A história começa com Raimundo Silva, solteiro, com mais de cinquenta anos, revisor de profissão, a rever um tratado de história com quatrocentas e trinta e sete páginas, intitulado “História do Cerco de Lisboa” – corria o ano de 1147 quando os portugueses, ajudados por cruzados, tomaram a cidade aos mouros.
No final da revisão, lê vezes sem conta a linha que afirma que os cruzados auxiliarão os portugueses a tomar Lisboa e eis que, pela primeira vez em tantos anos de profissão, infringe o código deontológico dos revisores, ao introduzir deliberadamente no texto um NÃO que altera toda a verdade histórica.
Com a mão firme segura a esferográfica e acrescenta uma palavra à pagina, uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra Não, agora o que o livro passou a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa.
Depois do livro editado e do erro descoberto, Raimundo é convocado para uma reunião na editora. Querem saber o que o levou a tomar tão estranha atitude (uma perturbação momentânea, diz ele), exigem que peça desculpas ao autor da história (com quem tem relações cordiais) e apresentam-lhe Maria Sara, a nova responsável pelos revisores da editora.
A partir daí a vida calma e desinteressante de Raimundo vai mudar.
Diz-nos o narrador, que a sua liberdade começou e acabou naquele preciso instante em que escreveu a palavra não, de que a partir daí uma nova fatalidade igualmente imperiosa se havia posto em movimento, e que nada mais lhe resta agora que tentar compreender o que...
Posteriormente, Maria Sara entrega-lhe o único volume da “História do Cerco de Lisboa” que não tem errata e propõe que ele reescreva a história considerando a recusa dos cruzados em ajudar os portugueses.
É assim que começa a ser escrita, pelo revisor Raimundo Silva, a segunda história deste livro –  a conquista de Lisboa pelos portugueses sem a ajuda dos cruzados. Nesta sua versão dos factos históricos, Raimundo dá destaque à história de amor do soldado Mogueime pela barregã Ouroana, durante o cerco e a tomada de Lisboa.
Simultaneamente à escrita do amor ficcional, Raimundo “faz o cerco” a Maria Sara e apaixona-se perdidamente. Vai viver com ela uma história de amor bem real.
Confuso?
Não, pois estamos a ler Saramago.
Agora um aparte. Neste livro Saramago usa e abusa de provérbios. Reparem bem como aparecem seguidinhos:
Candeia que vai adiante alumia duas vezes, contrariavam os segundos, O primeiro milho é dos pardais, rematavam irónicos os terceiros, O último a rir é aquele que rirá melhor.
Só mesmo ele…
Fabuloso!

História do cerco de Lisboa, de José Saramago
Caminho, 1989
348 págs.

17 Abril, 2012

Poema de... António Botto

ASSIM PENSO E ASSIM DIGO
Se alguém
Cai num choro e se debruça
Na mágoa que as próprias mágoas dão,
Devemos falar, apenas,
Com palavras de ternura
Que envolvam
Esse triste coração.

Se é crueldade mostrar-se
Que nos fugiu a coragem para a luta
E que não somos mais
Do que um farrapo vencido,
Sem luz, sem fé, sem valor,
- Cruel é quem ao aflito repreende
O amargo sentir da sua dor.

Poema de António Botto, Portugal (1897-1959)
Pintura (Retrato de Matilde) de Sarah Afonso, Portugal (1899-1983)

13 Abril, 2012

"O sentido do fim" - Julian Barnes

Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar de que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios.
Começo por dizer que me é difícil opinar sobre este livro. Por quê?
Porque merece ser lido por todos. Porque não devo desvendar a trama da história. Porque é um autêntico tratado de psicologia, e eu não sou especialista. Porque me fez reflectir sobre a minha (insignificante) história de vida.
Enfim, porque não encontro palavras para escrever sobre ele de forma adequada.
Digo apenas que é o relato assombroso e surpreendente da vida de um homem de meia-idade, desde o tempo do liceu e das amizades juradas para sempre, até à idade da reforma, quando todas as memórias são atraiçoadas pelo tempo. Tony Webster, o narrador, casado, divorciado, pai de uma rapariga, vive uma solidão tranquila, até ao dia em que uma carta lhe vai mostrar que o seu passado não é o que ele sempre imaginou e que vai ter de se confrontar com as imperfeições da memória.
O meu eu mais jovem voltara para chocar o meu eu mais velho com aquilo que tinha sido, ou era, ou era às vezes capaz de ser.
E fico por aqui.
Do autor li apenas este romance, vencedor com mérito do Man Booker Prize 2011.
O enredo da história é surpreendente e a sua escrita perfeita, delicada e muito acessível.
Aproximamo-nos do fim da vida – não, não da vida em si, mas de outra coisa: o fim de qualquer probabilidade de mudança nessa vida.
Perfeito!
Corram a lê-lo (e não desvendem o desenlace da história).

O sentido do fim, de Julian Barnes
Quetzal, 2012
Tradução de Helena Cardoso
152 págs.

10 Abril, 2012

Desafio nº 5: Excerto de um romance “existencial” /testemunho de um período trágico da Europa. Qual é e quem o escreveu?

Às seis e meia Pereira ouviu bater à porta, mas já estava acordado, afirma. Observava as estrias de luz e de sombra das persianas no tecto, pensava na Honorine de Balzac, no arrependimento, e parecia-lhe que também ele devia arrepender-se de alguma coisa, mas não sabia de quê. De repente sentiu vontade de falar com o padre António, porque a ele poderia confiar que queria arrepender-se, mas não sabia de que é que se devia arrepender, era isto que queria dizer, ou talvez lhe agradasse só a ideia do arrependimento, quem sabe.

Ajuda se eu disser que o protagonista da história é um jornalista português, e a acção decorre em plena ditadura salazarista?
Ajuda se eu disser que o autor considerava Portugal a sua segunda pátria?

====////====////====

Resposta do Desafio nº 4:
Trata-se de “Morte em Veneza” (1912), o excelente romance de Thomas Mann, que conta a história trágica de um escritor de meia-idade que, em Veneza, se apaixona platonicamente por um belo jovem polaco (a representação perfeita da beleza e da inocência) e que morre sem ter trocado com ele uma única apalavra.
Parabéns para quem acertou.

04 Abril, 2012

"A história do senhor Sommer" - Patrick Süskind

No tempo em que eu ainda trepava às árvores – há muitos, muitos anos, há dezenas de anos atrás, media apenas pouco mais de um metro, calçava o número vinte e oito e era tão leve que podia voar – não, não estou a mentir, naquele tempo eu podia de facto voar – ou pelo menos quase...
Assim começa este livrinho encantatório que entrecruza histórias de um rapazinho / narrador e do senhor Sommer, que se instalou na aldeia pouco depois da guerra.
Pouco ou nada se sabe sobre o senhor Sommer, mas todos o conhecem, pois é visto a caminhar apressadamente por montes e vales, estradas, bosques, de aldeia em aldeia, do nascer do dia ao pôr do sol, todos os dias do ano. Caminha apoiado num cajado e nas costas transporta uma mochila com o lanche e uma capa de borracha com capuz, que usa quando a chuva o surpreende. Quando alguém lhe dirige a palavra limita-se a abanar a cabeça, mal humorado. Ao rapazinho parece que ele move os lábios, como se falasse para si próprio, enquanto caminha.
Já o rapazinho, frequenta a escola, aprende a andar de bicicleta, tem aulas de piano, tem segredos, enfrenta injustiças e dificuldades, até ao dia em que decide despedir-se da vida, despenhando-se do topo de uma árvore na floresta.
Fechei os olhos e contei: um... dois... e de repente apareceu o senhor Sommer, que ofegante se deitou debaixo da árvore e soltou um longo suspiro, um queixume suplicante, como vindo de um doente atormentado com dores, depois lanchou e afastou-se rapidamente.
De repente deixei de ter vontade de saltar para o abismo.
Seis anos depois o rapazinho tem outro encontro com o senhor Sommer. Foi o último.
Numa noite fria de Outono vê-o caminhar lago adentro, sem hesitações, a afundar-se até desaparecer completamente.
De uma vez por todas, deixem-se em paz!
A recordação desta frase implorante que ouviu num dia de muita chuva ao senhor Sommer, e o queixume suplicante na floresta, mantiveram-no quieto e calado, deixando partir em paz um homem que passara toda a sua vida a fugir da morte.
Que maravilha de livrinho e de ilustrações, que nos fazem voar (e pensar) da primeira à última página.

A história do senhor Sommer, de Patrick Süskind
Ilustrações de Sempé
Sextante editora, 2007
Tradução de Maria Castro Dias
102 págs.

03 Abril, 2012

Vale a pena partilhar... José Pacheco Pereira


"Um leitor de jornais no Porto dos anos sessenta
...
Não sei se aprendemos muito com o passado e também duvido que ele tenha qualquer “lição” para nos dar, mas conhecê-lo torna o presente mais interessante, mais complexo e mais presunçoso nas ilusões de que se faz a “actualidade”. A nostalgia do passado é uma estupidez, porque, de um modo geral, o passado era pior do que o presente, mas a falta de memória transforma esta estupidez num modo de vida."

Excerto da crónica publicada no jornal Público de 31 Março 2012

01 Abril, 2012

Politiquices...

Bastonadas contra chávenas de café. Ao que chegámos…
É sempre com agrado que leio as crónicas de José Vitor Malheiros, no Público.
A desta semana, intitulada – Miguel Macedo brinca com o fogo – é sobre as agressões da PSP a jornalistas e manifestantes no dia da greve geral, do passado dia 22.
“ Claramente, a PSP não percebe que a sua primeira função numa manifestação é proteger o direito à manifestação, além de proteger pessoas e bens… não é… empurrar manifestantes para os provocar fisicamente. Nem rachar cabeças para reduzir o stress.
… Quererá o ministro Miguel Macedo que algum polícia mais stressado se alivie a tiro, irritado pelo pires que lhe bateu no capacete?
… O Governo está a brincar com o fogo. A polícia deveria ser uma presença racionalizadora e apaziguadora nas manifestações. Não é. A sua actuação é provocadora e gratuitamente brutal. Deveria ser dialogante, calma e firme. Não é. É arruaceira e parece tão nervosa como o ministro. Deveria ter como preocupação garantir que a manifestação corre pacificamente e que os direitos dos cidadãos são respeitados. Não tem.
A polícia parece ter ordens para considerar que as manifestações que contestam o Governo são para reprimir pela força. Não devia ter.”

Excerto da crónica de José Vitor Malheiros, publicada no jornal Público de 27 de Março 2012.

30 Março, 2012

"Tudo o que eu tenho trago comigo" - Herta Müller

Quando se tem só pele e osso, sentimentos são coragem. Eu prefiro ser cobarde.
No Posfácio deste romance sobre a deportação de seres humanos no pós-guerra, ficamos a saber que a mãe da autora estava entre os alemães residentes na Romênia, com idades compreendidas entre os 17 e os 45 anos, deportados por Estaline para prestarem trabalhos forçados em campos soviéticos. Interessada em divulgar este episódio maldito vivido no final da Segunda Grande Guerra, Herta Müller inicia, em 200,1 a recolha de testemunhos sobre o quotidiano nesses campos, junto de sobreviventes deportados da sua aldeia. Esses testemunhos de horror estão na base deste romance.
Sentei-me à mesa e esperei pela meia-noite. E a meia-noite chegou, mas a patrulha estava atrasada. Ainda tiveram de passar mais três horas, foi quase insuportável de aguentar. Depois chegaram. A mãe segurou-me o sobretudo debruado a veludo preto. Enfiei-me nele. Ela chorou. Calcei as luvas verdes. No corredor, precisamente onde fica o contador do gás, a avó disse: EU SEI QUE VOLTAS.
Eram 3 da madrugada do dia 15 de Janeiro de 1945 quando a patrulha me foi buscar.
E foram cinco os anos que Leopold Auberg, de dezassete anos, passou num campo de trabalhos forçados. Cinco anos de muito sofrimento, que o tornaram um ser humano diferente, mas não um monstro, impedido pelas memórias familiares que não deixou morrer e pela da frase da avó: eu sei que voltas.
O quotidiano no campo, onde cada um vive o seu presente, onde o frio corta, a fome engana, o cansaço pesa, a saudade corrói, os percevejos e os piolhos mordem, é narrado em 64 pequenos capítulos de pura e dura prosa poética.
Tudo é descrito de forma tão real que nos sentimos transportar para aquele universo de horror, dor, morte e muita, muita fome.
Como é que uma pessoa anda por este mundo, quando sobre si nada mais sabe dizer, a não ser que tem fome. Não há palavras adequadas ao sofrimento da fome. Eu como literalmente a própria vida, desde que não tenho de passar fome. Gosto tanto de comer que não quero morrer, porque depois nunca mais como.
No princípio de Janeiro de 1950, Leopold regressa a casa da família, mas ali sente-se agora um estranho. Nada daquilo tinha a ver comigo. Conhecíamo-nos uns aos outros como já não somos e nunca mais seremos.
Começa a trabalhar, constitui família mas acaba sozinho Um dos seus tesouros diz: Preciso muito de proximidade, mas sou incapaz de me entregar. Domino o sedoso sorriso da esquiva. Desde o anjo da fome, não permito que ninguém me tenha.
Não foi só o protagonista / narrador deste romance avassalador, cruel, duro e triste que cresceu e se tornou uma pessoa diferente. Também eu, enquanto leitora, senti um possante muro no estômago que me ensinou sobre a precariedade da vida, sobre o comportamento humano perante a injustiça, o medo, a fome, a crueldade e a morte.
Há uma eternidade que não chorava, tinha ensinado a saudade a ter os olhos secos.
Hoje, voltei a chorar.

Tudo o que eu tenho trago comigo, de Herta Müller (Prémio Nobel de Literatura 2009)
Dom Quixote, 2010
Tradução de Aires Graça
290 págs.

27 Março, 2012

Poema de... Ruy Belo

O PORTUGAL FUTURO
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem da enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Poema de Ruy Belo, Portugal (1933-78)
Pintura (Procissão Corpus Christi) de Amadeo de Souza-Cardoso, Portugal (1887-1918)

25 Março, 2012

Outro Desafio TAG

Obrigada Mlle (romancenalma) por mais este desafio.
Não irei fazer perguntas, mas desafio quem por aqui passar a responder também às tuas.
Seguem as minhas respostas:
1. Qual foi o livro mais divertido que leste?
Foram vários por isso destaco não um mas três: “O Complexo de Portnoy”, de Philip Roth; “Solar”, de Ian McEwan; “A Questão Finkler”, de Howard Jacobson.
2. Se pudesses encarnar uma personagem literária, qual seria?
A menina má de Mario Vargas Llosa, por pura provocação.
3. Que livro tens à espera para ler a seguir?
“Tudo o que eu tenho trago comigo”, de Herta Müller.
4. Em que local estás a responder a este questionário?
Numa salinha onde vejo televisão, leio, converso e escrevo num computador.
5. Que livro não conseguiste acabar?
Por norma acabo todos os livro. Claro que com uns demoro um pouco mais…
6. Qual é a tua cor preferida?
Azul – a cor do mar, que é a minha predição.
7. Doces ou salgado?
Ambos, q.b.
8. Escritor português preferido?
Três: Eça de Queirós, Fernando Pessoa e Saramago.
9. Próximo livro a comprar?
O primeiro de João Ricardo Pedro, Prémio Leya 2011, nas bancas a partir de 31 de Março 2012. Estou curiosíssima!
10. Lês com óculo ou sem óculos?
Sempre com óculos. A idade já fez estragos…
11. Cor do verniz que usas neste momento?
Uau! Esta semana optei pelo rosa bem clarinho nas mãos e vermelhão nos pés (já apetece usar sandálias…).

Gostei, mas aviso já que não responderei a mais Desafios TAG, certo?!

Desafio TAG

Obrigada Landa (horizonte dos livros) por te lembrares de mim e me colocares 11 perguntas interessantes.
Não irei fazer o meu próprio questionário mas desafio quem por aqui passar a responder a estas mesmas perguntas.
Seguem as minhas respostas:
1. Quais são os teus hobbies preferidos para além da leitura?
Cinema, música, fotografia, cozinhar, pintar e… conversar (muito).
2. Qual é a tua personagem literária preferida?
Se tenho de escolher apenas uma decido-me pela Blimunda, de Saramago.
3. Se escrevesses um livro que género escolherias?
Um poderoso romance histórico.
4. Se fosses agora a uma livraria, que livro da tua wishlist comprarias?
O segundo volume de Guerra e Paz, de Tolstoi.
5. Qual é a tua comida favorita?
Babo-me por um bom arroz de pato (carne), por um dourado bacalhau com broa (peixe) e por um arroz doce cremoso (sobremesa). Fiquei com forme!
6. Quais são os locais onde gostas mais de ler?
Sempre, sempre sentada no meu sofá com um lápis à mão. Na cama nunca (adormeço de imediato) e em esplanadas também não (distraio-me com tudo e mais alguma coisa).
7. Quais são as tuas principais manias como leitor?
São várias: não leio se não tiver um lápis à mão; não leio livros emprestados (por não os poder sublinhar); se gosto de um autor devoro toda a sua obra (em maratonas alucinantes).
8. Se te oferecessem uma viagem para conhecer um local de um livro que tivesses lido qual escolherias?
Voltaria ao país do tango – Argentina.
9. Gostas de ver filmes baseados em livros que já leste?
Não, não gosto porque o produto final é normalmente mau.
10. Gostas de reler os livros?
Gosto, claro. Não tenho feito outra coisa desde que iniciei, há um ano, o rol de leituras. É que eu já leio há muitos, muitos anos…
11. Os teus gostos literários alteraram com a criação do teu blog?
Nem pensar nisso, nunca deixaria que um simples blog alterasse os meus gostos literários. Já aconteceu foi comprar um livro em função do que li sobre ele em outro blog.

Gostei da experiência!

24 Março, 2012

"Middlesex" - Jeffrey Eugenides

Começarei por dizer que nasci duas vezes: primeiro, como menina bebé, num dia invulgarmente limpo na cidade de Detroit, em Janeiro de 1960. Depois, outra vez, como rapaz adolescente, numa sala de urgências perto de Petoskey, Michigan, em Agosto de 1974.
Com um primeiro parágrafo destes, alguém resiste a seguir a fantástica história de um gene que atravessa três gerações de uma família de gregos americanos, até florescer no quinto cromossoma de um hermafrodita, uma menina que ao crescer se revela no seu contrário?
Não!
Então preparem-se para a viagem longa, atribulada, apaixonante, alucinante, divertida e repleta de segredos, dum gene raro que, escondido durante duzentos e cinquenta anos na linha de sangue da família Stephanides, floresce no corpo da jovem Calliope (era assim que estava registada na certidão de nascimento) e desencadeia a série de acontecimentos que levaram Cal (é este o nome assinalado na carta de condução do diplomata, em Berlim) a escrever, aos 41 anos, a sua história.
E que história…
Como Tirésias, fui primeiro uma coisa e depois outra. Fui ridicularizado por colegas, usado como cobaia por médicos, apalpado por especialistas e investigado. Fui conduzida para uma batalha urbana por um tanque do exército; tornei-me um mito numa piscina; deixei o meu corpo a fim de ocupar outros – e, tudo isto, antes de fazer 16 anos.
Promete, não?!
O interessante neste livro é a forma intimista como Cal nos conta a sua própria história, falando das mutações do seu corpo, das peripécias na infância, da adolescência conturbada, dos amores ingénuos e dos amores adultos que teimavam em acabar antes de começar, tudo isto encadeado de forma magistral nas oito décadas de vida da sua família e nos factos políticos, sociais e culturais que mudaram países e mentalidades: o desmoronamento do Império Otomano (provoca a fuga dos avós da Grécia para a América, em 1922), os gloriosos tempos de Detroit industrial nos anos vinte, a Depressão de 1929, a Segunda Guerra Mundial, os motins raciais de 1967, etc.
São muitos os cenários da acção desta saga familiar: Grécia; Detroit e Middlesex, na América; Berlim, na Alemanha – esta cidade, outrora dividida faz-me lembrar a minha própria pessoa.
São muitos e inconfessados os segredos desta família: Sourmelina não era apenas minha prima germana em segundo grau, era igualmente minha avó. O meu pai era sobrinho da sua própria mãe (e pai). Para além de já serem meus avós, Lefty e Desdemona eram meus tio e tia-avós, respectivamente. Os meus pais seriam meus primos segundos de primeiro grau e o Capítulo Onze seria meu primo em terceiro grau, bem como meu irmão.
Confuso?
Li pela primeira vez este livro em 2004. Agora, as tristes notícias na imprensa sobre o declínio da cidade de Detroit impuseram que voltasse a ele. A leitura ou releitura de grandes livros é sempre agradável – não me arrependi.
As coisas mais importantes nunca dependem de nós. O nascimento, a morte. E o amor, diz Cal.
Infelizmente, digo eu.

Middlesex, de Jeffrey Eugenides
Dom Quixote, 2002
Tradução de Pedro Serras Pereira
521 págs.

 

23 Março, 2012

Patricia, segue em frente!


Há uns dias que não "visitava" o meu próprio blog. Ele há coisas...
Hoje, ainda antes de colocar o comentário sobre o livro que acabei de reler, "espreitei" alguns dos blogs que sigo e foi com tristeza que fiquei a saber que a Patricia, do ler por aí, está desanimada e determinada a "fechar" o blog que mantém desde 2006.
Patricia, como não pude deixar um comentário no teu blog resolvi deixar-te aqui um recadinho.
É precisamente por gostares de ler, por gostares de registar a tua opinião sobre o que lês, que não  deves "fechar" o teu blog.
Ignora os comentários desagráveis e segue em frente.
Eu, e tenho a certeza muitos outros bloguistas, respeito as tuas preferências e aprecio as tuas opiniões.
Sabes, há dias em que também me apetece parar, mas logo a seguir aparece um livro que me entusiasma e corro para o meu rol e volto a animar.
Faz uma pausa, reduz o número de postagens, mas não desistas.
Lembra-te que  "os cães ladram e a caravana passa".
Segue em frente!

20 Março, 2012

Contos de... Gabriel García Márquez

Acabei de comprar esta grande (709 págs.) compilação de contos, escritos por Gabriel García Marquez desde os finais dos anos 1940, até meados dos anos 1990.
Segundo a sinopse: é um conjunto de 41 histórias que nos permite desfrutar de todo o encanto e mestria do genial escritor colombiano, e que nos leva a um mundo inesquecível cuja realidade se expressa mediante fórmulas mágicas e lendárias.
Histórias fantásticas que reflectem a cultura sul-americana, misturando acontecimentos surreais e detalhes do quotidiano, escritas com o estilo que caracteriza a obra de García Márquez, em que os milagres se inserem no dia a dia e a prosa se aproxima inevitavelmente do seu destino fatal: a poesia.
Uau, tanta coisa boa para ler!
Reparem só no primor do título duma das histórias: “A incrível e triste história da Cândida Eréndira e da sua avó desalmada”.
Encontrarei tempo para tanta magia?
Por que é que o dia tem só 24 horas?

16 Março, 2012

"o remorso de baltazar serapião" - valter hugo mãe

disse à minha ermesinda que se estendesse nua na cama. que eu a queria ver à luz da vela, muito próxima de cada pedaço da sua pele.
depois, ela perguntou se teria de ganhar barriga por cada vez que eu a conhecesse. e eu sorri com a sua burrice, e até a amei mais ainda, por corresponder perfeita à estupidez que se espera numa mulher.
Neste romance, baltazar serapião, narrador e protagonista, conta a história da sua família - os sargas. Não eram os serapião, nome de família, eram os sargas, nome da vaca, magra, feia, tonta da cabeça que vivia com eles e lhes arrebatara o próprio nome.
É uma história feita de ignorância, medo, tristeza e vergonha: éramos os sargas nascidos de bichos e que nos matávamos uns aos outros como bestas.
Uma história de exploração, humilhação, brutalidade e muita violência física e sexual: exploração dos homens por dom afonso de castro o senhor feudal; brutalidade e violência física e sexual cometida pelos homens contra as mulheres.
E, sem dúvida, uma história de mulheres. Mulheres submissas, anuladas, caladas, tristes, infelizes.
uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada.
a mãe, velha, quase cega, sofredora, estropiada pelo marido, que com as mãos lhe remexia as entranhas "convicto de que, se coisa ficara ali ou ali crescia, haveria de a enganchar numa unha e trazê-la cá para fora".
brunilde, a irmã que aos onze anos vai trabalhar para casa de dom afonso, e morre depois do senhor “lhe ter feito barriga”.
ermesinda, a mulher de serapião, “o anjo mais belo”, que ele estropia sem dó, atormentado por ciúmes.
teresa diaba, viciada em homens, que “se abria como lençóis estendidos e recebia um homem com valentia sem queixa nem esmorecimento”.
a mulher queimada, a bruxa enviada do diabo que “em desespero de fomes ou saudades, vinha às portas da terra com fúria e urgência em demasia” e que disse um dia a serapião: não vás ficar a julgar que dotes de mulher são só devaneios de loucas incursões. terás prova, amarás as mulheres para aprenderes a valorizá-las, e só depois te conhecerás de verdade.
Horrorizei-me com o que diz baltazar serapião sobre as mulheres, através das minúsculas de valter hugo mãe:
as mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. não é heresia, pensa bem, se parecessem mais com cabras do que com homens nem natureza para nós teriam. precisam de nos parecer sem alcançar igualdade, que para isso estamos cá nós.
e mais:
e depois, beleza assim até aumentada, o que lhes tirou deus em préstimo de espírito deu-lhes em curvas e cor, servem perfeitamente para nos multiplicar e muito agradar.
e ainda mais:
mas isso da inteligência é como te disse, cuidado com o que sabem porque acham mais do que sabem.
e há mais, muito mais:
não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício, mesmo que dotadas de burrice grande ou estupidez perigosa.
Também eu mereço o céu…
por ter chegado ao fim de um livro desconcertante, delirante, estranho, arrepiante, escrito num português arcaico e repleto de minúsculas (descobri um maiúscula na pág. 58 – um “D” enorme, mas não foi o suficiente para me animar), que me ofendeu, arrepiou e estarreceu.
Foi um parto difícil a escrita desta crónica, mas não tanto como o medonho parto de brunilde, descrito na pág. 220 deste livro.
Senhor valter hugo mãe – não havia necessidade…

o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe
Alfaguara, 2011
256 págs.

15 Março, 2012

Politiquices...

Nós transgressores? Nunca!

"Somos dados à transgressão?
Somos um povo obediente, e como a obediência não se pode conservar sempre, somos de transgressão clandestina. Transgredimos na sombra. Achamos que devemos pagar os impostos, mas fazemos tudo para não os pagar. Nos países nórdicos, de uma forma geral, as pessoas pagam os impostos porque têm consciência de que são utilizados de uma forma útil para todos. Aqui são utilizados para o BPN e outras coisas assim. Compreende-se que depois não apeteça pagá-los. É um ciclo vicioso."

Excerto da entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Coimbra de Matos (conceituado psicanalista português), publicada na Pública, revista do jornal Público de 4 Março 2012.

14 Março, 2012

Parabéns Carolina!

Hoje, 14 de Março, a minha netinha Carolina faz  um aninho.
Como é fácil de perceber, estou louca de alegria.
Ora, quem me conhece sabe que quando eu estou louca de alegria - pulo, riu e... compro livros.
Sendo assim, para ela começar a fazer a sua própia biblioteca comprei-lhe "O meu primeiro livro" - o primeiro de muitos, faço questão.
Como lá por casar reinam os grossos livros sobre leis, achei que ela iria gostar de coisas mais ligeirinhas...
Carolina, espero que venhas a gostar de livros, pelo menos tanto quanto a avó Teresa, e os trates como pequenos, silenciosos, disponíveis, amiguinhos.
Parabéns minha querida.

13 Março, 2012

Poema de... Al Berto

RECADO
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a arvore das cassiopeias cobrir-te
e as louca aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante dessa noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Poema de Al Berto, Portugal (1948-1997)
Pintura (Erotismo e morte 1985) de Graça Morais, Portugal (1948-)

11 Março, 2012

Politiquices...

Os filmes da Tobis já são tesouro nacional.
O Conselho de Ministros classificou como tesouro nacional o património cinematográfico e documental da Tobis.
É a primeira vez que património fílmico português consegue este estatuto.

“… a importância do cinema português é uma questão de História, e do “tesouro” fazem parte também os filmes que cada um de nós não gosta, mas que nos dizem sobre o que somos e o que fomos capazes de fazer: salvar o cinema português não é salvar um conjunto de delícias estéticas – é salvar a memória de um país.”

Excerto do comentário de Luís Miguel Oliveira, publicado no jornal Público de 8 de Março 2012.

09 Março, 2012

Prémio Dardos

Uau! Ganhei um prémio da Paula, do blog viajando pela leitura

"O Prémio Dardos reconhece os valores que cada blogueiro mostra em cada dia no seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais... que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras."

Possui três regras:
1- Se aceitar, exibir a imagem.
2- Linkar o blog que lhe ofereceu o prémio.
3- Escolher 15 blogs para entregar o Prémio Dardos

Agradeço muito e vou também premiar 15 blogs que visito com regularidade:

Façam como eu. Entreguem o prémio aos blogs que considerem merecedores.
Bjs.


08 Março, 2012

Tenho para dar... livros de Marion Zimmer Bradley

Como não acabei a leitura d’ o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe, esta semana não tenho opinião para publicar.
Decidi, então, ocupar este espaço dando livros. Por quê?
Primeiro porque as prateleiras estão cheias cá em casa (o maridão já se queixou), depois, porque compreendi que tenho livros guardados que já me disseram muito, mas que agora podem voar para outros lugares. Entre deitar fora ou dar – claro que optei por dar.
Vou começar por Marion Zimmer Bradley (sim, eu sou do tempo em que se devoravam livros desta excelente autora do fantástico...), mas tenho mais, muitos mais.
Nunca me meti numa coisas destas, portanto, os interessados terão que me indicar como tudo se vai processar. Ou seja, eles agora são meus – como passam a ser teus?
Como os livros são um bocadinho de mim, tenho por hábito assiná-los e anotar o mês e ano da leitura, pelo que levarão um borrão numa das primeiras páginas. As restantes estão "limpinhas", pois na altura, ainda não fazia sublinhados e anotações nas margens.
Ora bem, aqui estão eles: