02 agosto, 2017

Vou de férias...


... do meu rol de leituras.
Como faço todos os anos, durante o mês de Agosto nada postarei.
Vou aproveitar para ler (a pilha de livros cresceu nos últimos meses) e “espreitar “, com calma, os blogues que sigo e de que ando arredada.

Julho foi um mês complicado. 
Um problema de saúde, grave, da mãe das minhas netas de 11 meses e 6 anos, deixou-me arrasada física e psicologicamente. 
Como se não bastasse, no último dia do Julho mais cinzento dos meus (já muitos) verões, a morte súbita cardíaca atingiu um familiar que habitava junto de nós, ali ao virar da esquina. Saudável e feliz com a vida, partiu deixando familiares e amigos estarrecidos. E eu, continuei a arrasar, perdida numa onda de angústia e desorientação. E medo.
Realmente,  "a vida dói muito mais que a morte" - palavras de Jim Morrison.

Vou aproveitar esta pausa para procurar a ponta do novelo da minha vida. Fernando Pessoa disse que  “a vida é um novelo que alguém emaranhou”  e eu vou tentar desemaranhar o meu.

Até Setembro.
Muitas e excelentes leituras.
Braçadas de flores para os meus seguidores e todos aqueles que, simplesmente, passam por aqui.

(No meio de tanta agitação consegui ler "A Vegetariana", romance de Han Kang.
Demasiado estranho e perturbador, recomendo que o leiam lá para o outono... ou inverno...
Verão é para degustar, brindar e foliar.)

31 julho, 2017

Carrego gostosamente com o lastro do passado...


Carrego gostosamente com o lastro do passado, albergo-o e permito que me acompanhe para todo o lado. A mim o que me incomoda amiúde é o presente, aquela sua lixada mania de se intrometer em tudo. O passado manda-se para a floresta do esquecimento e ali permanece, mesmo à custa de se converter em alimária. O presente, em contrapartida, espera-nos ao pé da floresta, a meio do caminho, e tem um machado na mão.”


Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

28 julho, 2017

Sempre que vejo sangue, desmaio...


Sempre que vejo sangue, desmaio. Sou fraca a esse ponto, não suporto nem um beliscão. Incomoda-me essa debilidade, mas não consigo ultrapassá-la por mais que me esforce. Quando me têm de tirar sangue para uma análise, experimento todo o tipo de truques: olhar para outro lado, fechar os olhos, contar até cem; inclusivamente uma vez tentei o contrário, olhá-lo fixamente, concentrar-me no sangue e pensar que era água, torná-lo transparente com a força do meu olhar.

Aguento apenas uns segundos antes de sentir aquela frouxidão que nasce nos pés e se instala na boca do estômago, depois os ombros descaem, o pescoço cede, as maçãs do rosto fraquejam-me como cera derretida e, quando o frio chega ao cérebro, já não estou. Falta de luz. Não é desagradável. Pelo contrário, tem qualquer coisa de abençoado, esse abandono, essa interrupção total da consciência. Tomara eu dormir sempre assim, flutuar à deriva nessa paz com todas as amarras cortadas. O desmaio, como o sono, está fora do tempo, numa dimensão própria que parece eterna mesmo que dure apenas uns segundos.”


Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

21 julho, 2017

Os sentimentos que mais doem...



Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas importantes, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juntos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas. (…)
Sei que estes pensamentos da emoção doem com raiva na alma. (…)

Nestas horas de mágoa subtil, torna-se impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz. Tudo isso está vazio, até na ideia do que é. Tudo isso está dito em outra linguagem, para nós incompreensível, meros sons de sílabas sem forma no entendimento. A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. Todos os deuses morrem de uma morte maior que a morte. Tudo está mais vazio que o vácuo. E tudo um caos de coisas nenhumas.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Painel de azulejos de Almada Negreiros, pintor  português (1893-1970).

14 julho, 2017

"Obra poética" - José Carlos Ary dos Santos


O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos, poeta e declamador português  (1936-84)
(Foto da net)



11 julho, 2017

Quando não consigo dormir...


Quando não consigo dormir, costumo deitar-me de barriga para cima, com os olhos fechados e os braços esticados paralelos ao tronco. Todo o corpo liso e direito, excepto os pés, que apontam para o céu. Então, começando pelo dedo mínimo do pé direito, vou-os mexendo um a um, devagar, muito devagar, e conto-os. Mexo um dedo e conto-o, um; mexo o seguinte, dois, três, quatro. Ao chegar a dez, estou no dedo mínimo do segundo pé. É importante mexê-los todos, um a um, não saltar nenhum dedo, não interromper a contagem. Quando se termina, volta-se a começar em sentido contrário: onze dedos, doze, treze…
Não costuma falhar. Houve alturas em que cheguei a contar mais de cento e cinquenta dedos, mas com firmeza e método, se os contarmos realmente um a um e mexermos de cada vez aquele que é devido, acaba por se conseguir. Vai-nos dando o sopor.

Nunca tomei um comprimido para dormir. Nunca, nem sequer uma valeriana. (…) Nunca um comprimido. Sempre os dedos um a um!”

Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.


(Experimentei "contar dedos dos pés" na passada semana, quando a minha netinha adormecia e eu teimava em ficar de olhos abertos. Perdida de sono, mas de olhos abertos.

Foi uma semana em grande, aqui em casa com a Madalena. Os papás foram de férias, levaram a Carolina, de seis anos, e deixaram comigo a pequenina de dez meses. Linda, linda, linda!
Foi maravilhoso!
E cansativo? Sim, um pouco; biberons, papas, fraldas e chupetas... não é mole, não! Mas voltaria a fazer tudo, mesmo tudo!
Vivem longe e não são muitas as vezes que estamos juntas. Pena minha!

Acreditem, abraços e beijos babados de netinhas provocam numa avó um turbilhão de emoções.
Mesmo se para dormir tem de contar os dedos dos pés.)

07 julho, 2017

A liberdade é a possibilidade do isolamento...


A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente.
Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que o faz ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela."

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

04 julho, 2017

A arte pertence a toda a gente e a ninguém...


"A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. (...) A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. A arte não existe pela arte: existe pelas pessoas. Mas que pessoas, e quem as define?

Escrevia  música para toda a gente e para ninguém. Escrevia música para os que melhor apreciavam a música que ele escrevia, sem olhar à condição social. Escrevia música para os ouvidos que eram capazes de ouvir. E sabia, por isso, que todas as verdadeiras definições de arte são circulares e que todas as definições não verdadeiras de arte lhe atribuem uma função específica.

Havia muito a dizer sobre o silêncio, esse lugar onde as palavras se esgotam e a música começa; e também, onde a música se esgota."


Julian Barnes, escritor inglês (n.1946), in "O ruído do tempo", Ed. Quetzal, 2016
Foto da net.

27 junho, 2017

Dói-me a cabeça...


Dói-me a cabeça.
O meu desejo é morrer, pelo menos temporariamente, mas isto, como disse, só porque me dói a cabeça. E neste momento, de repente, lembra-me com que melhor nobreza um dos grandes prosadores diria isto. Desenrolaria, período a período, a mágoa anónima do mundo: aos seus olhos imaginadores de parágrafos surgiriam, diversos, os dramas humanos que há na terra, e através do latejar das fontes febris erguer-se-ia no papel toda uma metafísica da desgraça. Eu, porém, não tenho nobreza estilística.

Dói-me a cabeça porque me dói a cabeça. Dói-me o universo porque a cabeça me dói. Mas o universo que realmente me dói não é o verdadeiro, o que existe porque não sabe que existo, mas aquele, meu de mim, que, seu eu passar as mãos pelos cabelos, me faz parecer sentir que eles sofrem todos só para me fazerem sofrer.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

23 junho, 2017

A primeira vez que perguntei donde vinham os meninos...



A primeira vez que perguntei donde vinham os meninos, a mamã deu-me uma resposta científica, com todo o tipo de pormenores: o esperma e o óvulo e a fecundação e o zigoto e o parto e o cordão umbilical e tudo o que se queira. Como deve ser, com toda a naturalidade do mundo: «O teu pai e eu fizemos amor…» Julgo até que a minha imaginação construiu uma representação mental do estranho enigma que me estavam a contar, em que a pilinha do papá encaixava no buraquinho da mamã com uma precisão geométrica e limpa, como encaixam as peças de madeira nos jogos de construção. Mas não era uma imagem de verdade. Não é uma imagem de verdade. (…)
Não é só a imagem de como nos geram que é falsa Também a de como nascemos. Toda aquela humidade embrulhada num choro raivoso, o sangue e os rompimentos, os coágulos espalmados que selam as pálpebras, o frio, a ingravidade perdida e aquela repentina obrigação de sermos, de sermos a sério e sozinhos, todo aquele pântano de células forçadas a juntarem-se em órgãos e crescerem e dividirem-se, que é a sua forma de se multiplicarem, e procurarem uma saída.
Nascer é isso: procurar uma saída, procurá-la às apalpadelas e aos encontrões, cegos pelo sangue. E depois a vida inteira à procura de uma saída que nos tire do atoleiro em que a saída anterior nos meteu, talvez porque não era exactamente uma saída e assim, com a memória entretida, acabamos por acreditar que não nascemos assim, que viemos ao mundo limpos e embrulhados como uma rebuçado, a cheirar a gazes e pomadas, com a pele hidratada de cremes, e não de sangue. É a primeira lenda. Ainda não acabámos de nascer e já estamos a inventar como nascemos. Agrada-nos a ideia de sermos filhos de uma ideia. Queremos ser filhos do amor e somos filhos do sexo. É possível que o amor contenha o sexo, como as nascentes dificilmente perceptíveis contêm rios imensos.”

Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

20 junho, 2017

"Diário do último ano" - Florbela Espanca


A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa: posso partir.
"Diário do último ano" é registo dos últimos dias de vida de Florbela Espanca, «uma virgem prometida à morte», como escreveu Natália Correia no Prefácio.
É um desabafo pessoal, uma confissão, feito em 32 pequenas anotações (apresentadas também na versão do manuscrito original) e um longo poema, escrito por uma alma angustiada:

"Ó Almas de mentira,
Almas cancerosas,
De virgens que nunca se curvaram
À janela dos olhos pra ver rosas
E cravos e lilases e verbenas...

Ó almas de gangrenas,
Almas 'slavas, humildes, misteriosas,
Cruéis, alucinantes, tenebrosas,
Todas em curvas negras como atalhos,
Feitas de retalhos,
Agudas com ralhos,
Cortantes como gritos!"

Florbela inicia o diário a 11 de Janeiro de 1930,  e logo clarifica para quem o escreve e porque o escreve:
- Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir – todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
Encerra-o a 2 de Dezembro, com uma única frase:
- E não haver gestos novos nem palavras novas!
Morre a 8 do mesmo mês, dia do seu 36º aniversário. A terceira tentativa de suicídio (tentado em Outubro e Novembro) foi fatal.
De saúde frágil, com doença mental diagnosticada, depois da morte do irmão em 1927, Florbela entra em depressão e clama pela morte:
Morte, minha Senhora Dona Morte
Tão bom que deve ser o teu abraço!

Eis algumas anotações:
"FEVEREIRO
19 – Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa mediocridade do mundo se Eu sou Eu? Que me importa o desalento da vida se há a morte?
ABRIL
20 –  Porque me não esqueço eu de viver… para viver?
28 – Não tenho forças, não tenho energia, não tenho coragem pra nada. Sinto-me afundar. Sou o ramo de salgueiro que e inclina e diz que sim a todos os ventos.
AGOSTO
2 – Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada… Porquê?
OUTUBRO
8 – (…) só na alma é que a lama se não apaga; aquela com que nos salpicam, sai com água.
NOVEMBRO
15 – Não, não e não!
20 – A morte definitiva ou a morte transfigurada?
Mas que importa o que está para além?
Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!"
Sinto-me só. Quantas coisas lindas e tristes eu diria agora a Alguém que não existe!

Este livro pequenino é triste mas belíssimo!
Confirme!

Diário do último ano, de Florbela Espanca
Bertrand, 1981
70 págs.

16 junho, 2017

Os pobres não gritam...


"Os pobres não gritam. A morte faz parte do seu lúgubre cortejo de amigos, tem um cantinho no seu leito e um lugar à sua mesa: quando chega, pode levar tudo; quando transpõe a porta, aberta de par em par, com a sua presa, não vê à sua volta, a escoltar-lhe o fatídico vulto negro, senão cabeças curvadas num gesto de resignação, braços caídos, braços de quem deu tudo, de quem não tem mais nada para dar. A dor dos pobre é resignada e calma; traz às vezes consigo as aparências da revolta mas, no fundo, é cheia de um imenso, dum infinito desapego de tudo. Os pobres vêm ao mundo já sem nada; o pouco que a vida lhes deixa é emprestado. Que lhes hão-de tirar que seja deles?! Aos pobres toda a gente chama desgraçados."

Florbela Espanca, poetisa portuguesa (1894-1930), in “As máscaras do destino - Conto A paixão de Manuel Garcia”, Bertrand, 1981
Pintura "Interior de Pobres" (1921), do pintor e escultor brasileiro Lasar Segal (1891-1957)

13 junho, 2017

"A valsa do adeus" - Milan Kundera


Cada homem devia receber uma dose de veneno no dia da sua maioridade. Não para o incitar ao suicídio, mas, pelo contrário, para o fazer viver com mais segurança e mais serenidade. Viver sabendo-se senhor da sua vida e da sua morte.
Em “ Valsa do adeus” (1972) oito corações acelerados, nem sempre em sintonia perfeita, buscam a felicidade numa pequena estância termal isolada, antiquada, decadente, famosa pelos águas que tratam o coração dos homens e a esterilidade das mulheres.
Num contínuo de encontros e desencontros, homens e mulheres rodopiam ao ritmo de uma valsa-intriga, sabiamente orquestrada por Kundera com muita ironia e humor.
Toda a acção decorre no espaço de cinco dias - segunda a sexta-feira dum início de Outono.
A narrativa, rápida, inteligente, envolvente, retrata o comportamento de pessoas normais apanhadas em situações imprevisíveis. Não há verdades absolutas, antes mentiras desesperadas. E muitas contradições.
Ruzena, uma jovem e bela enfermeira da casa de banhos, e Klima, um célebre músico de jazz, estão no centro duma enorme confusão amorosa, “temperada” com pormenores hilariantes.
Ruzena e Klima conheceram-se na noite em que o jovem e charmoso trompetista actuou na estância termal. Dormiram juntos. Não voltaram a ver-se.
Dois meses depois (segunda-feira), ela liga-lhe e diz-lhe que está grávida. E ele fica paralisado de terror.
Será mesmo o pai da criança? Estiveram juntos apenas uma vez. Tem de convencê-la a abortar. Como? Com promessas e mentiras.
Klima é casado com Kamila, uma bela mulher de saúde frágil, que renunciou à carreira de cantora.
Ele ama-a infinitamente. Sente o coração despedaçar-se quando a vê triste. “Perde-se” em casos de infidelidade, mas volta para ela sempre mais apaixonado. Era capaz de dar a vida por ela.
Já Kamila ama o marido doentiamente. Torturada pelo ciúme não acredita em nada do que ele lhe diz. Tem medo de todas as mulheres que gravitam à volta dele. Silencia a sua desconfiança para não o enfurecer. Aprendeu a “jogar” com a tristeza para o atrair.
Porque não procura ela algum conforto no mundo dos homens?
Porque o ciúme possui o poder espantoso de iluminar de raios de luz intensos o ser único, mantendo a multidão dos demais homens numa obscuridade total.
(É hilariante a relação de amor/ódio deste casal. Já agora, fique a saber que , lá para quinta-feira, Kamila vai mudar …)
Às 9.00 horas da manhã do dia seguinte, Klima chega a à estância termal.
Antes de falar com a enfermeira, encontra-se com o doutor Skreta, director dos serviços de ginecologia. Tenta convencê-lo de que aquela criança não pode ser sua, que duvida até que Ruzena esteja realmente grávida.
- Examinei-a ontem. Está grávida. – disse o médico.
É um Klima apavorado e angustiado que se senta à frente de Ruzena.
Ela diz que nunca aceitará abortar. Não nunca… Ele,  perde o uso da fala… mas não da capacidade inventiva e pouco depois é uma Ruzena empolgada que confidencia às colegas: - Ele disse que me amava e que ia casar comigo… mas não quer que eu tenha já um filho.
Mas esta valsa não é só dançada por Ruzena e Klima. Outros dançarinos rodopiam no salão: Bertlef (o rendeiro americano rico louco por mulheres); Olga (a mais antiga utente da estância termal), Frantisek (o tresloucado namorado de Ruzena, que insiste que o filho é seu); Jakub (o decepcionado militante do movimento politico comunista, vítima das depurações, que pretende abandonar definitivamente o país e está na estância termal para se despedir da amiga e protegida Olga, e devolver ao doutor Skreta o comprimido de veneno que em tempos este lhe havia preparado) e Kamila (que também aparecerá por lá).
Jakub, para muitos dançarinos um mero desconhecido, vai interferir no ritmo desta valsa.
Ruzena cruza-se  com ele num café. Desagrada-lhe o seu rosto. Acha-o irónico e ela detesta a ironia. O olhar dele assusta-a. Sai apressada e esquece sobre a mesa um tubo com comprimidos. Jakub apanha-o.
Na quinta-feira o trompetista  volta a tocar na estância. A mulher, sem que ele saiba, aparece de surpresa e assiste ao concerto. Acabam por dormir na estância.
No dia seguinte, ele acorda e sai apressado do quarto. Tem de falar urgentemente com Ruzena.
Entretanto, na sala de banhos Frantisek e Ruzena discutem violentamente à frente das utentes.
Kamila, enfurecida vai à procura do marido. Num corredor encontra Jakub. Caminham lado a lado e ele fala, fala, fala. Separam-se. 
Kamila não esquece as palavras daquele desconhecido. Nem o seu rosto. Como ele, também ela vivia na cegueira. Via apenas um único ser, iluminado pelo farol violento do ciúme. Depois daquele encontro começa a sentir-se segura de si e mais bela. O marido deixa de ser o único homem do mundo. O eventual fim do seu casamento, já não lhe inspira nem angústia nem medo. 
O que lhe disse Jakub? Eu sei, mas não digo.
O ritmo desta valsa acelera e o pior acontece quando um comprimido azul pálido mata um dançarino. 
Assassínio? Suicídio? Acidente?

Este romance aborda questões sérias de uma forma deliciosamente divertida.
(Qual foi o dançarino que morreu? Ora, ora, se eu revelar perde a graça!)
Leia!

A valsa do adeus, de Milan Kundera
Tradução de Miguel Serras Pereira
D. Quixote, 1989
210 págs.

06 junho, 2017

A vida é uma viagem experimental...


A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e, como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que se sentiu foi o que se viveu. Recolhe-se tão cansado de um sonho como de um trabalho visível. Nunca se viveu tanto como quando se pensou muito. (…)

Vem isto tudo, que vai dito como vai sentido, a propósito do grande cansaço, aparentemente sem causa, que desceu hoje súbito sobre mim. Estou não só cansado, mas amargurado, e a amargura é incógnita também. Estou, de angustiado, à beira das lágrimas – não de lágrimas que se choram, mas que se reprimem, lágrimas de uma doença da alma, que não de uma dor sensível.
Tanto tenho vivido sem ter vivido! Tanto tenho pensado sem ter pensado! Pesam sobre mim mundos de violências paradas, de aventuras tidas sem movimento. Estou farto do que nunca tive nem terei, tediento de deuses por existir. Trago comigo todas as feridas de batalhas que evitei. Meu corpo muscular está moído do esforço que nem pensei em fazer.
Baço, mudo, nulo… “

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Desenho de Vincent van Gogh, pintor holandês (1853-90)

30 maio, 2017

"As máscaras do destino" - Florbela Espanca


Os mortos são na vida os nossos vivos, andam pelos nossos passos, trazemo-los ao colo pela vida fora e só morrem connosco. Mas eu não queria, não queria que o meu morto morresse comigo, não queria! E escrevi estas páginas…
É de contos este livro de Florbela Espanca, publicado postumamente em 1931, um ano após o suicídio da poetisa.
Contos que ela escreveu em homenagem ao irmão Apeles Espanca, falecido tragicamente em 1927, quando o avião que pilotava se despenhou nas águas do Tejo.
Agustina Bessa-Luís assina o excelente Prefácio: “A vida de Florbela não foi longa. Mas pode dizer-se que é breve uma vida infeliz, em que os minutos são desertos de agrado pelo mundo? Todos os contos de Florbela descrevem esse deserto moroso, onde sopra um vento açulador e triste… Florbela foi infeliz com razões para a felicidade.”
Segue-se a dedicatória ao irmão: “Este livro é dum Morto, este livro é do meu Morto. Que os vivos passem adiante…”
E depois, alinham-se oito pequenos, belos, tristes, estranhos contos, feitos de palavras choradas por uma mulher frágil, devastada de dor e saudade, incapaz de lidar com a perda do irmão amado. 
O Aviador
"O que anda sobre o rio? Outra gaivota? Outra vela?
É um homem que tem asas! (…) O homem está contente. Atira as asas mais ao alto, escalando os cimos infinitos, já fora do mundo, na sensação maravilhosa e embriagadora de um ser que se ultrapassa! Sente-se um deus! As mãos desenclavinham-se, desprendem-se-lhe da terra onde as tem presas um derradeiro fio de oiro… e cai na eternidade…”
A Morta
“Todas as tardes, à hora em que o crepúsculo, todo vestido de glicínias, descia com a doçura dumas pálpebras que se fechassem (…) a mão do noivo empurrava a porta do jazigo. (…)
O vivo e a morta falavam, e o que eles diziam não o podem entender os vivos nem talvez mesmo os ouros mortos (…)
Mas, uma tarde, a Morta esperou em vão, e esperou outra e outra e outra ainda em infindáveis horas de infindáveis tardes. (…)
Foi então que uma noite mais cega ainda que as outras todas (…) ela ergueu os braços, levantou brandamente a tampa do caixão, e desceu devagarinho… foi então que ela puxou para si a porta do jazigo que dava para a noite.
E a Morta lá foi pela soturna avenida, no seu passo, de manto a roçagar. Empurrou a porta apenas encostada – para que se há-de fechar a porta aos mortos? – e saiu… e na cidade adormecida foi uma flor de milagre que os vivos sentiram desabrochar.”
Os Mortos não voltam
“… os mortos não voltam e é melhor que assim seja… Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?”
O resto é perfume
A paixão de Manuel Garcia
O Inventor
As Orações de Soror Maria da Pureza
“Mariazinha lembrava-se muito bem. Todas as noites daquele ano em que não houvera Inverno, o namorado, encostado às grades, rezara a litania da sua puríssima paixão.
Mas um dia vieram dizer-lhe que ele tinha morrido. Morreu… pronto! Morreu. Foi só isso, Mariazinha. (…) Mariazinha não percebeu nem tão-pouco disse nada. Encerrada em si mesma como um cofre selado, foi um túmulo fechado e mudo, onde as revoltas e os gritos, as censuras e as carícias iam despedaçar-se em vão. (…) Passaram dias, meses, passaram dois anos (…) continuava a ir à grade onde fiava horas e horas a sorrir, de olhos baixo, com as mãos a tremer, num enleio de amor que não era deste mundo.”
O Sobrenatural

Comprei este livro em 1982. Li-o, guardei-o, emprestei-o, dei-o por perdido e agora recuperei-o.
Apesar de me ser entregue com a maioria das folhas soltas, relê-lo foi estupendo!
As palavras são túmulos…
… mas não nos tiram o sono.
Acreditem!

As máscaras do destino, de Florbela Espanca
Bertrand, 1981
181 págs.

28 maio, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Cada vez mais se ouve pais hesitantes do seu papel que perguntam se a tarefa que lhes cabe é a de serem pais para os seus filhos ou simplesmente grandes amigos. Tornarem-se amigos dos filhos, vencendo a distância simbólica que a parentalidade estabelece, aparece hoje a mães e a pais como uma solução tentadora que os colocaria melhor na órbita existencial dos filhos, cúmplices das etapas que estes percorrem, confidentes privilegiados das suas vivências e, desse modo, com maior capacidade de influenciar e de intervir. Será verdade? (…)
Os pais precisam aceitar que cada filho é uma vida distinta e autónoma, ao mesmo tempo gerada por eles e inacessível, à maneira de um segredo que protegem mas cujo conteúdo está destinado a escapar-lhes. (…)
A tarefa da vida dos filhos é fazerem-se criativos herdeiros de um dom recebido que também eles não entendem até ao fim ou não entendem logo. Ora, ser herdeiro não significa apenas receber a parte de bens que lhe corresponde, mas construir em diálogo com essa vida recebida uma identidade original. (…)
Mas uma função inalienável dos pais é recordar que a vida humana é fundada em limites e sinalizá-los. Precisamente o contrário da promessa consumista das nossas sociedades, onde tudo aparece pronto para ser adquirido, devorado e esquecido.”

Excerto da crónica “Pais ou amigos dos filhos?”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 27 Maio 2017
Vale a pena ler na íntegra.

Pintura “A sagrada família do passarinho”, do espanhol  Bartolomé Murillo (1617-82)

23 maio, 2017

Escuta, Zé Ninguém!


O grande homem é aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la.
Pensas sempre a curto prazo, Zé Ninguém, o teu tempo medeia de uma refeição a outra. Terás de aprender a memória em termos de séculos, e a perspectiva do futuro em termos de milénios. Terás de aprendê-la em termos da verdadeira vida, em termos do teu desenvolvimento desde o primeiro foco plasmático até ao animal humano, capaz de caminhar erecto, mas incapaz ainda de pensar com justeza. Porque a tua memória não retém acontecimentos de há dez ou vinte anos, continuas repetindo as mesmas asneiras de há dois milénios. E mais ainda: agarras-te a elas – à tua «raça», «classe», «nação», aos teus ritos religiosos compulsivos, à supressão do amor, como um piolho se aferra à pele. Nem te atreves a ver até que ponto te encontras atolado na tua miséria. De vez em quando, deitas a cabeça de fora e berras «Viva!» O coaxar de uma rã no charco tem pelo menos mais sentido. (…)
Quando saberás viver a tua vida em paz e segurança; a resposta consiste no inverso da tua forma de ser actual: viverás bem e em paz quando a vida significar para ti mais do que a segurança; o amor mais do que o dinheiro; a tua liberdade mais do que as linhas directivas do partido ou a opinião pública; quando o modo de estar no mundo de um Beethoven ou de um Bach for o tom habitual de toda a tua existência. (…)
Troca as tuas ilusões por um pouco de verdade.
Protege o amor das crianças de tenra idade dos ataques de adultos lascivos e frustrados.
Não tentes ser mais explorador que quem tenta explorar-te.
Não tentes melhorar a natureza mas antes entendê-la.
Procura pensar correctamente, ouve a tua voz interior e o seu murmúrio brando. Tens a vida nas tuas mãos. Sê tu próprio.
E não consintas que o sofrimento te torne duro e amargo.”

Tirei daqui: Escuta, Zé Ninguém!” (1945), de Wilhelm Reich (1897-1957), médico psicanalista e cientista austro-húngaro, pensador inconformista e autenticamente progressista, discípulo dissidente de Sigmund Freud.

Pintura "Cabeça", do pintor russo Pavel Filonov (1883-1941)

20 maio, 2017

Recordando... Florbela Espanca


A MINHA TRAGÉDIA
Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil, mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

“Não sou má, mas também não sou boa”, Florbela Espanca (1894-1930)

16 maio, 2017

"Lavoura arcaica" - Raduan Nassar

Sinopse: A crescer numa pequena fazenda no Brasil, o jovem André ama a terra e desafia os sermões do pai em virtude dos sentimentos pela irmã Ana. Dividido entre o afecto desmedido da mãe e a severa autoridade do pai, André tem de escolher entre cumprir o destino do filho pródigo ou ser a ovelha tresmalhada. Confrontado entre o corpo e a alma, entre o dever filial e a liberdade, a única saída é deixar a casa da família.
… o amor na família pode não ter a grandeza que se imagina…
Lavoura arcaica” é uma belíssima e comovente história de família.
Retrato íntimo, duro e dramático  do quotidiano entre as quatro paredes do lar, onde não falta afecto, amor, sofrimento, revolta, silêncios, confissões impossíveis, revelações incómodas.
A família é a do jovem André, o filho arredio, acometido, revoltado, tresmalhado; revoltado com a agressividade, austeridade e excessiva disciplina do progenitor; enfastiado das homilias contra as tentações e dos sermões do pai à cabeceira da mesa.
"Meu pai sempre dizia que o sofrimento melhora o homem, desenvolvendo o seu espírito e aprimorando a sua sensibilidade; ele dava a entender que quanto maior fosse a dor tanto ainda o sofrimento cumpria sua função mais nobre; ele parecia acreditar que a resistência de um homem era inesgotável; que o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio; é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há de cruzar os braços quando existe o irmão para socorrer."
André deixa a casa da família (1ª parte do romance) para conhecer mundo. No coração leva o afecto desmedido da mãe e o amor -milagre que viveu com Ana.
Ana, me escute, é só o que te peço (…) foi um milagre o que aconteceu entre nós, querida irmã; foi um milagre descobrirmos acima de tudo que nos bastamos dentro dos limites da nossa própria casa, confirmando a palavra do pai de que a felicidade só pode ser encontrada no seio da família.”
André acabou por ser encontrado por Pedro, o irmão mais velho, e convencido a voltar para junto da família. A "ovelha tresmalhada" retorna a casa (2ª parte do romance) para confrontar o pai.
"- Ninguém vive só de semear, pai.
- Claro que não, meu filho; se outros hão de colher do que semeamos hoje, estamos colhendo por outro lado do que semearam antes de nós. É assim que o mundo caminha, é esta a corrente da vida.
- Isso já não me encanta, sei hoje do que é capaz esta corrente; os que semeiam e não colhem, colhem contudo do que não plantaram; deste legado, pai, não tive o meu bocado. Por que empurrar o mundo para a frente? Se já tenho as mãos atadas, não vou por minha iniciativa atar meus pés também; por isso, pouco me importa o rumo que os ventos tomem…
- É muito estranho o que estou ouvindo.
- Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo;"
(pobre família nossa, prisioneira de fantasmas tão consistentes!)

É triste o fim desta assombrosa história. Mas sobre isso, nada desvendo.
Lavoura arcaica” - a parábola do filho pródigo, invertida - não é para ser contada, mas lida.
Se ainda não conhece, corra a uma livraria, procure, compre, leia.
Eu, li-o de uma assentada, cativa da inteligência e sensibilidade da linguagem do escritor. Nem os enormes parágrafos derramados em duas, três, quatro páginas seguidas me fizeram desistir desta fascinante e bem contada história.  Acreditem, penetrar na intimidade da família do André foi uma experiência inesquecível.

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar
Companhia das Letras, 2016
175 págs.
Raduan Nassar, filho de emigrantes libaneses, nasceu em 1935 em Pindorama, no interior do estado de S. Paulo, Brasil.
Estudou  Direito e Filosofia.
Nos anos sessenta escreveu o seu primeiro conto "Menina a Caminho"; viajou pelo Canadá e Estados Unidos. Regressou ao Brasil em 1962 e terminou o curso de Filosofia. Dois anos depois viajou para a Alemanha, onde estudou alemão. Visitou a aldeia dos pais, no Líbano.
Nos anos setenta publicou três livros: o romance "Lavoura Arcaica" (1975), a novela “Um copo de cólera" (1978) e o livro de contos "Menina a caminho" (1997).
Visitou Portugal em 1974, pouco após a revolução de Abril.
Nos anos oitenta, já com algum sucesso editorial no Brasil e no estrangeiro, abandonou a literatura e retirou-se para a sua fazenda, para se dedicar à criação de galinhas e coelhos.
Em 2011 distribuiu as terras pelos seus funcionários, doou a fazenda à Universidade Federal de S. Carlos e foi morar para S. Paulo.
Em 2016, foi-lhe atribuído, por unanimidade, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário destinado a autores de língua portuguesa.

09 maio, 2017

Que é viajar, e para que serve viajar?


Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.

As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava é a que percorro e é minha.

Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo.
Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar. (…)

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.”.

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
(foto da net)

07 maio, 2017

Canção para minha Mãe - Miguel Torga


Canção Para Minha Mãe

E sem um gesto, sem um não, partias!
Assim a luz eterna se extinguia!
Sem um adeus, sequer, te despedias,
Atraiçoando a fé que nos unia!

Terra lavrada e quente,
Regaço de um poeta criador,
Ias-te embora antes do sol poente,
Triste como semente em calor!

Ias, resignada, apodrecer
À sombra das roseiras outonais!
Cor da alegria, cântico a nascer,
Trocavas por ciprestes pinheirais.

Mas eu vim, deusa desenganada!
Vim com este condão que tu conheces,
E toquei essa carne macerada
Da vida palpitantes que mereces!

Porque tu és a Mãe!
Partiste um dia aos gritos e aos arrancos,
E partirás ainda pelo tempo além,
Mesmo sem madre e de cabelos brancos!

És e serás a faia que balança ao vento
E não quebra nem cede!
Se te pediu a paz do esquecimento,
Também a força de lutar te pede!

Respira pois, seiva da duração,
Nos meus pulmões até, se te cansaste;
Mas que eu sinta bater o coração
No peito onde em menino me embalaste.

Poema de Miguel Torga, Portugal (1907-95)
Pintura da romena Anca Bulgaru.

05 maio, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Como chegamos a ser o que somos? Por um trabalho longo e paciente, que decorre entre muita incerteza. (...)

«Estás a ouvir? Perguntou o principezinho. – Acordámos o poço e ele pôs-se a cantar…». Não se espera que existam poços num deserto. O pequeno herói de Saint-Exupéry garante, porém, que «o que torna belo um deserto é que ele esconde um poço em algum lugar». Resmungamos com a vida. Falta-lhe alguma coisa, nunca nada é perfeito, nada está acabado ou resolvido. É como se estivéssemos a jogar um jogo insolúvel: se temos o poço, falta-nos a corda; se temos a corda, falta-nos o balde; se temos a corda, o balde e o poço, falta-nos a força de ir até ao fundo da nascente buscar a água que nos dessedente. «O Principezinho» declara que não nos falta nada. Cada um de nós tem tudo o que precisa para experimentar a alegria. Não é um problema de conhecimento, é uma questão de olhar. Olharmos para o que somos e para o que nos rodeia com o coração simples, capaz de perceber o dom que nos habita. Pois, se encostarmos o ouvido até mesmo junto das nossas maiores derrotas compreenderemos que a nossa vida canta!”

Excerto da crónica “Do bom uso do fracasso”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 29 Abril 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Pintura de Salvador Dali , pintor espanhol (1904-89)

02 maio, 2017

26º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


269-(1930?)
“Este livro é a minha cobardia.
(...)
Porque escrevo se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não escrevesse o que consigo escrever, por inferior a mim mesmo que nisso seja? Sou um plebeu da aspiração, porque tento realizar: não ouso o silêncio como quem receia um quarto escuro. Sou como os que prezam a medalha mais que o esforço, e gozam a glória na peliça.
Para mim, escrever é desprezar-me: mas não posso deixar de escrever. Escrever é como a droga que me repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos necessários e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos, papoilas negras achadas ao pé das sepulturas dos propósitos, folhas longas de árvores obscenas que agitam os ramos nas margens ouvidas dos rios infernais da alma.
Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Porém eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!



28 abril, 2017

"O Primo Basílio" - Eça de Queiroz


«Meu adorado Bazilio
Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao acordar. Cobri-a de beijos...»
O romance “O Primo Basílio”, publicado na segunda metade do século XIX, é definido pelo autor como «um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa». Na realidade, a trama, algo trágica e de um realismo fascinante - a aventura adúltera de uma mulher - desenrola-se quase na totalidade no interior da habitação do casal Luiza e Jorge. Trama que tem todos os ingredientes para cativar o leitor: amor, paixão, traição, inveja, chantagem, tragédia.
As personagens são bem caracterizadas e credíveis. Gente comum, com defeitos e qualidades. Luiza (a burguesinha da Baixa que gosta de ler romances de amor); Jorge (o marido pacato, reservado, pouco sentimental); Basilio (o sedutor primo de Luiza); Juliana (a criada invejosa e tirana); Sebastião (o tímido bom amigo do casal); Leopoldina (a libertina amiga e confidente de Luiza); Acácio (o conselheiro), são magníficos. Mas outras há...
A escrita de Eça - considerado o pai do Realismo em Portugal - é simples, precisa e cativante.
A acção começa num domingo quente de verão. Em casa, Luiza e Jorge acabam de almoçar. Ele enrola um cigarro. Ela lê o jornal.
- Ah! – fez Luíza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.
- Que é?
- É o primo Basilio que chega!
E leu alto, logo:
«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordéus, o sr. Basílio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. Sua Excelência, que, como é sabido, tinha partido para o Brasil, onde se diz reconstituíra a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do ano passado. A sua volta à capital é um verdadeiro júbilo para os amigos de Sua Excelência, que são numerosos.»
- E são! – disse Luiza, muito convencida.
- Estimo, coitado! Fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma da mão. – E vem com fortuna, hem?
- Parece.
Quantas recordações! O primo Basílio fora o seu primeiro namorado. Tinha então dezoito anos, e ele vinte e sete. Depois, ele partiu para o Brasil e deixou-a numa enorme tristeza. Havia sete anos que não o via. Nunca o esqueceu. E nunca falou sobre esse amor com ninguém. Nem com Jorge, o homem que conheceu três anos depois, numa noite de verão no Passeio, e com quem casou numa manhã de nevoeiro no inverno seguinte.
- Casou no ar! Casou um bocado no ar!, disse Sebastião ao amigo Jorge.
Luiza e Jorge estão casados há três anos. São felizes. Falta apenas um filho.
Ele trabalha no Ministério das Obras Públicas. Ela toma conta da casa, lê romances de amor estendida na voltaire. Aos domingos à noite recebem em casa os amigos mais íntimos. E Luizinha toca piano, canta e encanta. E Jorge envolve-a em delicadezas de amante.
É domingo. No dia seguinte vão separar-se pela primeira vez. Jorge, engenheiro de minas, tem de partir em trabalho para o Alentejo. 
O seu afastamento coincide com o regresso a Lisboa de Basilio, naquele verão que será escaldante. Depois de vários anos nos Brasil, onde fez fortuna, e uns meses em Paris, onde aprimorou a técnica da sedução, o primo de Luiza volta. E sabe que ela casou. E que o marido está fora de Lisboa. E que ela está sozinha em casa.
Basilio não hesita. Procura-a. E passa a visitá-la todos os dias. E ela não resiste aos encantos do primo sedutor.
A vizinhança começa a coscuvilhar sobre tanta movimentação na casa do engenheiro. E os amigos do casal estranham e afastam-se. O tímido Sebastião avisa-a e aconselha reserva. Ela ignora.
Basilio, que não quer perder a amantezinha daquele verão, rapidamente procura um lugar para os jogos de amor. Encontra o «Paraíso» nos subúrbios de Lisboa, e lá passam tórridas tardes de amor.
Quando as visitas de Basilio, já entediado, começam a rarear, Luiza enciumada escreve-lhe cartas de amor. Cartas que Juliana, a criada invejosa, rancorosa e mesquinha  guarda para “tramar“ a patroa. Exige-lhe dinheiro. Chantageia-a e humilha-a. Em casa de Jorge, o engenheiro, a patroa vira criada e a criada vira patroa.
Luiza conta tudo a Basilio e propõe-lhe que fujam juntos para Paris.
- Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Pode lá falar-se em fugir? Era um escândalo atroz… É impossível! É uma simples questão de dinheiro…
Dinheiro que ela não tem. Dinheiro que ele não lhe dá.
No dia seguinte, Basilio, o sedutor cobarde, foge para Paris – alegre, levando recordações romanescas da aventura: ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!
Jorge volta do Alentejo. Estranha o que se passa em casa: Luiza definha enquanto a criada Juliana prospera.
Numa carta que chega de Paris para Luiza, Jorge encontra a resposta mas nada diz sobre o assunto, preocupado com o estado cada vez mais frágil da sua mulherzinha. 
Luiza, desesperada, procura o amigo Sebastião. Conta-lhe tudo. Pede-lhe ajuda para recuperar de Juliana as cartas roubadas. O bom Sebastião ajuda-a. Recorre a um amigo policia, procura Juliana, recupera as cartas roubadas e…
… e mais não desvendo!

Leia, ou releia como eu fiz, para saber que fim têm Juliana e Luiza, a tal que lia romances de amor, chorava com “A dama das Camélias”, cantava a «Traviata», tocava piano e, por desgraça, se deixou seduzir por um primo desprezível.
É trágico o fim deste soberbo romance.

O Primo Bazilio, de Eça e Queiroz
Livros do Brasil, 15º edição, 2015
493 págs.

18 abril, 2017

Recordando... Florbela Espanca


PARA QUÊ?!
Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...

Beijos de amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...

“A minha dor é um convento”, Florbela Espanca (1894-1930)

08 abril, 2017

Tenho tantas saudades, minha mãe (1929-2017)


Nada fica de nada. Nada somos
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos peses
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

(Ode de Ricardo Reis, pseudónimo de Fernando Pessoa)



Mãe, espera por mim. 
Espera por mim junto do pai.
Um dia vamos encontrar-nos e abraçar-nos e beijar-nos e celebrar o amor.
Espera por mim rodeada de anjos, na paz do Senhor.
Chorarei por ti, lágrimas de tristeza e saudade.
Sempre!

07 abril, 2017

Um espelho é um sortilégio...


Um espelho é um sortilégio.
Temos de nos ver muito tempo ao espelho, muitas vezes e muito tempo, antes de conhecermos o nosso verdadeiro rosto. Um espelho não é uma simples placa de prata com a sua superfície lisa, não, um espelho é profundo como um lago de montanha, e quem se debruça com toda a atenção sobre a superfície de um espelho veneziano vê subitamente o fundo, vê profundidades sempre novas, e o seu rosto reflecte-se cada vez mais longe, o seu rosto que se debruça sobre o espelho, e todos os dias uma máscara cai do rosto que se olha ao espelho (...).
Nunca ofereças um espelho à mulher que amas, (...) porque desse modo as mulheres acabam por se conhecer a si próprias, passam a ver melhor e entristecem. 
Foi por meio do espelho que um dia, algures, o conhecimento começou, quando o homem se debruçou sobre o mar, viu o seu próprio rosto no infinito, e entristeceu perguntando-se: « O que é isto?...» “

Tirei daqui: A conversa em Bolzano”, de Sándor Márai,  Ed. D. Quixote, 2014
Pintura de Fernand Toussaint, pintor belga (1883-1956)

05 abril, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei – e que lhes disse – foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo”. Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. (…)"


Excerto da crónica “Quando os filhos não leem”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 1 Abril 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

04 abril, 2017

25º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


262-(20-7-1930)
“Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.”

265-(27-71930)
“A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa. Dizem que não há nada mais difícil de definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstrata das molas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir fechar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstrata. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!

01 abril, 2017

"A Pérola" - John Steinbeck


Não é bom desejar muito uma coisa. Pode arredar a sorte. Basta desejá-la um pouco, porque é preciso muito tato com Deus ou com os deuses.
Esta novela conta a história de uma pérola grande, bela, perfeita como a Lua – a “Pérola do mundo”.
Conta também a história de amor e solidariedade de uma humilde família índia: Kino o pescador que apanhou a pérola, a sua mulher Juana e o seu filho Coyotito.
Viviam num aglomerado de cabanas junto ao mar. Mar que Kino gostava de ouvir, de escutar a sua música sempre que fechava os olhos. O seu povo tinha sido outrora grande cultor de canções, de tal modo que tudo o que via ou pensava, ou fazia e ouvia, se transformava numa canção.
Sempre que olhava para a mulher e o filho, Kino ouvia na sua cabeça uma canção pura e doce, a Canção da Família.
Porém, no dia em que Coyotito foi picado por um escorpião Kino passou a ouvir na sua cabeça a música do inimigo, de qualquer inimigo da família, uma melodia selvagem e perigosa, a Canção do Mal.
O médico da cidade, um homem racista, cruel, ignorante e oportunista, recusa tratar Coyotito por considerar que as oito minúsculas pérolas defeituosos, feias e cinzentas que Kino lhe mostrava não valiam o suficiente para pagamento dos seus serviços.
Kino corre para o mar. Tem de apanhar uma pérola grande e bela para salvar o filho. Corajoso, mergulha fundo e vê uma ostra isolada, com a concha parcialmente aberta. O seu coração bateu mais forte e a Canção da Pérola Ambicionada soou estridente nos seus ouvidos. Dentro da concha estava uma pérola grande, perfeita como a lua. Kino tinha encontrado a "Pérola do Mundo". Quanto valeria?
A notícia de que Kino tinha apanhado a grande pérola chegou célere aos ouvidos dos compradores de pérolas. E aos ouvidos do médico. E as bolsas de veneno da cidade começaram a produzir a sua peçonha.
Kino sabia que tinha que arranjar uma couraça que o protegesse contra a maldade do mundo. Mas estava feliz. Na sua cabeça a música da pérola tinha-se fundido com a música da família.
- Que vais fazer, agora que és um homem rico?
- Vamos casar-nos… na igreja.
- Vamos ter roupas novas.
- Uma espingarda.
- O meu filho há de ir à escola.
- O meu filho há de ler e abrir os livros, e o meu filho há de escrever e conhecer a escrita. O meu filho há de fazer números e essas coisas hão de libertar-nos, porque ele há de saber, há de saber e nós havemos de saber através dele.
- É isso que a pérola há de fazer.
Inesperadamente, Kino começou a ouvir na sua cabeça a Canção do Mal e um medo descontrolado cresceu no seu peito. E com o medo veio a raiva. E muita dor e tristeza e vergonha. 
O que se passou? 
Revelo apenas que a pérola volta para o fundo do mar...

Baseada num conto popular mexicano, “A Pérola” (1947) é uma parábola poética sobre as grandezas e as misérias do mundo em que vivemos.
Uma história pequenina, linda, comovente e inesquecível, para ler e reflectir.

A Pérola, de John Steinbeck, Prémio Nobel de Literatura, 1962
Tradução de Clarisse Tavares
Ed. Livros do Brasil, 2015
79 págs.

29 março, 2017

Recordando... Florbela Espanca


EU
Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

“Que heroínas somos nós às vezes! E que covardes.”, Florbela Espanca (1894-1930)

28 março, 2017

"Dentro da noute" - contos góticos


"Dentro da Noute" é uma antologia de Contos Góticos, organizada por Ricardo Lourenço e editada pelo Projecto Adamastor.
Reúne vinte e sete contos e novelas, da autoria de escritores portugueses e brasileiros.
Está disponível gratuitamente em formato EPUB e MOBI.
Se gosta de histórias de terror, daquelas que deixam o cabelo em pé, entre na "noute" misteriosa e assustadora e... arrepie-se!

Contos e Novelas Portugueses
1. O Defunto — Eça de Queirós
2. A Dama Pé-de-Cabra — Alexandre Herculano
3. A Caveira — Camilo Castelo Branco
4. A Torre Derrocada — Alberto Osório de Vasconcelos
5. O Mistério da Árvore — Raul Brandão
6. O Corvo — Fialho de Almeida
7. A Feiticeira — Ana de Castro Osório
8. A Morta — Florbela Espanca
9. Os Canibais — Álvaro do Carvalhal
10. Uma Récita do Roberto do Diabo — Júlio César Machado
11. O Cadáver — Beldemónio
12. Sede de Sangue — Manuel Teixeira Gomes
13. A Confissão de Lúcio — Mário de Sá-Carneiro

Contos e Novelas Brasileiros
1. Noite na Taverna — Álvares de Azevedo
2. A Dança dos Ossos — Bernardo Guimarães
3. Os Porcos — Júlia Lopes de Almeida
4. Acauã — Inglês de Sousa
5. Violação — Rodolfo Teófilo
6. Maibi — Alberto Rangel
7. Assombramento — Afonso Arinos
8. 11 e 20 — Medeiros e Albuquerque
9. Demônios — Aluísio Azevedo
10. O Defunto — Thomaz Lopes
11. A Causa Secreta — Machado de Assis
12. O Bebê de Tarlatana Rosa — João do Rio
13. Confirmação — Gonzaga Duque
14. Os Olhos que Comiam Carne — Humberto de Campos

Terror nunca fez o meu género. Nem nos filmes, nem na literatura. Sou assustadiça por natureza. Bastava que lesse um dos contos para perder noites de sono. A sério!
Espero que a simples divulgação  do lançamento da colectânea não interfira significativamente com o meu sono. Espero!!!