Afonso Reis Cabral, escritor português de 29 anos, licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, venceu em 2014 o Prémio LeYa com "O meu irmão", um corajoso primeiro romance.
Regressou em 2018 com o atordoante romance/ficção de um crime real "Pão de Açúcar", e com ele venceu, no passado dia 8, o Prémio José Saramago 2019.
Curiosamente, é de poesia o primeiro livro que publicou. Tinha 15 anos.
E mais curioso ainda, ele é trineto de Eça de Queirós, um dos nomes maiores da literatura portuguesa.
Parabéns Afonso! Ansiosa, espero pelo terceiro romance!
Como é que se vivia assim (…) no fundo de uma cave, no fundo de uma barraca, no fundo da vida.
“Pão de Açúcar”, ficciona a morte trágica, no Porto, de Gilberta Salece Júnior, brasileira, transexual, sem-abrigo, toxicodependente, com sida e outras doenças. Morte que deixou o país inteiro em estado de choque.
Em Fevereiro de 2006, os Bombeiros Sapadores resgataram o corpo sem vida de Gilberta do poço/buraco, com cerca de 10 metros de profundidade, escondido na cave de um prédio inacabado e votado ao abandonado. Nu da cintura para baixo, o corpo apresentava marcas de um espancamento brutal.
Semanas depois, os órgãos de comunicação social divulgaram que Gilberta fora agredida dias a fio por um grupo de 14 rapazes e atirada ainda com vida para o poço. Rapazes com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos, alguns problemáticos, retirados a famílias negligentes e acolhidos na Oficina de São José, onde o acompanhamento dos jovens não era o melhor.
«O que pode levar pessoas da minha idade, da minha cidade, a fazer isto? E a fazer isto a alguém, desamparado?» pensou incrédulo Afonso Reis Cabral, então com 16 anos, nascido em Lisboa e criado no Porto.
Dez anos depois do horrendo crime, o autor decide investigar os factos na tentativa de compreender o que realmente se passou na cave do prédio conhecido como “Pão de Açúcar”. Durante mais de um ano pesquisou as vidas da vítima e dos agressores, percorreu as «zonas sujas» da cidade, leu decisões do Tribunal de Família e Menores do Porto, visitou a cave (o edifício continuava abandonado), leu notícias, visionou reportagens, foi a bares que a vítima frequentara, falou com amigos e conhecidos dos rapazes e de Gilberta, esteve dentro da última casa onde ela viveu, percorreu ruas, estudou trajectos. (...) meti-me ao trabalho de campo sem o qual um livro como este não se escreve (...) depois baralhei com ficção, que é como se faz um romance.
Não chegou a falar com os rapazes mas fez deles personagens meticulosamente desenhadas, e para que nada o afastasse da matriz ficcional entregou a narração dos acontecimentos a um protagonista do hediondo crime: Rafael Tiago (Rafa).
Na “Nota antes” (antes do primeiro dos 56 capítulos do romance) o autor engana o leitor (e o leitor permite o engano) quando diz ter recebido uma carta de Rafael sobre o crime, que começa com «Às vezes, a vida é uma coisa tão bela que choro de ternura e não ligo ao que dizem», ter tido com ele encontros e conversas no Porto, e que num deles lhe prometeu: «A história é tua, como se fosses tu a contá-la, mas eu escrevo-a por ti».
Rafael, 12 anos, foi o primeiro rapaz a ver Gilberta (Gi), 45 anos, na cave onde ela doente e sozinha sobrevivia. Chocado com o desamparo em que vivia na barraca que «fedia», voltou muitas vezes, com comida, água e tudo o que conseguia pilhar no trajecto da Oficina - "Pão de Açúcar". Tornaram-se amigos e confidentes. Ela era um segredo apenas seu, não o partilharia com os amigos.
Mas o dia chegou em que ele o partilhou e... na escuridão da cave seres humanos comportaram-se como monstros.
… os lugares certos na vida são os lugares errados. Como na cave, ao lado de Gi.
(reedição ligeiramente alterada)
(O primeiro romance de Afonso Reis Cabral "
O meu irmão" está também aqui no Rol.)