07 maio, 2017

Canção para minha Mãe - Miguel Torga


Canção Para Minha Mãe

E sem um gesto, sem um não, partias!
Assim a luz eterna se extinguia!
Sem um adeus, sequer, te despedias,
Atraiçoando a fé que nos unia!

Terra lavrada e quente,
Regaço de um poeta criador,
Ias-te embora antes do sol poente,
Triste como semente em calor!

Ias, resignada, apodrecer
À sombra das roseiras outonais!
Cor da alegria, cântico a nascer,
Trocavas por ciprestes pinheirais.

Mas eu vim, deusa desenganada!
Vim com este condão que tu conheces,
E toquei essa carne macerada
Da vida palpitantes que mereces!

Porque tu és a Mãe!
Partiste um dia aos gritos e aos arrancos,
E partirás ainda pelo tempo além,
Mesmo sem madre e de cabelos brancos!

És e serás a faia que balança ao vento
E não quebra nem cede!
Se te pediu a paz do esquecimento,
Também a força de lutar te pede!

Respira pois, seiva da duração,
Nos meus pulmões até, se te cansaste;
Mas que eu sinta bater o coração
No peito onde em menino me embalaste.

Poema de Miguel Torga, Portugal (1907-95)
Pintura da romena Anca Bulgaru.

05 maio, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Como chegamos a ser o que somos? Por um trabalho longo e paciente, que decorre entre muita incerteza. (...)

«Estás a ouvir? Perguntou o principezinho. – Acordámos o poço e ele pôs-se a cantar…». Não se espera que existam poços num deserto. O pequeno herói de Saint-Exupéry garante, porém, que «o que torna belo um deserto é que ele esconde um poço em algum lugar». Resmungamos com a vida. Falta-lhe alguma coisa, nunca nada é perfeito, nada está acabado ou resolvido. É como se estivéssemos a jogar um jogo insolúvel: se temos o poço, falta-nos a corda; se temos a corda, falta-nos o balde; se temos a corda, o balde e o poço, falta-nos a força de ir até ao fundo da nascente buscar a água que nos dessedente. «O Principezinho» declara que não nos falta nada. Cada um de nós tem tudo o que precisa para experimentar a alegria. Não é um problema de conhecimento, é uma questão de olhar. Olharmos para o que somos e para o que nos rodeia com o coração simples, capaz de perceber o dom que nos habita. Pois, se encostarmos o ouvido até mesmo junto das nossas maiores derrotas compreenderemos que a nossa vida canta!”

Excerto da crónica “Do bom uso do fracasso”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 29 Abril 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Pintura de Salvador Dali , pintor espanhol (1904-89)

02 maio, 2017

26º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


269-(1930?)
“Este livro é a minha cobardia.
(...)
Porque escrevo se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não escrevesse o que consigo escrever, por inferior a mim mesmo que nisso seja? Sou um plebeu da aspiração, porque tento realizar: não ouso o silêncio como quem receia um quarto escuro. Sou como os que prezam a medalha mais que o esforço, e gozam a glória na peliça.
Para mim, escrever é desprezar-me: mas não posso deixar de escrever. Escrever é como a droga que me repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos necessários e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos, papoilas negras achadas ao pé das sepulturas dos propósitos, folhas longas de árvores obscenas que agitam os ramos nas margens ouvidas dos rios infernais da alma.
Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Porém eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!



28 abril, 2017

"O Primo Basílio" - Eça de Queiroz


«Meu adorado Bazilio
Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao acordar. Cobri-a de beijos...»
O romance “O Primo Basílio”, publicado na segunda metade do século XIX, é definido pelo autor como «um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa». Na realidade, a trama, algo trágica e de um realismo fascinante - a aventura adúltera de uma mulher - desenrola-se quase na totalidade no interior da habitação do casal Luiza e Jorge. Trama que tem todos os ingredientes para cativar o leitor: amor, paixão, traição, inveja, chantagem, tragédia.
As personagens são bem caracterizadas e credíveis. Gente comum, com defeitos e qualidades. Luiza (a burguesinha da Baixa que gosta de ler romances de amor); Jorge (o marido pacato, reservado, pouco sentimental); Basilio (o sedutor primo de Luiza); Juliana (a criada invejosa e tirana); Sebastião (o tímido bom amigo do casal); Leopoldina (a libertina amiga e confidente de Luiza); Acácio (o conselheiro), são magníficos. Mas outras há...
A escrita de Eça - considerado o pai do Realismo em Portugal - é simples, precisa e cativante.
A acção começa num domingo quente de verão. Em casa, Luiza e Jorge acabam de almoçar. Ele enrola um cigarro. Ela lê o jornal.
- Ah! – fez Luíza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.
- Que é?
- É o primo Basilio que chega!
E leu alto, logo:
«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordéus, o sr. Basílio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. Sua Excelência, que, como é sabido, tinha partido para o Brasil, onde se diz reconstituíra a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do ano passado. A sua volta à capital é um verdadeiro júbilo para os amigos de Sua Excelência, que são numerosos.»
- E são! – disse Luiza, muito convencida.
- Estimo, coitado! Fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma da mão. – E vem com fortuna, hem?
- Parece.
Quantas recordações! O primo Basílio fora o seu primeiro namorado. Tinha então dezoito anos, e ele vinte e sete. Depois, ele partiu para o Brasil e deixou-a numa enorme tristeza. Havia sete anos que não o via. Nunca o esqueceu. E nunca falou sobre esse amor com ninguém. Nem com Jorge, o homem que conheceu três anos depois, numa noite de verão no Passeio, e com quem casou numa manhã de nevoeiro no inverno seguinte.
- Casou no ar! Casou um bocado no ar!, disse Sebastião ao amigo Jorge.
Luiza e Jorge estão casados há três anos. São felizes. Falta apenas um filho.
Ele trabalha no Ministério das Obras Públicas. Ela toma conta da casa, lê romances de amor estendida na voltaire. Aos domingos à noite recebem em casa os amigos mais íntimos. E Luizinha toca piano, canta e encanta. E Jorge envolve-a em delicadezas de amante.
É domingo. No dia seguinte vão separar-se pela primeira vez. Jorge, engenheiro de minas, tem de partir em trabalho para o Alentejo. 
O seu afastamento coincide com o regresso a Lisboa de Basilio, naquele verão que será escaldante. Depois de vários anos nos Brasil, onde fez fortuna, e uns meses em Paris, onde aprimorou a técnica da sedução, o primo de Luiza volta. E sabe que ela casou. E que o marido está fora de Lisboa. E que ela está sozinha em casa.
Basilio não hesita. Procura-a. E passa a visitá-la todos os dias. E ela não resiste aos encantos do primo sedutor.
A vizinhança começa a coscuvilhar sobre tanta movimentação na casa do engenheiro. E os amigos do casal estranham e afastam-se. O tímido Sebastião avisa-a e aconselha reserva. Ela ignora.
Basilio, que não quer perder a amantezinha daquele verão, rapidamente procura um lugar para os jogos de amor. Encontra o «Paraíso» nos subúrbios de Lisboa, e lá passam tórridas tardes de amor.
Quando as visitas de Basilio, já entediado, começam a rarear, Luiza enciumada escreve-lhe cartas de amor. Cartas que Juliana, a criada invejosa, rancorosa e mesquinha  guarda para “tramar“ a patroa. Exige-lhe dinheiro. Chantageia-a e humilha-a. Em casa de Jorge, o engenheiro, a patroa vira criada e a criada vira patroa.
Luiza conta tudo a Basilio e propõe-lhe que fujam juntos para Paris.
- Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Pode lá falar-se em fugir? Era um escândalo atroz… É impossível! É uma simples questão de dinheiro…
Dinheiro que ela não tem. Dinheiro que ele não lhe dá.
No dia seguinte, Basilio, o sedutor cobarde, foge para Paris – alegre, levando recordações romanescas da aventura: ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!
Jorge volta do Alentejo. Estranha o que se passa em casa: Luiza definha enquanto a criada Juliana prospera.
Numa carta que chega de Paris para Luiza, Jorge encontra a resposta mas nada diz sobre o assunto, preocupado com o estado cada vez mais frágil da sua mulherzinha. 
Luiza, desesperada, procura o amigo Sebastião. Conta-lhe tudo. Pede-lhe ajuda para recuperar de Juliana as cartas roubadas. O bom Sebastião ajuda-a. Recorre a um amigo policia, procura Juliana, recupera as cartas roubadas e…
… e mais não desvendo!

Leia, ou releia como eu fiz, para saber que fim têm Juliana e Luiza, a tal que lia romances de amor, chorava com “A dama das Camélias”, cantava a «Traviata», tocava piano e, por desgraça, se deixou seduzir por um primo desprezível.
É trágico o fim deste soberbo romance.

O Primo Bazilio, de Eça e Queiroz
Livros do Brasil, 15º edição, 2015
493 págs.

18 abril, 2017

Recordando... Florbela Espanca


PARA QUÊ?!
Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...

Beijos de amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...

“A minha dor é um convento”, Florbela Espanca (1894-1930)

08 abril, 2017

Tenho tantas saudades, minha mãe (1929-2017)


Nada fica de nada. Nada somos
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos peses
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

(Ode de Ricardo Reis, pseudónimo de Fernando Pessoa)



Mãe, espera por mim. 
Espera por mim junto do pai.
Um dia vamos encontrar-nos e abraçar-nos e beijar-nos e celebrar o amor.
Espera por mim rodeada de anjos, na paz do Senhor.
Chorarei por ti, lágrimas de tristeza e saudade.
Sempre!

07 abril, 2017

Um espelho é um sortilégio...


Um espelho é um sortilégio.
Temos de nos ver muito tempo ao espelho, muitas vezes e muito tempo, antes de conhecermos o nosso verdadeiro rosto. Um espelho não é uma simples placa de prata com a sua superfície lisa, não, um espelho é profundo como um lago de montanha, e quem se debruça com toda a atenção sobre a superfície de um espelho veneziano vê subitamente o fundo, vê profundidades sempre novas, e o seu rosto reflecte-se cada vez mais longe, o seu rosto que se debruça sobre o espelho, e todos os dias uma máscara cai do rosto que se olha ao espelho (...).
Nunca ofereças um espelho à mulher que amas, (...) porque desse modo as mulheres acabam por se conhecer a si próprias, passam a ver melhor e entristecem. 
Foi por meio do espelho que um dia, algures, o conhecimento começou, quando o homem se debruçou sobre o mar, viu o seu próprio rosto no infinito, e entristeceu perguntando-se: « O que é isto?...» “

Tirei daqui: A conversa em Bolzano”, de Sándor Márai,  Ed. D. Quixote, 2014
Pintura de Fernand Toussaint, pintor belga (1883-1956)

05 abril, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei – e que lhes disse – foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo”. Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. (…)"


Excerto da crónica “Quando os filhos não leem”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 1 Abril 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

04 abril, 2017

25º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


262-(20-7-1930)
“Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.”

265-(27-71930)
“A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa. Dizem que não há nada mais difícil de definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstrata das molas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir fechar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstrata. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!

01 abril, 2017

"A Pérola" - John Steinbeck


Não é bom desejar muito uma coisa. Pode arredar a sorte. Basta desejá-la um pouco, porque é preciso muito tato com Deus ou com os deuses.
Esta novela conta a história de uma pérola grande, bela, perfeita como a Lua – a “Pérola do mundo”.
Conta também a história de amor e solidariedade de uma humilde família índia: Kino o pescador que apanhou a pérola, a sua mulher Juana e o seu filho Coyotito.
Viviam num aglomerado de cabanas junto ao mar. Mar que Kino gostava de ouvir, de escutar a sua música sempre que fechava os olhos. O seu povo tinha sido outrora grande cultor de canções, de tal modo que tudo o que via ou pensava, ou fazia e ouvia, se transformava numa canção.
Sempre que olhava para a mulher e o filho, Kino ouvia na sua cabeça uma canção pura e doce, a Canção da Família.
Porém, no dia em que Coyotito foi picado por um escorpião Kino passou a ouvir na sua cabeça a música do inimigo, de qualquer inimigo da família, uma melodia selvagem e perigosa, a Canção do Mal.
O médico da cidade, um homem racista, cruel, ignorante e oportunista, recusa tratar Coyotito por considerar que as oito minúsculas pérolas defeituosos, feias e cinzentas que Kino lhe mostrava não valiam o suficiente para pagamento dos seus serviços.
Kino corre para o mar. Tem de apanhar uma pérola grande e bela para salvar o filho. Corajoso, mergulha fundo e vê uma ostra isolada, com a concha parcialmente aberta. O seu coração bateu mais forte e a Canção da Pérola Ambicionada soou estridente nos seus ouvidos. Dentro da concha estava uma pérola grande, perfeita como a lua. Kino tinha encontrado a "Pérola do Mundo". Quanto valeria?
A notícia de que Kino tinha apanhado a grande pérola chegou célere aos ouvidos dos compradores de pérolas. E aos ouvidos do médico. E as bolsas de veneno da cidade começaram a produzir a sua peçonha.
Kino sabia que tinha que arranjar uma couraça que o protegesse contra a maldade do mundo. Mas estava feliz. Na sua cabeça a música da pérola tinha-se fundido com a música da família.
- Que vais fazer, agora que és um homem rico?
- Vamos casar-nos… na igreja.
- Vamos ter roupas novas.
- Uma espingarda.
- O meu filho há de ir à escola.
- O meu filho há de ler e abrir os livros, e o meu filho há de escrever e conhecer a escrita. O meu filho há de fazer números e essas coisas hão de libertar-nos, porque ele há de saber, há de saber e nós havemos de saber através dele.
- É isso que a pérola há de fazer.
Inesperadamente, Kino começou a ouvir na sua cabeça a Canção do Mal e um medo descontrolado cresceu no seu peito. E com o medo veio a raiva. E muita dor e tristeza e vergonha. 
O que se passou? 
Revelo apenas que a pérola volta para o fundo do mar...

Baseada num conto popular mexicano, “A Pérola” (1947) é uma parábola poética sobre as grandezas e as misérias do mundo em que vivemos.
Uma história pequenina, linda, comovente e inesquecível, para ler e reflectir.

A Pérola, de John Steinbeck, Prémio Nobel de Literatura, 1962
Tradução de Clarisse Tavares
Ed. Livros do Brasil, 2015
79 págs.

29 março, 2017

Recordando... Florbela Espanca


EU
Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

“Que heroínas somos nós às vezes! E que covardes.”, Florbela Espanca (1894-1930)

28 março, 2017

"Dentro da noute" - contos góticos


"Dentro da Noute" é uma antologia de Contos Góticos, organizada por Ricardo Lourenço e editada pelo Projecto Adamastor.
Reúne vinte e sete contos e novelas, da autoria de escritores portugueses e brasileiros.
Está disponível gratuitamente em formato EPUB e MOBI.
Se gosta de histórias de terror, daquelas que deixam o cabelo em pé, entre na "noute" misteriosa e assustadora e... arrepie-se!

Contos e Novelas Portugueses
1. O Defunto — Eça de Queirós
2. A Dama Pé-de-Cabra — Alexandre Herculano
3. A Caveira — Camilo Castelo Branco
4. A Torre Derrocada — Alberto Osório de Vasconcelos
5. O Mistério da Árvore — Raul Brandão
6. O Corvo — Fialho de Almeida
7. A Feiticeira — Ana de Castro Osório
8. A Morta — Florbela Espanca
9. Os Canibais — Álvaro do Carvalhal
10. Uma Récita do Roberto do Diabo — Júlio César Machado
11. O Cadáver — Beldemónio
12. Sede de Sangue — Manuel Teixeira Gomes
13. A Confissão de Lúcio — Mário de Sá-Carneiro

Contos e Novelas Brasileiros
1. Noite na Taverna — Álvares de Azevedo
2. A Dança dos Ossos — Bernardo Guimarães
3. Os Porcos — Júlia Lopes de Almeida
4. Acauã — Inglês de Sousa
5. Violação — Rodolfo Teófilo
6. Maibi — Alberto Rangel
7. Assombramento — Afonso Arinos
8. 11 e 20 — Medeiros e Albuquerque
9. Demônios — Aluísio Azevedo
10. O Defunto — Thomaz Lopes
11. A Causa Secreta — Machado de Assis
12. O Bebê de Tarlatana Rosa — João do Rio
13. Confirmação — Gonzaga Duque
14. Os Olhos que Comiam Carne — Humberto de Campos

Terror nunca fez o meu género. Nem nos filmes, nem na literatura. Sou assustadiça por natureza. Bastava que lesse um dos contos para perder noites de sono. A sério!
Espero que a simples divulgação  do lançamento da colectânea não interfira significativamente com o meu sono. Espero!!!

25 março, 2017

"A conversa de Bolzano" - Sándor Márai

Advertência:
(...)Ser-me-ia difícil negar um parentesco que talvez alguns insistam em reprovar-me. O meu herói parece-se terrivelmente com o vagabundo disposto a tudo, sem pátria e todavia infeliz, que, no dia 31 de Outubro de 1756, à meia-noite, se evadiu dos Piombi de Veneza servindo-se de uma escada de corda e trocou o território da República por Munique na companhia de um frade renegado chamada Bibi. Á laia de defesa, direi somente que não foi a vida mas o caráter romanesco do herói a interessar-me.
Foi por isso que me limitei a pedir de empréstimo às célebres Memórias a data e a circunstância da fuga. Tudo o mais que o leitor poderá ler neste romance não passa de fábula e invenção.
S.M.
Advertência lida, penetramos na história do Giacomo Casanova de Sándor Márai, que começa com a chegada do famoso sedutor a Bolzano, três dias após ter escapado dos Piombi, a sinistra prisão veneziana. Acompanha-o  Balbi, o frade renegado, alcoólatra e bonacheirão, seu companheiro de fuga. 
É um Giacomo andrajoso, sem bagagem (transporta consigo apenas um punhal) e sem dinheiro, que entra na Estalagem do Veado e pede dois quartos. Um Giacomo humilhado que se faz passar por um fidalgo de Veneza assaltado na fronteira.
Entretanto, a notícia da evasão espalhava-se e toda a gente se regozijava «ali estava alguém provando que um homem era mais forte do que o despotismo, mais forte do que os Piombi, do que os esbirros e ria a bandeiras despregadas». Até o papa, que o tinha condecorado com uma ordem pontifícia, ria às gargalhadas. Até o rei se ria.
Ao escapar aos muros com um metro de espessura, ele deixara com um nariz de palmo e meio Suas Excelências, os terríveis senhores da Inquisição e, agora, tinha no seu encalço os polícias, os juízes, os esbirros e os espiões: porque não há nada mais perigoso do que um homem que não é capaz de se submeter à tirania.
À noite, dois polícias entram na estalagem, interrogam o estalajadeiro e ordenam-lhe : Queremos estar a par de tudo o que ele diga. Vigia-o bem. Recebe cartas, e de quem? Manda cartas, e a quem? Vigia-lhe todos os gestos.
É Teresa, a criadita de 16 anos, quem fica a vigiá-lo pelo buraco da fechadura. Ordens do patrão: toma cuidado com a tua virgindade e vigia-o. Hum! Hum!
Mas afinal, porque está  Giacomo em Bolzano?
Porque em Bolzano vive Francesca, a única mulher que amou e perdeu em duelo para o temível e poderoso Conde de Palma. O conde poupou-lhe a vida, com a condição de não voltar a procurá-la. Ele cumpriu durante cinco anos, mas agora, a caminho do exílio em Munique, quer vê-la pela última vez. Sabe que não será fácil pois a adolescente é agora mulher do ainda temível conde de Palma.
Conseguirá? Talvez sim. Talvez não.
Adiante. Depois de dezasseis meses detido nos Piombi e três dias fechado no quarto (nem sempre sozinho…), Giacomo, o sedutor que se quer tornar escritor, “acorda” para a vida. Começa por pedir dinheiro a um velho amigo. A seguir, chama um barbeiro. A seguir manda fazer roupa condizente com a sua pretensa condição de fidalgo. A seguir… espera, pois estar à espera é viver.
Ao oitavo dia, Giacomo ouve um trenó parar à porta da estalagem e, logo depois, uma voz de homem, conhecida, velha, quase suplicante, diz à porta do seu quarto: «Tenho de falar contigo, Giacomo.» E entra.
- Prometi-te simplesmente matar-te se alguma vez voltasses, se voltasses a rondar-nos e a levantar os olhos para a condessa (…) as ameaças deixaram de ter cabimento (…) já não sinto vontade de atacar: a agressão nada resolve entre os homens (…) Vim com outra arma, Giacomo.
- Que arma?
- A arma da razão.
É longa a conversa. No fim, o conde faz-lhe uma proposta perversa e um convite surpreendente: Esta noite irás a nossa casa porque Francesca sente que tem de te ver! Apareces disfarçado e mascarado como os demais. Depois, quando a tiveres reconhecido, rapta-a, trá-la para aqui e realiza uma obra-prima! (…) Os segredos da tua arte não me interessam. É preciso que ela passe por ti, mas de modo a regressar para mim de manhã…
O conde sai e pouco depois Giacomo ouve uma voz de mulher, conhecida e bela, dizer do outro lado da porta: - Sou eu, Giacomo (...) tenho de te ver. E entra. 
Estas duas conversas em Bolzano são, na verdade, dois monólogos (o do conde talvez demasiado extenso) sobre a paixão amorosa, o desejo, a indiferença, a vida, a velhice, a morte.
A história termina com Giacomo Casanova no quarto, já as velas tinham ardido até ao fim (lembra alguma coisa, não?), a ditar a Balbi uma carta para o conde de Palma com a resposta à proposta que ele lhe fez e um inesperado pedido. Qual? Não digo!
No grande duelo da vida, e até nos momentos decisivos, só as armas da cortesia são permitidas.

Romance soberbo.
O belíssimo monólogo do conde de Palma (páginas 141 a 193) é para ler e reler, e reler…

A conversa de Bolzano, de Sándor Márai
Tradução de Miguel Serras Pereira
Ed. D. Quixote, 2014
255 págs. 

21 março, 2017

Dia mundial da Poesia


“Todos os dias deveríamos ler um bom poema, ouvir uma linda canção, contemplar um belo quadro e dizer algumas palavras bonitas.”
Goethe, escritor alemão (1749-1832)

 
Hoje eu li RENOVA-TEde Cecília Meireles, jornalista, escritora e professora brasileira (1901-64) e amei.

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

(Foto da net)

20 março, 2017

Dia internacional da felicidade??!!


A felicidade é disparatada como uma rosa na boca de um jacaré. Em seu esforço para não ser um jacaré, extasia-se o homem na felicidade de o não ser completamente dizendo isso num sorriso monstruoso que é uma rosa na boca de um jacaré .Ah! como o assassino é legível na ária da felicidade que lhe floresce na boca! Todos os assassinos trazem uma flor na boca; um sorriso de metódicas navalhas. Todos os felizes são assassinos, ou vítimas, é a mesma coisa. Recusar a felicidade é vomitar a memória, deslembrança do sítio onde o ouro se transtorna em chumbo.
Só conheço uma espécie de miseráveis: os felizes. Porque a felicidade é o tributo que pagam à miséria da existência.
Somos no que nos excede e só a infelicidade verdadeira nos excede. A alegria também um pouco porque é a resplandecente e frenética ironia da felicidade não existir.
Um novo dia! dizem os felizes, perfurando as paredes da esperança para espreitarem suas nádegas operárias do vício solitário do triunfo nos quartos de curta permanência que a felicidade aluga. Um novo dia! diz gota a gota a baba com que os felizes tecem seu sequestro de esperançosas toupeiras.
Como se não houvesse sempre e apenas um só dia, uma onda ininterrupta, eternamente solta trespassando-nos na vida que os campos sáfaros da existência alaga. Um volátil e fixo sustenido de platina de um intocado violino que os felizes fingem dividir em agulhas com que malcriadamente palitam os olhos nos sítios mais concorridos.”

Quadro de Agostinho Santos, pintor, escritor e jornalista português (n.1960), tirado da net.
Texto de Natália Correia, intelectual, poeta e activista social portuguesa (1923-93), tirado daqui:


10 março, 2017

É de pequenino...

Quem é esta criancinha seriamente empenhada em aprender os números e as letras?
Chama-se Madalena, tem seis meses (feitos no passado dia 25), e é minha neta .
A mana Carolina (prestes a fazer 6 anos), está decidida a ensinar-lhe os números e as letras e ela, divertida, “alinha” na brincadeira.

A avó, convicta de que desde cedo se deve incutir nas crianças hábitos de leitura, sorri enternecida e deixa um conselho à mana mais velha:
“Carolina,vai com calma. A Madalena é muito pequenina. Brinca com ela, mostra-lhe os números e as letras e lê-lhe historinhas. Assim. aprendem as duas: ela a gostar ainda mais de ti e tu a leres cada vez melhor. Concordas?"
Amo, de paixão, as minhas pequeninas.


“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar.”
José Saramago, escritor português (1922-2010)
Prémio Nobel de Literatura, 1998

“É preciso fazer compreender à criança que a leitura é o mais movimentado, o mais variado, o mais engraçado dos mundos.”
Alceu Amoroso Lima, crítico literário, professor, pensador, escritor e líder católico brasileiro (1893- 1983)

“Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história.”
Bill Gates, magnata, filantropo e autor norte-americano (1955-)

08 março, 2017

Dia internacional da mulher

O tempo passou e muita coisa mudou...

"A organização do trabalho no lar
(…)
O almoço do teu marido deverá ser servido à hora exactamente indicada por ele, para que não tenha que esperar e depois comer rapidamente.
Não te esqueças nunca de pôr flores na mesa. Recebe-o alegre, engraçada, bem disposta, porque a tua alegria e boa disposição serão o sol que ele levará na alma e lhe iluminará alguma penumbra que surja na sua vida profissional.
Vamos lá dar uma directriz à distribuição do teu trabalho pelos dias de semana, para que chegues ao domingo com um rosto fresco e o teu marido não entristeça ou aborreça ao olhar para ti:

2ª feira – Lavagem de roupa. No espaço de tempo em que ela está na lixívia, fazer um justo e bem merecido repouso. Após esse pequeno descanso, escoas a água do tanque, sem tirar a roupa e abres a torneira. Deixas ficar assim a roupa em água limpa. Para te poupares, não a passar por água limpa, segunda vez, não a torces nem a estendes, no próprio dia. Deixas isso para o dia seguinte, de manhã. Por hoje basta!

3ª feira – Após o almoço e a cozinha já devidamente arranjada – e como o jantar tem pouco para fazer, visto que, de manhã já preparaste a sopa para todo o dia e o prato do jantar será um pargo assado com batatinhas – deitas-te, no divan da salinha, até às 4 e meia.
A essa hora levantas-te repousada e fresca e entregas-te a pequenas ocupações indispensáveis: - limpar e vincar um fato do teu marido; lavar, com benzina, as tuas luvas brancas; renovar as flores das jarras; responder à carta da tua mãe; ordenar os livros da tua pequenas estante, etc., etc.
(Esqueci-me de te recomendar o seguinte: sempre que faças o teu habitual repouso da tarde, faze, no rosto e nas mãos, uma massagem com um bom creme de alimento e fica com ele, enquanto dormes).

4ª feira – Este será o dia destinado à roupa: ver se precisa de alguns pontos e engomá-la. Como é só de vocês dois, deves poder engomá-la toda num só dia. Se, porém, te sentires fatigada, não insistas, e acaba-a no dia seguinte. A tua beleza e a tua saúde são mais importantes.

5ª feira – Destina a tua tarde ao lustro dos alumínios e de alguma prata ou metais que tenhas para limpar. Levanta a pequena carpete da salinha e a da casa de jantar e deixa-as penduradas na varanda da casinha. À noite batê-las-ás. (Para todos estes trabalhos – principalmente a limpeza dos alumínios e metais – não te esqueças de calçar as luvas de borracha).

6ª feira – Hoje é o dia da limpeza maior à casa, mas como já tens os alumínios os metais e os tapetes limpos, ser-te-á fácil. Varres, limpas o pó, dás um pouco de cera, pões flores frescas nas jarras – e está pronto. Não guardes nunca a limpeza para o sábado, porque o teu marido faz a semana-inglesa e, nas tardes de sábado fica em casa. Já vês que desagradável seria, andares com a casa no alvoroço das limpezas…

Sábado – A cama de lavado, as toalhas da casa de banho e todos os panos de cozinha, incluindo esfregão da louça e as pegas dos tachos. Domingo já não terás este trabalho. Despacha tudo cedo, para consagrares a tarde a teu marido.

Domingo – Tens toda a casa em ordem, portanto, depois do almoço, podem dar um passeio ou ir ao cinema. Simplifica o jantar mas… vê lá: apresenta sempre uma travessa bem farta. O teu marido precisa de ser bem alimentado.

E pronto. Distribui assim o teu trabalho, controlando as tuas forças e nunca te excedendo. O teu sorriso, a tua saúde, a tua boa disposição iluminarão sempre as quatro paredes brancas da tua casinha e a vossa vida decorrerá tranquila e feliz."

(Tirei de um livro que foi da minha mãe e agora é meu: "O livro das noivas", da Colecção Laura Santos, Editorial Lavores, 1957.  Surpreendente!
Foto da net.)

Ufa! Fiquei cansada de tanto limpar.
Cansada mas sorridente e bem disposta. 
Agora vou fazer a "Sopa feliz" e o "Bolo de namorados". O meu marido precisa de ser bem alimentado...
Grande abraço para todas as mulheres.

07 março, 2017

24º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


257-(13-6-1930)
“Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já não o tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade do nada. Não tenho esperanças nem saudades.”

260-(Junho-Julho de 1930)
“Somos quem somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. “

Leia (tudo) e… deslumbre-se!