31 janeiro, 2017

"Versos" - Amália Rodrigues


LÁGRIMA
Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim um castigo
Não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar


Sabia que Amália escreveu alguns dos mais belos poemas que cantou?
Eu, não.
Já a ouviu cantar “Lágrima”?
Eu já, muitas vezes.
Pois bem, Amália escreveu e cantou “Lágrima”, um dos mais belos fados que gravou.
Eu soube tudo isto porque Vitor Pavão dos Santos, biógrafo e amigo de Amália, compilou em livro alguns dos poemas escritos pela fadista.
Livro que se lê e ouve. A sério!
Como por magia, lemos “Lágrima” e ouvimos e deslumbramo-nos com a voz única da fadista maior.
E lemos “Estranha forma de vida” e voltamos a ouvi-la.
E lemos...
Experimente!

27 janeiro, 2017

"Quando ela era boa" - Philip Roth

Numa tarde de novembro de 1954, uma semana antes do Dia de Ação de Graças, mesmo ao anoitecer, Willard chegou de carro a Clark’s Hill, estacionou junto à vedação e subiu a pé o carreiro de acesso ao jazigo da família (…) baixou as abas do boné e ali, diante das campas da sua irmã Ginny, e da sua neta Lucy, e dos retângulos reservados para os restantes membros da família, esperou. Começou a nevar.
Estava à espera de quê?
Quando ela era boa” – terceiro romance de Philip Roth, um drama familiar originalmente publicado em 1967 – conta a história comovente, intensa e arrebatadora de uma família humilde, numa cidadezinha provinciana do Centro Oeste americano, na primeira metade do século XX.
Em casa de Willard Carroll e Berta reina a tranquilidade e a felicidade. Felicidade que aumenta quando nasce Myra, a filha de saúde frágil, discreta e tímida, estudante de música e mais tarde professora de piano. Tudo muda quando Mary, já casada com Whitey Nelson, um alcoólico, ignorante, cobarde, ladrão, oportunista, ciumento e violento, volta para casa dos pais com o marido desempregado e a filha de três anos, Lucy Nelson, a protagonista da história. É ela que aos quinze e anos, farta da violência do pai e da passividade da mãe, liga à polícia e fica a vê-lo ser levado para a prisão.
… os meus pais são horríveis. Não sou eu que penso – é a verdade!
Lucy não se livrou de um sermão do avô Willard.
«Nesta casa somos pessoas civilizadas e há certas coisas que não fazemos (…) não somos nenhuma escumalha, e tu tens de te lembrar disso.»
«Cá em casa, Lucy, conversamos com a pessoa. Mostramos-lhe o caminho certo.»
«E se a pessoa não o conhecer?»
«Olha Lucy, não a mandamos para a prisão! A questão é só essa. Está percebido?»
(Anos mais tarde, ela dirá ao avô que ele não podia proteger as pessoas da fealdade da vida passando-lhe por cima uma camada de verniz.)
Depois disso, Lucy, a jovem de bom coração, inteligente, sensível, impiedosa e moralista que fingia que tinha uma família normal, mesmo depois de ter começado a perceber que isso não era verdade, decide regenerar os homens que a rodeiam.
Começa por Roy Bassart, o namorado, dois anos mais velho do que ela mas muito infantil. Ama-o? Casa com ele? Lucy tem dezoito anos e não, não quer casar-se com ele. Ou quer? Talvez, mas só porque está a crescer alguma coisa dentro do seu corpo, e sem a sua autorização.
O resto é para você descobrir… lendo, claro!

O enredo de “Quando ela era boa” é inteligente, os personagens brilhantes, a escrita de  Philip Roth, irrepreensível, mas… 
Se as primeiras 57 páginas emocionam e cativam - conhecemos o avô Willard Carroll, um “homem bom”, filho de pai feroz e ignorante e de mãe trabalhadeira com mentalidade de escrava, que abandona a casa dos pais aos dezoito anos e vai ao encontro do mundo civilizado; que sabe o que quer e o que não quer: não ser rico, não ser famoso, não ser poderoso, nem sequer ser feliz, mas ser civilizado... não viver como um selvagem; chega a Liberty Center em 1903, arrenda um quarto, consegue um emprego nos correios, casa com uma rapariga decente, determinada e respeitável, compra uma casa pequenina, tem uma filha, é promovido a sub-chefe, renova a casa, vê a filha casar com um alcoólico violento, recebe-a de coração aberto quando ela necessita de apoio e... nunca esquece Ginny, a irmã internada num lar para deficientes mentais...
... as restantes 302  - relato da vida familiar e estudantil de Lucy, da sua relação com as amigas, do amor por Roy e do ódio pela família dele - estafam de tanta repetição. Tudo podia ser dito em metade das páginas. Penso eu.
Philip Roth jamais me desiludirá mas… desta vez cansou-me. A sério!

Quando ela era boa, de Philip Roth
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2016
359 págs.

17 janeiro, 2017

Recordando… Florbela Espanca


A MINHA DOR
A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres e agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca ou viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém, ouve… ninguém vê… ninguém…

"No Mundo, passo por todos, vendo alguns; na vida esqueço-me de quase todos, esquecendo-me de mim. Quase tudo me é indiferente.", Florbela Espanca (1894-1930)

Está decidido, em 2017 vou reler a obra poética da grande Florbela Espanca e partilhar no meu rol alguns sonetos que me tocam particularmente.
Pensei nisto depois de ler “Florbela Espanca”, de Agustina Bessa- Luís, em Setembro de 2016.
Já agora, se gosta da obra de Florbela Espanca não deixe de ler esta biografia.

10 janeiro, 2017

Mário Soares (1924-2017)


«Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade».


Tirei daqui: "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

06 janeiro, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça




"(...)Entre um ano que acaba e um ano que começa, a contas com o tempo que corre fora e dentro de nós, sentindo-nos talvez de forma mais sensível modelados por esse oleiro invisível que é o tempo, percebemos que a nossa vida é uma vida exposta. É impossível não detetar as marcas do tempo em nós: linhas de fragilidade, sombras, estremecimentos, erosões, zonas mais desvitalizadas, desvios. A unidade interior é um trabalho imenso. Parece-se ao manto que Penélope tecia durante o dia e desmanchava durante a noite, na sua espera quase sem esperança. Mas não podemos desistir de construir essa unidade de ser. Só aquilo que amamos com o extremo do amor não nos será tirado.(...) Dizer por exemplo, que a vida é marcada pela vulnerabilidade é reconhecer quando ela está exposta à possibilidade de ser ferida. (...) A vulnerabilidade é um acontecimento total. Descobrimos, no entanto, que através dela nos chega também o que nos redime. Só a vulnerabilidade nos eleva à altura do infinito à maneira de uma dança, onde a gravidade é vencida pela graça. E a dança não conhece fronteiras. O seu vocabulário é infinito pois é a emoção humana que ressoa no movimento. Tudo dança, tudo é dança. Os nossos olhos dançam, os nossos corpos rodopiam, a natureza (a nossa e a das coisas) manifesta-se num deslizar que se calhar não vemos.(...) E recorda Marta Graham: "A dança é a linguagem escondida da alma, é uma canção do corpo, um sopro de alegria e de dor. Importa apenas isto: levanta-te e dança". 

Excerto da crónica “Levanta-te e dança”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 30 Dezembro 2016
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

03 janeiro, 2017

22º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa

242-(13-4-1930)
"Para o homem vulgar, sentir e viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar e viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.”
“Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade.”

249-(cerca de abril de 1930)
“O peso de sentir! O peso de ter de sentir.”

250-(cerca de abril de 1930)
“Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


31 dezembro, 2016

A todos... um EXCELENTE 2017!


“… faz a ti próprio a seguinte pergunta: «Que faria eu hoje, se este fosse o último dia da minha vida?» O truque é ir mesmo ao fundo da questão. Elabora uma lista mental de todas as coisas que farias, das pessoas a quem telefonarias e dos momentos que te dariam prazer. Imagina-te a fazer estas coisas com grande energia. Visualiza como é que tratarias a tua família e os teus amigos. Imagina inclusivamente como tratarias perfeitos desconhecidos, se hoje fosse o teu último dia à face da terra.
... quando vives cada dia como se fosse o último, a tua vida ganha proporções mágicas. Começa a viver cada dia como se fosse o último. A começar já hoje, aprende mais, ri mais e faz o que realmente gostas de fazer. 

Ler durante trinta minutos por dia fará maravilhas por ti. (…)Não leias à toa. Deves ser muito selectivo quanto ao que cultivas no jardim fértil da tua mente.(...) para tirares o máximo partido de um grande livro, tens de estudá-lo e não apenas lê-lo.

Rir é o melhor remédio para a alma. Mesmo que não tenhas vontade, vê-te ao espelho e ri-te durante uns minutinhos. Vais ver que te sentes fantástico. Portanto, começa o teu dia de uma maneira deliciosa. Ri-te…"

FELIZ ANO NOVO
Leiam e riam.
Muito!

Tirei daqui: “O monge que vendeu o seu Ferrari”, de Robin S. Sharma, Ed. Pergaminho, 2004
Foto da net.

23 dezembro, 2016

A todos... um BOM NATAL!


CHOVE. É DIA DE NATAL

Chove. É dia de Natal
Lá para o Norte é melhor:
Há neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Poema de Fernando Pessoa, Portugal (1888-1935)
Pintura de Carlos Reis, Portugal (1037-)

21 dezembro, 2016

Peçam ao Pai Natal...


Um único deslize e a nova vida de um homem vai por água abaixo!
Acabei de ler o primeiro capítulo de “Quando ela era boa”, o romance de Philip Roth este ano publicado em Portugal.
Pouco sei sobre o que se segue mas o que já li… dá para aconselhar que o peçam ao Pai Natal.
A sinopse diz que a figura central da história – um drama familiar, na América provinciana dos primeiros anos do século XX) - é Lucy Nelson, uma jovem boa, sensível, moralista, independente que, depois de ver o pai falhado e alcoólico ir para a prisão, tenta regenerar os homens que a rodeiam, mesmo que isso signifique a sua própria destruição.
Ora bem, Lucy não aparece nas páginas que eu li. Nessas páginas a figura central é o seu avô materno: Willard Carroll, um homem bom, cuja história de vida me prendeu logo no primeiro parágrafo:
“NÃO SER rico, não ser famoso, não ser poderoso, nem sequer ser feliz, mas ser civilizado – era esse o sonho da sua vida (...) O que não queria sabia de certeza: viver como um selvagem. Tinha um pai que era um homem feroz e ignorante – caçador furtivo, mais tarde lenhador e, para o fim a vida, guarda nas minas de ferro. A mãe era uma mulher trabalhadeira com mentalidade de escrava por cuja cabeça nunca passava querer ter mais do que aquilo que tinha. (...) Com dezoito anos decidira ir ao encontro do mundo…”
O que se segue é intenso, comovente, arrebatador. Poucas, mas mesmo poucas vezes, eu me emocionei tanto com uma história de vida. E, recordo, li apenas um capítulo.
Se a vida de  Willard Carroll é inesquecível, como será a da neta Lucy?  
Se ela sair ao avô...

Lá para Janeiro voltarei a escrever sobre este romance. Para já, posso “bradar aos céus”: as primeiras 57 páginas deste Philip Roth de 1966 são fascinantes!
Peçam ao Pai Natal...

20 dezembro, 2016

Uma fé... uma missão...


“Para viver, todos têm de ter uma fé. Para viver, todos têm de ter uma missão. Não interessa se é humilde ou elevada, se é heróica ou quotidiana. Ter uma fé e uma missão significa estar inseridos no rio da vida, sentir-se parte dela, com um sentido, uma meta. Significa sentir que se tem uma tarefa útil ao mundo. Seguir a sua própria missão é como percorrer um caminho já traçado. Perdê-lo é como extraviar-se nos campos, pelos precipícios, sem orientação.

No entanto, de vez em quando, afastamo-nos dele. Temos períodos de extravio, de confusão. Perguntamos a nós mesmos o que estamos a fazer no mundo e somos tentados a deixarmo-nos levar pelo desespero. Mas devemos resistir para reencontrarmos o nosso caminho, para o reconhecermos. Devemos ter força de esperar que do escuro surja uma luz, uma esperança. E esta, mais cedo ou mais tarde, chega. Pode ser um encontro inesperado, uma nova oportunidade, alguém que nos pede ajuda. Às vezes é só uma mudança de humor, outras vezes é um sonho. De novo vislumbramos um significado, uma direcção. É como se se acendesse uma pequena chamazinha que o vento pode apagar de repente. Cabe-nos a nós protegê-la.”

Tirei daqui: “Tenham coragem”, de Francesco Alberoni, Bertrand Ed., 1999
Foto da net .

16 dezembro, 2016

"Jóia de família" - Agustina Bessa-Luís

Uma vida de família é uma cidadania em miniatura. Há leis que se aprovam, outras de que se desiste; há festas de presentes e de antepassados; há comemorações, experiências desordenadas, vícios calmos que duram uma vida, violências caladas ou manifestas, classes que se batem entre si, promoções de culturas, ruínas da alma, desejos que só a morte há-de saldar, cobiças que nem a herança resolve, culpas que decidem de mudanças.
Jóia de família” é um bom retrato da sociedade portuguesa dos anos 90. Sociedade que funciona com máscaras ideológicas, ou sexuais, ou psicóticas.
A trama - uma teia de incertezas bem urdida - aborda as mudanças nas relações familiares, o comportamento da burguesia campesina, a delinquência, o crime, a sexualidade, a infidelidade, a droga e a prostituição.
Os personagens, como na maioria dos personagens de Agustina, são bem construídos e convincentes.
António Clara, o protagonista, com dez dias de vida passa de pé descalço a herdeiro de uma fortuna grandiosa. A mãe, Celsa Adelaide, a criada feita parteira, torna-o terceiro filho de Rutinha Albergaria, quando esta desmaiada de cansaço não percebe que deu à luz um menino morto, roxo como um cravo roxo. Celsa, não hesita, esconde o nado morto e deita o seu próprio menino no berço de cambraia. Ninguém nunca suspeitará.
António “nasce” em Salto da Senhora, durante uma visita de Rutinha ao tio Simeão Albergaria, o tio rico que tinha no testamento uma cláusula que tornava seu único herdeiro o neto que nascesse em sua casa. Teria Rutinha conhecimento dessa cláusula? O velho Simeão desconfia mas…vinte anos depois, o filho da criada é um homem rico.
António é criado por governantas. Não se dá bem com os dois irmãos. Os pais estão permanentemente ausentes. Uma escoliose obriga-o a coxear ligeiramente, a abandonar os estudos, a afastar-se do trabalho. Passa a viver suspenso daquela herança como uma aranha do fio da teia.
Aos vinte e cinco anos enamora-se de Vanessa, uma bela mulher de quarenta e dois anos, no alterne desde os treze. Uma mulher ambiciosa, hostil ao mundo e fiel às paixões.
Indignada, Celsa Adelaide procura uma mulher "decente" para o filho. Encontra Camila, uma rapariga simples, acanhada, que nada exige, filha de burgueses remediados, que viam nela a salvação da decadência. Ela era a jóia da família.
O casamento com Camila  não afasta António da amante que, como amiga, passa a frequentar a casa da família. O dinheiro não faz gente.
Como vai Camila lidar com a infidelidade e a indiferença do marido, com o ciúme, com a presença constante de Vanessa?
Hum!
O perspicaz e mordaz narrador do romance diz que há vários casos de loucura na família de Camila.
Eu, já disse tudo... e tudo ficou por dizer.

Mais um romance de Agustina, mais um prémio, mais uma adaptação do cinema. “Jóia de família”, primeiro volume da trilogia O princípio da incerteza, foi distinguido em 2001 com o Grande Prémio de Romance e da Novela da APE, e adaptado ao cinema por Manoel de Oliveira.

Jóia de família, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Editora, 201
345 págs.

13 dezembro, 2016

"Estar" ou "Tar" – são ambos verbos? Não!


ESTAR, sim, é um verbo irregular.
TAR não existe.

Para exemplo, conjugo o verbo ESTAR no presente do indicativo:
Eu estou
Tu estás
Ele/Ela está
Nós estamos
Vós estais
Eles/Elas estão

Então, por que razão os argumentistas de ficção portuguesa usam e abusam do (não verbo) TAR?
-Tou à espera da Maria.
- Tu tás cada vez mais impertinente.
- O João ao telefone.
- Tamos na escola.
- Eles tão a chegar.

O que é isto?
Há quem considere “isto" aceitável em linguagem oral, mas para mim são aberrações. 
Aberrações cada vez mais utilizadas nas telenovelas produzidas e transmitidas em Portugal, que agridem os ouvidos e a alma dos verdadeiros portugueses. Uma vergonha!

Ponham os nossos actores a falar o português de PORTUGAL.
O verbo “Tar” não é ensinado nas escolas. Não existe.

09 dezembro, 2016

"Numa casca de noz" - Ian McEwan

“E PARA AQUI ESTOU EU, de pernas para o ar dentro de uma mulher. Com os braços pacientemente cruzados, à espera, à espera e a perguntar-me dentro de quem estou, para que estou aqui. (…) Dia e noite com a orelha comprimida contra as paredes ensanguentadas, não me resta alternativa. Escuto, tomo notas mentalmente e inquieto-me. (…) Considero-me um inocente, mas, ao que parece, faço parte de uma conspiração. Parece que a minha mãe, abençoado seja o seu coração a patinhar incessante e ruidosamente, é cúmplice.
Parece, mãe? Não, És. Tu és. És envolvida. Sei isso desde os meus primórdios.”
É assim, sem meias palavras, que um feto prestes a nascer partilha com o leitor TUDO o que ouve (e sente) mergulhado no líquido amniótico na barriga da mãe. Um feto entendido em vinhos franceses (que a mãe ingere em abundância), conhecedor do estado do mundo (pelas conferências em podcast que a mãe ouve regularmente), erudito em literatura (o som dos audiolivros chega-lhe através dos auriculares da mãe), cúmplice involuntário de uma conspiração (a mãe, de conluio com o amante, planeia envenenar o seu pai).
O feto-narrador é filho de pais separados.
O pai, que se chama John, é um gigante de um metro e noventa e dois, braços vigorosos e peludos, excesso de peso, com um problema de pele, psoríase. É um poeta não reconhecido, proprietário duma editora falida, apesar de ter dado à estampa um laureado com o Nobel.
A mãe, que se chama Trudy, e que ele conhece melhor pelo lado de dentro, é uma bela loira de olhos verdes, nervosa, egoísta, desonesta, cruel… esperem lá, eu amo-a, ela é a minha divindade e preciso dela. Retiro o que disse!
Foi o pai que saiu da mansão que herdou, o lar da sua infância, por acreditar ser sensato conceder a Trudy o tempo e espaço que ela lhe disse precisar. Espaço! Ela devia vir para aqui, onde nos últimos tempos mal consigo dobrar um dedo. Pai que continua a escrever poemas em louvor da mulher amada, que visita com regularidade na expectativa de que um dia ela lhe diga para volta. Mulher que o despreza e rapidamente conduz à porta, com a desculpa de que precisa de descansar.
Porta fechada para ao pai; porta aberta ao amante.
O amante, que se chama Claude, é um promotor imobiliário, estúpido e ambicioso, que só sabe falar de roupa e de carros, que abusa de vinho, de comida e de sexo.
Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz. Nesta última fase, deviam pensar em mim e conter-se. Se não em nome do parecer clínico, pelo menos por cortesia. Fecho os olhos, cerro as gengivas, apoio-me às paredes uterinas. Esta turbulência arrancaria as asas a um Boeing. A minha mãe aguilhoa o amante, chicoteia-o com os seus gritos de feira. É o Poço da Morte!
Pois bem, é esse parolo de cérebro embotado que por cobiça (a mansão talvez valha oito milhões de libras), engendra um esquema para envenenar o homem que é seu irmão, marido de Trudy, pai do feto-narrador. O que é isto?
O feto esclarece: a minha mãe deu preferência ao irmão do meu pai, enganou o marido, destruiu o filho. O meu tio roubou a mulher do irmão, ludibriou o pai do sobrinho, insultou o filho da cunhada.
Se pensam que divulguei muito da trama, enganam-se. Não passei da página 37. Acreditem que o que se segue é surpreendente e “salva “o romance: crime; investigação policial; vingança do feto. Está na altura de intervir. De acabar o que tem de ser acabado. Está na altura de começar.

Numa casca de noz, não é um grande romance mas a escolha do narrador - um nascituro sem nome que disserta sobre o estado do mundo - é surpreendente. Tenho as minhas fontes, escuto.
Gostei!

Numa casca de noz, de Ian McEwan
Tradução de Ana Falcão Bastos
Ed. Gradiva, 2016
180 págs.

06 dezembro, 2016

21º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


235-(cerca de 4-4-1930)
“Por mais que pertença, por alma, à linhagem dos românticos, não encontro repouso senão na leitura dos clássicos. A sua mesma estreiteza, através da qual a sua clareza se exprime, me conforta não sei de quê. Colho neles uma impressão álacre de vida larga, que contempla amplos espaços sem os percorrer.”

Leio como quem passa. E é nos clássicos, nos calmos, nos que, se sofrem, o não dizem, que me sinto sagrado transeunte, ungido peregrino, contemplador sem razão do mundo sem propósito.”

239-(10-4-1930)
"Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


01 dezembro, 2016

6º aniversário do "rol de leituras"


“Associa-te às pessoas mais nobres que puderes encontrar; lê os melhores livros; convive com os poderosos; mas aprende em solidão a ser feliz.”
Saul Bellow, escritor americano (1915-2005), in “Ravelstein”, Ed. Teorema, 2001

Mais um ano, que passou num ápice, e eis que o meu "rol de leituras" celebra o seu 6º aniversário.
Este não foi um ano fácil. Foi, aliás, bastante complicado. Pensei em desistir do meu rol, mil vezes.
2016 foi um ano difícil, com problemas relacionados com a saúde de familiares a deixarem-me angustiada, sem tranquilidade nem motivação para a leitura.
Hoje, no exacto dia do 6º aniversário do “rol de leituras”, ainda não sei o que fazer: continuar, ou ficar por aqui?
Os livros que acabaram empilhados sem serem lidos, com o último romance de Philip Roth a “olhar para mim”, instigam-me a continuar. Vou ter que decidir.
Hoje, não! Hoje vou festejar, começando a ler: “Numa casca de noz”, de Ian McEwan, depois, “salto” para Philip Roth, depois…

Obrigada a todos os que passaram por aqui.
Obrigada pela motivação e pela força.
Obrigada do coração.
Por favor leiam.
Abraço.

30 novembro, 2016

"Quando Lisboa tremeu" - Domingos Amaral

Apesar de todos falarem de Deus, aqueles foram os dias em que Deus abandonou as pessoas e as deixou totalmente sós no confronto com uma natureza brutal. Nesses dias, fomos como os primeiros seres que estiveram na terra, há muitos e muitos anos, antes de no mundo haver sabedoria ou cortesia ou solidariedade.
Sinopse:
“Lisboa, 1 de Novembro de 1755. A manhã nasce calma na cidade, mas na prisão da Inquisição, no Rossio, irmã Margarida, uma jovem freira condenada a morrer na fogueira, tenta enforcar-se na sua cela. Na sua casa em Santa Catarina, Hugh Gold, um capitão inglês, observa o rio e sonha com os seus tempos de marinheiro. Na Igreja de São Vicente de Fora, antes da missa começar, um rapaz zanga-se com a sua mãe porque quer voltar a casa para ir buscar a sua irmã gémea. Em Belém, um ajudante de escrivão assiste à missa, na presença do rei D. José. E, no Limoeiro, o pirata Santamaria envolve-se numa luta feroz com um gangue de desertores espanhóis.
De repente, às nove e meia da manhã, a cidade começa a tremer. Com uma violência nunca vista, a terra esventra-se, as casas caem, os tectos das igrejas abatem, e o caos gera-se, matando milhares. Nas horas seguintes, uma onda gigante submerge o Terreiro do Paço e, durante vários dias incêndios colossais vão aterrorizar a capital do reino. Perdidos e atordoados, os sobreviventes andam pelas ruas, à procura dos seus destinos. Enquanto Sebastião José de Carvalho e Melo tenta reorganizar a cidade, um pirata e uma freira tentam fugir da justiça, um inglês tenta encontrar o seu dinheiro, e um rapaz de doze anos tenta encontrar a sua irmã gémea, soterrada nos escombros.”
Quando Lisboa tremeu” é um emaranhado de histórias de gente desesperada que nas horas e dias seguintes ao terramoto que devastou Lisboa luta pela sobrevivência nas ruas da cidade destruída, alagada, queimada, pejada de ladrões e criminosos. Nos primeiros momentos depois do grande terramoto, os humanos transformaram-se em seres que só pensavam na sua própria sobrevivência.
Histórias contadas por Filipe Assunção, o piloto português atacado por piratas árabes, cativo em África durante dois anos, renegado pelo reino, pirata em barcos árabes durante mais de uma década. Filipe Assunção, ou melhor, o pirata Santamaria, acabou capturado por uma esquadra francesa na costa Algarvia, entregue às autoridades portuguesas, julgado e condenado à morte. Estava há três meses detido no Limoeiro, quando Lisboa foi literalmente dizimada.
Santamaria, sempre na companhia de Muhammed, o pirata seu fiel amigo, cruza-se nas ruas com os protagonistas dessas histórias: a bela irmã Margarida; o corajoso rapaz; o capitão Hugh Gold; a irmã Alice; Ester, a escrava negra; e outros mais. Ele ajuda-os e é ajudado. O facto de termos sobrevivido criou em nós uma cumplicidade especial que nos aproximava e humanizava, apesar dos conflitos desses dias.
Pois bem, mas essas histórias de confusão, dor e sobrevivência recordadas por Santamaria nas masmorras da Torre de Belém, para onde foi mandado pelo duro e impiedoso Sebastião José de Carvalho e Melo, seu "amigo de outros tempos", eu não vou divulgar, não.
Algumas são violentas, outras tristes e outras… divertidas. Leia-as. Ponto final.

Depois de ler a sinopse pensei: é agora que vou ficar a “saber tudo” sobre o terramoto que devastou Lisboa, em 1755. Bem, não fiquei a saber tudo sobre o terramoto, mas fiquei a saber um pouco mais sobre amizade, amor, solidariedade, esperança, respeito, bravura e serenidade.
Quanto às histórias, li-as mas... já as esqueci. 
Este romance lê-se (e esquece-se) facilmente.
Acontece!

Quando Lisboa tremeu, de Domingos Amaral
Ed. Casa das Letras, 2010
487 págs.

22 novembro, 2016

"Homem na escuridão" - Paul Auster


A mente tem uma mente que é só dela.
“Sozinho na escuridão, revolvo o mundo na minha cabeça enquanto me debato com mais uma insónia, com mais uma noite em branco na imensidão da natureza selvagem da América. Lá em cima, a minha filha e a minha neta estão a dormir nos seus quartos, sozinhas também elas, Miriam, a minha única filha, que tem quarenta e sete anos e que tem dormido sozinha nestes últimos cinco anos, e Katya, filha única de Miriam, que tem vinte e três anos e que costumava dormir com um jovem chamado Titus Small, mas Titus está morto agora, e Katya dorme sozinha com o seu coração destroçado.”
Logo no primeiro parágrafo de “Homem na escuridão” conhecemos quatro das cinco personagens da história principal deste romance: o narrador/personagem August Brill, Miriam, Katya, Titus. Apenas falta Sonia, companheira de uma vida de Brill, mãe de Myriam, avó de Katya.
Eu disse «personagens da história principal» porque neste romance há outras histórias (com outras personagens) “dentro” da história dita principal. Histórias de amor, dor, perda, angústia, solidão, culpa, violência, sobrevivência. E há filmes. Os filmes estão a transformar-se numa droga. Creio que devíamos reduzir o número de sessões – ou mesmo parar por um bocado. Diz Brill à neta depois de mais uma maratona de filmes.
August Brill, 72 anos, viúvo(?), crítico literário reformado, vive em casa de Miriam no Vermont, há mais de um ano. Recupera de um acidente de viação. Depois da saída do hospital, não conseguiu recusar o convite da filha: pai, não está a perceber. Eu preciso de ti. Sinto-me tão horrivelmente sozinha naquela casa…Não sei até quando é que aguentarei tanta solidão…
Brill é o “ homem na escuridão”, que nas noites de insónia e angústia inventa histórias. Histórias onde a América não está em guerra com o Iraque; as Torres Gémeas não caíram; as eleições presidenciais de 2000 conduziram a uma sangrenta guerra civil. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-se de pensar nas coisas que preferiria esquecer.
Acontece que por vezes a mente mistura a ficção com a realidade, e Brill é obrigado a lembrar o que quer esquecer:
- a morte recente de Sonia, a mãe da sua filha, a mulher que amou, que não valorizou, que trocou por outra, que voltou a recebê-lo quando a tal outra o trocou por outro. Brill e Sonia não voltaram a casar (porque ela não quis) mas viveram juntos e felizes até que a morte os separou. 
- a triste solidão de Miriam, que canaliza todas as energias para o ensino e para a escrita, desde que há cinco anos foi abandonada pelo marido. Miriam e Richard cometeram o mesmo erro que Sonia e eu: casaram-se demasiado novos.
- o sofrimento indescritível de Katya, desde a execução de Titus no Iraque, para onde foi como voluntário. Ela tinha dezoito anos e estudava Cinema na universidade quando os pais se divorciaram. Absorveu bem o choque. Agora, aos vinte e três anos, está desfeita. Culpa-se pela morte do jovem que a amava mas que ela não conseguia amar.
August Brill, deitado na cama, de olhos fixos na escuridão, conta histórias a si próprio, enquanto o bizarro mundo continua a girar…
“Pigarreio e, passado um segundo, estou a tossir de novo e a vomitar gordas escarretas e, claro a tapar a boca para abafar o ruído… de maneira que engulo em seco e deixo que esta porcaria viscosa deslize pela minha garganta, e digo para mim mesmo pela quinquagésima vez nos últimos cinquenta dias que tenho de deixar de fumar, aí está uma coisa que eu sei que nunca acontecerá, mas mesmo assim continuo a dizer para mim mesmo que tenho de deixar de fumar, só para me torturar com a minha própria hipocrisia.”

Leia e… veja filmes: “Ladrões de Bicicletas”, “Viagem a Tóquio”… Há certos filmes que são tão bons como livros, tão bons como os melhores livros.
Leia e… apaixone-se pela vida.
A noite ainda é uma criança…

Homem na escuridão, de Paul Auster
Tradução de José Vieira de Lima
Edições ASA, 2008
160 págs.

18 novembro, 2016

"Santo António" - Agustina Bessa-Luís

«A tristeza é a dor silenciosa» - diz S. António.

S. António é um confessor, um intermediário do perdão. Confessor como pregador; confessor como confidente.
Nas badanas do livro um curtíssimo texto avisa: "SANTO ANTÓNIO é a primeira obra em que Agustina Bessa-Luís transpõe os caminhos da ficção, para se deter num personagem histórico… uma biografia conduzida pela meditação... um livro como só um leigo pode escrever”.
Foi, pois, avisada, que iniciei a leitura da biografia do Santo, advogado das coisas perdidas, o protector dos casamentos.
S. António nasceu em 1190 (data provável), em Lisboa, Portugal, à época designado como o fim do mundo. Foi frade agostiniano no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa; aprofundou os estudos religiosos no Convento de Santa Cruz, em Coimbra; tornou-se franciscano em 1220; viajou por Marrocos, Itália, França; faleceu em 1231, em Pádua, onde repousam os seus restos mortais; foi canonizado pela Igreja Católica em 1232. 
Segundo Agustina, S. António possuiu as sete energias instauradas pela inteligência; possuiu o intelecto individual que participa da eternidade da inteligência e está acima do pensamento; possuiu a verdade, possuiu a alegria, pois a alegria brota da plenitude do conhecimento, possuiu a prova apodíctica e também a vida, porque a vida é inseparável da inteligência; possuiu a perfeição; possuiu o dom da pregação
«Vai, vende tudo o que tens e segue-me», diz-lhe o Senhor.
Assim teria feito António, herdeiro de muitos bens.
“Na vida de Jesus há dois períodos distintos um do outro. O primeiro é o tempo poético, aquele em que se desloca pela Galileia, chama os seus discípulos, convive com agente simples, gente que é pecadora, crédula e amorável. O outro é o tempo duma experiência urbana, é a entrada na cidade de Jerusalém; aí, mesmo quando não existe a hostilidade, insinua-se a difamação. E perante a grande urbe de coração seco, impenetrável ao mistério, Jesus chora. São lágrimas de um homem posto perante a vergonha dum comportamento que impõe o silêncio de Deus.
Em S. António parece haver também esses dois tempos humanos. Foi o jovem inquieto de sabedoria e glória santa, deixou os lugares familiares para ir ao encontro do que não desejava que fosse fútil nem vulgar. Depois, foi o pregador, comovido perante a planície paduana; e mais tarde foi o homem velho, aquele que, sem ter muita idade, conhece o seu coração e treme perante nenhuma verdade. E quando se torna amigo, conselheiro e chefe viril duma província espiritual, a morte chama-o, sem surpresa, porque desde há muito há nele um pacto com a morte."

Foi uma experiência gratificante e enriquecedora ler a história de SANTO ANTÓNIO escrita pela perspicaz Agustina.
Não foi tarefa fácil, pois a sua prosa é rebuscada, saltitante, difícil. Mas, há que dizê-lo, também é sensível e inteligente. 
Tenho para mim que escrever sobre a vida de uma pessoa deve ser complicado. E se essa pessoa é o Santo de todo o mundo, então, deve ser complicadíssimo. Só posso imaginar o quanto Agustina teve de consultar, escrever e reescrever até chegar à versão final desta biografia. Boa ou má, os entendidos que se pronunciem.
Eu, apenas aconselho que a leia. Sem pressa. Devagar, devagarinho, acabará por saber quem foi, por onde andou, o que fez, ensinou e pregou o "nosso Santo casamenteiro". 

«Não há nada escondido que não venha a revelar-se» - diz S. António.

Santo António, de Agustina Bessa Luís
Guimarães Editora, 1993
206 págs.