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11 maio, 2011

"Indignação" - Philip Roth


Cresci com sangue – com sangue e sebo e afiadores de facas e máquinas de cortar carne e dedos amputados ou dedos a que faltavam partes nas mãos dos meus três tios e do meu pai – e nunca me habituei a isso e nunca gostei disso.

A história passa-se em Newark, New Jersey, nos anos 50, vivia-se a terrível e sangrenta Guerra da Coreia (1951-1953).
O narrador é Marcus Messner – para quem “indignação” é a palavra preferida do dicionário, 19 anos, filho único de um talhante kosher , um estudante responsável, diligente e aplicado que se revolta contra a excessiva preocupação do pai com a sua segurança e, no segundo ano da faculdade, decide ir estudar para bem longe de casa. “Fui-me embora porque de repente o meu pai não confiava sequer na minha capacidade de atravessar a rua sozinho. Fui-me embora porque a vigilância do meu pai se tinha tornado insuportável. Tinha de me afastar dele antes que o matasse – e foi isso que disse desabridamente à minha mãe incrédula.
Então porquê tudo isto, pai? Por causa da vida, em que o mais pequeno passo em falso pode ter consequências trágicas. Oh, caramba, o pai parece um bolinho da sorte a falar!”
Empenha-se ao máximo. Não entra para nenhuma das “fraternidades” da faculdade. Isola-se. Vai às aulas. Estuda e trabalha numa estalagem ao fim-de-semana. Foge das diversões e da anarquia dos jogos sexuais.
Até que entra em cena uma rapariga – Olivia Hutton, pálida e esguia, de cabelo ruivo escuro, enigmática e sem inibições sexuais.
“Tinha de apalpar a Olivia porque apalpá-la era o único caminho a seguir se queria perder a virgindade antes de acabar a universidade e de ir para a tropa.”Aí estava mais um objectivo… atingido.
Mas, a partir daí, tudo se desmoronou.
Romance fabuloso sobre o inconformismo na adolescência, a imaturidade, a descoberta sexual, a vulnerabilidade do indivíduo, o descrédito da religião, a procura de um caminho no meio das tradições e restrições, numa América em guerra na Coreia.
Indignação, de Philip Roth
Dom Quixote, 2009
Tradução de Francisco Agarez
175 págs.

09 maio, 2011

"Traições" - Philip Roth


Traições” é um livro brilhante, um provocador romance sobre a vida erótica.
É a história de um americano casado, de meia-idade, chamado Philip, que vive em Londres, e uma inglesa casada, que é a sua amante. No seu esconderijo, revelam-se minuciosamente um ao outro (e a nós), enquanto falam antes e depois de fazerem amor. Ao lermos um diálogo preciso, espantoso, de uma exactidão alarmante, é como se espiássemos não apenas uma qualquer relação amorosa, mas a ternura e a incerteza que existe em cada uma delas. À medida que o marido adúltero se confronta diariamente com a ansiedade da amante e com as suspeitas da mulher, ouvimos intermitentemente as vozes das mulheres do seu passado, de outros amores e paixões da sua intrincada e confusa vida amorosa. Ou será fantasia sua?
De facto, a fronteira entre as mulheres que imagina e as que recorda não é inteiramente nítida.

Diálogo:
- Na realidade queria almoçar.
- Posso dar-te bocadinhos de coisas.
- Podes?
- Vamos ver se conseguimos arranjar-te qualquer coisa. Está tudo bem lá em casa?
- Está. Tudo óptimo.
- Nada melhor para um casamento do que existir um velho namorado.
- É isso que pensas?
- Queres brincar às realidades?
- Talvez.
Um verdadeiro tratado sobre a intimidade humana, a paixão, amizade, a dedicação, a procura da felicidade, mas também, sobre o adultério, a mentira, a falsidade, a rotina, a falta de diálogo.
É um livro com uma linguagem por vezes chocante, ou não fosse escrito por Philip Roth, mas que aconselho a todos.
Excelente!
Traições, de Philip Roth
Bertrand, 1991
Tradução de Filomena Andrade e Sousa
176 págs.

06 maio, 2011

"Património" - Philip Roth


Sozinho, quando me apetecia chorar, chorava, e nunca me apeteceu tanto fazê-lo como quando retirei do envelope a série de imagens do seu cérebro … aquilo que o levava a pensar do modo rude como pensava, a falar do modo enfático como falava, a raciocinar de modo emotivo como raciocinava, a decidir de modo impulsivo como decidia.

“Património” é a recriação dos últimos anos de vida de Herman Roth, 86 anos, após a morte súbita da mulher e de lhe ter sido diagnosticado um tumor cerebral.
É uma história verdadeira, crua, repleta de amor, medo e dor, onde transparece a admiração do autor pelo pai, judeu teimoso, que trava uma luta desigual com o tumor que o irá matar.
Mas é, também, um poderoso livro de boas e más memórias, de partilha, de preparação para a terrível perda de um progenitor.
Este texto não é ficção e como tal a sua leitura nem sempre é fácil.
Apesar disso gostei MUITO!
Património, de Philip Roth
Dom Quixote, 2008
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
214 págs.

04 maio, 2011

"Teatro de Sabbath" - Philip Roth

… uma pessoa é tão temerária como os seus segredos, tão execrável como os seus segredos, tão solitária como os seus segredos, tão sedutora como os seus segredos, tão vazia como os seus segredos, tão perdida como os seus segredos, uma pessoa é tão humana…
“O Teatro de Sabbath” é o relato cruel da crise existencial do fantocheiro Michey Sabbath, um homem de sessenta e quatro anos, obcecado por sexo, judeu, baixo e entroncado, de barba branca, desprovido de atractivos, a envelhecer em todos os aspectos óbvios, após a morte da amante, de longa data, Drenka Balich.
Drenka é doze anos mais nova, uma croata morena a puxar para o baixo, uma mulher pujante, bonita sem ser bela, com um casamento enfadonho, que se deixa seduzir por Sabbath e com ele (e muitos outros) vai viver excitantes e loucas aventuras sexuais.
Afastado da sua arte de fantocheiro devido à artrite e impossibilitado de continuar a leccionar na Oficina de Fantoches nas universidades, depois de desmascarado como degenerado, Sabbath vive monetariamente dependente da segunda mulher Roseanna, professora, alcoólica e assexuada.
Vive, também, cercado pelos fantasmas daqueles que mais o amaram e odiaram: a sua defunta mãe, o irmão morto na II Guerra Mundial e Nikki, a sua primeira mulher, que desapareceu e cujo corpo nunca foi encontrado. Terá sido assassinada? Terá sido Sabbath?
Desolado e só, encena uma série de farsas trágicas que o levam aos limiares da loucura e da extinção.
A leitura deste livro foi, para mim, um pouco maçadora.
Sendo um grande romance acerca da vida, da infidelidade e da morte, não me fascinou o suficiente para o considerar excelente.
Teatro de Sabbath, de Philip Roth
Dom Quixote, 2000
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
483 págs.

02 maio, 2011

"A Humilhação" - Philip Roth


Tinha perdido a magia. O ímpeto estava esgotado. Nunca tinha falhado no teatro, tudo quanto tinha feito fora forte e bem-sucedido, e então aconteceu o terrível: deixou de saber representar. Subir ao palco tornou-se uma aflição. O seu talento estava morto.
Assim começa esta farsa de Philip Roth, sobre um actor de grandes papéis - Simon Axler - que aos sessenta e tal anos descobre que não está a representar o papel de alguém que está a desmoronar-se, é ele próprio que está a desmoronar-se, e representar o papel do seu próprio fim, isso é outra coisa, uma coisa transbordante de terror e medo.
Tudo acabou para Simon Axler, um homem que queria viver, interpretando o papel de um homem que queria morrer.
Não consegue voltar aos palcos. Todos os dias pensa no suicídio como solução. A mulher, Victoria, abandona-o e ele fica aterrado com a hipótese de vir a concretizar o acto mais difícil que existe. Telefona ao seu médico e pede-lhe para ser internado num hospital psiquiátrico.
Mais tarde, recuperado da depressão, vive momentos de felicidade junto de Pegeen, lésbica, vinte e cinco anos mais nova, filha de velhos amigos.
Como se estivesse no teatro, vai transformando o aspecto rapazola dela, numa orgia de mimos e gastos. Recupera a confiança, o medo e quer reconstruir a vida.
Mas, tudo acaba quando é trocado por uma mulher.
Incapaz de representar o papel do amante abandonado, incapaz de continuar a gerir fracassos, decide suicidar-se.
Como encontrará coragem? Fingindo que se está a suicidar numa peça, num palco mágico.

O autor voltou aos seus temas habituais: família, idade, morte, sexo.
A relação cheia de riscos e aberrante com Pegeen é descrita de forma genial, hilariante.
A vida é um palco.

Nada tem uma razão válida para acontecer. Perde-se, ganha-se – tudo é capricho. A omnipotência do capricho. A probabilidade da reviravolta. Sim, a imprevisível reviravolta e o seu poder.

A Humilhação, de Philip Roth
Dom Quixote, 2011
Tradução de Francisco Agarez
127 págs.

01 maio, 2011

Maratona de leituras de um só autor


Aqui estou, pronta para iniciar a minha maratona de leitura de obras de Philip Roth.
Veja sobre o autor aqui.
Para a primeira semana de Maio seleccionei os seguintes livros:


Como já disse antes, reler livros é mais fácil e rápido, porque já conhecemos a história. Como alguns já foram lidos há algum tempo, tentarei que a redescoberta me entusiasme para continuar a considerá-lo o meu autor preferido.


Para ler tenho apenas o livro que acabou de chegar às livrarias portuguesas – “A Humilhação”.

Conseguirei?
CLARO QUE SIM...

18 abril, 2011

Maratona de leituras de um só autor



Pronto, já decidi.
No próximo mês - Maio - vou fazer uma maratona de leituras exclusivas de um dos meus autores preferidos: Philip Roth.
Aproveitando a chegada às livrarias do novo livro - A HUMILHAÇÃO - vou seleccionar ao acaso e reler outras obras do autor.
Reler é mais fácil e rápido, mas o prazer será certamente maior porque: já nos perdemos no texto, já o percebemos, já o sublinhámos, já conhecemos o final da história.
A ideia desta maratona é recordar óptimas leituras e deixar aqui os meus comentários.
Será tolice?
Vou aventurar-me!

04 dezembro, 2010

"O Complexo de Portnoy" - Philip Roth

Trata-se de um livro sobre sexo, escrito de uma forma hilariante, sem inibições nem complexos.
Ao longo de 266 páginas, de leitura compulsiva, o protagonista Alexander Portnoy (judeu, filho de uma família da classe média de Newark), num monólogo delirante confessa ao psiquiatra factos que estarão na origem dos seus “actos de exibicionismo, voyeurismo, fetichismo, auto-erotismo”, que o impelem a uma sexualidade insaciável desde a infância à idade adulta.
Spielvoge, o psiquiatra, “pensa que boa parte dos sintomas remetem para os vínculos característicos da relação mãe-filho”.
A mãe, que o trata por “meu amante” é proteccionista “estava tão profundamente implantada na minha consciência que durante o meu primeiro ano de escola eu julguei, tanto quanto me lembro, que cada uma das minhas professoras era a minha mãe disfarçada”, super-vigilante “inspeccionava as minhas contas de somar em busca de erros; em busca de buracos as minhas meias; em busca de sujidade, as minhas unhas, o meu pescoço, e cada costura e refego do meu corpo”, dominadora “ quando me porto mal, ela põe-me fora do apartamento … eu fico à porta a bater, a bater, até jurar que estou pronto a mudar de vida”.
O pai, agente de seguros “que acreditava fervorosamente naquilo que vendia”, é um homem apagado, de choro fácil, que sofre de permanente
prisão de ventre “um pai amável, ansioso, obstipado, incapaz de perceber o que quer que seja” que passa horas enfiado na casa de banho em situações descritas de forma risível.
Tem com os pais uma relação de amor-ódio.
Na adolescência masturba-se na casa de banho, na cama, no cinema, no autocarro. Simula sexo com maçãs, com meias, com fígado que depois será cozinhado pela mãe, com garrafas de leite “passei metade da minha vida desperta trancado na casa de banho, disparando os meus cartuchos … vivia num mundo de lenços de pano ou de papel amarrotados, de pijamas manchados … já lhe contei que quando fiz quinze anos tirei o coiso para fora das calças e bati uma punheta no autocarro 107 de Nova Iorque para Nova Jérsia?”.
Só se interessa por mulheres não judias, como a Macaca, que “foi a realização dos meus mais lascivos sonhos de adolescente… criatura tosca, angustiada, confusa, perdida, sem identidade” com quem vive as maiores perversões sexuais.
Mais tarde conhece Naomi , em Haifa num kibbutz junto à fronteira libanesa, “admirável, corajosa, pelo tipo físico ela é, evidentemente, a minha mãe, o mesmo temperamento, uma autêntica detectora de defeitos, uma crítica profissional da minha pessoa…. exige dos homens a perfeição”, confessa-lhe o seu amor e pede-a em casamento. Como terminará esta história?
Aos 33 anos está solteiro, para grande desgosto dos pais que continuam com os “tem-cuidado e os toma-atenção, não nos deixes sem notícias, não saias da cidade sem nos dizeres”, e a “bater punhetas, sozinho na cama em Nova Iorque”.
Critica os valores judaicos com humor, com ironia, com sarcasmo e considera-se um “tipo demasiado importante para pôr os pés numa sinagoga por um quarto de hora que seja”.
“Senhor Doutor, que nome é que dá a esta doença que eu tenho? Será o sofrimento judaico de que tantas vezes ouvi falar?”
“Sou o filho da anedota de judeus – só que não é anedota nenhuma! Esta gente é inacreditável… aqueles dois são os maiores produtores e distribuidores de culpa do nosso tempo. Conseguem-me fazer acumular culpa como uma galinha acumula gordura”.
Este retrato assombroso/hilariante/humilhante sobre a passagem da adolescência à idade adulta do judeu Alexander Portnoy chega-nos pela mão, do também judeu, Philip Roth.
Assombroso!

O Complexo de Portnoy, de Philip Roth
Dom Quixote
Tradução de Ana Luísa Faria
266 págs.

02 dezembro, 2010

"A Mancha Humana" - Philip Roth


Retrato fabuloso da América na década de 90, terceiro volume duma trilogia sobre vidas americanas no pós-guerra, onde divergências ideológicas e princípios morais eram denunciados, num país que vivia o processo de impugnação do presidente …”Bem, seja ela o que for ele sabia-o de antemão. Ele podia topá-la. Se não é capaz de topar Monica Lewinsky, como pode topar Saddan Hussein? Isto é fundamento genuíno para impugnação".
A história do judeu Coleman Silk, professor universitário exemplar na década de 80 e início de 90, acusado de racismo e afastado após ter proferido numa aula a palavra “spooks (fantasma, espião,negro)” ao referir-se a dois alunos que não apareciam nas aulas, as consequências desastrosas para a sua vida pessoal e familiar e a sua relação secreta, aos 71 anos, com Faunia Farley, empregada de limpeza , com 34 anos “trata-se de uma mulher cuja vida tem tentado esmagá-la quase desde que ela existe… tudo o que aprendeu vem daí", é relatada por Coleman ao escritor seu vizinho Nathan Zucherman,”escreva a minha história, com os diabos…assim como é humano ter um segredo, também é humano revelá-lo, mais cedo ou mais tarde", no mesmo verão em que o segredo de Clinton se torna conhecido…”foi o verão da América em que a náusea regressou, em que as chalaças não pararam, em que a especulação, a teorização e a hipérbole não pararam… em que um demónio qualquer fora largado à solta na nação…foi o verão em que o pénis de um presidente esteve na cabeça de toda a gente e a vida, em toda a sua despudorada obscenidade, confundiu uma vez mais a América”. Mas o verdadeiro segredo de Coleman, guardado durante cinquenta anos da família, amigos, colegas e do vizinho amigo/confidente, só será deslindado após a sua morte…
Li de seguida todas as obras publicadas em Portugal.
É, sem dúvida, o meu NOBEL, o meu preferido.
Mais sobre o autor aqui.

A Mancha Hunana, de Philip Roth
Dom Quixote, 2004
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
377 págs.