28 fevereiro, 2017

Uma rosa e um poema, para uma amiga...


Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

(Poema de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa)

Amiga, obrigada pelas braçadas de flores, pelo carinho, pela paciência, pela motivação.
Foi bom encontrar-te!

26 fevereiro, 2017

Desabafos...


O que se passa comigo?
Sinto uma terrível tristeza, um abatimento desmesurado.
Sinto medo, desânimo, angústia.
Não me apetece ler nem escrever,
Nem rir, nem chorar, nem falar.
Ninguém me anima, nada me motiva.
Não sei o que se passa comigo.
Ansiosa e amargurada,
”Gasto” horas do meu dia derramada no sofá a ver filmes, séries, novelas…
Demorei duas semanas a ler um romance de Sándor Márai.
Vou escrever sobre ele? Claro que sim!
Quando? Não sei!
Não sei, porque não me apetece pensar sobre o que escrever.
Não me apetece fazer NADA!
Eu não sou assim.
Não me reconheço.
E isto assusta-me.
Não sou optimista nem pessimista.
Sou realista.
Não costumo sofrer por antecipação.
Não me queixo da vida.
Deu-me sempre o que acredito merecer.
Gosto de ouvir, de aconselhar, de aprender, de desafios,
De perdoar, de conviver, de gargalhar.
De olhar as minhas netas.
Gosto de gostar.
Sou, por temperamento, alegre, bem-disposta, boa companhia.
Tenho algumas inseguranças,
E fases de baixa auto estima.
Aprendi a viver com isso.
Sou saudável.
Tenho uma família linda.
Guardo o passado em caixas coloridas,
Tento viver alegremente o presente,
Consciente que o futuro não é garantido.
Sou feliz.
E grata por ter nascido.
Então,
O que se passa comigo?

21 fevereiro, 2017

Recordando... Florbela Espanca


DESEJOS VÃOS
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não em sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue e agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!

Se soubessem como eu sou hipócrita! Que horror todos teriam de mim!, Florbela Espanca (1894-1930)

17 fevereiro, 2017

Como apreciar uma boa chávena de chá...


"Temos de estar totalmente despertos no presente para apreciar uma boa chávena de chá. Apenas com a consciência no presente, as nossas mãos podem sentir o agradável calor da chávena. Apenas no presente podemos apreciar o aroma, sentir a doçura e saborear a delicadeza. Se estamos a ruminar sobre o passado ou preocupados com o futuro, perderemos por completo a experiência de apreciar a chávena de chá. Olharemos para a chávena de chá, e o chá terá já terminado.
A vida é assim. Se não estamos totalmente no presente, quando olhamos à nossa volta este terá desaparecido. Teremos perdido a sensação, o aroma, a delicadeza e a beleza da vida. Parecerá ter passado a correr por nós.
O passado terminou. Aprendamos com ele e deixemo-lo ir. O futuro ainda não está aqui. Planeemos, sim, mas não gastemos o tempo a preocuparmo-nos com ele. A preocupação é uma perda de tempo. Quando paramos de ruminar sobre o que já aconteceu, quando paramos de nos preocuparmos com o que poderá nunca vir a acontecer, então estaremos no momento presente. Só então começaremos a experimentar a alegria de viver."

Thich Nhat Hanh, monge e filósofo budista vietnamita, citado por Brian L. Weiss, em “Só o amor é real”, Ed. Pergaminho, 1999

(Pintura de Mary Cassat, pintora norte-americana (1844-1926))

14 fevereiro, 2017

Vamos namorar?!


Bébézinho do Nininho-ninho
Oh!
Venho só quvê pâ dizê ó Bébéziho que gotei muito da catinha d’ella. Oh!
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bébé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequinininho!
Hoje o Nininho não vae a Belem porque, como não sabia s’havia carros, combinei té aqui ás seis o’as.
Amanhã, a não sê qu’o Nininho não possa é que sahe d’aqui pelas cinco e meia.
Amanhã o Bébé espera pelo Nininho, sim? Em Belem, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos
Fernando
(carta de Fernando Pessoa para a Senhora Dona Ophélia Queiroz)

Faça como o poeta e escreva (pelo menos hoje) uma carta de amor. É fácil!
Coloque a folha em branco à sua frente, segure na caneta, abra o coração e solte a imaginação.
Opte pela simplicidade. Frases rebuscadas nem sempre transmitem o que se pretende.
Brinque com as palavras. Carinho, amor, paixão, beijo, abraço… são pétalas de flores coloridas e perfumadas.

Fazer declarações de amor também é fácil. É só escolher as palavras e o tom de voz, e já está!
Se não sabe o que dizer, olhe o outro nos olhos e deixe que o silêncio fale por si. Cuidado, os olhos são as janelas da alma. Dizem tudo, mostram tudo.

Quando o assunto é amor, nunca esqueça: diga a verdade, diga a verdade, diga a verdade!

Vamos namorar?
Bora lá!
(Amor, escreve-me uma carta de amor…, um bilhetinho só…)

Foto da net.

10 fevereiro, 2017

"A vida é breve" - Jostein Gaarder


Abraça-me, a vida é muito breve e ninguém sabe se existe uma eternidade para as nossas almas frágeis, talvez só tenhamos esta vida.
Em “A vida é breve” Jostein Gaarder retrata - doseando sabiamente realidade e ficção - a vida e obra de Aurélio Agostinho (Aurelius Augustinus), filósofo, escritor, doutor da Igreja, conhecido por Santo Agostinho.
A inspiração terá surgido após encontrar uma carta redigida por uma mulher e endereçada a Aurélio Agostinho, no interior duma caixa que comprou na feira da ladra de San Telmo, em Buenos Aires.
Eu conhecia bem a biografia de Agostinho. Nenhuma outra figura mostra com tanta clareza a profunda mudança cultural que teve lugar na transição da antiga cultura greco-romana para a cultura cristã (…) As suas confissões proporcionam uma visão única do agitado século IV, assim como dos seus próprios conflitos espirituais, relacionados com a fé e a dúvida. (…) poderia esta carta ser daquela mulher que fora a concubina de Agostinho durante anos, da mulher que ele próprio conta ter tido que deixar por ter escolhido abster-se para o resto da vida de todo o amor sensual?
Se não era passou a ser e logo Jostein Gaarder deu nome e voz à mulher que Aurélio Agostinho amava quando decidiu afastar-se do amor humano para se concentrar na salvação da própria alma. Mulher que não entende como pode um princípio filosófico separar duas pessoas que se amam e na carta o crítica  com ironia e desprezo.
FLÓRIA EMÍLIA SAÚDA AURÉLIO AGOSTINHO, BISPO DE HIPONA
Como é estranho ter de saudar-te nestes termos! Há muito, muito tempo, teria escrito apenas «para o meu pequeno e divertido Aurélio». Mas passaram já mais de dez anos desde a última vez que me abraçaste e, entretanto, muitas coisas mudaram. (…)
Procedeste assim porque começavas a sentir desprezo pelo amor carnal entre homem e mulher…. Achaste que eu te prendia ao mundo dos sentidos e que não tinhas paz nem tranquilidade para te concentrares na salvação da tua alma (…)
Mas que traição, Aurélio, que traição! Não, eu não creio num Deus que exige sacrifícios humanos. Não creio num Deus que destrói a vida de uma mulher para salvar a alma de um homem. (…)
E havia um filho. E Deus é minha testemunha: assim como eu era a mãe de Adeodato, também tu eras o seu pai verdadeiro. (…)
A vida é breve, demasiado breve. Talvez vivamos esta única vez, aqui e agora. (…)
Que Deus do Nazareno te perdoe por toda a ternura e todo o amor que agora rejeitas.
Estou em Cartago, sentada debaixo a nossa figueira, que, pela terceira vez, floresce sem dar fruto.
Eu te saúdo!

E mais não desvendo sobre esta belíssima história de amor dorido.
Ficção ou realidade, essa celeuma não me interessa nada.
Esta vida é tão breve! Não podemos ter a veleidade de emitir qualquer condenação sobre o amor.

A vida é breve, de Jostein Gaarder
Tradução de Maria Luísa Ringstad
Ed. Presença, 1998
116 págs.

07 fevereiro, 2017

23º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


255-(18-5-1930)
“Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada madrugada, uma revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.”

256-(12-6-1930)
“Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repousaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não conhecem senão os que se furtam às angústias e às dores humanos, e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio. Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira que, em certa altura da sua consciência de si mesmos, lhes pese de repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia às avessas, uma dor perdida."

Leia (tudo) e… deslumbre-se!



03 fevereiro, 2017

Vale a pena ler… Gérard Depardieu


Tem uma filmografia extensa. Participou em pelo menos 200 filmes. Quais são os que contam verdadeiramente?
Os filmes não me interessam. Não sei responder-lhe. É verdade. Estou-me nas tintas.
Lamenta alguma coisa que tenha ou não tenha feito no passado?
Não, até ao momento não tenho tempo sequer de pensar nisso. De facto, e para falar a sério, não acho que se deva lamentar nada. Passamos sempre ao lado de certas coisas mas, a partir do momento em que fazem parte do passado, mesmo que saibamos o que fizemos de errado ou que negligenciámos, só temos a hipótese de fazer um exame de consciência.
(…)
É um homem livre?
Tento ser.
E a solidão não acompanha a liberdade?
A solidão é uma chatice mas existe a meditação. De resto, a solidão só existe nas cidades. Existe quando há todo aquele movimento à nossa volta e nos sentimos perdidos. Quando há demasiado barulho e nós nos tornamos surdos, aí podemos experimentar a solidão. Mas no espaço, quando atravessamos o deserto, quando vamos à Mongólia, mesmo no Alentejo ou em Faro, não a sentimos. Quando olhamos para o mar de Portugal e vemos aquela espécie de horizonte que nos agarra, não conseguimos desligar-nos da história de todos aqueles que partiram. É como ir à Lua, viajar no espaço, ir a Marte, não sei. São coisas que foram abstratas num determinado momento, quando a Igreja dizia que não se podia ir para ocidente porque se cairia nos abismos, quando as pessoas que sabiam que a Terra era redonda e girava à volta do Sol, como Galileu, eram queimadas vivas. É que o desconhecido mete medo. Por trás do desconhecido se calhar há outros fascínios. Não podemos ouvir o que o nosso pai ou a nossa mãe nos diziam, só se for para não os magoarmos. O que é preciso é termos a nossa própria ideia sobre as coisas.
(…)
Gostaria de ter vivido noutra época?
Não, esta serve-me porque vivo noutra época mesmo nesta época.

Frases soltas:
- Gosto mais de livros do que de imagens. A imagem limita.
- Nascemos numa época em que só se fazem selfies, procuramos a nossa própria imagem.
- Cada época tem os seus defeitos, cada época tem os seus doidos.
- A História repete-se mas é sempre encantadora.
- Tenho medos dos estúpidos… porque os estúpidos podem desestabilizar.
- Temos em nós uma ideia que nos reconforta porque Deus está em nós.
- Não sou religioso, mas acredito no xamã e no xamanismo.
- A cozinha portuguesa é muito boa. A arte da mesa em Portugal é muito boa.

Excerto da entrevista concedida a Alexandra Carita – a propósito da estreia do filme “O Divã de Estaline, realizado por Fanny Ardant e protagonizado pelo actor - publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 28 Janeiro 2017

Vale a pena ler na íntegra.