14 julho, 2017

"Obra poética" - José Carlos Ary dos Santos


O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos, poeta e declamador português  (1936-84)
(Foto da net)



3 comentários:

  1. Gosto muito do poeta e do declamador que moravam em Ary.

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  2. Belíssimo poema. Ary dos Santos, me parece ter sido contemporâneo de Amália Rodrigues de quem era amigo e de Vinícius de Moraes... Estou certo? Grande abraço. Laerte.

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  3. Certíssimo, Laerte.
    Ary dos Santos, talentoso poeta, declamador indomável, grande escritor de canções foi cantado por Amália e outras grandes vozes portuguesas. E foi, sim senhor, amigo de Vinicius de Moraes.
    Conhecido como poeta do povo, poeta da revolução, Ary nasceu numa família da alta burguesia, que cedo abandonou, e morreu "de álcool, de desespero e de solidão".
    Laerte, se não conhece o poema "Poeta castrado, não!" leia, por favor.
    Eis os últimos versos:
    "Serei tudo o que disserem
    por temor ou negação:
    Demagogo mau profeta
    falso médico ladrão
    prostituta proxeneta
    espoleta televisão
    Serei tudo o que disserem:
    Poeta castrado, não!"
    Fenomenal!
    Abraço.

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