27 junho, 2017

Dói-me a cabeça...


Dói-me a cabeça.
O meu desejo é morrer, pelo menos temporariamente, mas isto, como disse, só porque me dói a cabeça. E neste momento, de repente, lembra-me com que melhor nobreza um dos grandes prosadores diria isto. Desenrolaria, período a período, a mágoa anónima do mundo: aos seus olhos imaginadores de parágrafos surgiriam, diversos, os dramas humanos que há na terra, e através do latejar das fontes febris erguer-se-ia no papel toda uma metafísica da desgraça. Eu, porém, não tenho nobreza estilística.

Dói-me a cabeça porque me dói a cabeça. Dói-me o universo porque a cabeça me dói. Mas o universo que realmente me dói não é o verdadeiro, o que existe porque não sabe que existo, mas aquele, meu de mim, que, seu eu passar as mãos pelos cabelos, me faz parecer sentir que eles sofrem todos só para me fazerem sofrer.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

12 comentários:

  1. Amiga Teresa Dias,
    Fernando é quase um vidente
    Que sentiu tudo que a gente
    Sente e as palavras vazias

    Que nos temos ele cria-as
    Não como crença. Ele sente
    Ou sentiu provavelmente
    Quando as pôs em poesias.

    Parabéns pela postagem
    Magnífica. É a imagem
    Da luz e da maestria

    Dessa figura na aragem
    Do vento em uma viagem
    Vaga que voga e vigia.

    Grande abraço. Laerte.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Laerte!
      Obrigada pelas palavras lindas e palavras simpáticas.
      Sou louquinha por Pessoa - e isso nota-se.
      Abraço.

      Eliminar
  2. Perante uma dor física, toda a metafísica transforma-se em assunto oco, frívolo e inútil...
    Mesmo sem curso superior, foi um grande pensador.
    Saudações literárias.
    ~~~~~~~~~~~~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Majo!
      Iniciei agora a leitura de alguns contos de Pessoa. Contos com longos argumentos filosóficos-metafísicos sobre o Universo, o Desconhecido, etc. e tal...
      Menina, em que tarefa difícil eu me meti!
      Bjs.

      Eliminar
  3. Apesar do que ele diz, mesmo com dor de cabeça - ou mesmo por casa dela - Pessoa é um prosador estiloso. Tanto assim é que a imortalizou e anda aí pelo mundo, perene, perene. E é o mesmo Pessoa que perguntava a sua nininha, gosta de mim por ser eu ou por ser mim. O mesmíssimo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O que mandava "jinhos, jinhos e mais jinhos" à "Bébézinha do Nininho-ninho".
      O mesmíssimo.

      Eliminar
  4. Teresa, que impressionante essa obra pictórica acima! Bem, acho que vais fazer uma leitura excepcional, vais ter o curioso contato com a nobre e complexa alma - a humana! E o que vier dele, deverá te fazer pensar muito. Ele sempre nos leva a muitos lugares nunca imaginados. E pensamos.
    Beijo, querida.

    ResponderEliminar
  5. Olá, dizem os poetas que sem poesia não há expressão de sentimentos.
    feliz fim de semana,
    AG

    ResponderEliminar
  6. E uma dor de cabeça pode ser mesmo um grande desassossego...
    Grande Fernando Pessoa. É um gosto lê-lo.
    Teresa, um bom fim de semana.
    Abraço.

    ResponderEliminar
  7. Fernando Pessoa. É sempre tão gostoso lê-lo...
    Beijos.

    ResponderEliminar
  8. Ual!
    Que delícia ler algo tão
    expressivo.
    As vezes, viver dói, mas só
    as vezes...
    Amo ler aqui e aguardo sua presença
    na festa de aniversario de
    7 anos do Espelhando.
    Bjins
    CatiahoAlc.

    ResponderEliminar
  9. Aí como são "tramadas" as dores de cabeça.
    É sempre um prazer ler Fernando Pessoa.
    Beijinhos
    Maria de
    Divagar Sobre Tudo um Pouco

    ResponderEliminar