27 junho, 2017

Dói-me a cabeça...


Dói-me a cabeça.
O meu desejo é morrer, pelo menos temporariamente, mas isto, como disse, só porque me dói a cabeça. E neste momento, de repente, lembra-me com que melhor nobreza um dos grandes prosadores diria isto. Desenrolaria, período a período, a mágoa anónima do mundo: aos seus olhos imaginadores de parágrafos surgiriam, diversos, os dramas humanos que há na terra, e através do latejar das fontes febris erguer-se-ia no papel toda uma metafísica da desgraça. Eu, porém, não tenho nobreza estilística.

Dói-me a cabeça porque me dói a cabeça. Dói-me o universo porque a cabeça me dói. Mas o universo que realmente me dói não é o verdadeiro, o que existe porque não sabe que existo, mas aquele, meu de mim, que, seu eu passar as mãos pelos cabelos, me faz parecer sentir que eles sofrem todos só para me fazerem sofrer.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

23 junho, 2017

A primeira vez que perguntei donde vinham os meninos...



A primeira vez que perguntei donde vinham os meninos, a mamã deu-me uma resposta científica, com todo o tipo de pormenores: o esperma e o óvulo e a fecundação e o zigoto e o parto e o cordão umbilical e tudo o que se queira. Como deve ser, com toda a naturalidade do mundo: «O teu pai e eu fizemos amor…» Julgo até que a minha imaginação construiu uma representação mental do estranho enigma que me estavam a contar, em que a pilinha do papá encaixava no buraquinho da mamã com uma precisão geométrica e limpa, como encaixam as peças de madeira nos jogos de construção. Mas não era uma imagem de verdade. Não é uma imagem de verdade. (…)
Não é só a imagem de como nos geram que é falsa Também a de como nascemos. Toda aquela humidade embrulhada num choro raivoso, o sangue e os rompimentos, os coágulos espalmados que selam as pálpebras, o frio, a ingravidade perdida e aquela repentina obrigação de sermos, de sermos a sério e sozinhos, todo aquele pântano de células forçadas a juntarem-se em órgãos e crescerem e dividirem-se, que é a sua forma de se multiplicarem, e procurarem uma saída.
Nascer é isso: procurar uma saída, procurá-la às apalpadelas e aos encontrões, cegos pelo sangue. E depois a vida inteira à procura de uma saída que nos tire do atoleiro em que a saída anterior nos meteu, talvez porque não era exactamente uma saída e assim, com a memória entretida, acabamos por acreditar que não nascemos assim, que viemos ao mundo limpos e embrulhados como uma rebuçado, a cheirar a gazes e pomadas, com a pele hidratada de cremes, e não de sangue. É a primeira lenda. Ainda não acabámos de nascer e já estamos a inventar como nascemos. Agrada-nos a ideia de sermos filhos de uma ideia. Queremos ser filhos do amor e somos filhos do sexo. É possível que o amor contenha o sexo, como as nascentes dificilmente perceptíveis contêm rios imensos.”

Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

20 junho, 2017

"Diário do último ano" - Florbela Espanca


A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa: posso partir.
"Diário do último ano" é registo dos últimos dias de vida de Florbela Espanca, «uma virgem prometida à morte», como escreveu Natália Correia no Prefácio.
É um desabafo pessoal, uma confissão, feito em 32 pequenas anotações (apresentadas também na versão do manuscrito original) e um longo poema, escrito por uma alma angustiada:

"Ó Almas de mentira,
Almas cancerosas,
De virgens que nunca se curvaram
À janela dos olhos pra ver rosas
E cravos e lilases e verbenas...

Ó almas de gangrenas,
Almas 'slavas, humildes, misteriosas,
Cruéis, alucinantes, tenebrosas,
Todas em curvas negras como atalhos,
Feitas de retalhos,
Agudas com ralhos,
Cortantes como gritos!"

Florbela inicia o diário a 11 de Janeiro de 1930,  e logo clarifica para quem o escreve e porque o escreve:
- Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir – todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
Encerra-o a 2 de Dezembro, com uma única frase:
- E não haver gestos novos nem palavras novas!
Morre a 8 do mesmo mês, dia do seu 36º aniversário. A terceira tentativa de suicídio (tentado em Outubro e Novembro) foi fatal.
De saúde frágil, com doença mental diagnosticada, depois da morte do irmão em 1927, Florbela entra em depressão e clama pela morte:
Morte, minha Senhora Dona Morte
Tão bom que deve ser o teu abraço!

Eis algumas anotações:
"FEVEREIRO
19 – Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa mediocridade do mundo se Eu sou Eu? Que me importa o desalento da vida se há a morte?
ABRIL
20 –  Porque me não esqueço eu de viver… para viver?
28 – Não tenho forças, não tenho energia, não tenho coragem pra nada. Sinto-me afundar. Sou o ramo de salgueiro que e inclina e diz que sim a todos os ventos.
AGOSTO
2 – Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada… Porquê?
OUTUBRO
8 – (…) só na alma é que a lama se não apaga; aquela com que nos salpicam, sai com água.
NOVEMBRO
15 – Não, não e não!
20 – A morte definitiva ou a morte transfigurada?
Mas que importa o que está para além?
Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!"
Sinto-me só. Quantas coisas lindas e tristes eu diria agora a Alguém que não existe!

Este livro pequenino é triste mas belíssimo!
Confirme!

Diário do último ano, de Florbela Espanca
Bertrand, 1981
70 págs.

16 junho, 2017

Os pobres não gritam...


"Os pobres não gritam. A morte faz parte do seu lúgubre cortejo de amigos, tem um cantinho no seu leito e um lugar à sua mesa: quando chega, pode levar tudo; quando transpõe a porta, aberta de par em par, com a sua presa, não vê à sua volta, a escoltar-lhe o fatídico vulto negro, senão cabeças curvadas num gesto de resignação, braços caídos, braços de quem deu tudo, de quem não tem mais nada para dar. A dor dos pobre é resignada e calma; traz às vezes consigo as aparências da revolta mas, no fundo, é cheia de um imenso, dum infinito desapego de tudo. Os pobres vêm ao mundo já sem nada; o pouco que a vida lhes deixa é emprestado. Que lhes hão-de tirar que seja deles?! Aos pobres toda a gente chama desgraçados."

Florbela Espanca, poetisa portuguesa (1894-1930), in “As máscaras do destino - Conto A paixão de Manuel Garcia”, Bertrand, 1981
Pintura "Interior de Pobres" (1921), do pintor e escultor brasileiro Lasar Segal (1891-1957)

13 junho, 2017

"A valsa do adeus" - Milan Kundera


Cada homem devia receber uma dose de veneno no dia da sua maioridade. Não para o incitar ao suicídio, mas, pelo contrário, para o fazer viver com mais segurança e mais serenidade. Viver sabendo-se senhor da sua vida e da sua morte.
Em “ Valsa do adeus” (1972) oito corações acelerados, nem sempre em sintonia perfeita, buscam a felicidade numa pequena estância termal isolada, antiquada, decadente, famosa pelos águas que tratam o coração dos homens e a esterilidade das mulheres.
Num contínuo de encontros e desencontros, homens e mulheres rodopiam ao ritmo de uma valsa-intriga, sabiamente orquestrada por Kundera com muita ironia e humor.
Toda a acção decorre no espaço de cinco dias - segunda a sexta-feira dum início de Outono.
A narrativa, rápida, inteligente, envolvente, retrata o comportamento de pessoas normais apanhadas em situações imprevisíveis. Não há verdades absolutas, antes mentiras desesperadas. E muitas contradições.
Ruzena, uma jovem e bela enfermeira da casa de banhos, e Klima, um célebre músico de jazz, estão no centro duma enorme confusão amorosa, “temperada” com pormenores hilariantes.
Ruzena e Klima conheceram-se na noite em que o jovem e charmoso trompetista actuou na estância termal. Dormiram juntos. Não voltaram a ver-se.
Dois meses depois (segunda-feira), ela liga-lhe e diz-lhe que está grávida. E ele fica paralisado de terror.
Será mesmo o pai da criança? Estiveram juntos apenas uma vez. Tem de convencê-la a abortar. Como? Com promessas e mentiras.
Klima é casado com Kamila, uma bela mulher de saúde frágil, que renunciou à carreira de cantora.
Ele ama-a infinitamente. Sente o coração despedaçar-se quando a vê triste. “Perde-se” em casos de infidelidade, mas volta para ela sempre mais apaixonado. Era capaz de dar a vida por ela.
Já Kamila ama o marido doentiamente. Torturada pelo ciúme não acredita em nada do que ele lhe diz. Tem medo de todas as mulheres que gravitam à volta dele. Silencia a sua desconfiança para não o enfurecer. Aprendeu a “jogar” com a tristeza para o atrair.
Porque não procura ela algum conforto no mundo dos homens?
Porque o ciúme possui o poder espantoso de iluminar de raios de luz intensos o ser único, mantendo a multidão dos demais homens numa obscuridade total.
(É hilariante a relação de amor/ódio deste casal. Já agora, fique a saber que , lá para quinta-feira, Kamila vai mudar …)
Às 9.00 horas da manhã do dia seguinte, Klima chega a à estância termal.
Antes de falar com a enfermeira, encontra-se com o doutor Skreta, director dos serviços de ginecologia. Tenta convencê-lo de que aquela criança não pode ser sua, que duvida até que Ruzena esteja realmente grávida.
- Examinei-a ontem. Está grávida. – disse o médico.
É um Klima apavorado e angustiado que se senta à frente de Ruzena.
Ela diz que nunca aceitará abortar. Não nunca… Ele,  perde o uso da fala… mas não da capacidade inventiva e pouco depois é uma Ruzena empolgada que confidencia às colegas: - Ele disse que me amava e que ia casar comigo… mas não quer que eu tenha já um filho.
Mas esta valsa não é só dançada por Ruzena e Klima. Outros dançarinos rodopiam no salão: Bertlef (o rendeiro americano rico louco por mulheres); Olga (a mais antiga utente da estância termal), Frantisek (o tresloucado namorado de Ruzena, que insiste que o filho é seu); Jakub (o decepcionado militante do movimento politico comunista, vítima das depurações, que pretende abandonar definitivamente o país e está na estância termal para se despedir da amiga e protegida Olga, e devolver ao doutor Skreta o comprimido de veneno que em tempos este lhe havia preparado) e Kamila (que também aparecerá por lá).
Jakub, para muitos dançarinos um mero desconhecido, vai interferir no ritmo desta valsa.
Ruzena cruza-se  com ele num café. Desagrada-lhe o seu rosto. Acha-o irónico e ela detesta a ironia. O olhar dele assusta-a. Sai apressada e esquece sobre a mesa um tubo com comprimidos. Jakub apanha-o.
Na quinta-feira o trompetista  volta a tocar na estância. A mulher, sem que ele saiba, aparece de surpresa e assiste ao concerto. Acabam por dormir na estância.
No dia seguinte, ele acorda e sai apressado do quarto. Tem de falar urgentemente com Ruzena.
Entretanto, na sala de banhos Frantisek e Ruzena discutem violentamente à frente das utentes.
Kamila, enfurecida vai à procura do marido. Num corredor encontra Jakub. Caminham lado a lado e ele fala, fala, fala. Separam-se. 
Kamila não esquece as palavras daquele desconhecido. Nem o seu rosto. Como ele, também ela vivia na cegueira. Via apenas um único ser, iluminado pelo farol violento do ciúme. Depois daquele encontro começa a sentir-se segura de si e mais bela. O marido deixa de ser o único homem do mundo. O eventual fim do seu casamento, já não lhe inspira nem angústia nem medo. 
O que lhe disse Jakub? Eu sei, mas não digo.
O ritmo desta valsa acelera e o pior acontece quando um comprimido azul pálido mata um dançarino. 
Assassínio? Suicídio? Acidente?

Este romance aborda questões sérias de uma forma deliciosamente divertida.
(Qual foi o dançarino que morreu? Ora, ora, se eu revelar perde a graça!)
Leia!

A valsa do adeus, de Milan Kundera
Tradução de Miguel Serras Pereira
D. Quixote, 1989
210 págs.

06 junho, 2017

A vida é uma viagem experimental...


A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e, como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que se sentiu foi o que se viveu. Recolhe-se tão cansado de um sonho como de um trabalho visível. Nunca se viveu tanto como quando se pensou muito. (…)

Vem isto tudo, que vai dito como vai sentido, a propósito do grande cansaço, aparentemente sem causa, que desceu hoje súbito sobre mim. Estou não só cansado, mas amargurado, e a amargura é incógnita também. Estou, de angustiado, à beira das lágrimas – não de lágrimas que se choram, mas que se reprimem, lágrimas de uma doença da alma, que não de uma dor sensível.
Tanto tenho vivido sem ter vivido! Tanto tenho pensado sem ter pensado! Pesam sobre mim mundos de violências paradas, de aventuras tidas sem movimento. Estou farto do que nunca tive nem terei, tediento de deuses por existir. Trago comigo todas as feridas de batalhas que evitei. Meu corpo muscular está moído do esforço que nem pensei em fazer.
Baço, mudo, nulo… “

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Desenho de Vincent van Gogh, pintor holandês (1853-90)