09 maio, 2017

Que é viajar, e para que serve viajar?


Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.

As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava é a que percorro e é minha.

Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo.
Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar. (…)

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.”.

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
(foto da net)

16 comentários:

  1. Obrigada pela visita!!!
    Um belíssimo desassossego!
    Bj

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  2. Muito interessante! E sem querer me comparar, longe disso, aí de mim! Penso exatamente assim, já que não gosto de viajar, e as paisagens que crio, a maioria, saem de minha imaginação. "Aquela que me interessa e que posso realmente ver"...
    Obrigada pela maravilhosa partilha.
    beijinhos, Léah

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  3. Este trecho do Livro do Desassossego é realmente magnífico...
    De facto, quando bem disposta, a imaginação pode sublimar a perceção de lugares que se conhecem indiretamente.
    Gostei deste destaque que me fez recordar.
    Beijinhos
    ~~~~

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  4. Olá Teresa.
    Como sempre gostei de crônicas, esta que escreves sobre viagens achei ótima. Quantas vezes viajamos para determinados locais por estarem na moda? Parabéns.
    Um abraço.
    Pedro

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    1. Pedro, o que eu dava para ter escrito esta crónica...
      Pedi emprestada ao Fernando Pessoa. O grande!
      Abraço.

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  5. O universo não é meu: sou eu.
    Pois é, esse é 'O Cara'! Faz tempo que não viajo e não sinto falta. Viajo por aqui, para a Serra, lá me sinto toda. Plena.
    Lembrei, também, do dramaturgo Nelson Rodrigues que não saía do Rio de janeiro. Famoso pelos seus hábitos e pelo que era.
    Mas do Fernando Pessoa não tinha esse conhecimento.
    Ótima e curiosa postagem!
    Beijo, Teresa!

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  6. Para além das viagens físicas é muito importante fazermos também viagens ao nosso eu, para assim melhor nos conhecermos.
    Excelente escolha.
    Agradeço a sua visita e presença no meu cantinho, gostei muito do seu blogue e também já a estou a acompanhar nesta viagem virtual.
    Beijinhos
    Maria

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    1. Bem-vinda Maria!
      Não é fácil viajar ao nosso eu mas é fundamental fazê-lo para vislumbrarmos a real beleza do que nos rodeia.
      Bjs.

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  7. Pessoa era um grande poeta e um mau viajante; julgo eu que por ser tão diversa (e dispersa) pessoa, a paisagem exterior pouco lhe importava. Mas quem não é como ele pensa diferente.
    Ainda que bastas vezes dê por mim a pensar que num bom livro estão todos os livros; como numa viagem há ingredientes de todas. Basta saber ver.

    E no entanto julgo que o "ter mundo", às almas ditas normais, só faz bem; desvia-as do inóquo e do pretenso. Limpa a mente.

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  8. Tenho que concordar com Fernando Pessoa, amiga! Nós somos o universo, o nosso interior é a nossa melhor paisagem, temos um poder dentro de nós no qual nos custa acreditar e a viagem mais importante a fazer é ao nosso eu, tentando que o que existe nele se torne cada vez mais beĺo. Por mais viagens que façamos, por mais paisagens que observemos, se não estivermos com paz de espirito, serenidade, não haverá maravilhas nesse nosso mundo capaz de nos encantar. Não é fácil, mas é importante que façamos viagens por nós mesmos e que possamos dizer com um sorriso nos lábios: " como sou belo! "
    Assim interpretei esta viagem de Fernando Pessoa, assim a senti, mas com certeza diferentes sentires aqui aparecerão, pois diferentes são os olhos que a lêem e também diferentes são os estados de alma no momento da leitura.
    Amiga, gostei muito e agradeço-te a partilha deste magnifico texto do nosso grande escritor. Obrigada também pelo carinho demonstrado durante a minha ausência. Um beijinho e tudo de bom para todos aí em casa.
    Emilia

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    1. Olá Emília.
      Concordo contigo, amiga, "nós somos o universo, o nosso interior é a nossa melhor paisagem"... Amei!
      Ainda bem que voltaste ao nosso convívio.
      Beijo.

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  9. Discordo da ideia de que o meu interior é a minha melhor paisagem, no sentido em que não se sai do sujeito que se vê a si mesmo. não será isso demasiado fechamento?! E nem o conhece-te a ti mesmo socrático, que já me convence, me parece adaptado a tal opinião.

    Por outro lado, estou convicta que a melhor paisagem que cada um dá aos outros é interna. Se não é a melhor, será a mais próxima de ser verdadeira.

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  10. Somos transeuntes eternos...
    Nem sempre concordamos com Fernando Pessoa, mas ele tem o condão de nos fazer pensar. Por isso foi um dos maiores escritores do século passado.
    Bom fim de semana, amiga Teresa.
    Beijo.

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    1. Olá Jaime!
      Realmente, foi esse condão que fez de Pessoa o poeta do mundo.

      (Que achas do poema de Luísa Sobral, cantado ontem pelo irmão Salvador Sobral no Festival da Eurovisão? Para mim, a beleza das palavras simples e a doçura angelical da voz atingiram a perfeição e o prémio foi merecido. Ontem, Portugal teve um dia "em cheio"!)

      Bom domingo.
      Beijo.

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  11. Olá, Teresa

    É mesmo desassossegante este "Livro do Desassossego".Obriga-nos, desde logo, a fazer uma viagem ao nosso interior, inspeccionando os nossos sentires.
    Fernando Pessoa, fez essa viagem variadíssimas vezes, criando para isso várias personagens e personalidades, vivendo vidas e experiências diversas. Por isso, ele sabe do que fala.
    E lá está ele com Bernardo Soares, esse seu "semi-heterónimo", uma personalidade estranhíssima, fazendo a leitura desse desassossego que nos desassossega a todos.

    Um bom domingo, cara Teresa.

    Beijinhos.

    Olinda

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    1. Sabes Olinda, o desassossego de Fernando Pessoa me fascina, sossega e ilumina.
      É mágico!
      Bom domingo também para ti, linda.
      Beijo.

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