28 abril, 2017

"O Primo Basílio" - Eça de Queiroz


«Meu adorado Bazilio
Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao acordar. Cobri-a de beijos...»
O romance “O Primo Basílio”, publicado na segunda metade do século XIX, é definido pelo autor como «um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa». Na realidade, a trama, algo trágica e de um realismo fascinante - a aventura adúltera de uma mulher - desenrola-se quase na totalidade no interior da habitação do casal Luiza e Jorge. Trama que tem todos os ingredientes para cativar o leitor: amor, paixão, traição, inveja, chantagem, tragédia.
As personagens são bem caracterizadas e credíveis. Gente comum, com defeitos e qualidades. Luiza (a burguesinha da Baixa que gosta de ler romances de amor); Jorge (o marido pacato, reservado, pouco sentimental); Basilio (o sedutor primo de Luiza); Juliana (a criada invejosa e tirana); Sebastião (o tímido bom amigo do casal); Leopoldina (a libertina amiga e confidente de Luiza); Acácio (o conselheiro), são magníficos. Mas outras há...
A escrita de Eça - considerado o pai do Realismo em Portugal - é simples, precisa e cativante.
A acção começa num domingo quente de verão. Em casa, Luiza e Jorge acabam de almoçar. Ele enrola um cigarro. Ela lê o jornal.
- Ah! – fez Luíza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.
- Que é?
- É o primo Basilio que chega!
E leu alto, logo:
«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordéus, o sr. Basílio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. Sua Excelência, que, como é sabido, tinha partido para o Brasil, onde se diz reconstituíra a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do ano passado. A sua volta à capital é um verdadeiro júbilo para os amigos de Sua Excelência, que são numerosos.»
- E são! – disse Luiza, muito convencida.
- Estimo, coitado! Fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma da mão. – E vem com fortuna, hem?
- Parece.
Quantas recordações! O primo Basílio fora o seu primeiro namorado. Tinha então dezoito anos, e ele vinte e sete. Depois, ele partiu para o Brasil e deixou-a numa enorme tristeza. Havia sete anos que não o via. Nunca o esqueceu. E nunca falou sobre esse amor com ninguém. Nem com Jorge, o homem que conheceu três anos depois, numa noite de verão no Passeio, e com quem casou numa manhã de nevoeiro no inverno seguinte.
- Casou no ar! Casou um bocado no ar!, disse Sebastião ao amigo Jorge.
Luiza e Jorge estão casados há três anos. São felizes. Falta apenas um filho.
Ele trabalha no Ministério das Obras Públicas. Ela toma conta da casa, lê romances de amor estendida na voltaire. Aos domingos à noite recebem em casa os amigos mais íntimos. E Luizinha toca piano, canta e encanta. E Jorge envolve-a em delicadezas de amante.
É domingo. No dia seguinte vão separar-se pela primeira vez. Jorge, engenheiro de minas, tem de partir em trabalho para o Alentejo. 
O seu afastamento coincide com o regresso a Lisboa de Basilio, naquele verão que será escaldante. Depois de vários anos nos Brasil, onde fez fortuna, e uns meses em Paris, onde aprimorou a técnica da sedução, o primo de Luiza volta. E sabe que ela casou. E que o marido está fora de Lisboa. E que ela está sozinha em casa.
Basilio não hesita. Procura-a. E passa a visitá-la todos os dias. E ela não resiste aos encantos do primo sedutor.
A vizinhança começa a coscuvilhar sobre tanta movimentação na casa do engenheiro. E os amigos do casal estranham e afastam-se. O tímido Sebastião avisa-a e aconselha reserva. Ela ignora.
Basilio, que não quer perder a amantezinha daquele verão, rapidamente procura um lugar para os jogos de amor. Encontra o «Paraíso» nos subúrbios de Lisboa, e lá passam tórridas tardes de amor.
Quando as visitas de Basilio, já entediado, começam a rarear, Luiza enciumada escreve-lhe cartas de amor. Cartas que Juliana, a criada invejosa, rancorosa e mesquinha  guarda para “tramar“ a patroa. Exige-lhe dinheiro. Chantageia-a e humilha-a. Em casa de Jorge, o engenheiro, a patroa vira criada e a criada vira patroa.
Luiza conta tudo a Basilio e propõe-lhe que fujam juntos para Paris.
- Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Pode lá falar-se em fugir? Era um escândalo atroz… É impossível! É uma simples questão de dinheiro…
Dinheiro que ela não tem. Dinheiro que ele não lhe dá.
No dia seguinte, Basilio, o sedutor cobarde, foge para Paris – alegre, levando recordações romanescas da aventura: ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!
Jorge volta do Alentejo. Estranha o que se passa em casa: Luiza definha enquanto a criada Juliana prospera.
Numa carta que chega de Paris para Luiza, Jorge encontra a resposta mas nada diz sobre o assunto, preocupado com o estado cada vez mais frágil da sua mulherzinha. 
Luiza, desesperada, procura o amigo Sebastião. Conta-lhe tudo. Pede-lhe ajuda para recuperar de Juliana as cartas roubadas. O bom Sebastião ajuda-a. Recorre a um amigo policia, procura Juliana, recupera as cartas roubadas e…
… e mais não desvendo!

Leia, ou releia como eu fiz, para saber que fim têm Juliana e Luiza, a tal que lia romances de amor, chorava com “A dama das Camélias”, cantava a «Traviata», tocava piano e, por desgraça, se deixou seduzir por um primo desprezível.
É trágico o fim deste soberbo romance.

O Primo Bazilio, de Eça e Queiroz
Livros do Brasil, 15º edição, 2015
493 págs.

18 abril, 2017

Recordando... Florbela Espanca


PARA QUÊ?!
Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...

Beijos de amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...

“A minha dor é um convento”, Florbela Espanca (1894-1930)

08 abril, 2017

Tenho tantas saudades, minha mãe (1929-2017)


Nada fica de nada. Nada somos
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos peses
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

(Ode de Ricardo Reis, pseudónimo de Fernando Pessoa)



Mãe, espera por mim. 
Espera por mim junto do pai.
Um dia vamos encontrar-nos e abraçar-nos e beijar-nos e celebrar o amor.
Espera por mim rodeada de anjos, na paz do Senhor.
Chorarei por ti, lágrimas de tristeza e saudade.
Sempre!

07 abril, 2017

Um espelho é um sortilégio...


Um espelho é um sortilégio.
Temos de nos ver muito tempo ao espelho, muitas vezes e muito tempo, antes de conhecermos o nosso verdadeiro rosto. Um espelho não é uma simples placa de prata com a sua superfície lisa, não, um espelho é profundo como um lago de montanha, e quem se debruça com toda a atenção sobre a superfície de um espelho veneziano vê subitamente o fundo, vê profundidades sempre novas, e o seu rosto reflecte-se cada vez mais longe, o seu rosto que se debruça sobre o espelho, e todos os dias uma máscara cai do rosto que se olha ao espelho (...).
Nunca ofereças um espelho à mulher que amas, (...) porque desse modo as mulheres acabam por se conhecer a si próprias, passam a ver melhor e entristecem. 
Foi por meio do espelho que um dia, algures, o conhecimento começou, quando o homem se debruçou sobre o mar, viu o seu próprio rosto no infinito, e entristeceu perguntando-se: « O que é isto?...» “

Tirei daqui: A conversa em Bolzano”, de Sándor Márai,  Ed. D. Quixote, 2014
Pintura de Fernand Toussaint, pintor belga (1883-1956)

05 abril, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei – e que lhes disse – foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo”. Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. (…)"


Excerto da crónica “Quando os filhos não leem”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 1 Abril 2016
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

04 abril, 2017

25º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


262-(20-7-1930)
“Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.”

265-(27-71930)
“A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa. Dizem que não há nada mais difícil de definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstrata das molas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir fechar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstrata. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!

01 abril, 2017

"A Pérola" - John Steinbeck


Não é bom desejar muito uma coisa. Pode arredar a sorte. Basta desejá-la um pouco, porque é preciso muito tato com Deus ou com os deuses.
Esta novela conta a história de uma pérola grande, bela, perfeita como a Lua – a “Pérola do mundo”.
Conta também a história de amor e solidariedade de uma humilde família índia: Kino o pescador que apanhou a pérola, a sua mulher Juana e o seu filho Coyotito.
Viviam num aglomerado de cabanas junto ao mar. Mar que Kino gostava de ouvir, de escutar a sua música sempre que fechava os olhos. O seu povo tinha sido outrora grande cultor de canções, de tal modo que tudo o que via ou pensava, ou fazia e ouvia, se transformava numa canção.
Sempre que olhava para a mulher e o filho, Kino ouvia na sua cabeça uma canção pura e doce, a Canção da Família.
Porém, no dia em que Coyotito foi picado por um escorpião Kino passou a ouvir na sua cabeça a música do inimigo, de qualquer inimigo da família, uma melodia selvagem e perigosa, a Canção do Mal.
O médico da cidade, um homem racista, cruel, ignorante e oportunista, recusa tratar Coyotito por considerar que as oito minúsculas pérolas defeituosos, feias e cinzentas que Kino lhe mostrava não valiam o suficiente para pagamento dos seus serviços.
Kino corre para o mar. Tem de apanhar uma pérola grande e bela para salvar o filho. Corajoso, mergulha fundo e vê uma ostra isolada, com a concha parcialmente aberta. O seu coração bateu mais forte e a Canção da Pérola Ambicionada soou estridente nos seus ouvidos. Dentro da concha estava uma pérola grande, perfeita como a lua. Kino tinha encontrado a "Pérola do Mundo". Quanto valeria?
A notícia de que Kino tinha apanhado a grande pérola chegou célere aos ouvidos dos compradores de pérolas. E aos ouvidos do médico. E as bolsas de veneno da cidade começaram a produzir a sua peçonha.
Kino sabia que tinha que arranjar uma couraça que o protegesse contra a maldade do mundo. Mas estava feliz. Na sua cabeça a música da pérola tinha-se fundido com a música da família.
- Que vais fazer, agora que és um homem rico?
- Vamos casar-nos… na igreja.
- Vamos ter roupas novas.
- Uma espingarda.
- O meu filho há de ir à escola.
- O meu filho há de ler e abrir os livros, e o meu filho há de escrever e conhecer a escrita. O meu filho há de fazer números e essas coisas hão de libertar-nos, porque ele há de saber, há de saber e nós havemos de saber através dele.
- É isso que a pérola há de fazer.
Inesperadamente, Kino começou a ouvir na sua cabeça a Canção do Mal e um medo descontrolado cresceu no seu peito. E com o medo veio a raiva. E muita dor e tristeza e vergonha. 
O que se passou? 
Revelo apenas que a pérola volta para o fundo do mar...

Baseada num conto popular mexicano, “A Pérola” (1947) é uma parábola poética sobre as grandezas e as misérias do mundo em que vivemos.
Uma história pequenina, linda, comovente e inesquecível, para ler e reflectir.

A Pérola, de John Steinbeck, Prémio Nobel de Literatura, 1962
Tradução de Clarisse Tavares
Ed. Livros do Brasil, 2015
79 págs.