29 março, 2017

Recordando... Florbela Espanca


EU
Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

“Que heroínas somos nós às vezes! E que covardes.”, Florbela Espanca (1894-1930)

28 março, 2017

"Dentro da noute" - contos góticos


"Dentro da Noute" é uma antologia de Contos Góticos, organizada por Ricardo Lourenço e editada pelo Projecto Adamastor.
Reúne vinte e sete contos e novelas, da autoria de escritores portugueses e brasileiros.
Está disponível gratuitamente em formato EPUB e MOBI.
Se gosta de histórias de terror, daquelas que deixam o cabelo em pé, entre na "noute" misteriosa e assustadora e... arrepie-se!

Contos e Novelas Portugueses
1. O Defunto — Eça de Queirós
2. A Dama Pé-de-Cabra — Alexandre Herculano
3. A Caveira — Camilo Castelo Branco
4. A Torre Derrocada — Alberto Osório de Vasconcelos
5. O Mistério da Árvore — Raul Brandão
6. O Corvo — Fialho de Almeida
7. A Feiticeira — Ana de Castro Osório
8. A Morta — Florbela Espanca
9. Os Canibais — Álvaro do Carvalhal
10. Uma Récita do Roberto do Diabo — Júlio César Machado
11. O Cadáver — Beldemónio
12. Sede de Sangue — Manuel Teixeira Gomes
13. A Confissão de Lúcio — Mário de Sá-Carneiro

Contos e Novelas Brasileiros
1. Noite na Taverna — Álvares de Azevedo
2. A Dança dos Ossos — Bernardo Guimarães
3. Os Porcos — Júlia Lopes de Almeida
4. Acauã — Inglês de Sousa
5. Violação — Rodolfo Teófilo
6. Maibi — Alberto Rangel
7. Assombramento — Afonso Arinos
8. 11 e 20 — Medeiros e Albuquerque
9. Demônios — Aluísio Azevedo
10. O Defunto — Thomaz Lopes
11. A Causa Secreta — Machado de Assis
12. O Bebê de Tarlatana Rosa — João do Rio
13. Confirmação — Gonzaga Duque
14. Os Olhos que Comiam Carne — Humberto de Campos

Terror nunca fez o meu género. Nem nos filmes, nem na literatura. Sou assustadiça por natureza. Bastava que lesse um dos contos para perder noites de sono. A sério!
Espero que a simples divulgação  do lançamento da colectânea não interfira significativamente com o meu sono. Espero!!!

25 março, 2017

"A conversa de Bolzano" - Sándor Márai

Advertência:
(...)Ser-me-ia difícil negar um parentesco que talvez alguns insistam em reprovar-me. O meu herói parece-se terrivelmente com o vagabundo disposto a tudo, sem pátria e todavia infeliz, que, no dia 31 de Outubro de 1756, à meia-noite, se evadiu dos Piombi de Veneza servindo-se de uma escada de corda e trocou o território da República por Munique na companhia de um frade renegado chamada Bibi. Á laia de defesa, direi somente que não foi a vida mas o caráter romanesco do herói a interessar-me.
Foi por isso que me limitei a pedir de empréstimo às célebres Memórias a data e a circunstância da fuga. Tudo o mais que o leitor poderá ler neste romance não passa de fábula e invenção.
S.M.
Advertência lida, penetramos na história do Giacomo Casanova de Sándor Márai, que começa com a chegada do famoso sedutor a Bolzano, três dias após ter escapado dos Piombi, a sinistra prisão veneziana. Acompanha-o  Balbi, o frade renegado, alcoólatra e bonacheirão, seu companheiro de fuga. 
É um Giacomo andrajoso, sem bagagem (transporta consigo apenas um punhal) e sem dinheiro, que entra na Estalagem do Veado e pede dois quartos. Um Giacomo humilhado que se faz passar por um fidalgo de Veneza assaltado na fronteira.
Entretanto, a notícia da evasão espalhava-se e toda a gente se regozijava «ali estava alguém provando que um homem era mais forte do que o despotismo, mais forte do que os Piombi, do que os esbirros e ria a bandeiras despregadas». Até o papa, que o tinha condecorado com uma ordem pontifícia, ria às gargalhadas. Até o rei se ria.
Ao escapar aos muros com um metro de espessura, ele deixara com um nariz de palmo e meio Suas Excelências, os terríveis senhores da Inquisição e, agora, tinha no seu encalço os polícias, os juízes, os esbirros e os espiões: porque não há nada mais perigoso do que um homem que não é capaz de se submeter à tirania.
À noite, dois polícias entram na estalagem, interrogam o estalajadeiro e ordenam-lhe : Queremos estar a par de tudo o que ele diga. Vigia-o bem. Recebe cartas, e de quem? Manda cartas, e a quem? Vigia-lhe todos os gestos.
É Teresa, a criadita de 16 anos, quem fica a vigiá-lo pelo buraco da fechadura. Ordens do patrão: toma cuidado com a tua virgindade e vigia-o. Hum! Hum!
Mas afinal, porque está  Giacomo em Bolzano?
Porque em Bolzano vive Francesca, a única mulher que amou e perdeu em duelo para o temível e poderoso Conde de Palma. O conde poupou-lhe a vida, com a condição de não voltar a procurá-la. Ele cumpriu durante cinco anos, mas agora, a caminho do exílio em Munique, quer vê-la pela última vez. Sabe que não será fácil pois a adolescente é agora mulher do ainda temível conde de Palma.
Conseguirá? Talvez sim. Talvez não.
Adiante. Depois de dezasseis meses detido nos Piombi e três dias fechado no quarto (nem sempre sozinho…), Giacomo, o sedutor que se quer tornar escritor, “acorda” para a vida. Começa por pedir dinheiro a um velho amigo. A seguir, chama um barbeiro. A seguir manda fazer roupa condizente com a sua pretensa condição de fidalgo. A seguir… espera, pois estar à espera é viver.
Ao oitavo dia, Giacomo ouve um trenó parar à porta da estalagem e, logo depois, uma voz de homem, conhecida, velha, quase suplicante, diz à porta do seu quarto: «Tenho de falar contigo, Giacomo.» E entra.
- Prometi-te simplesmente matar-te se alguma vez voltasses, se voltasses a rondar-nos e a levantar os olhos para a condessa (…) as ameaças deixaram de ter cabimento (…) já não sinto vontade de atacar: a agressão nada resolve entre os homens (…) Vim com outra arma, Giacomo.
- Que arma?
- A arma da razão.
É longa a conversa. No fim, o conde faz-lhe uma proposta perversa e um convite surpreendente: Esta noite irás a nossa casa porque Francesca sente que tem de te ver! Apareces disfarçado e mascarado como os demais. Depois, quando a tiveres reconhecido, rapta-a, trá-la para aqui e realiza uma obra-prima! (…) Os segredos da tua arte não me interessam. É preciso que ela passe por ti, mas de modo a regressar para mim de manhã…
O conde sai e pouco depois Giacomo ouve uma voz de mulher, conhecida e bela, dizer do outro lado da porta: - Sou eu, Giacomo (...) tenho de te ver. E entra. 
Estas duas conversas em Bolzano são, na verdade, dois monólogos (o do conde talvez demasiado extenso) sobre a paixão amorosa, o desejo, a indiferença, a vida, a velhice, a morte.
A história termina com Giacomo Casanova no quarto, já as velas tinham ardido até ao fim (lembra alguma coisa, não?), a ditar a Balbi uma carta para o conde de Palma com a resposta à proposta que ele lhe fez e um inesperado pedido. Qual? Não digo!
No grande duelo da vida, e até nos momentos decisivos, só as armas da cortesia são permitidas.

Romance soberbo.
O belíssimo monólogo do conde de Palma (páginas 141 a 193) é para ler e reler, e reler…

A conversa de Bolzano, de Sándor Márai
Tradução de Miguel Serras Pereira
Ed. D. Quixote, 2014
255 págs. 

21 março, 2017

Dia mundial da poesia


“Todos os dias deveríamos ler um bom poema, ouvir uma linda canção, contemplar um belo quadro e dizer algumas palavras bonitas.”
Goethe, escritor alemão (1749-1832)

 
Hoje eu li RENOVA-TEde Cecília Meireles, jornalista, escritora e professora brasileira (1901-64) e amei.

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

(Foto da net)

20 março, 2017

Dia internacional da felicidade??!!


A felicidade é disparatada como uma rosa na boca de um jacaré. Em seu esforço para não ser um jacaré, extasia-se o homem na felicidade de o não ser completamente dizendo isso num sorriso monstruoso que é uma rosa na boca de um jacaré .Ah! como o assassino é legível na ária da felicidade que lhe floresce na boca! Todos os assassinos trazem uma flor na boca; um sorriso de metódicas navalhas. Todos os felizes são assassinos, ou vítimas, é a mesma coisa. Recusar a felicidade é vomitar a memória, deslembrança do sítio onde o ouro se transtorna em chumbo.
Só conheço uma espécie de miseráveis: os felizes. Porque a felicidade é o tributo que pagam à miséria da existência.
Somos no que nos excede e só a infelicidade verdadeira nos excede. A alegria também um pouco porque é a resplandecente e frenética ironia da felicidade não existir.
Um novo dia! dizem os felizes, perfurando as paredes da esperança para espreitarem suas nádegas operárias do vício solitário do triunfo nos quartos de curta permanência que a felicidade aluga. Um novo dia! diz gota a gota a baba com que os felizes tecem seu sequestro de esperançosas toupeiras.
Como se não houvesse sempre e apenas um só dia, uma onda ininterrupta, eternamente solta trespassando-nos na vida que os campos sáfaros da existência alaga. Um volátil e fixo sustenido de platina de um intocado violino que os felizes fingem dividir em agulhas com que malcriadamente palitam os olhos nos sítios mais concorridos.”

Quadro de Agostinho Santos, pintor, escritor e jornalista português (n.1960), tirado da net.
Texto de Natália Correia, intelectual, poeta e activista social açoriana (1923-93), tirado daqui:


10 março, 2017

É de pequenino...

Quem é esta criancinha seriamente empenhada em aprender os números e as letras?
Chama-se Madalena, tem seis meses (feitos no passado dia 25), e é minha neta .
A mana Carolina (prestes a fazer 6 anos), está decidida a ensinar-lhe os números e as letras e ela, divertida, “alinha” na brincadeira.

A avó, convicta de que desde cedo se deve incutir nas crianças hábitos de leitura, sorri enternecida e deixa um conselho à mana mais velha:
“Carolina,vai com calma. A Madalena é muito pequenina. Brinca com ela, mostra-lhe os números e as letras e lê-lhe historinhas. Assim. aprendem as duas: ela a gostar ainda mais de ti e tu a leres cada vez melhor. Concordas?"
Amo, de paixão, as minhas pequeninas.


“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar.”
José Saramago, escritor português (1922-2010)
Prémio Nobel de Literatura, 1998

“É preciso fazer compreender à criança que a leitura é o mais movimentado, o mais variado, o mais engraçado dos mundos.”
Alceu Amoroso Lima, crítico literário, professor, pensador, escritor e líder católico brasileiro (1893- 1983)

“Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história.”
Bill Gates, magnata, filantropo e autor norte-americano (1955-)

08 março, 2017

Dia internacional da mulher

O tempo passou e muita coisa mudou...

"A organização do trabalho no lar
(…)
O almoço do teu marido deverá ser servido à hora exactamente indicada por ele, para que não tenha que esperar e depois comer rapidamente.
Não te esqueças nunca de pôr flores na mesa. Recebe-o alegre, engraçada, bem disposta, porque a tua alegria e boa disposição serão o sol que ele levará na alma e lhe iluminará alguma penumbra que surja na sua vida profissional.
Vamos lá dar uma directriz à distribuição do teu trabalho pelos dias de semana, para que chegues ao domingo com um rosto fresco e o teu marido não entristeça ou aborreça ao olhar para ti:

2ª feira – Lavagem de roupa. No espaço de tempo em que ela está na lixívia, fazer um justo e bem merecido repouso. Após esse pequeno descanso, escoas a água do tanque, sem tirar a roupa e abres a torneira. Deixas ficar assim a roupa em água limpa. Para te poupares, não a passar por água limpa, segunda vez, não a torces nem a estendes, no próprio dia. Deixas isso para o dia seguinte, de manhã. Por hoje basta!

3ª feira – Após o almoço e a cozinha já devidamente arranjada – e como o jantar tem pouco para fazer, visto que, de manhã já preparaste a sopa para todo o dia e o prato do jantar será um pargo assado com batatinhas – deitas-te, no divan da salinha, até às 4 e meia.
A essa hora levantas-te repousada e fresca e entregas-te a pequenas ocupações indispensáveis: - limpar e vincar um fato do teu marido; lavar, com benzina, as tuas luvas brancas; renovar as flores das jarras; responder à carta da tua mãe; ordenar os livros da tua pequenas estante, etc., etc.
(Esqueci-me de te recomendar o seguinte: sempre que faças o teu habitual repouso da tarde, faze, no rosto e nas mãos, uma massagem com um bom creme de alimento e fica com ele, enquanto dormes).

4ª feira – Este será o dia destinado à roupa: ver se precisa de alguns pontos e engomá-la. Como é só de vocês dois, deves poder engomá-la toda num só dia. Se, porém, te sentires fatigada, não insistas, e acaba-a no dia seguinte. A tua beleza e a tua saúde são mais importantes.

5ª feira – Destina a tua tarde ao lustro dos alumínios e de alguma prata ou metais que tenhas para limpar. Levanta a pequena carpete da salinha e a da casa de jantar e deixa-as penduradas na varanda da casinha. À noite batê-las-ás. (Para todos estes trabalhos – principalmente a limpeza dos alumínios e metais – não te esqueças de calçar as luvas de borracha).

6ª feira – Hoje é o dia da limpeza maior à casa, mas como já tens os alumínios os metais e os tapetes limpos, ser-te-á fácil. Varres, limpas o pó, dás um pouco de cera, pões flores frescas nas jarras – e está pronto. Não guardes nunca a limpeza para o sábado, porque o teu marido faz a semana-inglesa e, nas tardes de sábado fica em casa. Já vês que desagradável seria, andares com a casa no alvoroço das limpezas…

Sábado – A cama de lavado, as toalhas da casa de banho e todos os panos de cozinha, incluindo esfregão da louça e as pegas dos tachos. Domingo já não terás este trabalho. Despacha tudo cedo, para consagrares a tarde a teu marido.

Domingo – Tens toda a casa em ordem, portanto, depois do almoço, podem dar um passeio ou ir ao cinema. Simplifica o jantar mas… vê lá: apresenta sempre uma travessa bem farta. O teu marido precisa de ser bem alimentado.

E pronto. Distribui assim o teu trabalho, controlando as tuas forças e nunca te excedendo. O teu sorriso, a tua saúde, a tua boa disposição iluminarão sempre as quatro paredes brancas da tua casinha e a vossa vida decorrerá tranquila e feliz."

(Tirei de um livro que foi da minha mãe e agora é meu: "O livro das noivas", da Colecção Laura Santos, Editorial Lavores, 1957.  Surpreendente!
Foto da net.)

Ufa! Fiquei cansada de tanto limpar.
Cansada mas sorridente e bem disposta. 
Agora vou fazer a "Sopa feliz" e o "Bolo de namorados". O meu marido precisa de ser bem alimentado...
Grande abraço para todas as mulheres.

07 março, 2017

24º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


257-(13-6-1930)
“Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já não o tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade do nada. Não tenho esperanças nem saudades.”

260-(Junho-Julho de 1930)
“Somos quem somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. “

Leia (tudo) e… deslumbre-se!