17 outubro, 2017

Quando se trata de pedir favores a familiares...


Quando se trata de pedir favores a familiares sou tomado de um pudor paralisante. A família é uma empresa complicada de hierarquias confusas, obediências, silêncios, recriminações. Esforço-me por manter as relações no plano da cortesia ou da intimidade mais intuída do que praticada. No fundo, gosto de estar em família por períodos breves. Estas aproximações – para esclarecer uma dúvida, pedir um carro para as mudanças ou uma toalha de mesa para o Natal – causam-me um certo desconforto. Prefiro deixar a família a pairar com a sua autoridade tácita, lá bem no alto, onde pouco interfere com o meu quotidiano. Cada qual na sua casa segundo os seus ritmos: isso é que está certo.”


Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Hoje estarás comigo no paraíso”, Ed. Quetzal, 2017
Foto da net.

13 outubro, 2017

"Nação crioula" - José Eduardo Agualusa

A vida de um escravo é uma casa com muitas janelas e nenhuma porta. A vida de um homem livre é uma casa com muitas portas e nenhuma janela.
Finalmente li José Eduardo Agualusa!
E comecei bem, “Nação crioula” (1997) é um romance inteligente, comovente, e bem escrito.
Conta, com humor e sensibilidade, a intensa, secreta (divulgar é sempre profanar) e atribulada história de amor de Carlos Fradique Mendes (aventureiro português) e Ana Olímpia Vaz de Caminha (jovem angolana nascida escrava, viúva do abastado Victorino Vaz de Caminha, bela, inteligente, rica, poderosa e respeitada), ao mesmo tempo que aborda temáticas sérias: Portugal nos finais do século XIX; a sociedade colonial angolana e brasileira; o tráfico negreiro; o movimento abolicionista.
O autor foi buscar o protagonista ao livro de Eça de Queirós ”Correspondência de Fradique Mendes” (1900), uma compilação de cartas trocadas entre Eça e o amigo-ficcionado Fradique.
“Nação crioula” também é um entrelaçado de cartas. Vinte e seis. Poucas recebidas por Fradique Mendes, muitas enviadas por ele para madame de Jouarre (a madrinha); Ana Olímpia (a amada); José Maria (o amigo Eça). Cartas escritas entre 1868 e 1900, Luanda, Lisboa, Rio de Janeiro e Paris.
A primeira, de Maio de 1868, começa assim:
"Minha querida madrinha,
Desembarquei ontem em Luanda às costas de dois marinheiros cabindanos. Atirado para a praia, molhado e humilhado, logo ali me assaltou um sentimento inquietante de que havia deixado para trás o próprio mundo…"
Nos anos seguintes, Fradique Mendes diverte-se, trata de negócios, viaja, "namora" a mulher amada. 
Em outubro de 1876, Ana Olímpia é de novo escrava, propriedade de familiares do marido falecido. Depois de muitas peripécias Fradique consegue libertá-la e foge com ela para o Brasil no “Nação Crioula” (...) provavelmente o último navio negreiro da História.
Em Junho de 1877 Fradique Mendes escreve a Eça e Queirós:
"Meu querido José Maria?
Estou agora no Rio de Janeiro, e embarco segunda-feira para Lisboa, onde tenciono permanecer um mês ou dois antes de seguir para Paris e depois para Londres. Os motivos desta minha peregrinação, sendo os óbvios (tenho negócios a tratar e amigos a rever), são também outros e menos públicos: liguei-me recentemente a uma sociedade secreta, antiescravista (chamamos-lhe a Sociedade do Cupim!), e parto com o objectivo de recolher apoios para esta causa entre os governos e instituições da velha Europa…"
Em Outubro de 1878, comunica à madrinha que é pai:
"Quem lhe escreve esta carta não é mais o ocioso e irresponsável aventureiro que V. viu crescer, vestindo-se nos melhores alfaiates de Paris para ocultar a miserável nudez da alma, sentindo o mundo com sentimentos alheios, e cujo único projecto de vida era, simplesmente, deixar-se viver. Sou outro! Sou, desde há dois meses, pai de uma belíssima menina…"
Fradique Mendes morre em Paris, no inverno de 1988. Em Outubro ainda escreve ao amigo José Maria (penúltima carta do livro):
"O que é que nós colonizámos? O Brasil, dir-me-ás tu. Nem isso. Colonizámos o Brasil com os escravos que fomos buscar a África. Fizemos filhos com eles, e depois o Brasil colonizou-se a si próprio. Ao longo de quatro demorados séculos construímos um império, vastíssimo, é certo, mas infelizmente imaginário…"
A vigésima-sexta carta, de Agosto de 1900, é de Ana Olímpia para Eça de Queirós. É uma carta de desabafo que acompanha a correspondência de Fradique Mendes pedida pelo escritor para publicação em livro, “uma forma de homenagear o português mais interessante do século XIX”. Nesse mesmo ano, o livro chega (mesmo) às livrarias…

Se quer saber mais sobre os dois livros… vai ter de os ler. Este, recomendo-o aos que gostam de romance, aventura, histórias do quotidiano colonial português (o de Luanda é tragicamente hilariante), História.
Eu vou continuar a ler Agualusa. Isso é ponto assente.
Despeço-me, que se faz tarde…

Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa
Ed. Quetzal, 2017
165 págs.

10 outubro, 2017

Kazuo Ishiguro - Prémio Nobel da Literatura, 2017


Finalmente, a Academia Sueca acertou na atribuição do Nobel da Literatura ao premiar este ano um verdadeiro escritor, no caso, um romancista brilhante.
Isto porque nos últimos anos a “coisa” não tem sido famosa…
Kazuo Ihiguro, nascido em Nagasáqui em 1954 e a viver em Inglaterra desde 1960, é merecedor do prémio, sem quaisquer dúvidas.
A sua obra, não sendo vasta é poderosa: romances; contos; guiões para televisão; letras para canções.
Foco-me nos romances, sete, todos editados em Portugal:
- “As colinas de Nagasáqui”, 1982.
- “Um artista do mundo transitório”, 1986.
- “Os despojos do dia”, 1989 (adaptado ao cinema em 1993, por James Ivory). 
- “Os inconsolados”, 1995. 
- “Quando éramos órfãos”, 2000. 
- “Nunca me deixes”, 2005 (adaptado ao cinema em 2010, por Mark Romanek).
- “O gigante enterrado”, 2015
Dos sete romances eu já li quatro.
Desses quatro postei dois.
Então, se quiser postá-los a todos vou ter de reler dois, e ler três.
Contabilidade feita, vou “correr” as livrarias à procura dos romances que me faltam, antes que esgotem. Habitual após a atribuição do Nobel.
Pensando melhor, vou deixar a poeira assentar… nos próximos meses as livrarias vão abarrotar de livros do músico rejeitado na adolescência pelas editoras, agora romancista galardoado com o prémio maior da Literatura. Merecido!
As vossas vidas estão traçadas, escreveu Kazuo no romance “Nunca me deixes”. A vida dele estava, oh se estava!
Recomendo a todos que leiam Kazuo Ishiguro, um assombroso contador de histórias estranhas, sensíveis, belíssimas.

Eu, uma vez mais “chorei baba e ranho” (brincadeirinha!!) por não ver premiado o meu escritor preferido: Philip Roth.
Roth, repito o pedido do ano passado: não morras, please!

03 outubro, 2017

Para uma amiga especial...



Não importa se a estação do ano muda...
Se o século vira, se o milénio é outro.
Se a idade aumenta...

Conserva a vontade de viver,
Não se chega a parte alguma sem ela.


(Versos de Fernando Pessoa)

Foto da net

29 setembro, 2017

" A violação do amor" - Manuel de Sousa Falcão


A violação do amor” (Editora Propagare, 2016), da autoria de Manuel de Sousa Falcão, reúne mais de 100 poemas - “textos confessionais”, diz o poeta - escritos entre 2009 e 2016.
São poemas para ler devagar, pensar, reflectir e compartilhar com aqueles que amamos, ou gostamos.
Reproduzo dois dos meus favoritos.

Fico a aguardar o próximo livro, senhor professor, poeta, pintor.
Sucesso!

SORRI
Sorri
Mesmo que não te apeteça
Conversa sem que te meça
Fala da pele e nunca mais do que isso
Diz de ti apenas a superfície
Diz de texturas e não
De ligaduras de nervuras de vidas duras
De doenças sem curas.
Esconde-te cobre-te recolhe-te
É que cansei-me de ti
Algum dia o passado irrompeu
E és o que eras
Não te salvei não te mudei
Como o Paraíso por perdido
Deu lugar ao Vale de Lágrimas
E tarda a redenção
Ou não vem
Eu não quero morar aqui
Por tudo o que vi o que vivi o que senti

A NOITE
Uma noite
Faço o mesmo percurso
Do mesmo modo
A ouvir os passos
Escutar (esses) ruídos
Da hora tardia
E entrando em mim, 
Compreendendo-me.
Não me desculpo
Talvez chore
(Alguma memória
Chamará um
Sorriso breve
Uma saudade breve)
O mesmo percurso
O cansaço extremo,
Impede-me de pensar o
Regresso.

26 setembro, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


Há um provérbio norte-americano que diz «Ser velho não é divertido». É uma verdade. Ser velho é ter de começar do zero a qualquer momento, e fazê-lo muitas vezes, constrangido a reaprender coisas básicas que inclusive se ensinaram aos outros a vida toda. Coisas simples (e inacreditavelmente complexas como andar, organizar o seu espaço, cuidar da alimentação, sair de casa, comunicar. Um dia acorda-se e nada disse é óbvio como antes era. Ser velho é fazer o que se fazia, mas muito mais devagar, segmentando por etapas, doseando o esforço desmesurado que atividades mínimas agora obrigam. Ser velho é desistir muitas vezes, tombando de uma angústia que as palavras já não exprimem; é as lágrimas correrem dos olhos, não por pieguice, mas porque nenhuma esperança as sustém; e, ao mesmo tempo, ter a teimosia inexplicável de recomeçar quando já não parece possível. Ser velho é, no extremo da fragilidade, mostrar que se tem sete vidas. Ser velho é aceitar o presente, sentindo rondar a imprevisibilidade muito perto, e sabiamente rir-se disso. Ser velho é fazer mais com menos: saber que só se pode contar com a força de uma das mãos ou com o apoio de um dos lados, e mesmo assim insistir e continuar. Ser velho é compreender o valor das migalhas, que foram sempre o nosso grande alimento sem que nos déssemos conta. Ser velho é lutar para estabelecer uma conversa com um quinto do vocabulário, ainda assim entrecortada por hesitações e esquecimentos, mas com os olhos a falarem cinquenta vezes mais, para quem os souber ouvir. Ser velho é sentir-se transferido para o interior de uma casa alheia e grande, desejando unicamente não se perder. Ser velho é não contar com ninguém a certas horas – horas longas que parecem não ter fim – procurando manter vivo, dentro dessa total incerteza, o inapagável fio do amor.

Sim, o provérbio tem razão. Mas há uma coisa que ele não diz: que ser velho é também um milagre. Na verdade, torna-se urgente vulgarizar um verbo que os dicionários não trazem e que os velhos conjugam continuamente, o verbo milagrar. (…) Os velhos milagram. Eles são responsáveis pelo incessante prodígio que é a vida.


Excerto da crónica “O verbo milagrar”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 26 Agosto 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

22 setembro, 2017

"Hoje estarás comigo no paraíso" - Bruno Vieira Amaral


Cada homem está pendurado por um fio, o abismo pode abrir-se debaixo dele a qualquer momento.
No romance de estreia “As primeiras coisas” (2013) Bruno Vieira Amaral desvenda de forma magnífica como se vivia no início dos anos 80 no Bairro Amélia, concelho da Moita, distrito de Setúbal, o problemático bairro onde o escritor cresceu.
O romance, distinguido com diversos prémios, espantou todos pelo perfeito dosear de real com ficção, e pela escrita poderosa.
Agora, neste segundo romance, o escritor pega no homicídio nunca esclarecido do seu primo João Jorge (o Joãozinho Treme, personagem de “As Primeiras Coisas”) e desenha uma investigação do assassínio e usa essa investigação como estratégia de recuperação e construção da sua própria memória: a infância, a família, o bairro e as suas personagens, Angola antes da Independência e os anos que se lhe seguiram, e a figura – ausente - do pai.
João Jorge, solteiro, pintor da construção civil, cidadão português nascido em Novo Redondo, Angola, gozão respeitador, um vadio amigo da família, acabou os seus dias num curral de porcos, brutalmente degolado por um cabo-verdiano. João Jorge veio de Angola aos treze anos e morreu na Baixa da Banheira, Portugal, aos vinte e um.
Trinta anos depois , Bruno Vieira Amaral movido pela curiosidade decide investigar tão brutal crime.
Não são os mortos que clamam por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para que os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas, esclarece o escritor/narrador.
Sem memórias vivas do primo, para reconstituição da sua personalidade, do seu percurso de vida e da derradeira noite, Bruno Vieira Amaral (sete anos aquando do crime) pesquisou arquivos da imprensa da época, consultou arquivos judiciais, explorou o passado da família em Angola, ouviu jornalistas, familiares, vizinhos e amigos. Depois, “agitou” tudo e escreveu uma comovente e nostálgica história, bem urdida e bem contada, feita com dados da investigação, segredos familiares, esquecimentos convenientes, equívocos propositados, verdades escondidas, silêncios, recordações do quotidiano no bairro, revelações drásticas sobre um Portugal com fome, desemprego, salários em atraso.
Numa mistura perfeita de ficção e realidade, de passado e presente, aqui e ali o escritor/narrador desvenda o seu quotidiano e as dificuldades e esmorecimentos que sentiu  durante  a escrita da história.
Por vezes a dificuldade de escrever é apenas isso, uma tarefa, uma actividade profana, repetitiva, banal, afastada das zonas tenebrosas da existência, das humilhações, dos desejos proibidos, das vinganças imaginadas. Então, prefiro afastar-me da escrita e montar prateleiras, furar paredes, introduzir buchas, apertar parafusos…
Interessante é ver também citados romances  de Gabriel Garcia Márquez, Cormac McCarthy, W.G. Sebald,, Mario Vargas Llosa, Javier Cerca, Julian Barnes, entre outros, que o inspiraram e motivaram.
Tudo perfeito!
Na noite em que João Jorge foi assassinado não choveu. Nem na manhã seguinte. Era terça-feira de Carnaval, céu limpo e frio…
Fico por aqui.
Leia para saber quem foi, como viveu e porque foi o João Jorge morto como um porco, com a faca para os abrir... 
Hoje estarás comigo no paraíso (Evangelho segundo Lucas, 23:39-43) é interessante mas... demasiado longo. Bruno Amaral Vieira, senhor de uma escrita cristalina, viciante e inteligente (tanto deve ter lido já este "senhor escritor" que herdou do avô o amor pelos livros e pela História), podia ter dito tudo sem se perder em excessivas minúcias.
Eu aconselho a leitura dos seus dois romances. O primeiro é o meu favorito, mas com este quase gastei um lápis... A sublinhar, claro!

ONDE É QUE A HISTÓRIA DA NOSSA FAMÍLIA contamina a nossa história individual?
Pense nisto!

Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral
Ed. Quetzal, 2017
363 págs.

15 setembro, 2017

Irrita-me a felicidade de todos estes homens ...


Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma série de angústias para uma sensibilidade verdadeira. Mas, como a sua verdadeira vida é vegetativa, o que sofrem passa por eles sem lhes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente à de um homem rico com dor de dentes de vez em quando, mas muita aspirina também – a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) aos incidentes que chamam alegria e dor.

Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais!”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Pintura de Giuseppe Arcimboldo, pintor italiano (1537-93)

08 setembro, 2017

"A vegetariana" - Han Kang

- Porque é que não comes carne? Ela pousou os pauzinhos e olhou para ele. – Não tens de me dizer, se for difícil para ti.
- Não – responde ela com serenidade. – Não me é difícil. O problema é que acho que não vais compreender. – Tornou a pegar nos pauzinhos e mastigou lentamente alguns rebentos de soja. – É por causa de um sonho que tive.
- Um sonho?
- Tive um sonho… e é por isso que não como carne.
É estranha e comovente a história de Yeong-hye, mulher normal, nem feia nem bonita, de poucas palavras, filha e esposa submissa, que depois de um sonho terrível decide mudar radicalmente a sua vida, impor a sua vontade e enfrentar a conservadora sociedade sul-coreana, o marido que a despreza, os pais e a irmã que a ignoram. Como? Tornando-se vegetariana.
Essa inesperada, incompreensível e assustadora mudança de comportamento tem consequências negativas sobre toda a família e brutais sobre ela própria.
Dividida em três partes, a história começa no presente mas engenhosa e subtilmente recua ao passado dando voz a familiares – marido, cunhado e irmã – que desvendam de forma crua e dura factos da infância e adolescência da protagonista. Preocupa-os a estranha decisão dela? Não! Preocupa-os o que dessa decisão pode “respingar” sobre eles.
Na primeira parte a voz é do abjecto marido:
… sempre pensei nela como alguém que não tinha rigorosamente nada de especial. Para dizer a verdade, quando nos conhecemos, nem sequer me senti atraído por ela. No então, embora não tivesse nada de muito atraente, nada tinha também de repulsivo e, por isso, não havia motivo para que não nos casássemos… raramente me pedia alguma coisa e nunca discutia comigo.. .servia-me na perfeição… era a mulher mais trivial do mundo… uma esposa absolutamente comum…
Até um certo dia de fevereiro…
… em que ela, provocadora, deita fora carne, ovos e leite, recusa sair do quarto, deixa de limpar, de cozinhar, de tratar da roupa e recusa o sexo com o marido por o corpo dele lhe cheirar a carne.
Os dias passam, ela definha. Incapaz de a demover o marido fala com a sogra e logo marcam uma reunião de família. Tal não preocupa a "nova" Yeong-hye revoltada, vingativa, fantasista e decidida a tomar o controlo da sua vida. Nem o marido desprezível, nem o pai, um herói da Guerra do Vietname autoritário e agressivo, conseguirão que volte a comer carne. Antes morrer. É assim tão mau morrer?
O que se segue é provocador e desconcertante, mas eu não desvendo para que a sensação de absurdo seja sentida também por si.
(Nota: O hospital confirmará que esta mulher revoltada que começou por querer ser vegetariana, depois um vegetal e por fim uma árvore, não sofre de qualquer doença mental.)

Este romance, feito de histórias bem imaginadas que se encaixam umas nas outras como peças de um puzzle, não é fácil de entender, não!
É tão estranho, tão estranho, que, não sei como, se entranha em nós e a vegetariana Yeong -hye não nos sai da cabeça.
Porquê? Bem... é segredo.

(Ufa! Este foi difícil de digerir! Mas não deixei de comer carne...)

A vegetariana, de Han Kang - Man Booker International Prize 2016
Tradução de Maria do Carmo Figueira
Ed. D. Quixote, 2016
190 págs.

01 setembro, 2017

Voltei... com um poema!


NONA SINFONIA

É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

José Carlos Ary dos Santos, poeta e declamador português ((1936-1918)
Foto da net.

02 agosto, 2017

Vou de férias...


... do meu rol de leituras.
Como faço todos os anos, durante o mês de Agosto nada postarei.
Vou aproveitar para ler (a pilha de livros cresceu nos últimos meses) e “espreitar “, com calma, os blogues que sigo e de que ando arredada.

Julho foi um mês complicado. 
Um problema de saúde, grave, da mãe das minhas netas de 11 meses e 6 anos, deixou-me arrasada física e psicologicamente. 
Como se não bastasse, no último dia do Julho mais cinzento dos meus (já muitos) verões, a morte súbita cardíaca atingiu um familiar que habitava junto de nós, ali ao virar da esquina. Saudável e feliz com a vida, partiu deixando familiares e amigos estarrecidos. E eu, continuei a arrasar, perdida numa onda de angústia e desorientação. E medo.
Realmente,  "a vida dói muito mais que a morte" - palavras de Jim Morrison.

Vou aproveitar esta pausa para procurar a ponta do novelo da minha vida. Fernando Pessoa disse que  “a vida é um novelo que alguém emaranhou”  e eu vou tentar desemaranhar o meu.

Até Setembro.
Muitas e excelentes leituras.
Braçadas de flores para os meus seguidores e todos aqueles que, simplesmente, passam por aqui.

(No meio de tanta agitação consegui ler "A Vegetariana", romance de Han Kang.
Demasiado estranho e perturbador, recomendo que o leiam lá para o outono... ou inverno...
Verão é para degustar, brindar e foliar.)

31 julho, 2017

Carrego gostosamente com o lastro do passado...


Carrego gostosamente com o lastro do passado, albergo-o e permito que me acompanhe para todo o lado. A mim o que me incomoda amiúde é o presente, aquela sua lixada mania de se intrometer em tudo. O passado manda-se para a floresta do esquecimento e ali permanece, mesmo à custa de se converter em alimária. O presente, em contrapartida, espera-nos ao pé da floresta, a meio do caminho, e tem um machado na mão.”


Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

28 julho, 2017

Sempre que vejo sangue, desmaio...


Sempre que vejo sangue, desmaio. Sou fraca a esse ponto, não suporto nem um beliscão. Incomoda-me essa debilidade, mas não consigo ultrapassá-la por mais que me esforce. Quando me têm de tirar sangue para uma análise, experimento todo o tipo de truques: olhar para outro lado, fechar os olhos, contar até cem; inclusivamente uma vez tentei o contrário, olhá-lo fixamente, concentrar-me no sangue e pensar que era água, torná-lo transparente com a força do meu olhar.

Aguento apenas uns segundos antes de sentir aquela frouxidão que nasce nos pés e se instala na boca do estômago, depois os ombros descaem, o pescoço cede, as maçãs do rosto fraquejam-me como cera derretida e, quando o frio chega ao cérebro, já não estou. Falta de luz. Não é desagradável. Pelo contrário, tem qualquer coisa de abençoado, esse abandono, essa interrupção total da consciência. Tomara eu dormir sempre assim, flutuar à deriva nessa paz com todas as amarras cortadas. O desmaio, como o sono, está fora do tempo, numa dimensão própria que parece eterna mesmo que dure apenas uns segundos.”


Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

21 julho, 2017

Os sentimentos que mais doem...



Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas importantes, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juntos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas. (…)
Sei que estes pensamentos da emoção doem com raiva na alma. (…)

Nestas horas de mágoa subtil, torna-se impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz. Tudo isso está vazio, até na ideia do que é. Tudo isso está dito em outra linguagem, para nós incompreensível, meros sons de sílabas sem forma no entendimento. A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. Todos os deuses morrem de uma morte maior que a morte. Tudo está mais vazio que o vácuo. E tudo um caos de coisas nenhumas.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Painel de azulejos de Almada Negreiros, pintor  português (1893-1970).

14 julho, 2017

"Obra poética" - José Carlos Ary dos Santos


O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos, poeta e declamador português  (1936-84)
(Foto da net)



11 julho, 2017

Quando não consigo dormir...


Quando não consigo dormir, costumo deitar-me de barriga para cima, com os olhos fechados e os braços esticados paralelos ao tronco. Todo o corpo liso e direito, excepto os pés, que apontam para o céu. Então, começando pelo dedo mínimo do pé direito, vou-os mexendo um a um, devagar, muito devagar, e conto-os. Mexo um dedo e conto-o, um; mexo o seguinte, dois, três, quatro. Ao chegar a dez, estou no dedo mínimo do segundo pé. É importante mexê-los todos, um a um, não saltar nenhum dedo, não interromper a contagem. Quando se termina, volta-se a começar em sentido contrário: onze dedos, doze, treze…
Não costuma falhar. Houve alturas em que cheguei a contar mais de cento e cinquenta dedos, mas com firmeza e método, se os contarmos realmente um a um e mexermos de cada vez aquele que é devido, acaba por se conseguir. Vai-nos dando o sopor.

Nunca tomei um comprimido para dormir. Nunca, nem sequer uma valeriana. (…) Nunca um comprimido. Sempre os dedos um a um!”

Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.


(Experimentei "contar dedos dos pés" na passada semana, quando a minha netinha adormecia e eu teimava em ficar de olhos abertos. Perdida de sono, mas de olhos abertos.

Foi uma semana em grande, aqui em casa com a Madalena. Os papás foram de férias, levaram a Carolina, de seis anos, e deixaram comigo a pequenina de dez meses. Linda, linda, linda!
Foi maravilhoso!
E cansativo? Sim, um pouco; biberons, papas, fraldas e chupetas... não é mole, não! Mas voltaria a fazer tudo, mesmo tudo!
Vivem longe e não são muitas as vezes que estamos juntas. Pena minha!

Acreditem, abraços e beijos babados de netinhas provocam numa avó um turbilhão de emoções.
Mesmo se para dormir tem de contar os dedos dos pés.)

07 julho, 2017

A liberdade é a possibilidade do isolamento...


A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente.
Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que o faz ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela."

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

04 julho, 2017

A arte pertence a toda a gente e a ninguém...


"A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. (...) A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. A arte não existe pela arte: existe pelas pessoas. Mas que pessoas, e quem as define?

Escrevia  música para toda a gente e para ninguém. Escrevia música para os que melhor apreciavam a música que ele escrevia, sem olhar à condição social. Escrevia música para os ouvidos que eram capazes de ouvir. E sabia, por isso, que todas as verdadeiras definições de arte são circulares e que todas as definições não verdadeiras de arte lhe atribuem uma função específica.

Havia muito a dizer sobre o silêncio, esse lugar onde as palavras se esgotam e a música começa; e também, onde a música se esgota."


Julian Barnes, escritor inglês (n.1946), in "O ruído do tempo", Ed. Quetzal, 2016
Foto da net.

27 junho, 2017

Dói-me a cabeça...


Dói-me a cabeça.
O meu desejo é morrer, pelo menos temporariamente, mas isto, como disse, só porque me dói a cabeça. E neste momento, de repente, lembra-me com que melhor nobreza um dos grandes prosadores diria isto. Desenrolaria, período a período, a mágoa anónima do mundo: aos seus olhos imaginadores de parágrafos surgiriam, diversos, os dramas humanos que há na terra, e através do latejar das fontes febris erguer-se-ia no papel toda uma metafísica da desgraça. Eu, porém, não tenho nobreza estilística.

Dói-me a cabeça porque me dói a cabeça. Dói-me o universo porque a cabeça me dói. Mas o universo que realmente me dói não é o verdadeiro, o que existe porque não sabe que existo, mas aquele, meu de mim, que, seu eu passar as mãos pelos cabelos, me faz parecer sentir que eles sofrem todos só para me fazerem sofrer.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

23 junho, 2017

A primeira vez que perguntei donde vinham os meninos...



A primeira vez que perguntei donde vinham os meninos, a mamã deu-me uma resposta científica, com todo o tipo de pormenores: o esperma e o óvulo e a fecundação e o zigoto e o parto e o cordão umbilical e tudo o que se queira. Como deve ser, com toda a naturalidade do mundo: «O teu pai e eu fizemos amor…» Julgo até que a minha imaginação construiu uma representação mental do estranho enigma que me estavam a contar, em que a pilinha do papá encaixava no buraquinho da mamã com uma precisão geométrica e limpa, como encaixam as peças de madeira nos jogos de construção. Mas não era uma imagem de verdade. Não é uma imagem de verdade. (…)
Não é só a imagem de como nos geram que é falsa Também a de como nascemos. Toda aquela humidade embrulhada num choro raivoso, o sangue e os rompimentos, os coágulos espalmados que selam as pálpebras, o frio, a ingravidade perdida e aquela repentina obrigação de sermos, de sermos a sério e sozinhos, todo aquele pântano de células forçadas a juntarem-se em órgãos e crescerem e dividirem-se, que é a sua forma de se multiplicarem, e procurarem uma saída.
Nascer é isso: procurar uma saída, procurá-la às apalpadelas e aos encontrões, cegos pelo sangue. E depois a vida inteira à procura de uma saída que nos tire do atoleiro em que a saída anterior nos meteu, talvez porque não era exactamente uma saída e assim, com a memória entretida, acabamos por acreditar que não nascemos assim, que viemos ao mundo limpos e embrulhados como uma rebuçado, a cheirar a gazes e pomadas, com a pele hidratada de cremes, e não de sangue. É a primeira lenda. Ainda não acabámos de nascer e já estamos a inventar como nascemos. Agrada-nos a ideia de sermos filhos de uma ideia. Queremos ser filhos do amor e somos filhos do sexo. É possível que o amor contenha o sexo, como as nascentes dificilmente perceptíveis contêm rios imensos.”

Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

20 junho, 2017

"Diário do último ano" - Florbela Espanca


A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa: posso partir.
"Diário do último ano" é registo dos últimos dias de vida de Florbela Espanca, «uma virgem prometida à morte», como escreveu Natália Correia no Prefácio.
É um desabafo pessoal, uma confissão, feito em 32 pequenas anotações (apresentadas também na versão do manuscrito original) e um longo poema, escrito por uma alma angustiada:

"Ó Almas de mentira,
Almas cancerosas,
De virgens que nunca se curvaram
À janela dos olhos pra ver rosas
E cravos e lilases e verbenas...

Ó almas de gangrenas,
Almas 'slavas, humildes, misteriosas,
Cruéis, alucinantes, tenebrosas,
Todas em curvas negras como atalhos,
Feitas de retalhos,
Agudas com ralhos,
Cortantes como gritos!"

Florbela inicia o diário a 11 de Janeiro de 1930,  e logo clarifica para quem o escreve e porque o escreve:
- Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir – todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
Encerra-o a 2 de Dezembro, com uma única frase:
- E não haver gestos novos nem palavras novas!
Morre a 8 do mesmo mês, dia do seu 36º aniversário. A terceira tentativa de suicídio (tentado em Outubro e Novembro) foi fatal.
De saúde frágil, com doença mental diagnosticada, depois da morte do irmão em 1927, Florbela entra em depressão e clama pela morte:
Morte, minha Senhora Dona Morte
Tão bom que deve ser o teu abraço!

Eis algumas anotações:
"FEVEREIRO
19 – Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa mediocridade do mundo se Eu sou Eu? Que me importa o desalento da vida se há a morte?
ABRIL
20 –  Porque me não esqueço eu de viver… para viver?
28 – Não tenho forças, não tenho energia, não tenho coragem pra nada. Sinto-me afundar. Sou o ramo de salgueiro que e inclina e diz que sim a todos os ventos.
AGOSTO
2 – Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada… Porquê?
OUTUBRO
8 – (…) só na alma é que a lama se não apaga; aquela com que nos salpicam, sai com água.
NOVEMBRO
15 – Não, não e não!
20 – A morte definitiva ou a morte transfigurada?
Mas que importa o que está para além?
Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!"
Sinto-me só. Quantas coisas lindas e tristes eu diria agora a Alguém que não existe!

Este livro pequenino é triste mas belíssimo!
Confirme!

Diário do último ano, de Florbela Espanca
Bertrand, 1981
70 págs.

16 junho, 2017

Os pobres não gritam...


"Os pobres não gritam. A morte faz parte do seu lúgubre cortejo de amigos, tem um cantinho no seu leito e um lugar à sua mesa: quando chega, pode levar tudo; quando transpõe a porta, aberta de par em par, com a sua presa, não vê à sua volta, a escoltar-lhe o fatídico vulto negro, senão cabeças curvadas num gesto de resignação, braços caídos, braços de quem deu tudo, de quem não tem mais nada para dar. A dor dos pobre é resignada e calma; traz às vezes consigo as aparências da revolta mas, no fundo, é cheia de um imenso, dum infinito desapego de tudo. Os pobres vêm ao mundo já sem nada; o pouco que a vida lhes deixa é emprestado. Que lhes hão-de tirar que seja deles?! Aos pobres toda a gente chama desgraçados."

Florbela Espanca, poetisa portuguesa (1894-1930), in “As máscaras do destino - Conto A paixão de Manuel Garcia”, Bertrand, 1981
Pintura "Interior de Pobres" (1921), do pintor e escultor brasileiro Lasar Segal (1891-1957)

13 junho, 2017

"A valsa do adeus" - Milan Kundera


Cada homem devia receber uma dose de veneno no dia da sua maioridade. Não para o incitar ao suicídio, mas, pelo contrário, para o fazer viver com mais segurança e mais serenidade. Viver sabendo-se senhor da sua vida e da sua morte.
Em “ Valsa do adeus” (1972) oito corações acelerados, nem sempre em sintonia perfeita, buscam a felicidade numa pequena estância termal isolada, antiquada, decadente, famosa pelos águas que tratam o coração dos homens e a esterilidade das mulheres.
Num contínuo de encontros e desencontros, homens e mulheres rodopiam ao ritmo de uma valsa-intriga, sabiamente orquestrada por Kundera com muita ironia e humor.
Toda a acção decorre no espaço de cinco dias - segunda a sexta-feira dum início de Outono.
A narrativa, rápida, inteligente, envolvente, retrata o comportamento de pessoas normais apanhadas em situações imprevisíveis. Não há verdades absolutas, antes mentiras desesperadas. E muitas contradições.
Ruzena, uma jovem e bela enfermeira da casa de banhos, e Klima, um célebre músico de jazz, estão no centro duma enorme confusão amorosa, “temperada” com pormenores hilariantes.
Ruzena e Klima conheceram-se na noite em que o jovem e charmoso trompetista actuou na estância termal. Dormiram juntos. Não voltaram a ver-se.
Dois meses depois (segunda-feira), ela liga-lhe e diz-lhe que está grávida. E ele fica paralisado de terror.
Será mesmo o pai da criança? Estiveram juntos apenas uma vez. Tem de convencê-la a abortar. Como? Com promessas e mentiras.
Klima é casado com Kamila, uma bela mulher de saúde frágil, que renunciou à carreira de cantora.
Ele ama-a infinitamente. Sente o coração despedaçar-se quando a vê triste. “Perde-se” em casos de infidelidade, mas volta para ela sempre mais apaixonado. Era capaz de dar a vida por ela.
Já Kamila ama o marido doentiamente. Torturada pelo ciúme não acredita em nada do que ele lhe diz. Tem medo de todas as mulheres que gravitam à volta dele. Silencia a sua desconfiança para não o enfurecer. Aprendeu a “jogar” com a tristeza para o atrair.
Porque não procura ela algum conforto no mundo dos homens?
Porque o ciúme possui o poder espantoso de iluminar de raios de luz intensos o ser único, mantendo a multidão dos demais homens numa obscuridade total.
(É hilariante a relação de amor/ódio deste casal. Já agora, fique a saber que , lá para quinta-feira, Kamila vai mudar …)
Às 9.00 horas da manhã do dia seguinte, Klima chega a à estância termal.
Antes de falar com a enfermeira, encontra-se com o doutor Skreta, director dos serviços de ginecologia. Tenta convencê-lo de que aquela criança não pode ser sua, que duvida até que Ruzena esteja realmente grávida.
- Examinei-a ontem. Está grávida. – disse o médico.
É um Klima apavorado e angustiado que se senta à frente de Ruzena.
Ela diz que nunca aceitará abortar. Não nunca… Ele,  perde o uso da fala… mas não da capacidade inventiva e pouco depois é uma Ruzena empolgada que confidencia às colegas: - Ele disse que me amava e que ia casar comigo… mas não quer que eu tenha já um filho.
Mas esta valsa não é só dançada por Ruzena e Klima. Outros dançarinos rodopiam no salão: Bertlef (o rendeiro americano rico louco por mulheres); Olga (a mais antiga utente da estância termal), Frantisek (o tresloucado namorado de Ruzena, que insiste que o filho é seu); Jakub (o decepcionado militante do movimento politico comunista, vítima das depurações, que pretende abandonar definitivamente o país e está na estância termal para se despedir da amiga e protegida Olga, e devolver ao doutor Skreta o comprimido de veneno que em tempos este lhe havia preparado) e Kamila (que também aparecerá por lá).
Jakub, para muitos dançarinos um mero desconhecido, vai interferir no ritmo desta valsa.
Ruzena cruza-se  com ele num café. Desagrada-lhe o seu rosto. Acha-o irónico e ela detesta a ironia. O olhar dele assusta-a. Sai apressada e esquece sobre a mesa um tubo com comprimidos. Jakub apanha-o.
Na quinta-feira o trompetista  volta a tocar na estância. A mulher, sem que ele saiba, aparece de surpresa e assiste ao concerto. Acabam por dormir na estância.
No dia seguinte, ele acorda e sai apressado do quarto. Tem de falar urgentemente com Ruzena.
Entretanto, na sala de banhos Frantisek e Ruzena discutem violentamente à frente das utentes.
Kamila, enfurecida vai à procura do marido. Num corredor encontra Jakub. Caminham lado a lado e ele fala, fala, fala. Separam-se. 
Kamila não esquece as palavras daquele desconhecido. Nem o seu rosto. Como ele, também ela vivia na cegueira. Via apenas um único ser, iluminado pelo farol violento do ciúme. Depois daquele encontro começa a sentir-se segura de si e mais bela. O marido deixa de ser o único homem do mundo. O eventual fim do seu casamento, já não lhe inspira nem angústia nem medo. 
O que lhe disse Jakub? Eu sei, mas não digo.
O ritmo desta valsa acelera e o pior acontece quando um comprimido azul pálido mata um dançarino. 
Assassínio? Suicídio? Acidente?

Este romance aborda questões sérias de uma forma deliciosamente divertida.
(Qual foi o dançarino que morreu? Ora, ora, se eu revelar perde a graça!)
Leia!

A valsa do adeus, de Milan Kundera
Tradução de Miguel Serras Pereira
D. Quixote, 1989
210 págs.

06 junho, 2017

A vida é uma viagem experimental...


A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e, como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que se sentiu foi o que se viveu. Recolhe-se tão cansado de um sonho como de um trabalho visível. Nunca se viveu tanto como quando se pensou muito. (…)

Vem isto tudo, que vai dito como vai sentido, a propósito do grande cansaço, aparentemente sem causa, que desceu hoje súbito sobre mim. Estou não só cansado, mas amargurado, e a amargura é incógnita também. Estou, de angustiado, à beira das lágrimas – não de lágrimas que se choram, mas que se reprimem, lágrimas de uma doença da alma, que não de uma dor sensível.
Tanto tenho vivido sem ter vivido! Tanto tenho pensado sem ter pensado! Pesam sobre mim mundos de violências paradas, de aventuras tidas sem movimento. Estou farto do que nunca tive nem terei, tediento de deuses por existir. Trago comigo todas as feridas de batalhas que evitei. Meu corpo muscular está moído do esforço que nem pensei em fazer.
Baço, mudo, nulo… “

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Desenho de Vincent van Gogh, pintor holandês (1853-90)

30 maio, 2017

"As máscaras do destino" - Florbela Espanca


Os mortos são na vida os nossos vivos, andam pelos nossos passos, trazemo-los ao colo pela vida fora e só morrem connosco. Mas eu não queria, não queria que o meu morto morresse comigo, não queria! E escrevi estas páginas…
É de contos este livro de Florbela Espanca, publicado postumamente em 1931, um ano após o suicídio da poetisa.
Contos que ela escreveu em homenagem ao irmão Apeles Espanca, falecido tragicamente em 1927, quando o avião que pilotava se despenhou nas águas do Tejo.
Agustina Bessa-Luís assina o excelente Prefácio: “A vida de Florbela não foi longa. Mas pode dizer-se que é breve uma vida infeliz, em que os minutos são desertos de agrado pelo mundo? Todos os contos de Florbela descrevem esse deserto moroso, onde sopra um vento açulador e triste… Florbela foi infeliz com razões para a felicidade.”
Segue-se a dedicatória ao irmão: “Este livro é dum Morto, este livro é do meu Morto. Que os vivos passem adiante…”
E depois, alinham-se oito pequenos, belos, tristes, estranhos contos, feitos de palavras choradas por uma mulher frágil, devastada de dor e saudade, incapaz de lidar com a perda do irmão amado. 
O Aviador
"O que anda sobre o rio? Outra gaivota? Outra vela?
É um homem que tem asas! (…) O homem está contente. Atira as asas mais ao alto, escalando os cimos infinitos, já fora do mundo, na sensação maravilhosa e embriagadora de um ser que se ultrapassa! Sente-se um deus! As mãos desenclavinham-se, desprendem-se-lhe da terra onde as tem presas um derradeiro fio de oiro… e cai na eternidade…”
A Morta
“Todas as tardes, à hora em que o crepúsculo, todo vestido de glicínias, descia com a doçura dumas pálpebras que se fechassem (…) a mão do noivo empurrava a porta do jazigo. (…)
O vivo e a morta falavam, e o que eles diziam não o podem entender os vivos nem talvez mesmo os ouros mortos (…)
Mas, uma tarde, a Morta esperou em vão, e esperou outra e outra e outra ainda em infindáveis horas de infindáveis tardes. (…)
Foi então que uma noite mais cega ainda que as outras todas (…) ela ergueu os braços, levantou brandamente a tampa do caixão, e desceu devagarinho… foi então que ela puxou para si a porta do jazigo que dava para a noite.
E a Morta lá foi pela soturna avenida, no seu passo, de manto a roçagar. Empurrou a porta apenas encostada – para que se há-de fechar a porta aos mortos? – e saiu… e na cidade adormecida foi uma flor de milagre que os vivos sentiram desabrochar.”
Os Mortos não voltam
“… os mortos não voltam e é melhor que assim seja… Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?”
O resto é perfume
A paixão de Manuel Garcia
O Inventor
As Orações de Soror Maria da Pureza
“Mariazinha lembrava-se muito bem. Todas as noites daquele ano em que não houvera Inverno, o namorado, encostado às grades, rezara a litania da sua puríssima paixão.
Mas um dia vieram dizer-lhe que ele tinha morrido. Morreu… pronto! Morreu. Foi só isso, Mariazinha. (…) Mariazinha não percebeu nem tão-pouco disse nada. Encerrada em si mesma como um cofre selado, foi um túmulo fechado e mudo, onde as revoltas e os gritos, as censuras e as carícias iam despedaçar-se em vão. (…) Passaram dias, meses, passaram dois anos (…) continuava a ir à grade onde fiava horas e horas a sorrir, de olhos baixo, com as mãos a tremer, num enleio de amor que não era deste mundo.”
O Sobrenatural

Comprei este livro em 1982. Li-o, guardei-o, emprestei-o, dei-o por perdido e agora recuperei-o.
Apesar de me ser entregue com a maioria das folhas soltas, relê-lo foi estupendo!
As palavras são túmulos…
… mas não nos tiram o sono.
Acreditem!

As máscaras do destino, de Florbela Espanca
Bertrand, 1981
181 págs.

28 maio, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Cada vez mais se ouve pais hesitantes do seu papel que perguntam se a tarefa que lhes cabe é a de serem pais para os seus filhos ou simplesmente grandes amigos. Tornarem-se amigos dos filhos, vencendo a distância simbólica que a parentalidade estabelece, aparece hoje a mães e a pais como uma solução tentadora que os colocaria melhor na órbita existencial dos filhos, cúmplices das etapas que estes percorrem, confidentes privilegiados das suas vivências e, desse modo, com maior capacidade de influenciar e de intervir. Será verdade? (…)
Os pais precisam aceitar que cada filho é uma vida distinta e autónoma, ao mesmo tempo gerada por eles e inacessível, à maneira de um segredo que protegem mas cujo conteúdo está destinado a escapar-lhes. (…)
A tarefa da vida dos filhos é fazerem-se criativos herdeiros de um dom recebido que também eles não entendem até ao fim ou não entendem logo. Ora, ser herdeiro não significa apenas receber a parte de bens que lhe corresponde, mas construir em diálogo com essa vida recebida uma identidade original. (…)
Mas uma função inalienável dos pais é recordar que a vida humana é fundada em limites e sinalizá-los. Precisamente o contrário da promessa consumista das nossas sociedades, onde tudo aparece pronto para ser adquirido, devorado e esquecido.”

Excerto da crónica “Pais ou amigos dos filhos?”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 27 Maio 2017
Vale a pena ler na íntegra.

Pintura “A sagrada família do passarinho”, do espanhol  Bartolomé Murillo (1617-82)

23 maio, 2017

Escuta, Zé Ninguém!


O grande homem é aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la.
Pensas sempre a curto prazo, Zé Ninguém, o teu tempo medeia de uma refeição a outra. Terás de aprender a memória em termos de séculos, e a perspectiva do futuro em termos de milénios. Terás de aprendê-la em termos da verdadeira vida, em termos do teu desenvolvimento desde o primeiro foco plasmático até ao animal humano, capaz de caminhar erecto, mas incapaz ainda de pensar com justeza. Porque a tua memória não retém acontecimentos de há dez ou vinte anos, continuas repetindo as mesmas asneiras de há dois milénios. E mais ainda: agarras-te a elas – à tua «raça», «classe», «nação», aos teus ritos religiosos compulsivos, à supressão do amor, como um piolho se aferra à pele. Nem te atreves a ver até que ponto te encontras atolado na tua miséria. De vez em quando, deitas a cabeça de fora e berras «Viva!» O coaxar de uma rã no charco tem pelo menos mais sentido. (…)
Quando saberás viver a tua vida em paz e segurança; a resposta consiste no inverso da tua forma de ser actual: viverás bem e em paz quando a vida significar para ti mais do que a segurança; o amor mais do que o dinheiro; a tua liberdade mais do que as linhas directivas do partido ou a opinião pública; quando o modo de estar no mundo de um Beethoven ou de um Bach for o tom habitual de toda a tua existência. (…)
Troca as tuas ilusões por um pouco de verdade.
Protege o amor das crianças de tenra idade dos ataques de adultos lascivos e frustrados.
Não tentes ser mais explorador que quem tenta explorar-te.
Não tentes melhorar a natureza mas antes entendê-la.
Procura pensar correctamente, ouve a tua voz interior e o seu murmúrio brando. Tens a vida nas tuas mãos. Sê tu próprio.
E não consintas que o sofrimento te torne duro e amargo.”

Tirei daqui: Escuta, Zé Ninguém!” (1945), de Wilhelm Reich (1897-1957), médico psicanalista e cientista austro-húngaro, pensador inconformista e autenticamente progressista, discípulo dissidente de Sigmund Freud.

Pintura "Cabeça", do pintor russo Pavel Filonov (1883-1941)

20 maio, 2017

Recordando... Florbela Espanca


A MINHA TRAGÉDIA
Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil, mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

“Não sou má, mas também não sou boa”, Florbela Espanca (1894-1930)

16 maio, 2017

"Lavoura arcaica" - Raduan Nassar

Sinopse: A crescer numa pequena fazenda no Brasil, o jovem André ama a terra e desafia os sermões do pai em virtude dos sentimentos pela irmã Ana. Dividido entre o afecto desmedido da mãe e a severa autoridade do pai, André tem de escolher entre cumprir o destino do filho pródigo ou ser a ovelha tresmalhada. Confrontado entre o corpo e a alma, entre o dever filial e a liberdade, a única saída é deixar a casa da família.
… o amor na família pode não ter a grandeza que se imagina…
Lavoura arcaica” é uma belíssima e comovente história de família.
Retrato íntimo, duro e dramático  do quotidiano entre as quatro paredes do lar, onde não falta afecto, amor, sofrimento, revolta, silêncios, confissões impossíveis, revelações incómodas.
A família é a do jovem André, o filho arredio, acometido, revoltado, tresmalhado; revoltado com a agressividade, austeridade e excessiva disciplina do progenitor; enfastiado das homilias contra as tentações e dos sermões do pai à cabeceira da mesa.
"Meu pai sempre dizia que o sofrimento melhora o homem, desenvolvendo o seu espírito e aprimorando a sua sensibilidade; ele dava a entender que quanto maior fosse a dor tanto ainda o sofrimento cumpria sua função mais nobre; ele parecia acreditar que a resistência de um homem era inesgotável; que o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio; é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há de cruzar os braços quando existe o irmão para socorrer."
André deixa a casa da família (1ª parte do romance) para conhecer mundo. No coração leva o afecto desmedido da mãe e o amor -milagre que viveu com Ana.
Ana, me escute, é só o que te peço (…) foi um milagre o que aconteceu entre nós, querida irmã; foi um milagre descobrirmos acima de tudo que nos bastamos dentro dos limites da nossa própria casa, confirmando a palavra do pai de que a felicidade só pode ser encontrada no seio da família.”
André acabou por ser encontrado por Pedro, o irmão mais velho, e convencido a voltar para junto da família. A "ovelha tresmalhada" retorna a casa (2ª parte do romance) para confrontar o pai.
"- Ninguém vive só de semear, pai.
- Claro que não, meu filho; se outros hão de colher do que semeamos hoje, estamos colhendo por outro lado do que semearam antes de nós. É assim que o mundo caminha, é esta a corrente da vida.
- Isso já não me encanta, sei hoje do que é capaz esta corrente; os que semeiam e não colhem, colhem contudo do que não plantaram; deste legado, pai, não tive o meu bocado. Por que empurrar o mundo para a frente? Se já tenho as mãos atadas, não vou por minha iniciativa atar meus pés também; por isso, pouco me importa o rumo que os ventos tomem…
- É muito estranho o que estou ouvindo.
- Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo;"
(pobre família nossa, prisioneira de fantasmas tão consistentes!)

É triste o fim desta assombrosa história. Mas sobre isso, nada desvendo.
Lavoura arcaica” - a parábola do filho pródigo, invertida - não é para ser contada, mas lida.
Se ainda não conhece, corra a uma livraria, procure, compre, leia.
Eu, li-o de uma assentada, cativa da inteligência e sensibilidade da linguagem do escritor. Nem os enormes parágrafos derramados em duas, três, quatro páginas seguidas me fizeram desistir desta fascinante e bem contada história.  Acreditem, penetrar na intimidade da família do André foi uma experiência inesquecível.

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar
Companhia das Letras, 2016
175 págs.
Raduan Nassar, filho de emigrantes libaneses, nasceu em 1935 em Pindorama, no interior do estado de S. Paulo, Brasil.
Estudou  Direito e Filosofia.
Nos anos sessenta escreveu o seu primeiro conto "Menina a Caminho"; viajou pelo Canadá e Estados Unidos. Regressou ao Brasil em 1962 e terminou o curso de Filosofia. Dois anos depois viajou para a Alemanha, onde estudou alemão. Visitou a aldeia dos pais, no Líbano.
Nos anos setenta publicou três livros: o romance "Lavoura Arcaica" (1975), a novela “Um copo de cólera" (1978) e o livro de contos "Menina a caminho" (1997).
Visitou Portugal em 1974, pouco após a revolução de Abril.
Nos anos oitenta, já com algum sucesso editorial no Brasil e no estrangeiro, abandonou a literatura e retirou-se para a sua fazenda, para se dedicar à criação de galinhas e coelhos.
Em 2011 distribuiu as terras pelos seus funcionários, doou a fazenda à Universidade Federal de S. Carlos e foi morar para S. Paulo.
Em 2016, foi-lhe atribuído, por unanimidade, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário destinado a autores de língua portuguesa.

09 maio, 2017

Que é viajar, e para que serve viajar?


Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.

As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava é a que percorro e é minha.

Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo.
Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar. (…)

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.”.

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
(foto da net)

07 maio, 2017

Canção para minha Mãe - Miguel Torga


Canção Para Minha Mãe

E sem um gesto, sem um não, partias!
Assim a luz eterna se extinguia!
Sem um adeus, sequer, te despedias,
Atraiçoando a fé que nos unia!

Terra lavrada e quente,
Regaço de um poeta criador,
Ias-te embora antes do sol poente,
Triste como semente em calor!

Ias, resignada, apodrecer
À sombra das roseiras outonais!
Cor da alegria, cântico a nascer,
Trocavas por ciprestes pinheirais.

Mas eu vim, deusa desenganada!
Vim com este condão que tu conheces,
E toquei essa carne macerada
Da vida palpitantes que mereces!

Porque tu és a Mãe!
Partiste um dia aos gritos e aos arrancos,
E partirás ainda pelo tempo além,
Mesmo sem madre e de cabelos brancos!

És e serás a faia que balança ao vento
E não quebra nem cede!
Se te pediu a paz do esquecimento,
Também a força de lutar te pede!

Respira pois, seiva da duração,
Nos meus pulmões até, se te cansaste;
Mas que eu sinta bater o coração
No peito onde em menino me embalaste.

Poema de Miguel Torga, Portugal (1907-95)
Pintura da romena Anca Bulgaru.

05 maio, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Como chegamos a ser o que somos? Por um trabalho longo e paciente, que decorre entre muita incerteza. (...)

«Estás a ouvir? Perguntou o principezinho. – Acordámos o poço e ele pôs-se a cantar…». Não se espera que existam poços num deserto. O pequeno herói de Saint-Exupéry garante, porém, que «o que torna belo um deserto é que ele esconde um poço em algum lugar». Resmungamos com a vida. Falta-lhe alguma coisa, nunca nada é perfeito, nada está acabado ou resolvido. É como se estivéssemos a jogar um jogo insolúvel: se temos o poço, falta-nos a corda; se temos a corda, falta-nos o balde; se temos a corda, o balde e o poço, falta-nos a força de ir até ao fundo da nascente buscar a água que nos dessedente. «O Principezinho» declara que não nos falta nada. Cada um de nós tem tudo o que precisa para experimentar a alegria. Não é um problema de conhecimento, é uma questão de olhar. Olharmos para o que somos e para o que nos rodeia com o coração simples, capaz de perceber o dom que nos habita. Pois, se encostarmos o ouvido até mesmo junto das nossas maiores derrotas compreenderemos que a nossa vida canta!”

Excerto da crónica “Do bom uso do fracasso”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 29 Abril 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Pintura de Salvador Dali , pintor espanhol (1904-89)