12 dezembro, 2017

"Em viagem pela Europa de Leste" - Gabriel García Márquez

…é pelo menos desconcertante que no mundo novo, em pleno centro da revolução, todas as coisas pareçam antiquadas, bafientas, decrépitas.
Em Viagem pela Europa de Leste“ é a crónica testemunhal da viagem que Gabriel García Márquez realizou pelos países do enclave comunista, nos anos 50, acompanhado da francesa Jacqueline, paginadora numa revista de Paris, e do italiano Franco, correspondente ocasional de revistas milanesas.
Frankfurt, 18 de Junho, dez da manhã - Franco tinha comprado para o verão um automóvel francês e não sabia o que fazer com ele, de maneira que nos propôs «ir ver o que há atrás da “cortina de ferro”». Ao entardecer do mesmo dia, um garboso militar alemão examina os três passaportes e de imediato autoriza que atravessem a zona de ninguém, os 800 metros em branco que separam os dois mundos. Já na fronteira as coisas complicam-se. Um jovem soldado russo, armado de pistola-metralhadora, enfiado num uniforme pobre e sujo e grande demais, faz-lhes sinal para pararem antes da barreira e esperarem pelo pessoal da alfandega, que jantava. Era noite escura quando a barreira foi levantada, eles passaram, mas logo voltaram a ser parados. Só depois da uma da manhã recebem autorização de entrada na Alemanha Oriental. Estavam exasperados, esfomeados e no limite da fadiga.
Primeiro mito a cair: a «Cortina de Ferro» não é uma cortina nem é de ferro. É uma barreira de pau pintada de vermelho e branco…
Primeiro contacto com o proletariado do mundo oriental: às oito da manhã, no restaurante de uma bomba de gasolina à beira da autoestrada, uma centena de homens e mulheres de rostos atormentados, maltrapilhos, a comer em abundância batatas e carne e ovos estrelados no meio de um surdo rumor humano e num salão cheio de fumo; era gente estragada, amargurada.
A viagem prossegue pela Checoslováquia "o único país socialista onde as pessoas não parecem sofrer de tensão nervosa e onde não se tem a impressão – falsa ou verdadeira – de se ser controlado pela polícia secreta"; pela Polónia "os polacos tentam continuar vivos com uma certa nobreza. Andam remendados, mas não rotos (…) conservam uma dignidade que infunde respeito. Varsóvia está cheia de livros (…) os polacos enchem com a leitura todos os vazios da vida); pela Hungria (esta gente está morta" e pela União Soviética,  "os soviéticos são um pouco histéricos quando expressam os seus sentimentos. Alegram-se com saltos de cossacos, despem a camisa para a oferecerem e lavam-se em lágrimas para se despedirem de um amigo. Em contrapartida, porém, são extraordinariamente cautelosos e discretos quando falam de política. Nesse terreno é inútil conversar com eles para encontrar algo de novo: as respostas estão publicadas. Não fazem outra coisa senão repetir os argumentos do Pravda".
Consegue Gabriel García Márquez "desvendar a verdadeira face do comunismo idealizado por Lenine: um regime kafkiano que quase não é questionado por um povo assustado que parece resignar-se ao seu destino"?
A resposta a esta pergunta e a muitas outras, encontram-se nas páginas desta crónica, que à época foi publicada em fascículos. Uma rigorosa análise de acontecimentos políticos e sociais irrepetíveis, aclarada pelo olhar desassombrado do escritor/jornalista perante a pobreza extrema, a resignação, a desmotivação, a tristeza, a simplicidade, a bondade, a franqueza das pessoas que andavam pela rua de sapatos rotos…
Leia!

(Em 1990 visitei Praga e Budapeste. Eram cidades tranquilas, ricas em beleza natural e arquitectónica, mas esvaziadas de luz e impreparadas para receber turistas. A pobreza era visível e chocante principalmente na população triste, amargurada e silenciosa que ignorava/desprezava os estrangeiros. Eram poucos os carros que circulavam nas largas avenidas. Eram menos as pessoas que calcorreavam as ruas. As lojas estavam abertas, mas vazias de artigos. Os turistas eram instalados em enormes hotéis de 5 estrelas, de visual antiquado. Como estarão agora estas cidades encantadoras? Gostava de lá voltar!
Em Agosto de 2017 visitei a Alemanha. Que país fascinante! Em breve postarei fotos no meu blogue "fugas reveladas".)


Em viagem pela Europa de Leste, de Gabriel García Márquez
Tradução de J. Teixeira de Aguilar
Ed. D. Quixote, 2017
190 págs.

09 dezembro, 2017

"Olá, tapete!"


“(… ) as folhas todas juntas são um grandioso espetáculo.
São uma imensa população que se despede em festa, riscando ao acaso, com lápis de cor, o uniforme do chão. Não fazem ruído quando tombam, quando se sobrepõem em camadas, quando se apresentam solitárias, quando os nossos pés as condenam, quando se estilhaçam por si e se dispersam, quando se fundem com a terra a ponto de não as distinguirmos. Nestas semanas de outono são um cinema que não encerra: exibem em contínuo o amarelo, o ocre, o verde-barro, o verde mate, o azeitona vítreo, o avermelhado, o laranja, o pontilhado negro. E estão sempre a chegar. Basta um sopro de vento e, imediatamente, centenas delas se soltam no ar, numa dança inventiva, rodopiada e lenta; numa incrível chuva de ouro; numa música silenciosa que desce. Se calha atravessarmos um jardim, esta visão ganha a magistral precisão de uma coreografia. Contudo, ela também é bela de seguir no imprevisto de uma rua que se dobra ou surpreendida de uma janela, numa daqueles momentos em que coincide erguermos os olhos e esse presente nos é oferecido.

As crianças, neste assunto de folhas, sabem mais do que nós. Lembro-me de ter perguntado a uma miúda dos seus quatro anos se já tinha reparado no tapete maravilhoso que as folhas nos oferecem. Ela ouviu-me interessada. Eu expliquei-lhe como aquele era um tapete fofo, como as corresse divertiam a espalhar-se numa evidente brincadeira, como era bonito e precioso. Ela então largou a minha mão, deu um salto para o meio das folhas e disse alto, com aquela solenidade que se tem aos quatro anos de idade: “Olá, tapete!” Saudava assim com entusiasmo não só aquele fragmento do mundo que identificava, mas o inteiro outono ou mesmo a inteira vida. (...)"


Excerto da crónica “As folhas”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 8 Dezembro 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

05 dezembro, 2017

Poema de... Graça Pires


AS PALAVRAS PESAM

As palavras pesam.
Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afectivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.
De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.

Poema do livro “Poemas Escolhidos (1990-2011), da poetisa portuguesa Graça Pires (n.1946-), autora do blogue “Ortografia do olhar”, que recomendo aos amantes da verdadeira poesia.

Pintura “Transformative chapter”, acrílico em madeira, do artista vietnamita Duy Huynh.

02 dezembro, 2017

"O ruído do tempo" - Julian Barnes

A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. (…) A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo.
O ruído do tempo", que ficciona a vida e obra do compositor e pianista russo Dmitri Chostakovich (1906-1975), foca-se particularmente na complexa relação do poder Estalinista com o atormentado e perseguido compositor.
Julian Barnes divide a narrativa, carregada de ironia, em três partes e chama ao protagonista: Dmitri Dmitrievich.
Um: No Patamar
Um homem, como centenas de outros pela cidade, à espera, noite após noite, de ser preso.
Dmitri Dmitrievich, ainda há três dias um compositor e pianista de sucesso, sem temperamento nem vocação para a política, um homem convencional, tímido e ansioso, espera pela polícia política no patamar e assim evita que a mulher e o filho de um ano o vejam ser arrastado para fora de casa. Espera junto ao elevador, de pé, com uma pequena mala que contém cigarros, roupa interior e pó dentífrico. Espera, vazio de memórias e cheio de medo.
Dmitri vê pela primeira um teclado aos nove anos. O encantamento é imediato. Na sua primeira apresentação pública, ainda estudante de música, conhece aquele que virá a ser o seu amigo e patrono: o Marechal Tukkachevski.
Aos trinta anos, Dmitri é o maior compositor da União Soviética. Aclamado pelo Poder e pelo povo, é o orgulho da Pátria.
Cai em desgraça em Janeiro de 1936, quando Estaline abandona a meio do terceiro acto, visivelmente desagradado, uma apresentação da aclamada ópera Lady Macbeth de Mtsenk, no Teatro Bolshoi e dois dias depois o jornal Pravda arrasa o espectáculo com um texto anónimo intitulado “Chinfrim em vez de Música”, provavelmente escrito pelo próprio Estaline; o Poder passa a dar atenção à sua música e a ele próprio.
Seguem-se perseguições, ameaças, censura e conversas com o Poder. Na Primeira das três Conversas, na primavera de 1937, Dmitri é acusado de conspiração contra o camarada Estaline. Incrédulo e assustado pede ajuda ao amigo Marechal mas este não lhe pode valer pois é acusado de cabecinha da conspiração. Mas tarde acaba detido e fuzilado e Dmitri percebe que também a sua hora está perto.
Dois: No Avião
Medo: o que sabiam aqueles que o infligiam?
Em 1949 o compositor integra a delegação russa que nos Estados Unidos participa num congresso para a Paz Mundial. O seu nome é a estrela da delegação. Dmitri lê um discurso preparado pelo  Poder; critica e chama traidor ao amigo Stravinsky; responde com medo a perguntas; posa para fotografias. O êxito foi público e a humilhação... a maior da sua vida.
No voo de regresso, sente nojo e desprezo por si próprio.
Três: No carro
Em vez de o matarem, permitiram-lhe viver e, permitindo-lhe viver, mataram-no. Era a derradeira, irrefutável ironia da sua vida: permitindo-lhe viver, mataram-no.
Estaline morre, mas o compositor perseguido, dominado pelo medo, atormentado e derrotado, continua a afundar-se no desespero. Em 1960, durante a presidência de Krushchev e depois de aderir ao partido, sentado no carro conduzido por um motorista, interroga-se:
Lenine achava a música deprimente.
Estaline pensava que entendia e apreciava a música.
Krushchev desprezava a música.
O que é pior para um compositor?

Tudo ficou por dizer. Acredite!
Não é fácil ler (nem escrever sobre) este romance de Julian Barnes, uma reflexão inteligente sobre  a relação da arte com o poder. Mas é perfeito e eu recomendo-o.
Leia com tempo, sem ruído... vá lá, com um som musical muito suave...

O ruído do tempo, de Julian Barnes
Tradução de Helena Cardoso
Tradução de
Ed. Quetzal, 2016
197 págs.

01 dezembro, 2017

7º aniversário do "rol de leituras"


Perde-se a vida, a desejá-la tanto.
Verso de Miguel Torga, Portugal (1907-95)

Mais um ano que passou, mais um aniversário do meu rol de leituras.
Sem querer repetir-me, 2017 foi mais um ano complicado. Demasiado complicado, com coisas ruins a acontecerem ao mesmo tempo, ao longo de todo o ano.
De qualquer modo, deu para fazer o que mais gosto: ler e escrever.
Ler, li muito; já escrever, foi assim-assim. 
Pela primeira vez a pilha de livros lidos a aguardar espaço no meu rol é maior do que a pilha de livros novos à espera de serem folheados. Não foi por preguiça, foi sim por falta de motivação.
À porta está um novo ano. Que traga com ele ondas de mudança que me permitam entender as causas dessa falta de motivação. Que traga com ele mais entusiasmo, mais alegria, mais amor, mais vontade de entender, fazer, crer, viver.
Obrigada pelo carinho de todos os que passaram por aqui.
Por favor leiam, leiam, leiam!
Abraços.

Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.
Versos de Fernando Pessoa, Portugal (1888-1935)

Foto da net.

28 novembro, 2017

Estou de volta!


Hora a hora,
Nasce outra vez em mim a vida.
Devagar,
Como um gomo de vide a rebentar,
Cobre de verde a cepa ressequida.

É um fruto que acena?
É uma flor que há-de-ser?
- Fui eu que disse que valia a pena
Viver!

"Convalescença", poema de Miguel Torga, Portugal (1907-95)
The Murmur of the sea”, de Delphin Enjolras, pintor francês (1857-1945)


Estou de volta!!
Já sem a vesícula biliar (órgão responsável pelo armazenamento da bílis produzida pelo fígado) onde se "alojavam" várias pedrinhas (cálculos biliares) e um pedregulho de 3 cm, verdade, 3 cm, que há semanas atrás me provocaram dores terríveis na zona abdominal e costas, que me levaram ao hospital.
Exames para cá, exames para lá, o diagnóstico chegou: dores provocadas pela expulsão de pedras pequeninas; inflamação provocada pelo pedregulho.
Tratada a inflamação, avançámos para a colecistectomia (excisão cirúrgica da vesícula) por via laparoscópica. Tudo correu bem!

Sou grata por tudo. Grata pela preocupação e carinho de todos: família; amigos reais; amigos da blogosfera; conhecidos de bata branca, verde, azul.
Um beijo no coração de TODOS!

21 novembro, 2017

Vou ali e já volto!


Hoje,
Nem a vida me foge,
Nem eu fujo;
É não sei quê no sol
Que está sujo.
(Versos de Miguel Torga, Portugal (1907-95)


Vou ali e já volto!!
Esperam-me na sala de operações, para uma pequena intervenção cirúrgica. Coisa pouca.
Aguenta coração!

17 novembro, 2017

"Contos de ... Machado de Assis"


… o universo é um composto de maldades e invejas…
Comprei o meu primeiro livro de Machado de Assis numa banca no corredor dum pequeno Centro Comercial. Achei pouco e queria mais. Nada mais ali havia.
Por essa razão, comecei a ler o prestigiado escritor brasileiro pelo terceiro volume da colecção de seis volumes de contos, organizada por João Cezar de Castro Rocha, que revela um lado pouco explorado do génio de Machado de Assis e apresenta os contos agrupados cronológica e tematicamente:
Vol. 1 - Música e literatura
Vol. 2 - Adultério e crime
Vol. 3 - Filosofia
Vol. 4 - Dissimulação e vaidade
Vol. 5 - Política e escravidão
Vol. 6 - Desrazão
Machado de Assis e a filosofia
Na Introdução João Cezar de Castro Rocha esclarece que neste volume o leitor não encontrará alusões a hipotéticas filiações de Machado de Assis a este ou aquele filósofo (…) Machado de Assis não foi (e nunca almejou ser) filósofo (… ) põe em movimento uma forma especial de reflexão, um modo particular de compreender o mundo, irredutível a sistemas ou escolas.
Esclarecida, iniciei a leitura do primeiro conto “Uma excursão milagrosa” (publicado no Jornal das Famílias, em Abril e Maio de 1866), em cuja trama, Tito, vinte anos, poeta e infeliz, sem inspiração e sem dinheiro, conhece um sujeito rico, maníaco pela fama de poeta, que lhe faz uma proposta tentadora: compra-lhe por bom preço todos os versos, preferencialmente odes e poesias de sentimento, com a condição de ele os poder dar à estampa como obra sua. Tito pensou, pensou e um dia procurou-o disposto a aceitar o negócio. O sujeito, rindo-se com um riso diabólico, fez o primeiro adiantamento
Gostei do primeiro contos, avancei para os restantes dezoito contos. Destaco alguns:
- “O Sainete” (publicado em A Época, 1875), neste, o Dr. Maciel, vinte e cinco anos, foi atingido mesmo no centro do coração por uma “seta do deus alado” - ama a viúva Eulália, mas ela ignora-o, com calculada crueldade; mas só até descobir a paixão da amiga Fernanda pelo jovem médico. A viúva descobriu-lhe os méritos com os olhos de Fernanda; e bastou vê-lo preferido para que ela o preferisse. Se me miras, me miram
- “A Igreja do Diabo” (publicado em Gazeta de Notícias, 1883) - Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Mais, decide comunicar a Deus a sua ideia.
Deus, adverte-o:
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires.
Humilhado, o Diabo insiste:
- Sim, sou o Diabo (...) não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio génio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso…
- “Evolução” (publicado em Gazeta de Notícias, 1884), tem este extraordinário início:
CHAMO-ME INÁCIO; ELE, BENEDITO. Não digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Inácio basta. Contentem-se com Benedito. Não é muito, mas é alguma coisa, e está com a filosofia de Julieta: “Que valem os nomes? Perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá sempre o mesmo cheiro”. Vamos ao cheiro do Benedito...
"O Imortal" (publicado em A Estação, 1882) Meu pai sabia uma infinidade de coisas: filosofia, jurisprudência, teologia, arqueologia, química, física, matemática, astronomia, botânica, sabia arquitectura, pintura, música. Sabia o diabo...

Gostei bastante destes contos filosóficos”. Tanto que vou procurar os restantes volume da colecção. (Não fosse eu louquinha por contos...)
São histórias simples, lindas, comoventes, para ler e reflectir sobre a filosofia do tempo e o mistério da vida. 
Recomendo!


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) nasceu no Rio de Janeiro, em pleno Período Regencial.
Filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira (ambos sabiam ler e escrever), Machado de Assis não frequentou a universidade mas sempre mostrou um profundo interesse pelas letras.
Ganhou a confiança do Padre Silveira Sarmento, que viria a ser seu amigo, mentor espiritual e professor de latim.
Machado de Assis fez parte do grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, e foi seu primeiro presidente.
É um dos nomes maiores da literatura brasileira. Deixou uma extensa obra como romancista, cronista, poeta, dramaturgo, jornalista, critico literário, comentador e relator dos eventos político-sociais da sua época. Obra onde expôs a visão do mundo que o mantém lembrado e celebrizado.

14 novembro, 2017

Se um dia eu pudesse...


Se um dia eu pudesse adquirir um rasgo tão grande de expressão, que concentrasse toda a arte em mim, escreveria uma apoteose ao sono. Não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
"Daphne", de  Frederic Leighton, pintor e escultor inglês (1830-96)

10 novembro, 2017

Poemas de... Pablo Neruda


MINHA ALMA
Minha alma é um carrossel vazio no crepúsculo.


ÁGUA ADORMECIDA
Quero atirar-me à água para cair no céu.


Poemas de Pablo Neruda, poeta chileno (1904-73), in "Crepusculário", 1923
Fotos de António Gomes, autor do blogue "Existe sempre um lugar".

07 novembro, 2017

"Crepusculário" - Pablo Neruda


AMOR
Mulher, teria sido teu filho, para beber-te
o leite dos seios como de um manancial,
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te
no riso de ouro e na voz de cristal.

Para sentir-te nas veias como Deus num rio
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal,
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse
e saísse na estrofe- limpo de todo o mal -.

Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém!
Morrer e todavia
amar-te mais.
E todavia
amar-te mais
                    e mais.
Pablo Neruda (pseudónimo de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto) é um dos grandes poetas da língua castelhana do século XX, e um dos mais lidos em todo o mundo.
Nasceu em Parral, Chile, em 1904.
Em 1923 publicou o primeiro livro "Crepusculário", com poemas escritos no período em que estudava pedagogia e francês na Universidade de Santiago. São poemas nostálgicos, de uma beleza estranha, sobre a vida, a mulher, o amor, a natureza. Revelava-se o poeta chileno da "voz original", o humanista, o poeta do amor.
O livro seguinte “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”(1924), consagrou-o como poeta universal.
Em 1927 iniciou uma longa carreira diplomática.
Marxista e revolucionário, defensor dos movimentos libertários, em 1945 ingressou no Partido Comunista do Chile.
Em 1945 recebeu o Prémio Nacional de Literatura do Chile; em 1953 o Prémio Lenine da Paz; e em 1971 o Prémio Nobel da Literatura.
Faleceu em Santiago, Chile, em 1973, vítima de cancro na próstata, diz a certidão de óbito. 
Em 2011 o Partido Comunista chileno exigiu em tribunal que a morte do poeta fosse investigada. Dois anos depois o corpo foi exumado e a equipa internacional de investigadores apurou que não foi o cancro que o matou. Doença ou assassínio, o mistério continua.
O filme “O Carteiro de Pablo Neruda” (Pablo Larraín, 1994) aborda aspectos da vida do poeta no final da década de 40. Se ainda não viu (duvido!!), veja. É belíssimo!

Não resisto a partilhar três versos do último poema do livro:

FINAL
...
Dizei-me, amigos, onde
esconder o silêncio, para que nunca mais outros
o sintam com os ouvidos e com os olhos.
...

31 outubro, 2017

SAPIENS - História Breve da Humanidade - Yuval Noah Harari

Três importantes revoluções moldaram o curso da história: a Revolução Cognitiva deu-lhe início há cerca de 70 000 anos. A Revolução Agrícola acelerou-a há cerca de 12 000 anos. E a Revolução Industrial, iniciada há apenas 500 anos, pode muito bem pôr fim à história e dar início a algo diferente. Este livro conta como estas três revoluções afetaram os seres humanos e os restantes organismos.
“A superfície do nosso planeta mede cerca de 510 000 milhões de quilómetros quadrados, dos quais 155 são terra. Mesmo em 1400 d.C., a grande maioria dos agricultores, juntamente com as suas plantas e animais, aglomerava-se numa área de apenas 11 milhões de quilómetros quadrados: dois por cento da área do planeta. A restante superfície era demasiado fria, demasiado quente, demasiado seca, demasiado húmida ou, por qualquer razão, inadequada ao cultivo. Estes minúsculos dois por cento da superfície terrestre constituíram o palco onde se desenrolou a história da humanidade.”

É assim, numa linguagem cativante, acessível a todos, que Noah Harari expõe a sua perspectiva original e inteligente sobre a evolução humana. Aqui e ali, a inclusão de mapas, fotos, esquemas e desenhos, torna a leitura mais  informativa e apaixonante.

"Há 70 000 anos, o Homo Sapiens ainda era uma animal insignificante que fazia a sua vida num canto de África. Nos milénios que se seguiram, transformou-se no senhor do mundo inteiro e num dos flagelos do ecossistema. Hoje, está prestes a tornar-se num deus, preparado para adquirir são só a juventude eterna como também as capacidades divinas da criação e da destruição. (…)
Avançámos das canoas para as caravelas, para barcos a vapor, para vaivéns espaciais - mas ninguém sabe para onde vamos. Estamos mais poderosos do que alguma vez estivemos, mas não fazemos ideia do que fazer com esse poder. Mas pior ainda é que os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca." 
Existirá algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?

Esta História Breve da Humanidade, escrita por um competente historiador, investigador e professor de História do Mundo, na Universidade Hebraica de Jerusalém, surpreende, prende, ensina.
É um livro para aprender e aprender.
Quando se lê, entende e aprende, é muito gratificante!

Sempre que uma amiga especial nos aconselha determinado livro, não hesitemos… 
Obrigada!

SAPIENS” – Historia Breve da Humanidade, de Yuval Noah Harari
Tradução de Rita Carvalho e Guerra
ELSINORE,20/20 Editora, 2017
504 págs.

24 outubro, 2017

Poema de... José Régio


IMPROVISO CORRIGIDO
Se minto? Quantas vezes!
Mas em palavras. Não
Nos meus olhos castanhos portugueses,
Nestas linhas atávicas da mão…
Se minto?... Minto, pois!
Mas nas orais palavras que vos digo,
Não nas que entoo a sós comigo,
E em que enfim deixo de ser dois.
Não nas que entrego a músicas, miragens,
Alegorias, fábulas, mentiras,
Cadências, símbolos, imagens,
Ecos da minha e mil milhões de liras.
Se minto?... Minto! É regra de viver.
Mas não quando, poeta, me desnudo,
E a mim me visto de inocência, e a tudo.
Venha quem saiba ver!
Venha quem saiba ler!



Retirei este poema do livro "Cântico negro", colectânea da poesia de José Régio.
O belíssimo poema com o mesmo nome foi postado no roldeleituras , em Maio de 2015.

José Régio, poeta português (1901-69)
Foto da net.

17 outubro, 2017

Quando se trata de pedir favores a familiares...


Quando se trata de pedir favores a familiares sou tomado de um pudor paralisante. A família é uma empresa complicada de hierarquias confusas, obediências, silêncios, recriminações. Esforço-me por manter as relações no plano da cortesia ou da intimidade mais intuída do que praticada. No fundo, gosto de estar em família por períodos breves. Estas aproximações – para esclarecer uma dúvida, pedir um carro para as mudanças ou uma toalha de mesa para o Natal – causam-me um certo desconforto. Prefiro deixar a família a pairar com a sua autoridade tácita, lá bem no alto, onde pouco interfere com o meu quotidiano. Cada qual na sua casa segundo os seus ritmos: isso é que está certo.”


Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Hoje estarás comigo no paraíso”, Ed. Quetzal, 2017
Foto da net.

13 outubro, 2017

"Nação crioula" - José Eduardo Agualusa

A vida de um escravo é uma casa com muitas janelas e nenhuma porta. A vida de um homem livre é uma casa com muitas portas e nenhuma janela.
Finalmente li José Eduardo Agualusa!
E comecei bem, “Nação crioula” (1997) é um romance inteligente, comovente, e bem escrito.
Conta, com humor e sensibilidade, a intensa, secreta (divulgar é sempre profanar) e atribulada história de amor de Carlos Fradique Mendes (aventureiro português) e Ana Olímpia Vaz de Caminha (jovem angolana nascida escrava, viúva do abastado Victorino Vaz de Caminha, bela, inteligente, rica, poderosa e respeitada), ao mesmo tempo que aborda temáticas sérias: Portugal nos finais do século XIX; a sociedade colonial angolana e brasileira; o tráfico negreiro; o movimento abolicionista.
O autor foi buscar o protagonista ao livro de Eça de Queirós ”Correspondência de Fradique Mendes” (1900), uma compilação de cartas trocadas entre Eça e o amigo-ficcionado Fradique.
“Nação crioula” também é um entrelaçado de cartas. Vinte e seis. Poucas recebidas por Fradique Mendes, muitas enviadas por ele para madame de Jouarre (a madrinha); Ana Olímpia (a amada); José Maria (o amigo Eça). Cartas escritas entre 1868 e 1900, Luanda, Lisboa, Rio de Janeiro e Paris.
A primeira, de Maio de 1868, começa assim:
"Minha querida madrinha,
Desembarquei ontem em Luanda às costas de dois marinheiros cabindanos. Atirado para a praia, molhado e humilhado, logo ali me assaltou um sentimento inquietante de que havia deixado para trás o próprio mundo…"
Nos anos seguintes, Fradique Mendes diverte-se, trata de negócios, viaja, "namora" a mulher amada. 
Em outubro de 1876, Ana Olímpia é de novo escrava, propriedade de familiares do marido falecido. Depois de muitas peripécias Fradique consegue libertá-la e foge com ela para o Brasil no “Nação Crioula” (...) provavelmente o último navio negreiro da História.
Em Junho de 1877 Fradique Mendes escreve a Eça e Queirós:
"Meu querido José Maria?
Estou agora no Rio de Janeiro, e embarco segunda-feira para Lisboa, onde tenciono permanecer um mês ou dois antes de seguir para Paris e depois para Londres. Os motivos desta minha peregrinação, sendo os óbvios (tenho negócios a tratar e amigos a rever), são também outros e menos públicos: liguei-me recentemente a uma sociedade secreta, antiescravista (chamamos-lhe a Sociedade do Cupim!), e parto com o objectivo de recolher apoios para esta causa entre os governos e instituições da velha Europa…"
Em Outubro de 1878, comunica à madrinha que é pai:
"Quem lhe escreve esta carta não é mais o ocioso e irresponsável aventureiro que V. viu crescer, vestindo-se nos melhores alfaiates de Paris para ocultar a miserável nudez da alma, sentindo o mundo com sentimentos alheios, e cujo único projecto de vida era, simplesmente, deixar-se viver. Sou outro! Sou, desde há dois meses, pai de uma belíssima menina…"
Fradique Mendes morre em Paris, no inverno de 1988. Em Outubro ainda escreve ao amigo José Maria (penúltima carta do livro):
"O que é que nós colonizámos? O Brasil, dir-me-ás tu. Nem isso. Colonizámos o Brasil com os escravos que fomos buscar a África. Fizemos filhos com eles, e depois o Brasil colonizou-se a si próprio. Ao longo de quatro demorados séculos construímos um império, vastíssimo, é certo, mas infelizmente imaginário…"
A vigésima-sexta carta, de Agosto de 1900, é de Ana Olímpia para Eça de Queirós. É uma carta de desabafo que acompanha a correspondência de Fradique Mendes pedida pelo escritor para publicação em livro, “uma forma de homenagear o português mais interessante do século XIX”. Nesse mesmo ano, o livro chega (mesmo) às livrarias…

Se quer saber mais sobre os dois livros… vai ter de os ler. Este, recomendo-o aos que gostam de romance, aventura, histórias do quotidiano colonial português (o de Luanda é tragicamente hilariante), História.
Eu vou continuar a ler Agualusa. Isso é ponto assente.
Despeço-me, que se faz tarde…

Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa
Ed. Quetzal, 2017
165 págs.

10 outubro, 2017

Kazuo Ishiguro - Prémio Nobel da Literatura, 2017


Finalmente, a Academia Sueca acertou na atribuição do Nobel da Literatura ao premiar este ano um verdadeiro escritor, no caso, um romancista brilhante.
Isto porque nos últimos anos a “coisa” não tem sido famosa…
Kazuo Ihiguro, nascido em Nagasáqui em 1954 e a viver em Inglaterra desde 1960, é merecedor do prémio, sem quaisquer dúvidas.
A sua obra, não sendo vasta é poderosa: romances; contos; guiões para televisão; letras para canções.
Foco-me nos romances, sete, todos editados em Portugal:
- “As colinas de Nagasáqui”, 1982.
- “Um artista do mundo transitório”, 1986.
- “Os despojos do dia”, 1989 (adaptado ao cinema em 1993, por James Ivory). 
- “Os inconsolados”, 1995. 
- “Quando éramos órfãos”, 2000. 
- “Nunca me deixes”, 2005 (adaptado ao cinema em 2010, por Mark Romanek).
- “O gigante enterrado”, 2015
Dos sete romances eu já li quatro.
Desses quatro postei dois.
Então, se quiser postá-los a todos vou ter de reler dois, e ler três.
Contabilidade feita, vou “correr” as livrarias à procura dos romances que me faltam, antes que esgotem. Habitual após a atribuição do Nobel.
Pensando melhor, vou deixar a poeira assentar… nos próximos meses as livrarias vão abarrotar de livros do músico rejeitado na adolescência pelas editoras, agora romancista galardoado com o prémio maior da Literatura. Merecido!
As vossas vidas estão traçadas, escreveu Kazuo no romance “Nunca me deixes”. A vida dele estava, oh se estava!
Recomendo a todos que leiam Kazuo Ishiguro, um assombroso contador de histórias estranhas, sensíveis, belíssimas.

Eu, uma vez mais “chorei baba e ranho” (brincadeirinha!!) por não ver premiado o meu escritor preferido: Philip Roth.
Roth, repito o pedido do ano passado: não morras, please!

03 outubro, 2017

Para uma amiga especial...



Não importa se a estação do ano muda...
Se o século vira, se o milénio é outro.
Se a idade aumenta...

Conserva a vontade de viver,
Não se chega a parte alguma sem ela.


(Versos de Fernando Pessoa)

Foto da net

29 setembro, 2017

" A violação do amor" - Manuel de Sousa Falcão


A violação do amor” (Editora Propagare, 2016), da autoria de Manuel de Sousa Falcão, reúne mais de 100 poemas - “textos confessionais”, diz o poeta - escritos entre 2009 e 2016.
São poemas para ler devagar, pensar, reflectir e compartilhar com aqueles que amamos, ou gostamos.
Reproduzo dois dos meus favoritos.

Fico a aguardar o próximo livro, senhor professor, poeta, pintor.
Sucesso!

SORRI
Sorri
Mesmo que não te apeteça
Conversa sem que te meça
Fala da pele e nunca mais do que isso
Diz de ti apenas a superfície
Diz de texturas e não
De ligaduras de nervuras de vidas duras
De doenças sem curas.
Esconde-te cobre-te recolhe-te
É que cansei-me de ti
Algum dia o passado irrompeu
E és o que eras
Não te salvei não te mudei
Como o Paraíso por perdido
Deu lugar ao Vale de Lágrimas
E tarda a redenção
Ou não vem
Eu não quero morar aqui
Por tudo o que vi o que vivi o que senti

A NOITE
Uma noite
Faço o mesmo percurso
Do mesmo modo
A ouvir os passos
Escutar (esses) ruídos
Da hora tardia
E entrando em mim, 
Compreendendo-me.
Não me desculpo
Talvez chore
(Alguma memória
Chamará um
Sorriso breve
Uma saudade breve)
O mesmo percurso
O cansaço extremo,
Impede-me de pensar o
Regresso.

26 setembro, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


Há um provérbio norte-americano que diz «Ser velho não é divertido». É uma verdade. Ser velho é ter de começar do zero a qualquer momento, e fazê-lo muitas vezes, constrangido a reaprender coisas básicas que inclusive se ensinaram aos outros a vida toda. Coisas simples (e inacreditavelmente complexas como andar, organizar o seu espaço, cuidar da alimentação, sair de casa, comunicar. Um dia acorda-se e nada disse é óbvio como antes era. Ser velho é fazer o que se fazia, mas muito mais devagar, segmentando por etapas, doseando o esforço desmesurado que atividades mínimas agora obrigam. Ser velho é desistir muitas vezes, tombando de uma angústia que as palavras já não exprimem; é as lágrimas correrem dos olhos, não por pieguice, mas porque nenhuma esperança as sustém; e, ao mesmo tempo, ter a teimosia inexplicável de recomeçar quando já não parece possível. Ser velho é, no extremo da fragilidade, mostrar que se tem sete vidas. Ser velho é aceitar o presente, sentindo rondar a imprevisibilidade muito perto, e sabiamente rir-se disso. Ser velho é fazer mais com menos: saber que só se pode contar com a força de uma das mãos ou com o apoio de um dos lados, e mesmo assim insistir e continuar. Ser velho é compreender o valor das migalhas, que foram sempre o nosso grande alimento sem que nos déssemos conta. Ser velho é lutar para estabelecer uma conversa com um quinto do vocabulário, ainda assim entrecortada por hesitações e esquecimentos, mas com os olhos a falarem cinquenta vezes mais, para quem os souber ouvir. Ser velho é sentir-se transferido para o interior de uma casa alheia e grande, desejando unicamente não se perder. Ser velho é não contar com ninguém a certas horas – horas longas que parecem não ter fim – procurando manter vivo, dentro dessa total incerteza, o inapagável fio do amor.

Sim, o provérbio tem razão. Mas há uma coisa que ele não diz: que ser velho é também um milagre. Na verdade, torna-se urgente vulgarizar um verbo que os dicionários não trazem e que os velhos conjugam continuamente, o verbo milagrar. (…) Os velhos milagram. Eles são responsáveis pelo incessante prodígio que é a vida.


Excerto da crónica “O verbo milagrar”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 26 Agosto 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

22 setembro, 2017

"Hoje estarás comigo no paraíso" - Bruno Vieira Amaral


Cada homem está pendurado por um fio, o abismo pode abrir-se debaixo dele a qualquer momento.
No romance de estreia “As primeiras coisas” (2013) Bruno Vieira Amaral desvenda de forma magnífica como se vivia no início dos anos 80 no Bairro Amélia, concelho da Moita, distrito de Setúbal, o problemático bairro onde o escritor cresceu.
O romance, distinguido com diversos prémios, espantou todos pelo perfeito dosear de real com ficção, e pela escrita poderosa.
Agora, neste segundo romance, o escritor pega no homicídio nunca esclarecido do seu primo João Jorge (o Joãozinho Treme, personagem de “As Primeiras Coisas”) e desenha uma investigação do assassínio e usa essa investigação como estratégia de recuperação e construção da sua própria memória: a infância, a família, o bairro e as suas personagens, Angola antes da Independência e os anos que se lhe seguiram, e a figura – ausente - do pai.
João Jorge, solteiro, pintor da construção civil, cidadão português nascido em Novo Redondo, Angola, gozão respeitador, um vadio amigo da família, acabou os seus dias num curral de porcos, brutalmente degolado por um cabo-verdiano. João Jorge veio de Angola aos treze anos e morreu na Baixa da Banheira, Portugal, aos vinte e um.
Trinta anos depois , Bruno Vieira Amaral movido pela curiosidade decide investigar tão brutal crime.
Não são os mortos que clamam por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para que os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas, esclarece o escritor/narrador.
Sem memórias vivas do primo, para reconstituição da sua personalidade, do seu percurso de vida e da derradeira noite, Bruno Vieira Amaral (sete anos aquando do crime) pesquisou arquivos da imprensa da época, consultou arquivos judiciais, explorou o passado da família em Angola, ouviu jornalistas, familiares, vizinhos e amigos. Depois, “agitou” tudo e escreveu uma comovente e nostálgica história, bem urdida e bem contada, feita com dados da investigação, segredos familiares, esquecimentos convenientes, equívocos propositados, verdades escondidas, silêncios, recordações do quotidiano no bairro, revelações drásticas sobre um Portugal com fome, desemprego, salários em atraso.
Numa mistura perfeita de ficção e realidade, de passado e presente, aqui e ali o escritor/narrador desvenda o seu quotidiano e as dificuldades e esmorecimentos que sentiu  durante  a escrita da história.
Por vezes a dificuldade de escrever é apenas isso, uma tarefa, uma actividade profana, repetitiva, banal, afastada das zonas tenebrosas da existência, das humilhações, dos desejos proibidos, das vinganças imaginadas. Então, prefiro afastar-me da escrita e montar prateleiras, furar paredes, introduzir buchas, apertar parafusos…
Interessante é ver também citados romances  de Gabriel Garcia Márquez, Cormac McCarthy, W.G. Sebald,, Mario Vargas Llosa, Javier Cerca, Julian Barnes, entre outros, que o inspiraram e motivaram.
Tudo perfeito!
Na noite em que João Jorge foi assassinado não choveu. Nem na manhã seguinte. Era terça-feira de Carnaval, céu limpo e frio…
Fico por aqui.
Leia para saber quem foi, como viveu e porque foi o João Jorge morto como um porco, com a faca para os abrir... 
Hoje estarás comigo no paraíso (Evangelho segundo Lucas, 23:39-43) é interessante mas... demasiado longo. Bruno Amaral Vieira, senhor de uma escrita cristalina, viciante e inteligente (tanto deve ter lido já este "senhor escritor" que herdou do avô o amor pelos livros e pela História), podia ter dito tudo sem se perder em excessivas minúcias.
Eu aconselho a leitura dos seus dois romances. O primeiro é o meu favorito, mas com este quase gastei um lápis... A sublinhar, claro!

ONDE É QUE A HISTÓRIA DA NOSSA FAMÍLIA contamina a nossa história individual?
Pense nisto!

Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral
Ed. Quetzal, 2017
363 págs.

15 setembro, 2017

Irrita-me a felicidade de todos estes homens ...


Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma série de angústias para uma sensibilidade verdadeira. Mas, como a sua verdadeira vida é vegetativa, o que sofrem passa por eles sem lhes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente à de um homem rico com dor de dentes de vez em quando, mas muita aspirina também – a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) aos incidentes que chamam alegria e dor.

Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais!”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Pintura de Giuseppe Arcimboldo, pintor italiano (1537-93)

08 setembro, 2017

"A vegetariana" - Han Kang

- Porque é que não comes carne? Ela pousou os pauzinhos e olhou para ele. – Não tens de me dizer, se for difícil para ti.
- Não – responde ela com serenidade. – Não me é difícil. O problema é que acho que não vais compreender. – Tornou a pegar nos pauzinhos e mastigou lentamente alguns rebentos de soja. – É por causa de um sonho que tive.
- Um sonho?
- Tive um sonho… e é por isso que não como carne.
É estranha e comovente a história de Yeong-hye, mulher normal, nem feia nem bonita, de poucas palavras, filha e esposa submissa, que depois de um sonho terrível decide mudar radicalmente a sua vida, impor a sua vontade e enfrentar a conservadora sociedade sul-coreana, o marido que a despreza, os pais e a irmã que a ignoram. Como? Tornando-se vegetariana.
Essa inesperada, incompreensível e assustadora mudança de comportamento tem consequências negativas sobre toda a família e brutais sobre ela própria.
Dividida em três partes, a história começa no presente mas engenhosa e subtilmente recua ao passado dando voz a familiares – marido, cunhado e irmã – que desvendam de forma crua e dura factos da infância e adolescência da protagonista. Preocupa-os a estranha decisão dela? Não! Preocupa-os o que dessa decisão pode “respingar” sobre eles.
Na primeira parte a voz é do abjecto marido:
… sempre pensei nela como alguém que não tinha rigorosamente nada de especial. Para dizer a verdade, quando nos conhecemos, nem sequer me senti atraído por ela. No então, embora não tivesse nada de muito atraente, nada tinha também de repulsivo e, por isso, não havia motivo para que não nos casássemos… raramente me pedia alguma coisa e nunca discutia comigo.. .servia-me na perfeição… era a mulher mais trivial do mundo… uma esposa absolutamente comum…
Até um certo dia de fevereiro…
… em que ela, provocadora, deita fora carne, ovos e leite, recusa sair do quarto, deixa de limpar, de cozinhar, de tratar da roupa e recusa o sexo com o marido por o corpo dele lhe cheirar a carne.
Os dias passam, ela definha. Incapaz de a demover o marido fala com a sogra e logo marcam uma reunião de família. Tal não preocupa a "nova" Yeong-hye revoltada, vingativa, fantasista e decidida a tomar o controlo da sua vida. Nem o marido desprezível, nem o pai, um herói da Guerra do Vietname autoritário e agressivo, conseguirão que volte a comer carne. Antes morrer. É assim tão mau morrer?
O que se segue é provocador e desconcertante, mas eu não desvendo para que a sensação de absurdo seja sentida também por si.
(Nota: O hospital confirmará que esta mulher revoltada que começou por querer ser vegetariana, depois um vegetal e por fim uma árvore, não sofre de qualquer doença mental.)

Este romance, feito de histórias bem imaginadas que se encaixam umas nas outras como peças de um puzzle, não é fácil de entender, não!
É tão estranho, tão estranho, que, não sei como, se entranha em nós e a vegetariana Yeong -hye não nos sai da cabeça.
Porquê? Bem... é segredo.

(Ufa! Este foi difícil de digerir! Mas não deixei de comer carne...)

A vegetariana, de Han Kang - Man Booker International Prize 2016
Tradução de Maria do Carmo Figueira
Ed. D. Quixote, 2016
190 págs.

01 setembro, 2017

Voltei... com um poema!


NONA SINFONIA

É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

José Carlos Ary dos Santos, poeta e declamador português ((1936-1918)
Foto da net.

02 agosto, 2017

Vou de férias...


... do meu rol de leituras.
Como faço todos os anos, durante o mês de Agosto nada postarei.
Vou aproveitar para ler (a pilha de livros cresceu nos últimos meses) e “espreitar “, com calma, os blogues que sigo e de que ando arredada.

Julho foi um mês complicado. 
Um problema de saúde, grave, da mãe das minhas netas de 11 meses e 6 anos, deixou-me arrasada física e psicologicamente. 
Como se não bastasse, no último dia do Julho mais cinzento dos meus (já muitos) verões, a morte súbita cardíaca atingiu um familiar que habitava junto de nós, ali ao virar da esquina. Saudável e feliz com a vida, partiu deixando familiares e amigos estarrecidos. E eu, continuei a arrasar, perdida numa onda de angústia e desorientação. E medo.
Realmente,  "a vida dói muito mais que a morte" - palavras de Jim Morrison.

Vou aproveitar esta pausa para procurar a ponta do novelo da minha vida. Fernando Pessoa disse que  “a vida é um novelo que alguém emaranhou”  e eu vou tentar desemaranhar o meu.

Até Setembro.
Muitas e excelentes leituras.
Braçadas de flores para os meus seguidores e todos aqueles que, simplesmente, passam por aqui.

(No meio de tanta agitação consegui ler "A Vegetariana", romance de Han Kang.
Demasiado estranho e perturbador, recomendo que o leiam lá para o outono... ou inverno...
Verão é para degustar, brindar e foliar.)

31 julho, 2017

Carrego gostosamente com o lastro do passado...


Carrego gostosamente com o lastro do passado, albergo-o e permito que me acompanhe para todo o lado. A mim o que me incomoda amiúde é o presente, aquela sua lixada mania de se intrometer em tudo. O passado manda-se para a floresta do esquecimento e ali permanece, mesmo à custa de se converter em alimária. O presente, em contrapartida, espera-nos ao pé da floresta, a meio do caminho, e tem um machado na mão.”


Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

28 julho, 2017

Sempre que vejo sangue, desmaio...


Sempre que vejo sangue, desmaio. Sou fraca a esse ponto, não suporto nem um beliscão. Incomoda-me essa debilidade, mas não consigo ultrapassá-la por mais que me esforce. Quando me têm de tirar sangue para uma análise, experimento todo o tipo de truques: olhar para outro lado, fechar os olhos, contar até cem; inclusivamente uma vez tentei o contrário, olhá-lo fixamente, concentrar-me no sangue e pensar que era água, torná-lo transparente com a força do meu olhar.

Aguento apenas uns segundos antes de sentir aquela frouxidão que nasce nos pés e se instala na boca do estômago, depois os ombros descaem, o pescoço cede, as maçãs do rosto fraquejam-me como cera derretida e, quando o frio chega ao cérebro, já não estou. Falta de luz. Não é desagradável. Pelo contrário, tem qualquer coisa de abençoado, esse abandono, essa interrupção total da consciência. Tomara eu dormir sempre assim, flutuar à deriva nessa paz com todas as amarras cortadas. O desmaio, como o sono, está fora do tempo, numa dimensão própria que parece eterna mesmo que dure apenas uns segundos.”


Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

21 julho, 2017

Os sentimentos que mais doem...



Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas importantes, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juntos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas. (…)
Sei que estes pensamentos da emoção doem com raiva na alma. (…)

Nestas horas de mágoa subtil, torna-se impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz. Tudo isso está vazio, até na ideia do que é. Tudo isso está dito em outra linguagem, para nós incompreensível, meros sons de sílabas sem forma no entendimento. A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. Todos os deuses morrem de uma morte maior que a morte. Tudo está mais vazio que o vácuo. E tudo um caos de coisas nenhumas.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Painel de azulejos de Almada Negreiros, pintor  português (1893-1970).

14 julho, 2017

"Obra poética" - José Carlos Ary dos Santos


O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos, poeta e declamador português  (1936-84)
(Foto da net)



11 julho, 2017

Quando não consigo dormir...


Quando não consigo dormir, costumo deitar-me de barriga para cima, com os olhos fechados e os braços esticados paralelos ao tronco. Todo o corpo liso e direito, excepto os pés, que apontam para o céu. Então, começando pelo dedo mínimo do pé direito, vou-os mexendo um a um, devagar, muito devagar, e conto-os. Mexo um dedo e conto-o, um; mexo o seguinte, dois, três, quatro. Ao chegar a dez, estou no dedo mínimo do segundo pé. É importante mexê-los todos, um a um, não saltar nenhum dedo, não interromper a contagem. Quando se termina, volta-se a começar em sentido contrário: onze dedos, doze, treze…
Não costuma falhar. Houve alturas em que cheguei a contar mais de cento e cinquenta dedos, mas com firmeza e método, se os contarmos realmente um a um e mexermos de cada vez aquele que é devido, acaba por se conseguir. Vai-nos dando o sopor.

Nunca tomei um comprimido para dormir. Nunca, nem sequer uma valeriana. (…) Nunca um comprimido. Sempre os dedos um a um!”

Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.


(Experimentei "contar dedos dos pés" na passada semana, quando a minha netinha adormecia e eu teimava em ficar de olhos abertos. Perdida de sono, mas de olhos abertos.

Foi uma semana em grande, aqui em casa com a Madalena. Os papás foram de férias, levaram a Carolina, de seis anos, e deixaram comigo a pequenina de dez meses. Linda, linda, linda!
Foi maravilhoso!
E cansativo? Sim, um pouco; biberons, papas, fraldas e chupetas... não é mole, não! Mas voltaria a fazer tudo, mesmo tudo!
Vivem longe e não são muitas as vezes que estamos juntas. Pena minha!

Acreditem, abraços e beijos babados de netinhas provocam numa avó um turbilhão de emoções.
Mesmo se para dormir tem de contar os dedos dos pés.)

07 julho, 2017

A liberdade é a possibilidade do isolamento...


A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente.
Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que o faz ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela."

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.