28 abril, 2017

"O Primo Basílio" - Eça de Queiroz


«Meu adorado Bazilio
Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao acordar. Cobri-a de beijos...»
O romance “O Primo Basílio”, publicado na segunda metade do século XIX, é definido pelo autor como «um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa». Na realidade, a trama, algo trágica e de um realismo fascinante - a aventura adúltera de uma mulher - desenrola-se quase na totalidade no interior da habitação do casal Luiza e Jorge. Trama que tem todos os ingredientes para cativar o leitor: amor, paixão, traição, inveja, chantagem, tragédia.
As personagens são bem caracterizadas e credíveis. Gente comum, com defeitos e qualidades. Luiza (a burguesinha da Baixa que gosta de ler romances de amor); Jorge (o marido pacato, reservado, pouco sentimental); Basilio (o sedutor primo de Luiza); Juliana (a criada invejosa e tirana); Sebastião (o tímido bom amigo do casal); Leopoldina (a libertina amiga e confidente de Luiza); Acácio (o conselheiro), são magníficos. Mas outras há...
A escrita de Eça - considerado o pai do Realismo em Portugal - é simples, precisa e cativante.
A acção começa num domingo quente de verão. Em casa, Luiza e Jorge acabam de almoçar. Ele enrola um cigarro. Ela lê o jornal.
- Ah! – fez Luíza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.
- Que é?
- É o primo Basilio que chega!
E leu alto, logo:
«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordéus, o sr. Basílio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. Sua Excelência, que, como é sabido, tinha partido para o Brasil, onde se diz reconstituíra a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do ano passado. A sua volta à capital é um verdadeiro júbilo para os amigos de Sua Excelência, que são numerosos.»
- E são! – disse Luiza, muito convencida.
- Estimo, coitado! Fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma da mão. – E vem com fortuna, hem?
- Parece.
Quantas recordações! O primo Basílio fora o seu primeiro namorado. Tinha então dezoito anos, e ele vinte e sete. Depois, ele partiu para o Brasil e deixou-a numa enorme tristeza. Havia sete anos que não o via. Nunca o esqueceu. E nunca falou sobre esse amor com ninguém. Nem com Jorge, o homem que conheceu três anos depois, numa noite de verão no Passeio, e com quem casou numa manhã de nevoeiro no inverno seguinte.
- Casou no ar! Casou um bocado no ar!, disse Sebastião ao amigo Jorge.
Luiza e Jorge estão casados há três anos. São felizes. Falta apenas um filho.
Ele trabalha no Ministério das Obras Públicas. Ela toma conta da casa, lê romances de amor estendida na voltaire. Aos domingos à noite recebem em casa os amigos mais íntimos. E Luizinha toca piano, canta e encanta. E Jorge envolve-a em delicadezas de amante.
É domingo. No dia seguinte vão separar-se pela primeira vez. Jorge, engenheiro de minas, tem de partir em trabalho para o Alentejo. 
O seu afastamento coincide com o regresso a Lisboa de Basilio, naquele verão que será escaldante. Depois de vários anos nos Brasil, onde fez fortuna, e uns meses em Paris, onde aprimorou a técnica da sedução, o primo de Luiza volta. E sabe que ela casou. E que o marido está fora de Lisboa. E que ela está sozinha em casa.
Basilio não hesita. Procura-a. E passa a visitá-la todos os dias. E ela não resiste aos encantos do primo sedutor.
A vizinhança começa a coscuvilhar sobre tanta movimentação na casa do engenheiro. E os amigos do casal estranham e afastam-se. O tímido Sebastião avisa-a e aconselha reserva. Ela ignora.
Basilio, que não quer perder a amantezinha daquele verão, rapidamente procura um lugar para os jogos de amor. Encontra o «Paraíso» nos subúrbios de Lisboa, e lá passam tórridas tardes de amor.
Quando as visitas de Basilio, já entediado, começam a rarear, Luiza enciumada escreve-lhe cartas de amor. Cartas que Juliana, a criada invejosa, rancorosa e mesquinha  guarda para “tramar“ a patroa. Exige-lhe dinheiro. Chantageia-a e humilha-a. Em casa de Jorge, o engenheiro, a patroa vira criada e a criada vira patroa.
Luiza conta tudo a Basilio e propõe-lhe que fujam juntos para Paris.
- Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Pode lá falar-se em fugir? Era um escândalo atroz… É impossível! É uma simples questão de dinheiro…
Dinheiro que ela não tem. Dinheiro que ele não lhe dá.
No dia seguinte, Basilio, o sedutor cobarde, foge para Paris – alegre, levando recordações romanescas da aventura: ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!
Jorge volta do Alentejo. Estranha o que se passa em casa: Luiza definha enquanto a criada Juliana prospera.
Numa carta que chega de Paris para Luiza, Jorge encontra a resposta mas nada diz sobre o assunto, preocupado com o estado cada vez mais frágil da sua mulherzinha. 
Luiza, desesperada, procura o amigo Sebastião. Conta-lhe tudo. Pede-lhe ajuda para recuperar de Juliana as cartas roubadas. O bom Sebastião ajuda-a. Recorre a um amigo policia, procura Juliana, recupera as cartas roubadas e…
… e mais não desvendo!

Leia, ou releia como eu fiz, para saber que fim têm Juliana e Luiza, a tal que lia romances de amor, chorava com “A dama das Camélias”, cantava a «Traviata», tocava piano e, por desgraça, se deixou seduzir por um primo desprezível.
É trágico o fim deste soberbo romance.

O Primo Bazilio, de Eça e Queiroz
Livros do Brasil, 15º edição, 2015
493 págs.

18 abril, 2017

Recordando... Florbela Espanca


PARA QUÊ?!
Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...

Beijos de amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...

“A minha dor é um convento”, Florbela Espanca (1894-1930)

08 abril, 2017

Tenho tantas saudades, minha mãe (1929-2017)


Nada fica de nada. Nada somos
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos peses
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

(Ode de Ricardo Reis, pseudónimo de Fernando Pessoa)



Mãe, espera por mim. 
Espera por mim junto do pai.
Um dia vamos encontrar-nos e abraçar-nos e beijar-nos e celebrar o amor.
Espera por mim rodeada de anjos, na paz do Senhor.
Chorarei por ti, lágrimas de tristeza e saudade.
Sempre!

07 abril, 2017

Um espelho é um sortilégio...


Um espelho é um sortilégio.
Temos de nos ver muito tempo ao espelho, muitas vezes e muito tempo, antes de conhecermos o nosso verdadeiro rosto. Um espelho não é uma simples placa de prata com a sua superfície lisa, não, um espelho é profundo como um lago de montanha, e quem se debruça com toda a atenção sobre a superfície de um espelho veneziano vê subitamente o fundo, vê profundidades sempre novas, e o seu rosto reflecte-se cada vez mais longe, o seu rosto que se debruça sobre o espelho, e todos os dias uma máscara cai do rosto que se olha ao espelho (...).
Nunca ofereças um espelho à mulher que amas, (...) porque desse modo as mulheres acabam por se conhecer a si próprias, passam a ver melhor e entristecem. 
Foi por meio do espelho que um dia, algures, o conhecimento começou, quando o homem se debruçou sobre o mar, viu o seu próprio rosto no infinito, e entristeceu perguntando-se: « O que é isto?...» “

Tirei daqui: A conversa em Bolzano”, de Sándor Márai,  Ed. D. Quixote, 2014
Pintura de Fernand Toussaint, pintor belga (1883-1956)

05 abril, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei – e que lhes disse – foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo”. Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. (…)"


Excerto da crónica “Quando os filhos não leem”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 1 Abril 2016
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

04 abril, 2017

25º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


262-(20-7-1930)
“Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.”

265-(27-71930)
“A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa. Dizem que não há nada mais difícil de definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstrata das molas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir fechar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstrata. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!

01 abril, 2017

"A Pérola" - John Steinbeck


Não é bom desejar muito uma coisa. Pode arredar a sorte. Basta desejá-la um pouco, porque é preciso muito tato com Deus ou com os deuses.
Esta novela conta a história de uma pérola grande, bela, perfeita como a Lua – a “Pérola do mundo”.
Conta também a história de amor e solidariedade de uma humilde família índia: Kino o pescador que apanhou a pérola, a sua mulher Juana e o seu filho Coyotito.
Viviam num aglomerado de cabanas junto ao mar. Mar que Kino gostava de ouvir, de escutar a sua música sempre que fechava os olhos. O seu povo tinha sido outrora grande cultor de canções, de tal modo que tudo o que via ou pensava, ou fazia e ouvia, se transformava numa canção.
Sempre que olhava para a mulher e o filho, Kino ouvia na sua cabeça uma canção pura e doce, a Canção da Família.
Porém, no dia em que Coyotito foi picado por um escorpião Kino passou a ouvir na sua cabeça a música do inimigo, de qualquer inimigo da família, uma melodia selvagem e perigosa, a Canção do Mal.
O médico da cidade, um homem racista, cruel, ignorante e oportunista, recusa tratar Coyotito por considerar que as oito minúsculas pérolas defeituosos, feias e cinzentas que Kino lhe mostrava não valiam o suficiente para pagamento dos seus serviços.
Kino corre para o mar. Tem de apanhar uma pérola grande e bela para salvar o filho. Corajoso, mergulha fundo e vê uma ostra isolada, com a concha parcialmente aberta. O seu coração bateu mais forte e a Canção da Pérola Ambicionada soou estridente nos seus ouvidos. Dentro da concha estava uma pérola grande, perfeita como a lua. Kino tinha encontrado a "Pérola do Mundo". Quanto valeria?
A notícia de que Kino tinha apanhado a grande pérola chegou célere aos ouvidos dos compradores de pérolas. E aos ouvidos do médico. E as bolsas de veneno da cidade começaram a produzir a sua peçonha.
Kino sabia que tinha que arranjar uma couraça que o protegesse contra a maldade do mundo. Mas estava feliz. Na sua cabeça a música da pérola tinha-se fundido com a música da família.
- Que vais fazer, agora que és um homem rico?
- Vamos casar-nos… na igreja.
- Vamos ter roupas novas.
- Uma espingarda.
- O meu filho há de ir à escola.
- O meu filho há de ler e abrir os livros, e o meu filho há de escrever e conhecer a escrita. O meu filho há de fazer números e essas coisas hão de libertar-nos, porque ele há de saber, há de saber e nós havemos de saber através dele.
- É isso que a pérola há de fazer.
Inesperadamente, Kino começou a ouvir na sua cabeça a Canção do Mal e um medo descontrolado cresceu no seu peito. E com o medo veio a raiva. E muita dor e tristeza e vergonha. 
O que se passou? 
Revelo apenas que a pérola volta para o fundo do mar...

Baseada num conto popular mexicano, “A Pérola” (1947) é uma parábola poética sobre as grandezas e as misérias do mundo em que vivemos.
Uma história pequenina, linda, comovente e inesquecível, para ler e reflectir.

A Pérola, de John Steinbeck, Prémio Nobel de Literatura, 1962
Tradução de Clarisse Tavares
Ed. Livros do Brasil, 2015
79 págs.

29 março, 2017

Recordando... Florbela Espanca


EU
Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

“Que heroínas somos nós às vezes! E que covardes.”, Florbela Espanca (1894-1930)

28 março, 2017

"Dentro da noute" - contos góticos


"Dentro da Noute" é uma antologia de Contos Góticos, organizada por Ricardo Lourenço e editada pelo Projecto Adamastor.
Reúne vinte e sete contos e novelas, da autoria de escritores portugueses e brasileiros.
Está disponível gratuitamente em formato EPUB e MOBI.
Se gosta de histórias de terror, daquelas que deixam o cabelo em pé, entre na "noute" misteriosa e assustadora e... arrepie-se!

Contos e Novelas Portugueses
1. O Defunto — Eça de Queirós
2. A Dama Pé-de-Cabra — Alexandre Herculano
3. A Caveira — Camilo Castelo Branco
4. A Torre Derrocada — Alberto Osório de Vasconcelos
5. O Mistério da Árvore — Raul Brandão
6. O Corvo — Fialho de Almeida
7. A Feiticeira — Ana de Castro Osório
8. A Morta — Florbela Espanca
9. Os Canibais — Álvaro do Carvalhal
10. Uma Récita do Roberto do Diabo — Júlio César Machado
11. O Cadáver — Beldemónio
12. Sede de Sangue — Manuel Teixeira Gomes
13. A Confissão de Lúcio — Mário de Sá-Carneiro

Contos e Novelas Brasileiros
1. Noite na Taverna — Álvares de Azevedo
2. A Dança dos Ossos — Bernardo Guimarães
3. Os Porcos — Júlia Lopes de Almeida
4. Acauã — Inglês de Sousa
5. Violação — Rodolfo Teófilo
6. Maibi — Alberto Rangel
7. Assombramento — Afonso Arinos
8. 11 e 20 — Medeiros e Albuquerque
9. Demônios — Aluísio Azevedo
10. O Defunto — Thomaz Lopes
11. A Causa Secreta — Machado de Assis
12. O Bebê de Tarlatana Rosa — João do Rio
13. Confirmação — Gonzaga Duque
14. Os Olhos que Comiam Carne — Humberto de Campos

Terror nunca fez o meu género. Nem nos filmes, nem na literatura. Sou assustadiça por natureza. Bastava que lesse um dos contos para perder noites de sono. A sério!
Espero que a simples divulgação  do lançamento da colectânea não interfira significativamente com o meu sono. Espero!!!

25 março, 2017

"A conversa de Bolzano" - Sándor Márai

Advertência:
(...)Ser-me-ia difícil negar um parentesco que talvez alguns insistam em reprovar-me. O meu herói parece-se terrivelmente com o vagabundo disposto a tudo, sem pátria e todavia infeliz, que, no dia 31 de Outubro de 1756, à meia-noite, se evadiu dos Piombi de Veneza servindo-se de uma escada de corda e trocou o território da República por Munique na companhia de um frade renegado chamada Bibi. Á laia de defesa, direi somente que não foi a vida mas o caráter romanesco do herói a interessar-me.
Foi por isso que me limitei a pedir de empréstimo às célebres Memórias a data e a circunstância da fuga. Tudo o mais que o leitor poderá ler neste romance não passa de fábula e invenção.
S.M.
Advertência lida, penetramos na história do Giacomo Casanova de Sándor Márai, que começa com a chegada do famoso sedutor a Bolzano, três dias após ter escapado dos Piombi, a sinistra prisão veneziana. Acompanha-o  Balbi, o frade renegado, alcoólatra e bonacheirão, seu companheiro de fuga. 
É um Giacomo andrajoso, sem bagagem (transporta consigo apenas um punhal) e sem dinheiro, que entra na Estalagem do Veado e pede dois quartos. Um Giacomo humilhado que se faz passar por um fidalgo de Veneza assaltado na fronteira.
Entretanto, a notícia da evasão espalhava-se e toda a gente se regozijava «ali estava alguém provando que um homem era mais forte do que o despotismo, mais forte do que os Piombi, do que os esbirros e ria a bandeiras despregadas». Até o papa, que o tinha condecorado com uma ordem pontifícia, ria às gargalhadas. Até o rei se ria.
Ao escapar aos muros com um metro de espessura, ele deixara com um nariz de palmo e meio Suas Excelências, os terríveis senhores da Inquisição e, agora, tinha no seu encalço os polícias, os juízes, os esbirros e os espiões: porque não há nada mais perigoso do que um homem que não é capaz de se submeter à tirania.
À noite, dois polícias entram na estalagem, interrogam o estalajadeiro e ordenam-lhe : Queremos estar a par de tudo o que ele diga. Vigia-o bem. Recebe cartas, e de quem? Manda cartas, e a quem? Vigia-lhe todos os gestos.
É Teresa, a criadita de 16 anos, quem fica a vigiá-lo pelo buraco da fechadura. Ordens do patrão: toma cuidado com a tua virgindade e vigia-o. Hum! Hum!
Mas afinal, porque está  Giacomo em Bolzano?
Porque em Bolzano vive Francesca, a única mulher que amou e perdeu em duelo para o temível e poderoso Conde de Palma. O conde poupou-lhe a vida, com a condição de não voltar a procurá-la. Ele cumpriu durante cinco anos, mas agora, a caminho do exílio em Munique, quer vê-la pela última vez. Sabe que não será fácil pois a adolescente é agora mulher do ainda temível conde de Palma.
Conseguirá? Talvez sim. Talvez não.
Adiante. Depois de dezasseis meses detido nos Piombi e três dias fechado no quarto (nem sempre sozinho…), Giacomo, o sedutor que se quer tornar escritor, “acorda” para a vida. Começa por pedir dinheiro a um velho amigo. A seguir, chama um barbeiro. A seguir manda fazer roupa condizente com a sua pretensa condição de fidalgo. A seguir… espera, pois estar à espera é viver.
Ao oitavo dia, Giacomo ouve um trenó parar à porta da estalagem e, logo depois, uma voz de homem, conhecida, velha, quase suplicante, diz à porta do seu quarto: «Tenho de falar contigo, Giacomo.» E entra.
- Prometi-te simplesmente matar-te se alguma vez voltasses, se voltasses a rondar-nos e a levantar os olhos para a condessa (…) as ameaças deixaram de ter cabimento (…) já não sinto vontade de atacar: a agressão nada resolve entre os homens (…) Vim com outra arma, Giacomo.
- Que arma?
- A arma da razão.
É longa a conversa. No fim, o conde faz-lhe uma proposta perversa e um convite surpreendente: Esta noite irás a nossa casa porque Francesca sente que tem de te ver! Apareces disfarçado e mascarado como os demais. Depois, quando a tiveres reconhecido, rapta-a, trá-la para aqui e realiza uma obra-prima! (…) Os segredos da tua arte não me interessam. É preciso que ela passe por ti, mas de modo a regressar para mim de manhã…
O conde sai e pouco depois Giacomo ouve uma voz de mulher, conhecida e bela, dizer do outro lado da porta: - Sou eu, Giacomo (...) tenho de te ver. E entra. 
Estas duas conversas em Bolzano são, na verdade, dois monólogos (o do conde talvez demasiado extenso) sobre a paixão amorosa, o desejo, a indiferença, a vida, a velhice, a morte.
A história termina com Giacomo Casanova no quarto, já as velas tinham ardido até ao fim (lembra alguma coisa, não?), a ditar a Balbi uma carta para o conde de Palma com a resposta à proposta que ele lhe fez e um inesperado pedido. Qual? Não digo!
No grande duelo da vida, e até nos momentos decisivos, só as armas da cortesia são permitidas.

Romance soberbo.
O belíssimo monólogo do conde de Palma (páginas 141 a 193) é para ler e reler, e reler…

A conversa de Bolzano, de Sándor Márai
Tradução de Miguel Serras Pereira
Ed. D. Quixote, 2014
255 págs. 

21 março, 2017

Dia mundial da poesia


“Todos os dias deveríamos ler um bom poema, ouvir uma linda canção, contemplar um belo quadro e dizer algumas palavras bonitas.”
Goethe, escritor alemão (1749-1832)

 
Hoje eu li RENOVA-TEde Cecília Meireles, jornalista, escritora e professora brasileira (1901-64) e amei.

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

(Foto da net)

20 março, 2017

Dia internacional da felicidade??!!


A felicidade é disparatada como uma rosa na boca de um jacaré. Em seu esforço para não ser um jacaré, extasia-se o homem na felicidade de o não ser completamente dizendo isso num sorriso monstruoso que é uma rosa na boca de um jacaré .Ah! como o assassino é legível na ária da felicidade que lhe floresce na boca! Todos os assassinos trazem uma flor na boca; um sorriso de metódicas navalhas. Todos os felizes são assassinos, ou vítimas, é a mesma coisa. Recusar a felicidade é vomitar a memória, deslembrança do sítio onde o ouro se transtorna em chumbo.
Só conheço uma espécie de miseráveis: os felizes. Porque a felicidade é o tributo que pagam à miséria da existência.
Somos no que nos excede e só a infelicidade verdadeira nos excede. A alegria também um pouco porque é a resplandecente e frenética ironia da felicidade não existir.
Um novo dia! dizem os felizes, perfurando as paredes da esperança para espreitarem suas nádegas operárias do vício solitário do triunfo nos quartos de curta permanência que a felicidade aluga. Um novo dia! diz gota a gota a baba com que os felizes tecem seu sequestro de esperançosas toupeiras.
Como se não houvesse sempre e apenas um só dia, uma onda ininterrupta, eternamente solta trespassando-nos na vida que os campos sáfaros da existência alaga. Um volátil e fixo sustenido de platina de um intocado violino que os felizes fingem dividir em agulhas com que malcriadamente palitam os olhos nos sítios mais concorridos.”

Quadro de Agostinho Santos, pintor, escritor e jornalista português (n.1960), tirado da net.
Texto de Natália Correia, intelectual, poeta e activista social açoriana (1923-93), tirado daqui:


10 março, 2017

É de pequenino...

Quem é esta criancinha seriamente empenhada em aprender os números e as letras?
Chama-se Madalena, tem seis meses (feitos no passado dia 25), e é minha neta .
A mana Carolina (prestes a fazer 6 anos), está decidida a ensinar-lhe os números e as letras e ela, divertida, “alinha” na brincadeira.

A avó, convicta de que desde cedo se deve incutir nas crianças hábitos de leitura, sorri enternecida e deixa um conselho à mana mais velha:
“Carolina,vai com calma. A Madalena é muito pequenina. Brinca com ela, mostra-lhe os números e as letras e lê-lhe historinhas. Assim. aprendem as duas: ela a gostar ainda mais de ti e tu a leres cada vez melhor. Concordas?"
Amo, de paixão, as minhas pequeninas.


“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar.”
José Saramago, escritor português (1922-2010)
Prémio Nobel de Literatura, 1998

“É preciso fazer compreender à criança que a leitura é o mais movimentado, o mais variado, o mais engraçado dos mundos.”
Alceu Amoroso Lima, crítico literário, professor, pensador, escritor e líder católico brasileiro (1893- 1983)

“Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história.”
Bill Gates, magnata, filantropo e autor norte-americano (1955-)

08 março, 2017

Dia internacional da mulher

O tempo passou e muita coisa mudou...

"A organização do trabalho no lar
(…)
O almoço do teu marido deverá ser servido à hora exactamente indicada por ele, para que não tenha que esperar e depois comer rapidamente.
Não te esqueças nunca de pôr flores na mesa. Recebe-o alegre, engraçada, bem disposta, porque a tua alegria e boa disposição serão o sol que ele levará na alma e lhe iluminará alguma penumbra que surja na sua vida profissional.
Vamos lá dar uma directriz à distribuição do teu trabalho pelos dias de semana, para que chegues ao domingo com um rosto fresco e o teu marido não entristeça ou aborreça ao olhar para ti:

2ª feira – Lavagem de roupa. No espaço de tempo em que ela está na lixívia, fazer um justo e bem merecido repouso. Após esse pequeno descanso, escoas a água do tanque, sem tirar a roupa e abres a torneira. Deixas ficar assim a roupa em água limpa. Para te poupares, não a passar por água limpa, segunda vez, não a torces nem a estendes, no próprio dia. Deixas isso para o dia seguinte, de manhã. Por hoje basta!

3ª feira – Após o almoço e a cozinha já devidamente arranjada – e como o jantar tem pouco para fazer, visto que, de manhã já preparaste a sopa para todo o dia e o prato do jantar será um pargo assado com batatinhas – deitas-te, no divan da salinha, até às 4 e meia.
A essa hora levantas-te repousada e fresca e entregas-te a pequenas ocupações indispensáveis: - limpar e vincar um fato do teu marido; lavar, com benzina, as tuas luvas brancas; renovar as flores das jarras; responder à carta da tua mãe; ordenar os livros da tua pequenas estante, etc., etc.
(Esqueci-me de te recomendar o seguinte: sempre que faças o teu habitual repouso da tarde, faze, no rosto e nas mãos, uma massagem com um bom creme de alimento e fica com ele, enquanto dormes).

4ª feira – Este será o dia destinado à roupa: ver se precisa de alguns pontos e engomá-la. Como é só de vocês dois, deves poder engomá-la toda num só dia. Se, porém, te sentires fatigada, não insistas, e acaba-a no dia seguinte. A tua beleza e a tua saúde são mais importantes.

5ª feira – Destina a tua tarde ao lustro dos alumínios e de alguma prata ou metais que tenhas para limpar. Levanta a pequena carpete da salinha e a da casa de jantar e deixa-as penduradas na varanda da casinha. À noite batê-las-ás. (Para todos estes trabalhos – principalmente a limpeza dos alumínios e metais – não te esqueças de calçar as luvas de borracha).

6ª feira – Hoje é o dia da limpeza maior à casa, mas como já tens os alumínios os metais e os tapetes limpos, ser-te-á fácil. Varres, limpas o pó, dás um pouco de cera, pões flores frescas nas jarras – e está pronto. Não guardes nunca a limpeza para o sábado, porque o teu marido faz a semana-inglesa e, nas tardes de sábado fica em casa. Já vês que desagradável seria, andares com a casa no alvoroço das limpezas…

Sábado – A cama de lavado, as toalhas da casa de banho e todos os panos de cozinha, incluindo esfregão da louça e as pegas dos tachos. Domingo já não terás este trabalho. Despacha tudo cedo, para consagrares a tarde a teu marido.

Domingo – Tens toda a casa em ordem, portanto, depois do almoço, podem dar um passeio ou ir ao cinema. Simplifica o jantar mas… vê lá: apresenta sempre uma travessa bem farta. O teu marido precisa de ser bem alimentado.

E pronto. Distribui assim o teu trabalho, controlando as tuas forças e nunca te excedendo. O teu sorriso, a tua saúde, a tua boa disposição iluminarão sempre as quatro paredes brancas da tua casinha e a vossa vida decorrerá tranquila e feliz."

(Tirei de um livro que foi da minha mãe e agora é meu: "O livro das noivas", da Colecção Laura Santos, Editorial Lavores, 1957.  Surpreendente!
Foto da net.)

Ufa! Fiquei cansada de tanto limpar.
Cansada mas sorridente e bem disposta. 
Agora vou fazer a "Sopa feliz" e o "Bolo de namorados". O meu marido precisa de ser bem alimentado...
Grande abraço para todas as mulheres.

07 março, 2017

24º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


257-(13-6-1930)
“Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já não o tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade do nada. Não tenho esperanças nem saudades.”

260-(Junho-Julho de 1930)
“Somos quem somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. “

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


28 fevereiro, 2017

Uma rosa e um poema, para uma amiga...


Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

(Poema de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa)

Amiga, obrigada pelas braçadas de flores, pelo carinho, pela paciência, pela motivação.
Foi bom encontrar-te!

26 fevereiro, 2017

Desabafos...


O que se passa comigo?
Sinto uma terrível tristeza, um abatimento desmesurado.
Sinto medo, desânimo, angústia.
Não me apetece ler nem escrever,
Nem rir, nem chorar, nem falar.
Ninguém me anima, nada me motiva.
Não sei o que se passa comigo.
Ansiosa e amargurada,
”Gasto” horas do meu dia derramada no sofá a ver filmes, séries, novelas…
Demorei duas semanas a ler um romance de Sándor Márai.
Vou escrever sobre ele? Claro que sim!
Quando? Não sei!
Não sei, porque não me apetece pensar sobre o que escrever.
Não me apetece fazer NADA!
Eu não sou assim.
Não me reconheço.
E isto assusta-me.
Não sou optimista nem pessimista.
Sou realista.
Não costumo sofrer por antecipação.
Não me queixo da vida.
Deu-me sempre o que acredito merecer.
Gosto de ouvir, de aconselhar, de aprender, de desafios,
De perdoar, de conviver, de gargalhar.
De olhar as minhas netas.
Gosto de gostar.
Sou, por temperamento, alegre, bem-disposta, boa companhia.
Tenho algumas inseguranças,
E fases de baixa auto estima.
Aprendi a viver com isso.
Sou saudável.
Tenho uma família linda.
Guardo o passado em caixas coloridas,
Tento viver alegremente o presente,
Consciente que o futuro não é garantido.
Sou feliz.
E grata por ter nascido.
Então,
O que se passa comigo?

21 fevereiro, 2017

Recordando... Florbela Espanca


DESEJOS VÃOS
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não em sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue e agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!

Se soubessem como eu sou hipócrita! Que horror todos teriam de mim!, Florbela Espanca (1894-1930)

17 fevereiro, 2017

Como apreciar uma boa chávena de chá...


"Temos de estar totalmente despertos no presente para apreciar uma boa chávena de chá. Apenas com a consciência no presente, as nossas mãos podem sentir o agradável calor da chávena. Apenas no presente podemos apreciar o aroma, sentir a doçura e saborear a delicadeza. Se estamos a ruminar sobre o passado ou preocupados com o futuro, perderemos por completo a experiência de apreciar a chávena de chá. Olharemos para a chávena de chá, e o chá terá já terminado.
A vida é assim. Se não estamos totalmente no presente, quando olhamos à nossa volta este terá desaparecido. Teremos perdido a sensação, o aroma, a delicadeza e a beleza da vida. Parecerá ter passado a correr por nós.
O passado terminou. Aprendamos com ele e deixemo-lo ir. O futuro ainda não está aqui. Planeemos, sim, mas não gastemos o tempo a preocuparmo-nos com ele. A preocupação é uma perda de tempo. Quando paramos de ruminar sobre o que já aconteceu, quando paramos de nos preocuparmos com o que poderá nunca vir a acontecer, então estaremos no momento presente. Só então começaremos a experimentar a alegria de viver."

Thich Nhat Hanh, monge e filósofo budista vietnamita, citado por Brian L. Weiss, em “Só o amor é real”, Ed. Pergaminho, 1999

Pintura de Mary Cassat, pintora norte-americana (1844-1926)

14 fevereiro, 2017

Vamos namorar?!


Bébézinho do Nininho-ninho
Oh!
Venho só quvê pâ dizê ó Bébéziho que gotei muito da catinha d’ella. Oh!
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bébé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequinininho!
Hoje o Nininho não vae a Belem porque, como não sabia s’havia carros, combinei té aqui ás seis o’as.
Amanhã, a não sê qu’o Nininho não possa é que sahe d’aqui pelas cinco e meia.
Amanhã o Bébé espera pelo Nininho, sim? Em Belem, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos
Fernando
(carta de Fernando Pessoa para a Senhora Dona Ophélia Queiroz)

Faça como o poeta e escreva (pelo menos hoje) uma carta de amor. É fácil!
Coloque a folha em branco à sua frente, segure na caneta, abra o coração e solte a imaginação.
Opte pela simplicidade. Frases rebuscadas nem sempre transmitem o que se pretende.
Brinque com as palavras. Carinho, amor, paixão, beijo, abraço… são pétalas de flores coloridas e perfumadas.

Fazer declarações de amor também é fácil. É só escolher as palavras e o tom de voz, e já está!
Se não sabe o que dizer, olhe o outro nos olhos e deixe que o silêncio fale por si. Cuidado, os olhos são as janelas da alma. Dizem tudo, mostram tudo.

Quando o assunto é amor, nunca esqueça: diga a verdade, diga a verdade, diga a verdade!

Vamos namorar?
Bora lá!
(Amor, escreve-me uma carta de amor…, um bilhetinho só…)

Foto da net.

10 fevereiro, 2017

"A vida é breve" - Jostein Gaarder


Abraça-me, a vida é muito breve e ninguém sabe se existe uma eternidade para as nossas almas frágeis, talvez só tenhamos esta vida.
Em “A vida é breve” Jostein Gaarder retrata - doseando sabiamente realidade e ficção - a vida e obra de Aurélio Agostinho (Aurelius Augustinus), filósofo, escritor, doutor da Igreja, conhecido por Santo Agostinho.
A inspiração terá surgido após encontrar uma carta redigida por uma mulher e endereçada a Aurélio Agostinho, no interior duma caixa que comprou na feira da ladra de San Telmo, em Buenos Aires.
Eu conhecia bem a biografia de Agostinho. Nenhuma outra figura mostra com tanta clareza a profunda mudança cultural que teve lugar na transição da antiga cultura greco-romana para a cultura cristã (…) As suas confissões proporcionam uma visão única do agitado século IV, assim como dos seus próprios conflitos espirituais, relacionados com a fé e a dúvida. (…) poderia esta carta ser daquela mulher que fora a concubina de Agostinho durante anos, da mulher que ele próprio conta ter tido que deixar por ter escolhido abster-se para o resto da vida de todo o amor sensual?
Se não era passou a ser e logo Jostein Gaarder deu nome e voz à mulher que Aurélio Agostinho amava quando decidiu afastar-se do amor humano para se concentrar na salvação da própria alma. Mulher que não entende como pode um princípio filosófico separar duas pessoas que se amam e na carta o crítica  com ironia e desprezo.
FLÓRIA EMÍLIA SAÚDA AURÉLIO AGOSTINHO, BISPO DE HIPONA
Como é estranho ter de saudar-te nestes termos! Há muito, muito tempo, teria escrito apenas «para o meu pequeno e divertido Aurélio». Mas passaram já mais de dez anos desde a última vez que me abraçaste e, entretanto, muitas coisas mudaram. (…)
Procedeste assim porque começavas a sentir desprezo pelo amor carnal entre homem e mulher…. Achaste que eu te prendia ao mundo dos sentidos e que não tinhas paz nem tranquilidade para te concentrares na salvação da tua alma (…)
Mas que traição, Aurélio, que traição! Não, eu não creio num Deus que exige sacrifícios humanos. Não creio num Deus que destrói a vida de uma mulher para salvar a alma de um homem. (…)
E havia um filho. E Deus é minha testemunha: assim como eu era a mãe de Adeodato, também tu eras o seu pai verdadeiro. (…)
A vida é breve, demasiado breve. Talvez vivamos esta única vez, aqui e agora. (…)
Que Deus do Nazareno te perdoe por toda a ternura e todo o amor que agora rejeitas.
Estou em Cartago, sentada debaixo a nossa figueira, que, pela terceira vez, floresce sem dar fruto.
Eu te saúdo!

E mais não desvendo sobre esta belíssima história de amor dorido.
Ficção ou realidade, essa celeuma não me interessa nada.
Esta vida é tão breve! Não podemos ter a veleidade de emitir qualquer condenação sobre o amor.

A vida é breve, de Jostein Gaarder
Tradução de Maria Luísa Ringstad
Ed. Presença, 1998
116 págs.

07 fevereiro, 2017

23º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


255-(18-5-1930)
“Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada madrugada, uma revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.”

256-(12-6-1930)
“Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repousaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não conhecem senão os que se furtam às angústias e às dores humanos, e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio. Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira que, em certa altura da sua consciência de si mesmos, lhes pese de repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia às avessas, uma dor perdida."

Leia (tudo) e… deslumbre-se!



03 fevereiro, 2017

Vale a pena ler… Gérard Depardieu


Tem uma filmografia extensa. Participou em pelo menos 200 filmes. Quais são os que contam verdadeiramente?
Os filmes não me interessam. Não sei responder-lhe. É verdade. Estou-me nas tintas.
Lamenta alguma coisa que tenha ou não tenha feito no passado?
Não, até ao momento não tenho tempo sequer de pensar nisso. De facto, e para falar a sério, não acho que se deva lamentar nada. Passamos sempre ao lado de certas coisas mas, a partir do momento em que fazem parte do passado, mesmo que saibamos o que fizemos de errado ou que negligenciámos, só temos a hipótese de fazer um exame de consciência.
(…)
É um homem livre?
Tento ser.
E a solidão não acompanha a liberdade?
A solidão é uma chatice mas existe a meditação. De resto, a solidão só existe nas cidades. Existe quando há todo aquele movimento à nossa volta e nos sentimos perdidos. Quando há demasiado barulho e nós nos tornamos surdos, aí podemos experimentar a solidão. Mas no espaço, quando atravessamos o deserto, quando vamos à Mongólia, mesmo no Alentejo ou em Faro, não a sentimos. Quando olhamos para o mar de Portugal e vemos aquela espécie de horizonte que nos agarra, não conseguimos desligar-nos da história de todos aqueles que partiram. É como ir à Lua, viajar no espaço, ir a Marte, não sei. São coisas que foram abstratas num determinado momento, quando a Igreja dizia que não se podia ir para ocidente porque se cairia nos abismos, quando as pessoas que sabiam que a Terra era redonda e girava à volta do Sol, como Galileu, eram queimadas vivas. É que o desconhecido mete medo. Por trás do desconhecido se calhar há outros fascínios. Não podemos ouvir o que o nosso pai ou a nossa mãe nos diziam, só se for para não os magoarmos. O que é preciso é termos a nossa própria ideia sobre as coisas.
(…)
Gostaria de ter vivido noutra época?
Não, esta serve-me porque vivo noutra época mesmo nesta época.

Frases soltas:
- Gosto mais de livros do que de imagens. A imagem limita.
- Nascemos numa época em que só se fazem selfies, procuramos a nossa própria imagem.
- Cada época tem os seus defeitos, cada época tem os seus doidos.
- A História repete-se mas é sempre encantadora.
- Tenho medos dos estúpidos… porque os estúpidos podem desestabilizar.
- Temos em nós uma ideia que nos reconforta porque Deus está em nós.
- Não sou religioso, mas acredito no xamã e no xamanismo.
- A cozinha portuguesa é muito boa. A arte da mesa em Portugal é muito boa.

Excerto da entrevista concedida a Alexandra Carita – a propósito da estreia do filme “O Divã de Estaline, realizado por Fanny Ardant e protagonizado pelo actor - publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 28 Janeiro 2017

Vale a pena ler na íntegra.

31 janeiro, 2017

"Versos" - Amália Rodrigues


LÁGRIMA
Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim um castigo
Não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar


Sabia que Amália escreveu alguns dos mais belos poemas que cantou?
Eu, não.
Já a ouviu cantar “Lágrima”?
Eu já, muitas vezes.
Pois bem, Amália escreveu e cantou “Lágrima”, um dos mais belos fados que gravou.
Eu soube tudo isto porque Vitor Pavão dos Santos, biógrafo e amigo de Amália, compilou em livro alguns dos poemas escritos pela fadista.
Livro que se lê e ouve. A sério!
Como por magia, lemos “Lágrima” e ouvimos e deslumbramo-nos com a voz única da fadista maior.
E lemos “Estranha forma de vida” e voltamos a ouvi-la.
E lemos...
Experimente!

27 janeiro, 2017

"Quando ela era boa" - Philip Roth

Numa tarde de novembro de 1954, uma semana antes do Dia de Ação de Graças, mesmo ao anoitecer, Willard chegou de carro a Clark’s Hill, estacionou junto à vedação e subiu a pé o carreiro de acesso ao jazigo da família (…) baixou as abas do boné e ali, diante das campas da sua irmã Ginny, e da sua neta Lucy, e dos retângulos reservados para os restantes membros da família, esperou. Começou a nevar.
Estava à espera de quê?
Quando ela era boa” – terceiro romance de Philip Roth, um drama familiar originalmente publicado em 1967 – conta a história comovente, intensa e arrebatadora de uma família humilde, numa cidadezinha provinciana do Centro Oeste americano, na primeira metade do século XX.
Em casa de Willard Carroll e Berta reina a tranquilidade e a felicidade. Felicidade que aumenta quando nasce Myra, a filha de saúde frágil, discreta e tímida, estudante de música e mais tarde professora de piano. Tudo muda quando Mary, já casada com Whitey Nelson, um alcoólico, ignorante, cobarde, ladrão, oportunista, ciumento e violento, volta para casa dos pais com o marido desempregado e a filha de três anos, Lucy Nelson, a protagonista da história. É ela que aos quinze e anos, farta da violência do pai e da passividade da mãe, liga à polícia e fica a vê-lo ser levado para a prisão.
… os meus pais são horríveis. Não sou eu que penso – é a verdade!
Lucy não se livrou de um sermão do avô Willard.
«Nesta casa somos pessoas civilizadas e há certas coisas que não fazemos (…) não somos nenhuma escumalha, e tu tens de te lembrar disso.»
«Cá em casa, Lucy, conversamos com a pessoa. Mostramos-lhe o caminho certo.»
«E se a pessoa não o conhecer?»
«Olha Lucy, não a mandamos para a prisão! A questão é só essa. Está percebido?»
(Anos mais tarde, ela dirá ao avô que ele não podia proteger as pessoas da fealdade da vida passando-lhe por cima uma camada de verniz.)
Depois disso, Lucy, a jovem de bom coração, inteligente, sensível, impiedosa e moralista que fingia que tinha uma família normal, mesmo depois de ter começado a perceber que isso não era verdade, decide regenerar os homens que a rodeiam.
Começa por Roy Bassart, o namorado, dois anos mais velho do que ela mas muito infantil. Ama-o? Casa com ele? Lucy tem dezoito anos e não, não quer casar-se com ele. Ou quer? Talvez, mas só porque está a crescer alguma coisa dentro do seu corpo, e sem a sua autorização.
O resto é para você descobrir… lendo, claro!

O enredo de “Quando ela era boa” é inteligente, os personagens brilhantes, a escrita de  Philip Roth, irrepreensível, mas… 
Se as primeiras 57 páginas emocionam e cativam - conhecemos o avô Willard Carroll, um “homem bom”, filho de pai feroz e ignorante e de mãe trabalhadeira com mentalidade de escrava, que abandona a casa dos pais aos dezoito anos e vai ao encontro do mundo civilizado; que sabe o que quer e o que não quer: não ser rico, não ser famoso, não ser poderoso, nem sequer ser feliz, mas ser civilizado... não viver como um selvagem; chega a Liberty Center em 1903, arrenda um quarto, consegue um emprego nos correios, casa com uma rapariga decente, determinada e respeitável, compra uma casa pequenina, tem uma filha, é promovido a sub-chefe, renova a casa, vê a filha casar com um alcoólico violento, recebe-a de coração aberto quando ela necessita de apoio e... nunca esquece Ginny, a irmã internada num lar para deficientes mentais...
... as restantes 302  - relato da vida familiar e estudantil de Lucy, da sua relação com as amigas, do amor por Roy e do ódio pela família dele - estafam de tanta repetição. Tudo podia ser dito em metade das páginas. Penso eu.
Philip Roth jamais me desiludirá mas… desta vez cansou-me. A sério!

Quando ela era boa, de Philip Roth
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2016
359 págs.

17 janeiro, 2017

Recordando… Florbela Espanca


A MINHA DOR
A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres e agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca ou viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém, ouve… ninguém vê… ninguém…

"No Mundo, passo por todos, vendo alguns; na vida esqueço-me de quase todos, esquecendo-me de mim. Quase tudo me é indiferente.", Florbela Espanca (1894-1930)

Está decidido, em 2017 vou reler a obra poética da grande Florbela Espanca e partilhar no meu rol alguns sonetos que me tocam particularmente.
Pensei nisto depois de ler “Florbela Espanca”, de Agustina Bessa- Luís, em Setembro de 2016.
Já agora, se gosta da obra de Florbela Espanca não deixe de ler esta biografia.

10 janeiro, 2017

Mário Soares (1924-2017)


«Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade».


Tirei daqui: "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

06 janeiro, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça




"(...)Entre um ano que acaba e um ano que começa, a contas com o tempo que corre fora e dentro de nós, sentindo-nos talvez de forma mais sensível modelados por esse oleiro invisível que é o tempo, percebemos que a nossa vida é uma vida exposta. É impossível não detetar as marcas do tempo em nós: linhas de fragilidade, sombras, estremecimentos, erosões, zonas mais desvitalizadas, desvios. A unidade interior é um trabalho imenso. Parece-se ao manto que Penélope tecia durante o dia e desmanchava durante a noite, na sua espera quase sem esperança. Mas não podemos desistir de construir essa unidade de ser. Só aquilo que amamos com o extremo do amor não nos será tirado.(...) Dizer por exemplo, que a vida é marcada pela vulnerabilidade é reconhecer quando ela está exposta à possibilidade de ser ferida. (...) A vulnerabilidade é um acontecimento total. Descobrimos, no entanto, que através dela nos chega também o que nos redime. Só a vulnerabilidade nos eleva à altura do infinito à maneira de uma dança, onde a gravidade é vencida pela graça. E a dança não conhece fronteiras. O seu vocabulário é infinito pois é a emoção humana que ressoa no movimento. Tudo dança, tudo é dança. Os nossos olhos dançam, os nossos corpos rodopiam, a natureza (a nossa e a das coisas) manifesta-se num deslizar que se calhar não vemos.(...) E recorda Marta Graham: "A dança é a linguagem escondida da alma, é uma canção do corpo, um sopro de alegria e de dor. Importa apenas isto: levanta-te e dança". 

Excerto da crónica “Levanta-te e dança”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 30 Dezembro 2016
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

03 janeiro, 2017

22º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa

242-(13-4-1930)
"Para o homem vulgar, sentir e viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar e viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.”
“Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade.”

249-(cerca de abril de 1930)
“O peso de sentir! O peso de ter de sentir.”

250-(cerca de abril de 1930)
“Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!