29 março, 2016

Poema de... Manuel de Sousa Falcão


Pernas da cadeira como talos a irromper
Impetuosos terra fora em busca de luz e ar
Os braços e as costas como folhas a envolver
Um assento em fogo e já não um lugar
O tampo da pequena mesa em movimentos de morrer
O papel na espera de palavras na espera do poema vindo do mar
De um rosto fatigado a suar de um coração a sofrer
De uma mão nua a tudo dar
Se o dia fosse, se o dia fosse
Da poesia

Pintura em acrílico sobre cartolina Bristol, do poeta / pintor portuense.

26 março, 2016

Feliz Páscoa!

PÁSCOA

Foi por línguas de fogo
que aprendi a falar.
Que digo que não digo…
o melhor é calar.

O melhor é seguir
de peito aberto aos riscos.
Quem me mandou nascer
na Ilha dos coriscos?

Agrafa-me esse lume
num caderno de nozes
que se estão em poema
são muito mais que as vozes.

O Eterno me intima:
o tempo o templo arromba.
Sou caixa de rufar
o regresso da pomba.

Veni, Creator Spiritus.
Dou a notícia ao povo.
De entre vós será Rei
o que encontrar o ovo.

Poema de Natália Correia, in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II"
Ed. Círculo de Leitores, 1993

Foto tirada da net.

21 março, 2016

Poesia


Quanta incerta esperança, quanto engano!
Quanto viver de falsos pensamentos,
Pois todos vão fazer seus fundamentos
Só no mesmo em que está seu próprio dano!

Na incerta vida estribam de um humano;
Dão crédito a palavras que são ventos;
Choram depois as horas e os momentos
Que riram com mais gosto em todo o ano.

Não haja em aparências confianças;
Entendei que o viver é de emprestado;
Que o de que vive o mundo são mudanças.

Mudai, pois, o sentido e o cuidado,
Somente amando aquelas esperanças
Que duram para sempre co’o amado.

Poema de Luís de Camões (1524-80), in "Sonetos", Bertrand Ed., 2013
Foto tirada da net.

20 março, 2016

Felicidade


"… para se tornar uma pessoa mais feliz, tem primeiro de imaginar que fazê-lo é possível.
As pessoas felizes sabem que não há garantias quanto à duração desta aventura chamada vida.
As pessoas felizes não esperam até amanhã para dar a saber às pessoas que amam que as amam, não esperam até amanhã para ver um belo pôr do sol, para ir ao campo ou para brincar com os filhos.

A vida é um dom espantoso… Não desperdice um momento precioso a produzir pensamentos sobre um passado doloroso ou um futuro imaginado. Quando este tipo de pensamentos surge, perceba que são meros pensamentos e que não precisa de ter medo deles.
A vida deve ser vivida um momento de cada vez.
A vida não é uma emergência e sim uma aventura.

Não existe um «caminho para a felicidade». A felicidade é o caminho. A felicidade é um sentimento em que a pessoa se envolve e não um resultado dos acontecimentos.
A felicidade é um sentimento, nada mais e nada menos que isso.
As pessoas felizes estão demasiado ocupadas a ser felizes e a apreciar a vida para perderem tempo a analisar a infelicidade que sentem de vez em quando.
Seja feliz e dê valor à vida."

Tirei daqui: “Sinta-se feliz de novo”, de Richard Carlson, Ed. Pergaminho, 2002
Pintura de Carlos Reys, Portugal (1937-)

18 março, 2016

"Poder, liberdade e graça" - Deepak Chopra

Não se deve confundir o instrumento com quem o usa.
O instrumento é o cérebro; o seu utilizador é o Ser infinito, que se exprime sob diferentes formas.

“O reino dos céus não é um sítio remoto numa parte longínqua do Universo: é um estado de alma e de consciência. A felicidade é igual. A maioria das pessoas diz: “Sou feliz porque… porque tenho família e amigos, porque tenho um bom emprego, porque tenho dinheiro e segurança.” Todas estas razões para a felicidade são frágeis, podem desaparecer como a brisa que passa. E quando a felicidade nos foge, muitas vezes procuramos a satisfação no consumo de certas substâncias ou em comportamentos menos saudáveis, na esperança inconsciente de encontrar a alegria. Mas as causas externas da felicidade nunca produzem verdadeira alegria. A alegria é um estado de espírito interno que determina a nossa perceção e experiência do mundo. A fonte interna da alegria – a nossa ligação ao Criador, a nossa origem, o nosso eu interior – é a causa, a felicidade é o efeito. Se perdeu o contacto com a sua fonte interna de alegria, se a felicidade que sente tem sempre origem em coisas exteriores a si, então está à mercê de cada situação que vive e de cada pessoa que conhece. O tipo de felicidade que estas causas lhe podem fazer sentir é sempre fugidio. Vedanta, um dos mais antigos filósofos do mundo, dizia que a felicidade por um dado motivo não passa de uma forma de infelicidade, porque o motivo pode desaparecer a qualquer momento. Ser feliz por motivo nenhum é o tipo de felicidade que devemos desejar sentir.”

Este foi o primeiro livro que li de Deepak Chopra.
Uma leitura bem diferente do habitual, que acabou por se revelar interessante e muito enriquecedora.
Sabe bem variar!

Deepak Chopra (Nova Deli, 1947), é médico, professor de ayurveda, espiritualidade e medicina corpo-mente.
Radicado nos Estados Unidos, chamado pela revista Time “poeta e profeta das medicinas alternativas”, é autor de vários livros de auto-ajuda, e mundialmente reconhecido como um dos gurus da saúde holística.

11 março, 2016

"Contos" - Eça de Queirós

“No conto tudo precisa de ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos, apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida”.
(Eça de Queirós)

Deambulava eu por uma livraria em busca de tudo e nada, quando os meus olhos poisaram em “Contos”.
Contos de Eça de Queirós?!
Como sou louquinha por contos rejubilei de contentamento, mas logo corei de vergonha por desconhecer que Eça de Queirós tinha feito uma incursão pelas pequenas histórias.
Recuperada, horas depois deliciei-me com vinte e três retratos satíricos da sociedade portuguesa oitocentista, para ele: “uma sociedade onde os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos”.
Pois é, Eça de Queirós (1845-1900) um dos nomes grandes da literatura portuguesa, advogado, jornalista, diplomata, senhor de uma escrita impecável, usou como poucos o humor, a subtileza e a ironia para fazer crítica política e social.
Eis algumas "alfinetadas", que primam pela inegável actualidade:

- É simples e bom este homem.
Nunca será nada, nunca há-de passar de um desgraçado homem honrado. Tem a alma toda vestida de farrapos de virtude, que nem o hão-de canonizar nem o hão-de deixar enriquecer. Não compreendem, estes homens, que toda a vida é um logro, desde Cristo, que especulou com a alma, até Napoleão, que especulou com as balas.
(O réu Tadeu)

Meus amigos. A literatura em Portugal está a agonizar: morre burguesmente e insipidamente: nem ao menos tem os efeitos de luz extravagantes de todos os ocasos celestes.
É uma doidice o querer pensar, criar e criticar, nesta terra onde nascem as laranjeiras, como diz a cantiga de Mignon. Se ainda houvesse cabelos, seria muito preferível ser fabricante de caixinhas e banha.
Seria mesmo talvez melhor a profissão de poeta lírico, se não fosse uma profissão perigosa. Ainda há pouco, um pediu em casamento não sei que doce açucena, moradora na Baixa; o pai dela interrompeu a história dos idílios sacrossantos e municipais para perguntar ao namorado gentil qual era a sua profissão. «Sou poeta lírico», respondeu ele, «e vivo do meu estado.» - O velho ergueu-se de golpe, tomou uma bengala e espancou o poeta lírico, laureado em três cançonetas exóticas.
(O Milhafre)

Quando um País abdica assim nas mãos de um Governo toda a sua iniciativa e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz lhe vem do Sol, esse País, está mal; as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a acção. E como o Governo lá está para fazer tudo – o País estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas, quando acorda…
(A catástrofe)

Conhecem o Diabo?
Não serei eu quem lhes conte a vida dele. E, todavia, sei de cor a sua legenda trágica, luminosa, celeste, grotesca e suave!
(O Senhor Diabo)

Leia e surpreenda-se!

Contos, de Eça de Queirós
Bertrand Ed., 2008
527 págs.

"Zona" - Nuno Moreia (fotógrafo) e José Luís Peixoto (escritor)


"ZONA é um projecto de edição do fotógrafo Nuno Moreira com a participação do escritor José Luís Peixoto.

O fotógrafo Nuno Moreira inaugura a partir de 5 de Março, uma exposição e lançamento simultâneo do seu mais recente foto-livro "ZONA", realizado entre Tóquio e Lisboa, reunindo 30 imagens que exploram medos, sonhos e paisagens interiores.

O livro "ZONA" trata-se de uma edição de artista limitada a 300 exemplares que foi publicada em Dezembro de 2015 e que tem como base uma performance realizada e pensada exclusivamente para o registo das imagens patentes no livro.

Com uma base conceptual as fotografias exploram paisagens interiores, partindo de um estudo sobre a psique humana e uma procura em representar de forma concreta os recantos do inconsciente.

Para além de fotografias o livro conta também com textos do escritor José Luís Peixoto inspirados no universo das imagens.

A exposição irá estar patente na Travessa da Ermida em Belém até ao dia 27 de Março."

LOCAL: Travessa da Ermida - Travessa do Marta Pinto 21, Lisboa
EVENTO NO FACEBOOK: https://www.facebook.com/events/923212541126080/933056060141728

08 março, 2016

Mulher


“Os teus olhos foram feitos para atravessar o invisível.
De outro modo, ficariam presos em todas as camadas que dão forma aos objetos; mas se souberes acrescentar e subtrair, nada deste mundo será interdito aos teus olhos, nenhum muro será suficientemente opaco para detê-los, nenhum invisível será suficientemente fino para escapar-lhes.
Acredita nos teus olhos com a mesma força com que crês naquilo que tos teus olhos veem.”

"Não poderás ensinar mais do que sabes; aquilo que souberes será aquilo que acreditares; aquilo que acreditares existirá dentro de ti, terá a forma de um mistério que nunca entenderás completamente e, no entanto, os teus filhos irão recebê-lo, de modo puro e inalterado, através dos teus olhos.
Queiras ou não, assim será.
Os olhos não permitem a mentira.”

Tirei daqui:
Em teu ventre, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2015

04 março, 2016

"A Sibilia" - Agustina Bessa Luís

Quina amava o mundo… criou asas, sem jamais poder voar…
"Aos quinze anos foi acometida duma síncope grave, prelúdio de uma longa doença.
A enferma foi cercada de mimos, de mal disfarçadas venerações.
Ela, tão pouco dada a afagos…
Ela, que até ali julgara prescindir dos respeitos, das atenções, do amor, que apenas fora uma rapariguinha activa na obediência, apagada mesmo por ser demasiado exacta, por temer salientar-se, incorrer em faltas, suscitar uma crítica, um reparo nem que fosse de louvor, compreendeu como a sua natureza vibrava com o afecto, a admiração, e como se expandia em energias apaixonadas, até derramar em volta uma influência de simpatia, de força, de irrecusável imperativo. Ela compreendeu isto, não pela razão, mas pelo sentimento. Sentiu que não podia perder jamais aquele privilégio que subitamente a revelava como algo de distinto e à parte de todos os outros. A doença fez-se invalidez, estorvo para o regresso à vida normal que a devolveria à mediocridade e à sombra; adquiriu uma forma de se expressar sibilina e delicada, que deixava suspensos os ouvintes, as almas estremecendo numa volúpia de inquietação, curiosidade e esperança."

A Sibila”- Prémio Eça de Queiroz, 1954 - narra a história de três gerações da família Teixeira, agricultores  proprietários da secular casa de Vessada, na zona de Amarante,
Em dezanove capítulos, uma sucessão de acontecimentos desvenda as venturas e as desventuras da família, no período compreendido entre 1850 e 1950: o primeiro encontro e casamento de Francisco Teixeira e Maria Encarnação; a perda das três primeiras gravidezes de Maria; o incêndio da Vessada; o nascimento dos filhos Justina (Estina), Joaquina Augusta (Quina), Balbina, Abílio, João e Abel; as adversidades que levam a Vessada à falência, muito por culpa da irresponsabilidade e fanfarronice estroina de Francisco Teixeira, homem volúvel, fraco, mulherengo.
No centro da narrativa está Joaquina Augusta (Quina, a Sibila), a criança que cresce excluída de carinhos, a mulher de virtude, pequenina, tímida, de feições rudes, trabalhadora, influente, vingativa, ambiciosa, dominadora que, mesmo na condição de paralisada, readquire o património perdido, investe em novas propriedades, restaura a casa onde nasceu.
Aos cinquenta e nove anos, Quina, no apogeu das suas faculdades de administradora de propriedades e riquezas em rendosos dinheiros, solteira, apesar da grande corte de pretendentes é, por mérito próprio,  dona e senhora da casa de Vessada, Ali morrerá, aos setenta e seis anos, no mais triste isolamento. Doente, recolheu-se ao sofrimento, sem avisar a família, sem aceitar a companhia de amigos. Na casa de Vessada, para ela sempre a doce evocação do pai, nada receava.
Em testamento ela indicou Germa, a sobrinha mais amada, sua herdeira absoluta.
A Custódio coube o usufruto de duas propriedades acrescentadas ao património da família.
Mas quem é Custódio? Eu sei, mas não desvendo.
Leia o  romance e alguém lho apresentará...
- Viva a voeirinha, a sibila!

A Sibila, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Ed., 1954
249 págs.

01 março, 2016

13º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


154-(1918?)
“A mais vil de todas as necessidades – a da confidência e da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior.
Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos seus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que dizes, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir-se é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.”

155-(1918?)
"Não tenho uma ideia de mim próprio; nem aquela que consiste numa falta de ideia de mim próprio. Sou um nómada da consciência de mim. Tresmalharam-se à primeira guarda os rebanhos da minha riqueza íntima."


Leia (tudo) e… deslumbre-se!