31 julho, 2015

12º (e último) - Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?


"João Mau-Tempo está deitado. Hoje será o dia da sua morte. Estas doenças de gente pobre são quase sempre indefiníveis, vêem-se os médicos em extremas dificuldades para redigir a certidão de óbito, ou então simplificam, em geral morre-se duma dor, duma nascida, como é que se poderá traduzir isto em noções claras de classificação nosológica, nem lhes valeu a pena andar tantos anos na faculdade. Dois meses esteve João Mau-Tempo no hospital de Montemor, não lhe serviu de muito, nem o defeito seria dos cuidados que mereceu, há salvações impossíveis, trouxeram-no de lá para vir morrer a casa, não é que seja um morrer diferente, mas decerto vai ser outra serenidade, este cheiro da sua própria cama, as vozes de quem passa na rua, e o rumor da criação na capoeira quando ao entardecer se acomodam as galinhas nos poleiros e o galo agita violentamente as asas, pode haver saudades disto no outro mundo."

Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

O título do livro nº 11 é:
A viagem do elefante”, Editorial Caminho, 2008

30 julho, 2015

Carta de Adelina… em “Manual de pintura e caligrafia”, de José Saramago


“Sei que não procedo bem dizendo-te por carta o que vou dizer-te. Pensei falar-te antes de vir aqui, e não tive coragem. E desse há oito dias que digo a mim própria que falarei contigo quando regressar a Lisboa, mas também não terei coragem. Não que eu pense que terás desgosto. Não que eu sinta que me custaria mais do que sempre estas coisas custam. Ambos já vivemos muito, ou o suficiente para não haver grandes novidades, mas a verdade é que difícil olhar para uma pessoa a quem quisemos, não importa por que razões, e dizer: «Agora já não te quero.» É isto que tinha para te dizer. Já não te quero. Podia limitar-me a estas palavras. Estão escritas e eu sinto-me muito aliviada. Ainda não pus a carta no correio, mas é como se já a tivesses recebido. Não vou voltar atrás, e por isso, se calhar, é que resolvi arrumar este assunto por escrito, por carta, de longe. Se estivesse ao pé de ti, talvez me acobardasse. Assim, tu ainda não sabes, mas eu já sei: acabámos a nossa ligação. Surpreender-te-á esta decisão? Não creio. Desde há uns tempos, ou talvez desde sempre, vejo-te fugidio, reservado, recolhido em ti mesmo, como se estivesses no meio de um deserto e quisesses estar nesse deserto. Não me queixo. Nunca me empurraste para fora da tua vida, mas, embora eu não seja muito inteligente, as mulheres pressentem e adivinham. Apertar-te nos braços e sentir que não estás lá, é uma coisa que suportei até certa altura. Não sou capaz de suportar mais. Peço-te que não fiquemos inimigos. Não precisamos de ficar amigos. Talvez eu ainda goste de ti, mas não vale a pena. Não valer a pena, acho eu, é o pior de tudo. As pessoas podem amar e sofrer muito por isso, mas valer a pena. Essas devem conservar o amor que têm, mesmo tendo de continuar a sofrer mais. O nosso caso é diferente. Tivemos uma ligação como muitas, que acaba como merece. Sou eu que decido, mas sei que também desejarias acabar. Apesar de tudo, eu tenho pena. Todas as coisas podiam ser diferentes do que são se não lhes faltasse a diferença, aquela diferença das coisas, aquilo que as distingue muito. Percebo que já estou a escrever de mais. Adeus. Adeus. P.S. – Acho que deves continuar a escrever. Desculpa. Não tenho o direito de dizer isto, uma vez que a tua vida já não me diz respeito. Mas a tua vida alguma vez me disse respeito?”

Grande, colossal, magnânimo, José Saramago!

28 julho, 2015

"A sombra da esperança" - Tomaz Falcão

Quem sofre
Escreve
Quem sonha o que não tem
Não sucumbe ao desdém
“A sombra da esperança” é um pequeno grande livro de poemas, de um jovem poeta do Porto.
Senti um certo desencanto na sua poesia, mas encheu-me o coração ler um poeta que se mostra por inteiro nos versos que escreve.
Versos carregados de emoção, onde o tema central - o amor – rima muitas vezes com dor, tristeza., ilusão, frustração.
Venham mais livros de poemas… sem tanta apoquentação.

Numa noite de S. João
Conheci o poeta Tomaz Falcão
Viva, rimei!

No Altar do Desamor
Quem mais se atormenta
Do que amando
Não tendo conquista?

Que dor maior
À da paixão
Sem gratidão?

Quem deseja ser
O náufrago
Que nunca aporta?

Quem quer sofrer
Sem cúmplice
A desventura do coração?

E mesmo assim
Não abandona
A sua própria solidão

Lançado no Vazio
Supões valor
No testemunho
Do meu amor
Sem teu cunho

E não te lembras
Que sem mostra tua
Roubas
À noite a Lua

E que o meu Céu
Que és tu
Tolda-o o véu
Do teu coração cru

Porque teu sorriso
A luz perdeu
Que sabia preciso
À paixão que ardeu

25 julho, 2015

"O livro dos amores risíveis" - Milan Kundera

Qualquer vida humana tem um significado incalculável.
Se gosta de ler pequenas histórias bem imaginadas, bem contadas, hilariantes e viciantes, tem de ler este livro de Milan Kundera, escrito entre 1958 e 1968 mas actualíssimo.
Não se deixe enganar pela ligeireza do título – “O livro dos amores risíveis” – pois o tema, comum às sete histórias, é sério e gerador de grande polêmica: o relacionamento humano.
Os títulos nada dizem sobre o conteúdo divertidíssimo das histórias:
. Ninguém se vai rir
. A maçã de outo do eterno desejo
. A falsa boleia
. O colóquio
. Que os velhos mortos deem lugar aos jovens mortos
. O doutor Havel vinte anos depois
. Edouard e Deus
Leia uma a uma, devagar, devagarinho. Saboreie o rigor da narrativa irônica e mordaz numa escrita impecável. Encontrará situações divertidíssimas, diálogos brilhantes, personagens convincentes, muita sedução, muito sexo, desejo, amor, ilusão, traição, solidão. 
Também encontrará, lá pelo meio, revelações angustiantes, menos risíveis. Não é assim a vida? Feita de amores e desamores? Feita de sorrisos amargos?
Não, não vou desvendar a trama das histórias. Vou deixar que as leia para sorrir tanto quanto eu sorri.
Bom, com “Ninguém se vai rir”, a primeira, eu não sorri, eu soltei boas e sonoras gargalhadas. É umas das histórias mais engraçadas que eu já li (e já li muitas!). Dificilmente esquecerei o azarado professor de História de arte.
De “O colóquio” retirei este diálogo de dois amantes, porque gostei:

“- Elisabeth, Elisabeth, minha querida. Trouxe estas rosas para ti.
Elisabeth olhava para Fleischman boquiaberta e disse:
- Para mim?
- Sim, para ti. Porque me sinto feliz por estar aqui contigo. Porque me sinto feliz por tu existires. Elisabeth. Talvez te ame. Talvez te ame muito. Mas é talvez mais uma razão para nos ficarmos por aqui. Penso que um homem e uma mulher se amam mais quando não vivem juntos e quando só sabem um do outro uma única coisa: que existem e que se sentem reconhecidos, um ao outro, por existirem e saberem que existem. E isto basta-lhes para serem felizes. Obrigado, Elisabeth, obrigado por existires.
Elisabeth não entendia nada mas sorria com um sorriso alvar, um sorriso estúpido, cheio de uma vaga felicidade e de uma vaga esperança.”

É assim… noventa e nove por cento das palavras que se pronunciam são palavras vãs.
Há que esquecer, rir, e seguir em frente. 
Eu ri, ri, ri com estes amores risíveis. Leia também e divirta-se.

(Comprei pela primeira vez “O livro dos amores risíveis” em 1990, numa edição da Dom Quixote. Em 1998, emprestei-o e “perdi-o” para sempre. Comprei agora esta edição da BIS (Leya). 
Por onde andará  o meu primeiro amor (risível)... perdão, livro?!)

O livro dos amores risíveis, de Milan Kundera
Ed. BIS (Leya), 2014
255 págs.

21 julho, 2015

"Conversas com Deus" - Neale Donald Walsch

Amo-Te, sabes?
Eu sei que amas. E eu a ti.

"É preciso muita coragem para alguém se anunciar como homem de Deus. Sabes que o mundo te aceitará muito mais facilmente como praticamente quase tudo – mas como homem de Deus?! Um vero mensageiro? Todos os mensageiros foram enxovalhados. Longe de se cobrirem de glória, tiveram foi uma data de desgostos.
Estás disposto a isso? Custa-te dizer a verdade sobre Mim? Estás pronto a aceitar o escárnio dos outros? Estás preparado para abdicar da glória da Terra pela maior glorificação da alma plenamente realizada?

-  De repente estás a fazer com que tudo isso pareça muito difícil, Deus.
Queres que te iluda?

-  Bem, podíamos animar um bocadinho as coisas.
Eh, Eu sou todo pela animação! Porque não encerramos este capítulo com uma anedota?

-  Boa ideia. Tens alguma?
Não, mas tu tens. Conta-Me aquela da menina que está a fazer um desenho…

-  Ah, sim, essa. Está bem. Bom, uma mãe entra um dia na cozinha e encontra a pequenita à mesa, lápis de cor por todo o lado, profundamente concentrada num desenho livre que está a fazer. “Ena, que estás a desenhar?”, perguntou a mãe. “É um retrato de Deus, mamã”, respondeu a linda garotinha com um brilho nos olhos. “Isso é muito bonito, minha querida”, replicou a mãe, tentando esclarecê-la, “mas olha que ninguém sabe como Deus é.”
“Bom”, chilreou a garotinha, “se me deixares acabar…”
Ora aí está uma bela anedotazinha. Sabes o que é mais bonito? A garotinha nunca duvidou que soubesse exactamente como havia de retratar-Me!"


Imagine que fazia perguntas a Deus e  Ele lhe dava respostas claras e cheias de humor.
Imagine…
Neale Donald Walsch – escritor norte-americano reconhecido na área da espiritualidade – imaginou, rabiscou e publicou três livros, sob o mesmo título, com as longas conversas que teve com Deus
Eu li apenas o primeiro (256 páginas).
Αρκετά! (Bastou!, em Grego.)

19 julho, 2015

"A balada de Adam Henry" - Ian McEwan

Ou recomeçamos a viver, a viver a sério, ou desistimos e aceitamos que vai ser uma tristeza daqui até ao fim.
Vida, morte, doença, justiça, religião, música, poesia, amor, paixão, infidelidade, vergonha, sabedoria, subtileza, humanidade, ética profissional - de tudo isto é feito este romance, baseado num caso verídico ocorrido em 1993. Vejamos:

«distância divina, compreensão diabólica, e, mesmo assim, bonita», é como o Presidente do Supremo Tribunal se refere a Fiona Maye, juíza do SupremoTribunal, reconhecida pela inteligência arguta, o rigor, a prosa viva e a sensibilidade com que julga casos da Divisão de Família.
Fiona Maye, é a protagonista do novo romance de Ian McEwan, “A balada de Adam Henry”, (“The Children Act”, no original).
Tem cinquenta e nove anos, um casamento de trinta com Jack, o namorado da adolescência, toca piano, gosta de literatura e da sua profissão. Muito!
Não tem filhos por opção (os remorsos consomem-na agora), mas dedica-se aos filhos dos outros, quando luta empenhadamente pelo bem-estar das crianças em casos complexos e perversos de divórcios onde pais lutam pela custódia dos filhos, por casas, pensões, rendimentos, heranças.
O marido, professor de História da Antiguidade, sempre compreendeu as suas ausências e sempre a apoiou para que pudesse julgar com sensatez e serenidade. Ele fora sempre carinhoso, leal e carinhoso, e o carinho. Como a Divisão da Família provava diariamente, era o ingrediente humano essencial.
Mas… vamos ao início do romance.
Londres, numa tarde de domingo de Junho, Fiona está deitada numa chaise longue. No chão estão espalhadas folhas de um processo complexo que tem de analisar – o divórcio de um casal de judeus, desigualmente ortodoxos, a luta pela educação da filha.
A beber um Talisker com água da torneira, Fiona tenta recuperar da revelação chocante feita pelo marido, da proposta escandalosa que se seguiu e da pergunta que ele lhe fez e a que ela não soube responder:
- Fiona, quando fizemos amor pela última vez?
Está em choque, irritada, dominada por um medo antigo – não podia, não queria, passar o resto da vida sozinha – sem saber o que dizer ou fazer, quando o telefone toca. Automaticamente, atende, é Nigel Paulind, o seu secretário, com um pedido de emergência do hospital Edith Cavell, de Wandsworth - necessitam de uma ordem judicial para fazer uma transfusão de sangue a um doente oncológico, cuja família, por preceitos religiosos é contra o tratamento médico que lhe pode salvar a vida. O doente é Adam Henry, um adolescente de dezassete anos (a três meses de completar dezoito). Como os pais, também ele é Testemunha de Jeová e, como eles, também recusa o tratamento.
Este telefonema faz Fiona esquecer a agitação, indignação, cólera e tristeza da desavença conjugal. Mais tarde analisará o comportamento do marido. Agora, tem de pensar, ouvir os intervenientes, agir e decidir razoável e legalmente. 
Quer ver o rapaz com os seus próprios olhos. Vai visitá-lo ao hospital. Encontra um jovem crente, preparado para morrer, inteligente, adorável, escritor de poemas e a aprender violino. No quarto do hospital ele tocou para ela. Ela cantou para ele. Depois, disseram adeus. Para sempre?
Fiona, a mulher de cinquenta e nove anos abandonada, na primeira infância da velhice, ainda a aprender a gatinhar, tem em mãos um caso urgente e complexo. No tribunal, redige a sentença.
Vai haver transfusão ou não?
Vai Fiona respeitar a fé de Adam?
Vai salvá-lo?
E, já agora, o seu casamento desmorona ou conseguirá a “Meritíssima” resolver uma questão pessoal?
Saberá tudo se ler este “religioso, musical e judicial” romance. 
Mais, saberá quem escreveu o poema (e que poema!) de onde tirei este verso:
Quem afunda a cruz à vida porá termo.

Trama excelente. Escrita brilhante.
Gostei… mas continuo a eleger “Sábado” como o melhor de Ian McEwan. Um dia destes vou relê-lo.

A balada de Adam Henry, de Ian McEwan
Tradução de Ana Falcão Bastos
Ed. Gradiva, 2015
190 págs.

14 julho, 2015

"Cartas de amor de Fernando Pessoa"

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
(Primeira estrofe de um poema de Álvaro de Campos)

Meu Bébé pequenino:
Pelo papel vês de onde te estou escrevendo. Refugiei-me aqui da chuva, e, como por isso atrazei varias cousas que tinha que fazer, não poderei ir ás 6 horas a Belem acompanhar a Nininha até Lisboa.
Estou um pouco melhor (de saúde, não de juízo), mas ainda me sinto bastante mal disposto.
Amanhã (salvo doença ou outra cousa que estorve) passo na tua rua entre as 11 e as 11.30. Se o Bébézinho quizer estar á janella, vê o Nininho passar. Se não quizer, não o vê (É author destas ultima frase o meu querido amigo Alvaro de Campos).
Que pena a fabrica em Belem não ter telephone. Se tivesse eu poderia avisar-te de que não ia, nos dias em que não pudesse ir; e excusava a Ibis do Ibis de esperar pelo Ibis.
Adeus, Bébé queridinho: muitos beijinhos do mau e sempre teu
Fernando
22/5/1920

Meu Bébé pequenino:
Então o meu Bébé fez-me uma careta quando eu passei?
Então o meu Bébé, que disse que me ia escrever hontem, não me escreveu?
Então o Bébé não gosta do Nininho? (Não é por causa da careta, mas por causa de não escrever)
Olha, Nininha; e agora a sério: achei que tinhas um ar alegre hoje, que mostravas boa disposição. Também pareces ter gostado de ver o Ibis, mas isso não garanto, com medo de errar.
Ainda fazes muita troça do Nininho? (A. De C.).
Não sei se irie amanhã a Belem; o mais provável, como te disse, é que vá. Em todo o caso, já sabes: depois das 6.30 não apareço, de modo que escusas de esperar pelo Ibis para alem dessa hora.
Ouvistaste?(sic)
Muitos beijos e um abraço á roda da cintura do Bébé.
Sempre e muito teu
Fernando
6/5/1920

Foi bom reler a meia centena de cartas de amor reunidas neste livro, que tem posfácio e notas de David Mourão-Ferreira, e preâmbulo de Maria da Graça Queiroz (sobrinha-neta da destinatária das cartas).
As cartas -  ternurentas, comoventes, bem-humoradas, respeitosas - são de Fernando Pessoa (1888-1935) para Ophélia Queiroz (1900-91), sua única namorada conhecida.
Casaram-se? Não!
Fernando Pessoa nunca se casou.
Ophélia casou-se, com um homem do teatro, três anos após a morte de Fernando.
E como foi que se conheceram? E como foi o namoro?
Ela desvenda tudo sobre o convívio de ambos, num emocionante testemunho:
Como conheci o Fernando 
Respondi a um anúncio do «Diário de Notícias».
Tinha 19 anos, era alegre, esperta, independente e, contra a vontade de meus Pais e família, resolvi empregar-me.
Conheci o Fernando no dia em que me apresentei ao anúncio… um senhor todo vestido de preto… com um chapéu de aba revirada e debruada, óculos e laço no pescoço. Ao andar, parecia não pisar o chão. E trazia – coisa mais natural – as calças entaladas nas polainas. Não sei porquê, aquilo deu-me uma terrível vontade de  rir…
Foi esta a minha primeira imagem do Fernando.
O Fernando adorava-me, e tinha uns repentes de paixão que me assustavam, mas que ao mesmo tempo me divertiam.
Era duma delicadeza e duma ternura imensa. (...)
Um poeta solitário - apaixonado. 
Estranho? Não, lindo!

10 julho, 2015

"Manual de pintura e caligrafia" - José Saramago

Com a idade aprendemos a cuidar das palavras.
Finalmente li “Manual de pintura e caligrafia”, de José Saramago.
Publicado pela primeira vez em em 1977 - tinha o escritor cinquenta a sete anos - este seu segundo romance chegou às livrarias trinta anos depois da publicação de “Terra do pecado”, o primeiro.
Seguiram-se “Levantado do chão”, “Memorial do convento” e “O ano da morte de Ricardo Reis”, romances que o foram afirmando como escritor, depois consagrado com o Prémio Nobel de Literatura, 1998.
Porquê só agora, se o comprei na Feira do Livro de 1993, onde consegui uma dedicatória do escritor?
Não sei explicar. Talvez o título me tenha enganado estes anos todos. Manual?! Manual de quê?
Afinal, não é um manual, não. É antes um tratado sobre pintura, escrita, viagens, amizade, amor. Um verdadeiro tratado, ou manual, como queiram, sobre a imitação da vida através da arte.
Sei muito bem quem sou, um artista de baixa categoria que sabe do seu ofício mas a quem falta génio, sequer talento, que tem mais que uma habilidade cultivada e que percorre sempre os mesmos sulcos, ou para junto das mesmas portas, mula puxando a carroça duma qualquer costumada distribuição.
Eis H. (um simples H., não mais), o protagonista desta narrativa autobiográfica, um pintor retratista desiludido, de cinquenta anos de idade, a passar por uma crise existencial, em Lisboa, nos últimos anos da ditadura salazarista.
… não gosto da minha pintura: porque não gosto de mim e sou obrigado a ver-me em cada retrato que pinto, inútil, cansado, desistente, perdido…
Mas, quem escreve? Também a si se escreverá?
Quando tenta conhecer as razões que levam as pessoas a escrever, encontra-se, e inicia a escrita de histórias sobre a gente fina que pintou; os amigos que juntou; as mulheres que fingidamente amou (como a Adelina, com quem apenas se deita, para relações sexuais, claro; os lugares por onde andou (declaro que sempre entrarei em Itália em estado de submissão total, de joelhos).
Mas... provavelmente, nenhuma vida pode ser contada, porque a vida são páginas de livro sobrepostas ou camadas de tinta que abertas ou descascadas para leitura e visão logo se desfazem em poeira, logo apodrecem…
Será?
Leia, para saber  tudo sobre o retratista que virou escritor, o tal que descobriu inesperadamente que a perfeição existe e que a realidade é intraduzível porque é plástica, dinâmica.
Quem retratou? Quem amou? Por onde andou? 
Eu sei tudo mas nada digo.
Vá lá...  leia e festeje no final da narrativa: O regime caiu. Golpe militar, como se esperava. 
Gostei muito, muito, muito, deste matizado romance.
Aconselho, claro!

Manual de pintura e caligrafia, de José Saramago
Ed. Caminho, 1983
311 págs.

04 julho, 2015

"Metade da coisa" - Manuel de Sousa Falcão



“Metade da coisa" foi-me oferecido pelo autor, na passada noite de São João, no Porto.
É um pequenino livro de poemas – encantadores - que se devora num ápice.
Um livro feito de uma capa negra e páginas (ou telas?) onde os versos escritos mais parecem pintados.
Gostei de conhecer o poeta-pintor Manuel de Sousa Falcão. 
E gostei de conhecer a família dele. Linda!
Fico à espera de outros livros. E de mais sardinhadas... e balões...
Leiam / admirem este poema:

Esse dia
Que contava com tudo
Fiquei (só) só
Na grande cidade.
Eu sabia (então e os sinais anteriores?) e enganava-me.
Previsível
Geometria
Essa disciplina!
Que-estudei-usei-ensinei
Que-custou-em-qualquer-dos-lados
Que gostei,
Tanto quanto a dificuldade
Em trabalhar
O rigor (apaixona-me o rigor!).
Mas atrai-me (atrai-me! Sabes? Atrai (s) -me)
Mais
Tomar-me o espanto!
E fui.
Mas só eu a seguir.
Observei (-me / -te e) tudo a passar,
Tudo a mudar,
Tudo a acabar.
E depois
Outra-vez-e-outra-e-ainda-outra-e-o-mesmo
(Outra-vez-e-outra-e-ainda-outra-e-o-mesmo-!)

E este:
Eu tento
Misturo
Escondo
Evidencio
Invento
Experimento
Construo
Desfaço
Recomeço

Eu tento
Ai eu tento

Não sei de onde me vem o alento.

E mais este:
Releio tudo o escrito,
Talvez com o mesmo empenho-e-pasmo
Do investigador,
Curtos escritos que não prometem o meu sonho,
Curtos escritos que não dão origem a.
Mas com o toque da fazenda adornada
E o belo que ela pode ocultar
Levantada-afinal-nada-,
E por outro caminho?
Então voltar a cada sítio
(Onde o que veio a seguir,
foi a decisão de ir) e:
vazio-, -agora só-, -sorrio-.
Vale-a-pena continuar-?
Então relembrar os diálogos:
De que são feitos?
(De que são feitos os diálogos?)
Não consigo saber.
Gostava de morar ai.
Demorar-me ai.