24 abril, 2015

"Ensaio sobre a cegueira" - José Saramago

Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
Este diálogo entre o médico e a mulher do médico, aparece na última página do romance. Romance que relata um estranho fenómeno de “cegueira branca” que assola uma cidade.
Tudo começa com um homem dentro do carro parado num sinal vermelho. Quando o sinal muda para o verde ele não avança e grita: Estou cego. Fica a ser O primeiro cego.
Logo depois, cega o homem que se oferece para o levar a casa e lhe rouba o carro – o ladrão.
Depois, é o médico a quem o primeiro cego diz ver uma cor branca leitosa, densa, como se se encontrasse mergulhado de olhos abertos num mar de leite.
Depois, é a rapariga dos óculos escuros, diagnosticada pelo médico com uma simples conjuntivite.
Depois, depois, depois…
Para evitar o contágio do mal-branco as autoridades governamentais decidem isolar num mesmo local as pessoas que cegam, e também quem tivesse estado em contacto com elas. Escolhem um manicómio abandonado e isolado, com condições de segurança.
O médico e a mulher (que continua a ver mas se faz passar por cega para acompanhar o marido) são os primeiros a ser levado para lá.
Rapidamente o manicómio fica cheio de gente. Gente boa (dominada) e gente muito má (dominadora). Gente cujo comportamento a mulher do médico observa como se estivesse por trás de um microscópio. Gente que não pode saber do seu segredo - ver e não ser vista - e isso pareceu-lhe subitamente indigno e obsceno. Gente abandonada à sua triste sorte. Gente que vai viver experiências terríveis.
Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais, diz, repetidamente, a mulher do médico. Nem todos a ouvem. Até um dia.
Tu não és cega, a mim não me enganas. Talvez eu seja a mais cega de todos…

Romance para ler, pensar e reflectir.
Sobre ele já tudo foi escrito, dito e até mostrado em filme, logo, eu fico por aqui.
Que estranha história! Estranha mas séria, sobre o comportamento do ser humano face a situações extremas. História bem imaginada e muito bem contada. Só mesmo Saramago se lembraria de uma “coisa” assim.
Ainda bem!

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago
Ed. Caminho, 1995
310 págs.

21 abril, 2015

Vale a pena ler... Umberto Eco

Quando descobriu em si o impulso narrativo, a vontade de contar?
Escrevi a primeira novela aos 15 anos. E passei a adolescência a escrever novelas, que começava e não acabava porque era tão meticuloso que queria que parecessem impressas. Fiz também alguma banda desenhada e escrevi poesia, mas isso não conta porque a poesia entre os 16 e os 20 anos é como a masturbação. De facto, tive sempre este impulso narrativo e quando apresentei a minha tese de doutoramento – sobre a Estética de São Tomás de Aquino – um dos meus professores disse que havia nela algo de curioso: quando alguém faz uma pesquisa, chega a certas conclusões e fixa-as no papel. Eu, pelo contrário, estava a contar a história da minha pesquisa como se fosse uma história de detetives. Para ele isto era uma falha para mim é uma virtude. Todos os meus ensaios tinham esta estrutura narrativa e, num sentido, estava a escrever romances sem o saber. Provavelmente comecei a escrever romances porque os meus filhos cresceram e já não podia contar-lhes histórias. Arranjei outra maneira.

Só aos 48 anos publicou “O Nome da Rosa”.
Adiei o momento de contar histórias porque tinha outras coisas para fazer. Só depois de ter feito tudo o que queria – o meu lugar na universidade, os ensaios publicados, dois filhos – perguntei-me: “O que vou fazer agora?”. Vou contar histórias.


Na entrevista concedida a Luciana Leiderfarb, e publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 18 Abril 2015, Umberto Eco fala sobre a  infância, a escrita, a Europa e... o novo romance "Número Zero" (sobre os limites do jornalismo), em Maio nas livrarias portuguesas. 
Vale a pena ler na íntegra.

17 abril, 2015

"A história do amor" - Nicole Krauss

Era uma vez um rapaz que amava uma rapariga, e o riso dela era uma pergunta que ele queria passar a vida inteira a responder.
É lindíssimo este romance. Lindo, misterioso, desconcertante.
Entrelaça memórias de Leo e de Alma, narradores de uma história original, cheia de ternura, amor e humor.
Leo Gursky é um velho e solitário judeu polaco a viver na América, que tenta sobreviver mais algum tempo, batendo no radiador todas as noites  para dar a saber ao seu vizinho de cima que ainda está vivo. 
Muitos anos passaram desde o seu nascimento numa aldeia polaca. Aldeia onde aos dez anos se enamorou de uma menina da mesma idade e pediu-a em casamento. Amavam-se. Tinham dezassete anos quando o pai da rapariga a mandou para a América. Ele ficou. No verão de 1941 foram mortos milhares de judeus. Ele passou três anos e meio escondido na floresta, a pensar na rapariga. Tornou-se invisível e escapou  à morte. E escreveu um livro sobre o amor que o salvou.
Embora ele o não saiba, esse livro também sobreviveu, atravessou oceanos e gerações e mudou vidas.
Vai saber, antes de morrer.
Alma Singer. Assim chamada em honra de todas as personagens femininas de um livro chamado A História do Amor. Livro escrito por um jovem polaco de vinte anos apaixonado. Livro que a mãe lia e relia sem cessar.
Leo e Alma. O que os une?
Mistério!

Cito Alma, porque gosto:
SEMPRE QUE EU SAÍA PARA BRINCAR, A MINHA MÃE QUERIA SABER EXACTAMENTE ONDE É QUE EU ESTAVA
"Quando eu entrava, ela chamava-me ao seu quarto, tomava-me nos braços, e cobria-me de beijos. Afagava-me o cabelo e dizia, «Gosto tanto de ti», e quando eu espirrava, ela dizia, «Santinho, sabes como eu gosto de ti, não sabes?», e quando eu me levantava para ir buscar um lenço de papel ela dizia, «Deixa estar que eu vou-to buscar, gosto tanto de ti», e quando eu procurava uma caneta para fazer os trabalhos de casa ela dizia, «Usa a minha, tudo por ti» e quando eu tinha uma comichão na perna ela dizia, «É aqui neste sítio, deixa-me dar-te um abraço», e quando eu dizia que ia subir para o meu quarto ela vinha atrás de mim e dizia, «O que é que eu posso fazer por ti, gosto tanto de ti», e eu tinha sempre vontade de dizer, embora nunca o dissesse: não gostes tanto de mim."

O MURO DE DICIONÁRIOS ENTRE A MINHA MÃE E O MUNDO TORNA-SE MAIS ALTO A CADA ANO QUE PASSA
"Às vezes as páginas dos dicionários soltam-se e juntam-se aos seus pés, chalmugra, chalo, chaloca, chalorda, chalota, chalrar, chalreada, como as pétalas de uma flor imensa. Quando eu era pequena pensava que as páginas no chão eram palavras que ela nunca mais poderia voltar a usar, e tentava colá-las novamente no sítio onde pertenciam, com medo que um dia ela ficasse sem palavras."
Há mais, muito mais.
Procure. Deslumbre-se.

A história do amor, de Nicole Krauss
Tradução de Pedro Serras Pereira
Ed. Dom Quixote, 2006
319 págs.

14 abril, 2015

Citações e Pensamentos de Manuel Maria Barbosa du Bocage - Paulo Neves da Silva

FADOS SÃO AS PAIXÕES, SÃO AS VONTADES
Vós, crédulos mortais, alucinados
De sonhos, de quimeras, de aparências,
Colheis por uso erradas consequências
Dos acontecimentos desastrados.

Se à perdição correis precipitados
Por cegas, por fogosas impaciências,
Indo a cair, gritais que são violências
De inexoráveis Céus, de negros Fados.

Se um celeste poder, tirano e duro,
Às vezes extorquisse as liberdades,
Que prestava, ó Razão, teu lume puro?

Não forçam corações as divindades:
Fado amigo não há, nem fado escuro;
Fados são as paixões, são as vontades.

Paulo Neves da Silva pesquisou e seleccionou para publicação 180 citações, 75 reflexões e pensamentos e 100 sonetos, do grande Bocage, como diz "um dos maiores, mas simultaneamente um dos mais mal conhecidos, poetas portugueses."
Li este livro e mergulhei num turbilhão de emoções.
Obrigada!

13 abril, 2015

Günter Grass (1927-2015)


O escritor alemão Günter Grass- Prémio Nobel de Literatura 1999 -  faleceu hoje.

Em 2010 disse a José Riço Direitinho: 
"Falta-me o ânimo para escrever. Acabou o meu prazo de validade. Já escrevi tudo. Na minha idade, já  se começa a ficar surpreendido quando chegamos à próxima Primavera."

Li a entrevista publicada na revista Ípsilon, de 17 de Dezembro. Gostei e guardei.
Hoje reli.

(Ainda não li Günter Grass. Porquê?  Não sei responder. Aconteceu.)

10 abril, 2015

"Amesterdão" - Ian McEwan

Pobre Molly. Tudo começou com um formigueiro no braço no momento em que o ergueu junto do Dorchester Grill a fim de mandar parar um táxi. (…) A rapidez com que caíra na loucura e no sofrimento tornou-se o tema de todas as conversas: a perda do controlo das funções físicas e, ao mesmo tempo, de todo o sentido de humor, e, em seguida, a perda do sentido da realidade, entrecortada de episódios de violência e de gritos abafados.
Logo nas primeiras páginas desta curta novela – que valeu ao escritor o Man Booker Prize, 1998 - ficamos a par da doença, morte e funeral de Molly. Assim, de rompante. Depois, começa a história. E que história!
Molly Lane era uma conhecida figura da sociedade londrina, uma brilhante crítica de gastronomia e fotógrafa. Presentes no seu funeral, que juntou centenas de pessoas, estão quatro homens que a amaram - Clive Linley, Vernon Halliday, Julian Garmony, ex-amantes, e George, o marido. Marido que ela nunca abandonara, embora sempre o tivesse tratado mal. 
Os quatro homens conhecem-se. Clive e Vernon são mesmo grandes amigos. 
Clive é um pianista, compositor de sucesso. Foi quem primeiro conheceu Molly. Em 1969, eram ambos estudantes, apaixonaram-se e viveram juntos alguns anos. Mantiveram-se bons companheiros e gostavam de falar das suas relações, de música, de comida.
Vernon é jornalista, director do “The Judge”, jornal que necessita rapidamente de uma notícia bombástica. Conheceu Molly em 1974,em Paris. Ele conseguira o primeiro emprego na Reuters, ela fazia alguns trabalhos para a Vogue. Viveram juntos um ano. Reataram em meados dos anos 80.
Julian é um político desprezível e corrupto, candidato a primeiro-ministro. A sua relação com Molly foi recente e breve.
George, é um editor triste e rico, taciturno e possessivo. Louco por Molly, nunca pôde impedi-la de ter ligações, mas no fim teve-a só para si, quando decidiu tratar dela, selecionar as visitas e dosear a presença dos ex-amantes, quando ela já não conseguia reconhecer o seu próprio rosto no espelho.
A morte inesperada e triste daquela rapariga encantadora, aos quarenta e seis anos, vai despoletar uma série de estranhas e imprevisíveis ocorrências, que trazem ao de cima o pior dos vícios humanos – a traição pessoal.
E como acaba esta irresistível comédia negra?
Com fotos estranhas a andarem de mão em mão. Com um erro grave de discernimento editorial. Com sinfonias inacabadas. Com uma operação de coração aberto. Com medos da solidão. Com amigos que viram inimigos mortais. Com um voo de Manchester para Amesterdão. 
Amesterdão? Sim, Amesterdão, onde tudo vai acabar… mal.
Confuso? 
Ainda bem!

Amesterdão, de Ian McEwan
Tradução de Ana Falcão Bastos
Ed. Gradiva, 1999
191 págs.

07 abril, 2015

8º Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?

“Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar. Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão (…) Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde (…) não está morto foi porque eu o impedi. O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui…”

Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

O título do livro nº 7 é:
As intermitências da morte”, Editorial Caminho, 2005

02 abril, 2015

Feliz Páscoa!

PÁSCOA

Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem puder
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.

Em "Poesia Cmpleta", de Miguel Torga
Publicações Dom Quixote, 2000

(Foto tirada da net)