28 agosto, 2015

Itália, em... "Manual de pintura e caligrafia", de José Saramago


“A Itália devia ser (perdoe-se-me o exagero, se não tenho companheiros nele) o prémio de termos vindo a este mundo. Uma divindade qualquer, realmente encarregada de distribuir justiça, e não as penas, sabedora de artes, deveria murmurar ao ouvido de cada um de nós, ao menos uma vez na vida: «Nasceste? Pois vais a Itália».

“Florença é o coração do mundo, mas fechado e duro.”

“… Siena, a bem amada, a cidade onde o meu coração verdadeiramente se compraz. Terra de gente amável, lugar onde todos beberam do leite da bondade humana…”

“Roma, a gigantesca, a cidade cujas portas e janelas foram feitas para homens de três metros, a cidade que não consente que a percorram a pé, a cidade que fatiga os músculos, os ossos e (seja perdoada a heresia) o espírito. Aqui deixo esta confissão humilhada: não compreendo Roma”.

“Não têm fim os museus do Vaticano. Avança-se por dezenas de enormes salas e galerias, de rotundas, de stanze, e sempre com o remorso de estar deixando para trás, talvez para sempre, o quadro, o fresco, a escultura, o livro iluminado que provavelmente nos ajudariam, à boa paz, a compreender melhor este mundo e a vida que fazemos nele.”

“De quantas cidades conheço, Veneza é a única que manifestamente morre, que o sabe, e, fatalista, não se importa muito.”

“De tão de passagem, Nápoles deixou-me a impressão de um gigantesco engarrafamento de automóveis, de gincana de doidos mansos …”

“Por minha parte, declaro que sempre entrarei em Itália em estado de submissão total, de joelhos…"

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