31 dezembro, 2015

EXCELENTE 2016 para todos (com muitas leituras)!



ANO NOVO

Vai-se esgotando a taça do festim.
Sorvo a sorvo, no espelho de cristal
Fica apenas a baba natural,
O melaço do fim.

Ah, não haver coragem verdadeira
De se quebrar o copo antes da hora
Em que se acaba o vinho, e a bebedeira
De repente melhora!


Poema de Miguel Torga (1907-95), in "Poesia Completa", Dom Quixote, 2000
Foto tirada da net.

24 dezembro, 2015

BOM NATAL para todos!


LADAINHA PARA QUALQUER  NATAL 

Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.

Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.

Assim seja

Poema de Tomaz Kim (Lobito, Angola, 1915-67), in "Natal...Natais", antologia de Vasco Graça Moura, 2005
Foto tirada da net.

23 dezembro, 2015

Vale a pena ler... Valter Hugo Mãe

“A nossa imprensa está a estreitar-se. Fico a pensar que estreitamos o pensamento,estreitamos o país.
Recebemos cada vez mais as grandes matérias em traduções do que se pesquisa em outras latitudes, a dimensão portuguesa, ou o modo como Portugal vê o mundo, caminha tragicamente para um circuito que se fecha num universo mais e mais académico.
Talvez o pais se torne algo cada vez mais teórico, uma questão progressivamente do foro da discussão filosófica e menos aferível no quotidiano de cada um. Subitamente, vivemos territorializados, medidos como consumidores e pagadores de impostos, mas não como um colectivo detentor de uma qualquer identidade.
Viver assim é, de certo modo, estar ao desabrigo. Perigando as forças e mantendo ao nível da sobrevivência os objectivos. O problema é que a humanidade começa um pouquinho depois da fome. Até à fome somos bichos como outros quaisquer."

Excerto da crónica “Desabrigo”, publicada na “2”, revista do jornal Público de 20 Dezembro 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

22 dezembro, 2015

“O crente e o não-crente para quem JESUS SABE BEM"


A pretexto do recente lançamento de O Livro Aberto – Leituras da Bíblia (edição Cotovia), de Frederico Lourenço - um “ex-católico à procura de uma conciliação entre o pensamento racional e a figura de Jesus” - o jornalista Carlos Vaz Marques desafiou Frei Bento Domingues para uma conversa com o escritor.

"Ao lerem a Bíblia, lêem ambos o mesmo livro ou a fé, que um tem e o outro não, altera substancialmente a leitura?

Frederico Lourenço – A fé pode alterar, naturalmente, o olhar sobre os livros. Se tivermos fé, e sobretudo se estivermos a ler o livro de acordo com a crença e a prática de uma qualquer modalidade do cristianismo – pode ser católica, luterana, protestante – estamos condicionados para ver um sentido que, se não tivermos fé, não somos obrigados a ver.

Frei Bento Domingues – O que é importante, antes de mais, é o facto de a Bíblia ser a biblioteca de um povo: de épocas muito diferentes, com géneros literários e problemáticas também muito diferentes."


Excerto do excelente artigo de Carlos Vaz Marques, publicado na “2”, revista do jornal Público de 20 Dezembro 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

Foto tirada a net.

21 dezembro, 2015

"Celebrar o Natal para quê?" - Frei Bento Domingues


Existem várias e boas razões para celebrar o Natal. Em muitos casos é a festa da família e este é um dos seus frutos.
Se contribuir para refazer ou fortalecer os laços familiares, a Sagrada Família torna-se mais numerosa: fazer família com quem não é família é continuar a revolução de Jesus de Nazaré, do mundo todo.
Bom Natal.”


Excerto da crónica de Frei Bento Domingues, publicada o jornal Público de 20 Dezembro 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

Foto tirada da net.

20 dezembro, 2015

"A lição de anatomia" - Philip Roth

ZUCKERMAN FICARA SEM TEMA. Sem saúde, sem cabelo e sem tema. O que não tinha importância, porque também não conseguia ter posição para escrever.
Foi este o romance (e autor) que escolhi para última leitura de 2015.
Nele voltei a encontrar Nathan Zuckerman, o escritor judeu protagonista de outras histórias divertidas imaginadas por Philip Roth.
Agora, com quarenta anos, três casamentos fracassados, Zuckerman vive atormentado por uma dor intensa que começa no pescoço e se propaga para os ombros, os braços e… o espírito. Uma dor que o incomoda quando caminha, está sentado, ou muito tempo de pé. Uma dor que o impede de escrever uma única página, seja na nova IBM que comprou para substituiu a velha máquina manual e portátil onde “martelava” há vinte anos (segundo um ortopedista podia ser a causa da estranha dor), seja à mão. Se bem que escrever à mão era aquilo para que tinha menos jeito. Dançava melhor a rumba do que escrevia à mão.
Mas dor não é o único problema de saúde de Zuckerman, ele tem a caixa torácica torcida. A clavícula torta. Levanta a parte inferior da omoplata esquerda como se fosse uma galinha. Até o úmero forçava a cápsula e encravava na articulação. Embora aos olhos de um leigo pudesse parecer mais ou menos simétrico e razoavelmente proporcionado, por dentro era tão deformado como Ricardo III, e ... está a perder cabelo.
Zuckerman sente-se com cem anos e com sorte por ainda ter dentes.
Na esperança de descobrir um tratamento, droga ou cura, consulta vários médicos - um psicanalista, três ortopedistas, dois neurologistas, um fisioterapeuta, um reumatologista, um radiologista, um osteopata, um médico de vitaminas, um analista, um especialista em couro cabeludo, um praticante de ioga – experimenta um colar ortopédico, pachos quentes, ultrassons, massagens, infiltrações, injeções, mas nada, nem ninguém, atenua ou sequer diagnostica a causa da misteriosa dor.
Ele era um homem saudável que sofria de dor.
Sofria mesmo?
A resposta começa a ser dada nas primeiras linhas desta história “dorida”, hilariante e muito, muito depravada.
Quando está doente, todo o homem quer a mãe; se ela não está por perto, outras mulheres têm de a substituir. No caso de Zuckerman eram quatro outras mulheres. Nunca tivera tantas mulheres ao mesmo tempo, nem tantos médicos, nem bebera tanta vodca, nem trabalhara tão pouco, nem conhecera o desespero em tão violentas proporções.
Se não bastar, continue a ler até descobrir o que faz ele de barriga para o ar, com a cabeça apoiada no dicionário de sinónimos, no tapete vermelho estendido no chão do escritório, depois de ditar ficção a uma jovem secretária de vinte anos. Melhor ainda, o que faz ele deitado no mesmo tapete, com as quatro mulheres do seu harém. Uma de cada vez, claro! Nem sequer imagina...
TUDO PERDIDO. Mãe, pai, irmão, terra natal, assunto, saúde, cabelo – na opinião do crítico Milton Appel, até o talento.
Desenganem-se. Nathan Zuckerman, o escritor falhado vai, aos quarenta anos, estudar medicina - quero ser obstetra, diz aos amigos incrédulos.
Já eu... nada mais digo sobre este desconcertante, hilariante e erótico romance.
Perdoo tudo ao meu escritor preferido.
Tudo!

A lição de anatomia (The Anatomy Lesson, 1983), de Philip Roth
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2015
261 págs.

17 dezembro, 2015

Celebremos, com música, o 245º aniversário de Ludwig van Beethoven



“A música é capaz de reproduzir, em sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria.”

Já oiço os primeiros acordes da... Sinfonia nº 9, claro!

Glückwünsche, Herr Beethoven!

13 dezembro, 2015

"Em nome do mel" - Marques da Cruz


Bolo de Mel e Laranja
Bata 125 g de manteiga com 2 ovos e 250 g de mel.
Acrescente 400 g de farinha à qual adicionou cerca de 15 g de fermento em pó. Junte, também, 1 cálice de um bom licor de laranja e ½ colherzinha de gengibre em pó. Deite esta massa numa forma untada e polvilhada e leve a cozer em forno médio durante cerca de três quartos de hora. Depois de frio, desenforme-o, faça-lhe um ou dois cortes transversais de modo a dividir o bolo em duas ou três partes que montará umas sobre as outras recheando-o com um doce de laranja. Barre-o exteriormente com o mesmo doce e decore-o com lascas de amêndoas torradas, rodelas de laranja descascadas e natas batidas.
“Durante milhares de anos, única fonte de açúcar disponível na natureza em quantidades apreciáveis, o mel, cuja composição é, essencialmente, açúcar simples, sob a forma de frutose e glicose (cerca de 75%), mas também sacarose, maltose e outos açúcares mais complexos, fornecia ao homem uma excelente fonte de energia, ao mesmo tempo que possuía notáveis virtudes curativas para muitos dos males que os afligiam. (…)
Sabemos que os Egípcios já faziam, com ele, inúmeros remédios e em toda a antiguidade foi muitas vezes o único “remédio” à disposição de muitas populações. Pela Idade Média adentro o seu poder curativo e alimentício continuou reconhecido. (…)
Demócrito, o filósofo, que atingiu os 109 anos ou Hipócrates, o pai da medicina e que igualmente superou a centúria, recomendavam o mel como o mais são e poderoso dos alimentos. (…)"
Salada de Cenoura e Maçã
Descasque e rale 2 cenouras e 2 maçãs rainetas.
Misture estes dois ingredientes e regue com um molho feito com o sumo de 1 limão e 1 colher de mel.
É docinho este livro de Marques da Cruz.
Com ele aprendi muito sobre o mel e sobre a sua utilização na cozinha e na farmácia. E fiquei com imensas novas receitas de doces e salgados – sopas, molhos, saladas, conservas, bolos, bolachas, licores, etc., etc.. - onde o ingrediente principal é o mel, pois claro.
Não sei se será fácil de encontrar nas livrarias. Eu, Aleluia!, achei-o na estante da minha filhota, que é o meu favo de mel.

Em nome do mel (história, gastronomia e saúde), de Marques da Cruz
Colares Editora, 1997
240 págs.


Como estamos em época de gulodices natalícias, partilho convosco um bolo de mel que, juro e volto a jurar, é de comer e chorar por mais. A minha sogra Amélia, outro favo de mel, deu-me a receita antes de partir para junto dos deuses maiores.

Bolo de Mel e Azeite
Ingredientes:
1cháv. (chá) de mel
1cháv. (chá) de azeite
2 cháv. (chá) de farinha
8 ovos (separar as gemas das claras)
8 colh. (sopa) de açúcar
1 colh. (chá) de fermento
Preparação:
Misture muito bem o mel com o azeite, o açúcar e as gemas.
A seguir, bata as claras em castelo firme.
Por fim, junte alternada e cuidadosamente as claras e a farinha com o fermento à mistura de mel.
Deite em forma untada e leve a forno médio cerca de uma hora. (Vá vigiando porque o tempo de cozedura varia consoante o forno).
Sirva simples, sem qualquer cobertura.
Acredite, é delicioso!

11 dezembro, 2015

"Vai e põe uma sentinela" - Harper Lee

O sermão de hoje é de Isaías, capítulo vinte e um, versículo seis:
Porque assim me disse o Senhor:
Vai e põe uma sentinela que anuncie tudo o que vir!
“Vai e põe uma sentinela” (2015) avança vinte anos em relação à narrativa de “Mataram a cotovia” (1960) e revela uma América dividida pela rivalidade entre brancos e negros, nos turbulentos anos de meados de 1950. 
As personagens principais continuam a ser Scout, agora sempre tratada por Jean Louise, e Atticus Finch, o seu pai, advogado.
Neste romance o narrador é  desconhecido (no anterior romance Scout é a narradora) e começa com Jean Louise a viajar de comboio de Nova Iorque (onde vive) para Maycomb (sua cidade natal). 
Na estação à sua espera está Hank (Henry Clinton), o namorado. Apenas isso: namorado. Ama quem quiseres, mas casa-te com os teus era, para ela, uma máxima instintiva. Henry é advogado e trabalha no escritório do pai. 
Pai que, envelhecido e incapacitado com artrite reumatoide, a espera em casa. Casa onde agora apenas vivem ele e a irmã, Alexandra Finch, que para lá se mudou para o apoiar na doença.
Não estão nem Jem, o irmão, nem Calpurnia, a cozinheira negra. A razão da ausência é dada a conhecer sem grandes pormenores: Jem morreu subitamente e a cozinheira fugiu, na mesma altura, de casa da família Finch.
Vinte anos depois,  ainda há lugar em Maycomb para Jean Louise?
O que vai ver e ouvir que a deixa horrorizada e desiludida com a cidade, com as pessoas de quem gosta, e até com a sua própria família?
Atticus Finch, o pai perfeito que lhe ensinou o real significado da palavra justiça, o advogado íntegro, bondoso e estimado, também a vai desiludir?
Atticus,o corajoso advogado que no passado defendeu em tribunal um negro injustamente acusado de ter violado uma rapariga branca, é agora um septuagenário racista execrável?
Já não há lugar para mim.
Cega, é isso mesmo. Nunca abri os olhos. Nunca me ocorreu olhar o coração das pessoas, vi-lhes apenas o rosto. Ceguinha de todo, pior que uma pedra...
O que foi mesmo que Jean Louise descobriu?
Eu sei a resposta,  porque li o manuscrito perdido na década de 1950, encontrado em 2014 e publicado em 2015, mas não vou revelar.
Revelo apenas que, por mim, tal manuscrito podia ter continuado escondido no fundo da mais funda gaveta.
God bless you, Ms. Harper Lee.

De Harper Lee conhecíamos apenas “Mataram a cotovia”, romance acabado de escrever em 1959, publicado em 1960, vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção no ano seguinte e adaptado ao cinema, por Robert Mulligan, em 1962.
Isto porque depois do enorme sucesso a escritora norte- americana afastou-se da ribalta e nada mais publicou.
Inesperadamente, em 2014 surgiu a notícia de que tinha sido encontrado em sua casa o manuscrito de “Vai e põe uma sentinela”, um inédito escrito em meados da década de 1950 – antes, portanto, da escrita e publicação de “Mataram a cotovia”.
Se já estava escrito porque não foi publicado? Mistério!
Harper Lee, agora com oitenta e nove anos, debilitada por um AVC que teve em 2007, quase cega e surda, vive num lar em Monroeville, sua cidade natal. Foi lá que a polícia confirmou que ela estava na posse das suas faculdades mentais e obteve o seu consentimento para publicação de “Vai e põe uma sentinela”. Consta que foi o editor a quem ela apresentou o manuscrito em meados da década de 1950, que a aconselhou a “pegar” nos muitos flashbacks da história e a partir deles escrever um novo romance. Ela seguiu o conselho. Guardou (ou escondeu?) o manuscrito de “Vai e põe uma sentinela” numa gaveta e escreveu “Mataram a cotovia”.
Confuso? Não, estranho!

Vai e põe uma sentinela, de Harper Lee
Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral
Ed. Presença, 2015
239 págs.

01 dezembro, 2015

5º aniversário do "rol de leituras"


Rufem os tambores.
Quero festejar o quinto aniversário do rol de leituras com os meus seguidores, com quem apenas passa por aqui, com quem deixa comentários, com quem me manda mensagens, com os amigos que dão óptimas dicas.
Para falar verdade, nunca imaginei manter por tantos anos o meu rol de leituras. Melhor, nunca imaginei sequer, criar um blogue de livros.
Isto de “alimentar” um blogue não é mesmo nada fácil. Dá trabalho. Muito trabalho.
O lado bom é que nos incita a ler mais, seja prosa, poesia, crónicas, entrevistas, artigos de jornais.
Este ano li romances espantosos de José Luís Peixoto, o escritor português que “descobri” finalmente.
Continuei rendida ao grande José Saramago.
Desassossegou-me o Fernando Pessoa.
Surpreendeu-me Jorge de Sena.
Encantou-me Mia Couto.
Aplaudi Afonso Reis Cabral.
Caminhei com Herbert Helder.
Descobri a cor da poesia com Manuel de Sousa Falcão.
Empolguei com  Sándor Márai.
Voltei a Milan Kundera.
Tentei Patrick Modiano.
Entristeci com W. G. Sebald.
Chorei com Rosa Monteiro.
Lambuzei-me com Laura Esquivel.
Enfim, foi um ano de emoções.

O que vou fazer agora?
Continuar a ler. Hoje, amanhã e no futuro.
Continuar a escrever no meu rol de leituras. Mas... menos e de forma diferente.

Obrigada a todos.
Façam o favor de ler. Muito!
Abraço!

10º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa



70-(1914?)
“Tive um certo talento para a amizade, mas nunca tive amigos, quer porque eles me faltassem, quer porque a amizade que eu concebera fora um erro dos meus sonhos. Vivi sempre isolado, e cada vez mais isolado, quanto mais dei por mim.”

71-(1914?)
"A tortura do destino! Quem sabe se morrerei amanhã! Quem sabe se não vai acontecer-me hoje qualquer coisa de horrível para a minha alma!... Às vezes, quando penso nestas coisas, apavora-me a tirania superior que nos faz ter de dar passos não sabendo de que acontecimento a incerteza de mim vai ao encontro."

91-(1915?)
"A minha vida é uma febre perpétua, uma sede sempre renovada.
A vida real apoquenta-me como um dia de calor. Há uma certa baixeza no modo como apoquenta."

Leia (tudo) e… deslumbre-se!



30 novembro, 2015

A brincar a brincar se dizem umas verdades!


Muito obrigada.
Gostei!

9º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa



56-(1914?) Máximas
“- A nossa personalidade deve ser indevassável, mesmo por nós próprios: daí o nosso dever de sonharmos sempre, e incluirmo-nos nos nossos sonhos, para que nos não seja possível ter opiniões a nosso respeito.
E especialmente devemos evitar a invasão da nossa personalidade pelos outros. Todo o interesse alheio por nós é uma indelicadeza grave. O que livra a vulgar saudação - como está? – de ser uma indesculpável grosseria é o ser ela em geral absolutamente oca e insincera.

- Amar é cansar-se de estar só: é uma cobardia portanto, e uma traição a nós próprios. (Importa soberanamente que não amemos.)

- Dar bons conselhos é não respeitar a faculdade de errar que Deus deu aos outros. E, de mais a mais, os atos alheios devem ter a vantagem de não serem também nossos. Apenas é compreensível que se peça conselhos aos outros – para saber bem, ao agir ao contrário, quem somos bem nós, bem em desacordo com a Outragem.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!

29 novembro, 2015

8º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa

54-(1914?)
“Amar é maçador, mas é talvez preferível a não amar. O sonho, porém, substitui tudo. Nele pode haver toda a noção do esforço sem o esforço real. Dentro do sonho posso entrar em batalhas sem risco de ter medo ou de ser ferido. Posso raciocinar, sem que tenha em vista chegar a uma verdade, a que me doa que nunca chego; sem querer resolver um problema que veja que nunca resolvo. Posso amar sem que me recusem ou me traiam, ou me aborreçam. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. (...) 
Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fora da vida; depende apenas do meu poder em tornar o sonho vivido, nítido, real. Isso exige estudo e paciência interior.
Há várias maneiras de sonhar. Uma é abandonar-se aos sonhos, sem procurar torná-los nítidos, deixar-se ir no vago e no crepúsculo das sensações. É inferior e cansa, porque esse modo de sonhar é monótono, sempre o mesmo. Há o sonho nítido e dirigido, mas aí o esforço em dirigir o sonho trai o artifício demasiadamente. O artista supremo, o sonhador como eu o sou, tem só o esforço de querer que o sonho seja tal, que tome tais caprichos... e ele desenrola-se diante dele assim como ele o desejaria, mas não poderia conceber, se fatigaria de fazê-lo. Quero sonhar-me rei... Num ato brusco, quero-o. E eis-me súbito rei dum país qualquer. Qual, de que espécie, o sonho mo dirá... Porque eu cheguei a esta vitória sobre o que sonho – que os meus sonhos trazem-me sempre inesperadamente o que eu quero.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!



28 novembro, 2015

"Casa arrumada é assim...", de Carlos Drummond de Andrade


"Casa arrumada é assim: Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não centro cirúrgico, um cenário de novela. Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas... Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar. Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha. Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa. E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde. Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda. A que está sempre pronta pros amigos, filhos... Netos, pros vizinhos... E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Arrume a casa todos os dias... Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo para viver nela... E reconhecer nela o seu lugar."

Carlos Drummond de Andradepoeta e contista brasileiro (1902-1987)

(Agradeço a quem me mandou este texto encantador.)

7º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa

53-(1914?)
“Tenho as opiniões mais desencontradas, as crenças mais diversas. É que nunca penso, nem falo, nem ajo... Pensa, fala, age por mim sempre um sonho qualquer meu, em que me encarno de momento. Vou a falar e falo eu-outro. De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo quanto é a vida. Não sei os gestos a ato nenhum real.
Nunca aprendi a existir.
Tudo que quero consigo, logo que seja dentro de mim.

Se me perguntardes se sou feliz, responder-vos-ei que o não sou. (Intervalo Doloroso)

Quero que a leitura deste livro vos deixe a impressão de terdes atravessado um pesadelo voluptuoso."

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


27 novembro, 2015

Formou Deus o homem... em "Viagens na minha terra", de Almeida Garrett


Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices.
O homem – não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, apertando e forçando, em seus moldes de ferro, aquela pasta de limo que no paraíso terreal se afeiçoara à imagem da divindade - , o homem, assim aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita a Terra.
Rei nascido de todo o criado, perdeu a realeza; príncipe deserdado e proscrito, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo ainda e soberbo com as recordações do passado; baixo, vil e miserável, pelas desgraças do presente.
Destas duas tão opostas actuações constantes, que já por si só o tornariam ridículo, formou a sociedade, em sua vã sabedoria, um sistema quimérico, desarrazoado e impossível, complicado de regras, a qual mais desvairada, encontrado, de repugnâncias a qual mais oposta. “

Almeida Garrett - poeta, historiador, filófoso, crítico e artista, jurisconsultor e administrador, erudito e homem de Estado - nasceu no Porto, em 1799 e faleceu em Lisboa, em 1854.
"Viagens na minha terra" (1846) é um misto de romance (que belo o amor de Carlos e Joaninha), narrativa de uma viagem de Lisboa a Santarém, e reflexão sobre Portugal do século XIX, cativante e  actualíssimo.
Leia!

6º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa



34-(1913?)
“Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor à minha ideia de os achar belos.”

49-(1914?)
“Viver a vida em sonho e falso é sempre viver a vida. Abdicar é agir. Sonhar e confessar a necessidade de viver, substituindo a vida real pela vida irreal, e assim é uma compensação da inalienabilidade do querer viver.
Que é tudo isto enfim senão a busca da felicidade? (...)
Este livro é um só estado de alma, analisado de todos os lados, percorrido em todas as direcções.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


26 novembro, 2015

Quando nasci... em "Eu, Malala", de Malala Yousafzay


Quando nasci, os habitantes da nossa aldeia exprimiram o seu pesar à minha mãe e ninguém deu os parabéns ao meu pai. Cheguei de madrugada, quando a última estrela se extinguia. Nós, os Pastós, consideramos que isso é um sinal auspicioso. O meu pai não tinha dinheiro para pagar o hospital nem para uma parteira, por isso foi uma vizinha que ajudou no me nascimento. O primeiro bebé dos meus pais fora nado-morto, mas eu saltei cá para fora a espernear e a berrar. Era uma menina nascida numa terra em que se disparam armas para celebrar o nascimento de um filho, enquanto as filhas são escondidas por detrás e uma cortina, sendo o seu papel na via simplesmente fazer comida e parir filhos.”

Sinopse:
No dia 9 de Outubro de 2012, Malala Yousafzay, então com 15 anos, regressava a casa vinda da escola quando a carrinha onde viajava com as professoras e as colegas foi mandada parar e um homem armado disparou três vezes à queima-roupa sobre a jovem, atingindo também outras duas raparigas. Nos últimos anos Malala – uma voz cada vez mais conhecida, não só na região de onde é oriunda, o Vale de Swat, mas também em todo o Paquistão, por lutar pelo direito à educação de todas as crianças, especialmente das raparigas – tornou-se um alvo para os terroristas islâmicos. Esta é a história, contada na primeira pessoa, da menina que se recusou a baixar os braços e a deixar que os talibãs lhe ditassem a vida.

5º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


28-(1913?) Estética da Indiferença
“Cada um de nós é uma sociedade inteira, todo um bairro de Deus, convém que ao menos tornemos elegante e distinta a vida desse bairro, que nas festas das nossas sensações haja requinte e recato, e pompa sóbria e cortesã nos banquetes dos nossos pensamentos.
(...)
Saber encontrar a cada sensação o modo sereno de ela se realizar. Fazer o amor resumir-se apenas a uma sombra de um sonho de amar, pálido e trémulo intervalo entre os cimos de duas pequenas ondas onde o luar bate. Tornar o desejo uma coisa inútil e inofensiva, no como que sorriso delicado da alma a sós consigo própria; fazer dela uma coisa que nunca pense em realizar-se nem em dizer-se. Ao ódio adormecê-lo como a uma serpente prisioneira, e dizer ao medo que dos seus gestos guarde apenas a agonia no olhar, e no olhar da nossa alma, única atitude compatível com ser estética.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


24 novembro, 2015

Aprende-se muito na insensibilidade... em “Galveias”, de José Luís Peixoto


Aprende-se muito na insensibilidade. Regra desde o começo do mundo: quando os homens casados querem algo, começam por se queixar da mulher. As coisas lá em casa não andam muito bem; vivemos juntos, mas já não há nada entre nós; estamos quase a separar-nos. Então, quando se aperta com eles, dando um pouco e tirando um pouco, passam à fase de prometer que vão deixar a mulher, mas precisam sempre de tempo. Só estou à espera do momento certo; a notícias vai arrasá-la, coitada; confia em mim, já falta pouco. Depois o tempo continua a passar: os filhos, a casa, os sogros, etc. E um dia, de repetente, chega a notícia: adeus, o problema não és tu, sou eu. Grande novidade.
(...)
Desaprende-se muito na insensibilidade.”


(Foto tirada da net.)

22 novembro, 2015

"Acasalamento" - Norman Rush

"Tudo o que escrevo é para a Elsa, mas em especial este livro, uma vez que, nele, o seu coração, a sua sensibilidade e inteligência são celebrados e explorados de forma notória, ainda que forçosamente esotérica. A minha dívida para com ela, na arte e na vida, cresce, por mais que eu tente contrabalançar."
(Para Elsa, a mulher.)

Em África, quer-se sempre mais, parece-me.
As pessoas tornam-se ávidas. 
Sou antropóloga e tenho um passatempo relacionado com isso, que é tentar encaixar as peças que me permitem compreender o mundo verdadeiro e tentar viver nele.
A voz “ que ouvimos” é de uma americana, de quem não sabemos o nome. Sabemos apenas que é solteira, robusta, com propensão para a violência (quando alguém me toca sem eu dar autorização), leitora compulsiva, excêntrica, que detesta melodramas, está sexualmente desperta, tem trinta e dois anos de idade à data dos factos que expõe cronologicamente neste longo, inteligente, intenso, irónico e bem humorado romance.
Factos ocorridos na década de oitenta, no Botsuana, país africano que escolheu (uma de tantas outras escolhas...) para preparar uma tese sobre antropologia nutricional para demonstrar que a fertilidade nas chamadas “populações residentes em regiões remotas” oscila consoante a estação, porque uma grande parte do que essas populações remotas comem depende do que conseguem encontrar quando vão recolher alimentos, o que devia afetar a fertilidade.
Depois de dezoito meses praticamente sozinha no mato, desanimada por ver a tese a ir por “água abaixo” desiste e retira-se para a capital... sentia-me sexualmente desperta e não há lugar no mundo como Gabarone para uma mulher branca, livre e solta...
Sem planos, com a vida académica em "banho-maria", com um historial sexual que era a encarnação da banalidade, começa por se “distrair” atraindo atenções masculinas da colónia branca, cuja vida gira à volta de muitas festas, muita bebida e muito sexo.
É sem pudor que fala sobre três amantes - não teve muitos pois selecciona-os rigidamente -  três homens muito diferentes, estranhos mas especiais, três relações falhadas: Giles, fotógrafo britânico; Martin Wade, um musicólogo homofóbico sul-africano; Z, um espião vaidoso, que sofre de escoliose, com quem tem uma relação praticamente sem sexo, mas com muitas massagens: dominei as costas dele.
Depois de Z é Nelson Denoon, que “entra” na sua vida.
Desde os tempos da faculdade que ela deseja conhecer aquele homem inteligente, atraente, misterioso, considerado o “suprassumo” em áreas como economia, antropologia, antropologia económica e ciências políticas.
Encontra-o num evento em Gabarone, fala com ele, apaixona-se, entra em euforia - quando o conheci a sensação foi mesmo a de um edifício a cair para cima de mim.
Dennon é o intelectual carismático fundador de Tsau, uma aldeia comunitária para mulheres e dirigida por mulheres – mulheres indigentes de todo o Botsuana - num lugar remoto do deserto do Kalahari. Mesmo sabendo que Tsau é um projecto fechado onde não entram visitantes não convidados, ela atravessa sozinha o deserto para  voltar a ver Denoon.
Chega a Tsau desnutrida e exausta.
As mulheres da aldeia tratam da corajosa “viajante perdida”, que durante o dia finge não conhecer Denoon mas com quem tem à noite encontros privados. Os dias passam, ela recupera, e as mulheres acabam por aceitá-la como uma habitante provisória da aldeia. Então, de privados os encontros com Denoon passam a públicos e logo iniciam um longo e complexo ritual de acasalamento.
E fico por aqui, para deixar que seja você a descobrir o verdadeiro significado do título deste romance - Acasalamento” (Mating, no título original).
E a encontrar uma grande personagem feminina – forte personalidade, inteligente, determinada, destemida, afectuosa, alegre, sensual – que busca incessantemente um amor perfeito num lugar perfeito, mesmo sabendo que o amor é cansativo. Andar atrás de alguém é cansativo.
E a conhecer o Botsuana, um país do interior sul árido do continente africano.

Não é fácil escrever sobre este primeiro romance (1991) de Norman Rush.
Escrever sobre o que nos conta uma mulher que pensa sobre tudo, analisa tudo, experimenta tudo, compara tudo, anota tudo, questiona tudo... não é mesmo nada, nada fácil. 
A sua voz é tão audível, tão verdadeira e nua e crua, que incomoda. Incómodo atenuado por tiradas de humor subtil que nos acalentam da primeira à última página. E são 592. Talvez demasiadas. O relato sobre o dia-a-dia em Tsau, por exemplo, estende-se por cerca de 400 páginas. Demasiadas e, por vezes, um tudo-nada massudas.
Faço minhas as palavras da grande protagonista-narradora: a vida não deve ser mais dolorosa do que tem de ser.
Apesar de tudo... leia!

Acasalamento, de Norman Rush
Tradução de Tânia Ganho
Ed. Quetzal, 2015
592 págs.

17 novembro, 2015

4º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


22-(1913?)
“Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.”

25-(1913?)
“Não aspiro a nada . Dói-me a vida. Estou mal onde estou e já mal onde penso em poder estar.”

26-(1913?) Viagem nunca feita
“Cada um de nós é uma sociedade inteira, todo um bairro de Deus, convém que ao menos tornemos elegante e distinta e vida desse bairro, que nas festas das nossas sensações haja requinte e recato, e pompa sóbria e cortesã nos banquetes dos nossos pensamentos. “(…)
“Saber encontrar a cada sensação o modo sereno de ela se realizar. Fazer o amor resumir-se apenas a uma sombra de um sonho de amar, pálido e trémulo intervalo entre os cimos de duas pequenas ondas onde o luar bate. Tornar o desejo uma coisa inútil e inofensiva, no como que sorriso delicado da alma a sós consigo própria; fazer ela uma coisa que nunca pense em realizar-se nem em dizer-se. Ao ódio adormece-lo como a uma serpente prisioneira, e dizer ao medo que dos seus gestos guarde apenas a agonia no olhar, e no olhar da nossa alma, única atitude compatível com ser estética.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


16 novembro, 2015

Trabalho em massapão - a perfeição


“… a perfeição é alcançada não quando nada mais há a acrescentar, mas quando nada mais há a suprimir.”

Antoine de Saint-Exupéry, escritor-aviador francês (1900-44), in “Terra dos homens”, Ed. Vega, 1995


(Agradeço a quem me mandou esta perfeição.)

13 novembro, 2015

"Como água para chocolate" - Laura Esquivel

O aborrecido de chorar quando picamos cebola não é o simples facto de chorar, mas sim às vezes começarmos, ou melhor, ficarmos picados, e já não conseguirmos parar. Não sei se já vos aconteceu, mas a mim, para dizer a verdade, já. Vezes sem conta. A mamã dizia que era por eu ser tão sensível à cebola como Tita, a minha tia-avó. (...)
Tita chegou a este mundo prematuramente, em cima da mesa a cozinha, entre os cheiros de uma sopa de aletria que estava a ser cozinhada, do tomilho, do louro, dos coentros, do leite fervido, dos alhos e, é claro, da cebola. (...)
Este inusitado nascimento foi determinante para o facto de Tita sentir um imenso amor pela cozinha.
Lida ou vista no cinema, serão poucos os que não terão já saboreado a história de amor de Tita e Pedro, “cozinhada” numa quinta do México revolucionário do início do século XX.
Amor proibido pela tradição familiar que dita o destino de Tita: por ser a mais nova das três filhas da Mamã Elena (mulher de forte personalidade), cabe-lhe a ela cuidar da mãe até ao dia da sua morte.
Enquanto Tita se interroga: Quem teria iniciado esta tradição familiar? Se não podia casar nem ter filhos, quem é que ia então cuidar dela quando chegasse à senilidade?, Pedro pede a sua mão  à Mamã Elena e esta, em alternativa, propõe-lhe a mão de Rosaura, dois anos mais velha do que Tita. 
Pedro vê nesse casamento a única saída para estar perto da mulher que realmente ama e aceita casar com Rosaura, e Tita, resignada, refugia-se na grande cozinha da quinta, para continuar a aprender com Nacha, a velha e sábia cozinheira índia, tudo sobre sabores, aromas e amores. 
Após a morte de Nacha, Tita ocupa o seu lugar na cozinha e esmera-se para cozinhar cada dia melhor para o seu amado - assim como um poeta joga com as palavras, assim ela jogava à sua maneira com os ingredientes e com as quantidades obtendo resultados fenomenais.
A história  de Tita e Pedro “cozinha-se” em doze capítulos. Cada capítulo, de Janeiro a Dezembro, abre com uma receita, os respectivos ingredientes e o modo de fazer.
As receitas são realizáveis?
Talvez, mas confesso que não experimentei. Bastou-me saborear a magia do amor “explosivo” (verdade, verdadinha) dos dois amantes.

Foi bom reler este “saboroso e ternurento” romance.
Se ainda não o leu, leia. Leia e deguste com prazer. Tem ZERO calorias.
Hum! Hum!

Como Leite para chocolate, de Laura Esquivel
Tradução de Cristina Rodriguez
Ed. ASA, 1993
229 págs.

10 novembro, 2015

Poemas de... Manuel de Sousa Falcão

Manuel de Sousa Falcão brindou-me com três poemas do seu próximo livro, e com uma foto do quadro “Duas figuras” (acrílico sobre tela), que exibiu na exposição “Escuro”, na Casa das Artes, Porto, 2015.
Porque gostei MUITO, e com a devida autorização do poeta-pintor, partilho no meu “rol".
Maiores sucessos!

AMAR EM VÃO
Mor meu
Mor parte
Das vezes
Só meu.
Vão por
Isso

(Poema sem título)
Caminho este tal andado
Mais mais longe do lugar quente
Onde a morte seu momento adiado
Enquanto afunda em dor a mente e não se sente
Do que foi, o coração confiado em jamais ser terminado
Passo dado agora à morte rente
E na espera tempo humano silente

Oh dança estranha então se faz
Diz do que foi mudado

DO CHORO
Se som
O plangente
Da cinira
Não outro

07 novembro, 2015

"Galveias" - José Luís Peixoto


ENTRE TODOS OS LUGARES POSSÍVEIS, foi naquele ponto certo.
Durante um minuto inteiro, Galveias foi atravessada por uma sucessão de explosões contínuas, sem um intervalo pequeno, sem uma folga. (...)
Quando o barulho terminou, ficou o silêncio insistente, um guincho nos ouvidos. Então, podiam ter gritado, mas aquele já não era tempo de gritos, era hora de respirar. Por isso, todos foram para a rua, velhos crianças, mulheres, homens com a barba por fazer.
O ar estava coberto por um sólido cheiro a enxofre.
Galveias” é um magnífico romance (ou livro de memórias?), uma homenagem comovente prestada pelo autor aos seus conterrâneos galveenses.
Galveenses que numa noite escura e fria de Janeiro de 1984 ouvem um estrondo estranho, como se a terra estivesse a partir-se ao meio, e na manhã seguinte descobrem na herdade do Cortiço, uma coisa sem nome, caída numa cratera redonda e inédita, que só conseguem esquecer após sete dias de chuva ininterrupta.
“Galveias” é um bem construído retrato psicológico rural, que nos prende da primeira à última página. 
Depois do estranho início o romance prossegue com um rendilhado de histórias misteriosas, risíveis, sofredoras e enternecedoras, contadas a partir de um núcleo alargado de personagens, que convivem num tempo e num lugar: o velho Justino (quando decidiu matar o irmão que não via há mais de cinquenta anos, fizeram as pazes); Chico Francisco; João Paulo (doido por motas); Sem Medo; Funesto; doutor Matta Figueira; Acúrcio; Joaquim Janeiro (tem em casa uma caixa fechada onde guarda a Guiné); ti Adelina Tamanco; Joaquim Janeiro, Rosa Cabeça e Joana Barreta (uma história hilariante, um amor proibido); Bartolomeu; ti Silvina; menina Aida; Miau; Isabella (brasileira, prostituta e padeira); Cebolo; ti Manuel Camilo; Maria Teresa (a professora nortenha de língua afiada); Isaura; o padre Daniel; Maria Assunta; etc., etc., etc..
Todos temos um lugar onde a vida se acerta.
Sem acusar cansaço, e sempre sentindo no ar o cheiro do enxofre, calcorreamos as ruas geladas e escuras da vila; penetramos na intimidade de gente humilde e trabalhadora; espreitamos namoros, casamentos e funerais; sabemos de segredos; escutamos choros e lamentos; vimos passar a motorizada enlouquecida do Catarino; admiramos passos de dança; sentimos o cheiro de pão fresco; ouvimos ladrar cães de vários tamanhos; viajamos com o carteiro até à Guiné; fugimos de chuva gelada; lemos panfletos que anunciam aulas de alfabetização para adultos; revoltamo-nos com a tareia  dada ao ti Manuel Camilo; conhecemos o padre Daniel; vimos nascer uma menina, que tinha o cheiro normal das crianças acabadas ade nascer. Não cheirava a enxofre.

Galveias é uma pequena vila do distrito de Portalegre, terra natal de José Luís Peixoto.
Galveias não pode morrer.
Genial!

Galveias, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2014
278 págs.

03 novembro, 2015

3º- Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


16 -(1937?) Intervalo Doloroso
“Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor. (…)
Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar. (…)
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gesto e de atos.
Por mais que por mim me embrenhe todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia. (…)
A minha vida é como se me batessem com ela.”

17-(1937?) Peristilo
“Tu não o sabes, tu não sabes que o não sabes, tu não queres saber nem não saber. Despiste de propósitos a tua vida, nimbaste de irrealidade o teu mostrar-te, vestiste-te de perfeição e de intangibilidade, para que nem as Horas te beijassem, nem os Dias te sorrissem, nem as Noites te viessem pôr a lua entre as mãos para que ela parecesse um lírio.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


31 outubro, 2015

"Os emigrantes" - W. G. Sebald

... a dor moral é praticamente infinita. Quando se julga ter chegado ao último limite, há sempre novos tormentos. Vai-se de abismo em abismo. (em Max Feber)
Neste livro de W. G. Sebald, que reúne quatro histórias de emigrantes ou exilados judeus do século XX, cuja vida foi abalada pelas dores da separação, da morte, das saudades do país natal, um narrador não identificado (duplo do escritor?), também emigrante-exilado, resgata do esquecimento homens extraordinários com quem se cruzou em momentos decisivos da sua vida. Homens que nunca superaram a perda, a fuga.
Para o fazer, ele organiza, investiga, viaja, ouve, recorda, analisa: factos empolgantes, emocionantes e sofridos das suas vidas; a época; memórias pessoais, de amigos e de familiares; álbuns de fotografias; diários; agendas; postais ilustrados e objectos pessoais. Depois, escreve quatro belíssimas histórias, que enriquece com muitas e interessantes fotografias.
1ª - Dr. Henry Selwyn  
(Inglaterra)
Colocado em serviço na cidade de Norwich, em Setembro de 1970, o narrador e a mulher alugam parte de uma casa em Hingham, propriedade do casal Henry e Hedi Selwyn.
Ex-médico cirurgião e ex-praticante entusiasta de escalada, o Sr. Selwyn, após alguma hesitação, começou a falar-nos do tempo que, antes da Primeira Guerra Mundial, tinha passado em Berna, depois de terminar o curso básico de medicina. E da sua grande amizade com Johannes Naegeli, o guia de montanha que desapareceu num acidente. E sobre a guerra, e o primeiro ano de serviço na Índia e o casamento com Heidi, a quem escondi durante muito tempo as minhas origens, confidencia.
De confidência, em confidência, conta que aos sete anos - ainda como Hersch Seweryn - saiu com a família da pequena aldeia lituana onde nasceu, rumo a Nova Iorque, mas o cargueiro acabou por atracar em Londres, e foi lá que cresceu. E sobre os anos da Segunda Guerra, o afastamento da mulher, a perda dos clientes, o abandono do consultório.
Henry Selwyn acabou por se suicidar com a arma que comprou antes da partida para a Índia.
2ª - Paul Bereyte
(França)
Em Janeiro de 1984 chegou-me… a notícia de que Paul Bereyter, com quem eu fiz a escola primária … uma semana após ter feito 74 anos… foi deitar-se diante do comboio.
A notícia necrológica falava dos seus serviços como docente, do seu amor à música, e de ter sido impedido pelo Terceiro Reich do exercício da profissão.
Paul era filho de um meio judeu, consequentemente, apenas três quartos ariano. Nasceu em Frankfurt, de onde aos sete anos partiu para França com o pai, historiador de arte.
Em 1939, profundamente alemão, voltou à Alemanha. Serviu seis anos na artilharia motorizada. Esteve na Polónia, na Bélgica, em França, nos Balcãs, na Rússia e no Mediterrâneo e há-de ter visto mais do que é possível guardar nos olhos ou no coração.
3ª - Ambros Adelwarth
(América)
Quase não me lembro do meu tio-avô Adelwarth.... vi-o apenas uma vez, no Verão do ano de 1951… num encontro de familiares emigrantes americanos... nada me chegou aos ouvidos sobre a sua morte dois anos mais tarde, e muito menos sobre as circunstâncias em que ocorreu.
Ambros Adelwarth, nasceu em 1866, em Gropchts. Aos catorze anos abandonou a terra natal e foi trabalhar em hotelaria, para Montreau. Aprendeu rapidamente o francês, o inglês e um japonês.
Em 1905, mudou-se para Londres e anos depois partiu para a América.
Na América trabalhou em casa dos Solomon, uma das mais ricas famílias de banqueiros judeus de Nova Iorque. Foi criado de quarto de Cosmos, o filho dos Solomon, e seu companheiro de muitas viagens pelo mundo. Quanto Cosmos sucumbe a uma doença mental, Ambros tornou-se mordomo da família.
A seguir ao Natal de 1952, Ambros caiu numa depressão profunda. Morreu num asilo psiquiátrico.
Recordar... parece-me muitas vezes uma espécie de estupidez. Faz-nos a cabeça pesada, tonturas, como se não olhássemos para trás pelas vias do tempo volvido, mas caíssemos ao chão de uma dessas torres que se perdem nas nuvens, escreveu no livro de memórias.
4ª - Max Ferber
(Manchester, Inglaterra, 1966)
Num edifício abandonado de Manchester, o narrador descobre Aurach, um pintor que ali trabalha desde o fim dos anos quarenta.
Max Ferber, ou melhor, Friedrich Maximilian Aurach, nasceu em Munique. Em 1939, com quinze anos, partiu para Inglaterra, para fazer belas artes. Nunca mais voltou à Alemanha.
O pai, que foi adiando a saída da Alemanha mesmo depois de ser obrigado a entregar a gerência da sua galeria de arte a um ariano, foi levado de comboio para Riga, em Novembro de 1941, onde foi depois morto.
Pensar na Alemanha é como ter na cabeça a loucura. E provavelmente nunca mais voltei à Alemanha por medo de ver confirmada essa loucura., confessa ao narrador.

Tudo isto é verdade, ou não passa de ficção?
Nunca conseguiremos saber. Winfred George Sebald  faleceu tragicamente em Dezembro de 2001, vitimado por um  ataque cardíaco ao volante do seu automóvel.
Acredite, estas histórias "leem-se, olham-se e sentem-se". Na alma.
Leia!

Os Emigrantes, de W. G. Sebald
Tradução de Telma Costa
Ed. Teorema, 2005
259 págs.

27 outubro, 2015

Com os olhos vagando... em "Viagens na minha terra", de Almeida Garrett


Com os olhos vagando por este quadro imenso e formosíssimo, a imaginação tomava-me asas e fugia pelo vago infinito das regiões ideais.

Este sonhar acordado, este cismar poético diante dos sublimes espectáculos da Natureza é dos prazeres que Deus concedeu às almas de certa têmpera. “

(Foto de Manuel Antunes, tirada na estrada  Álvaro - Oleiros, distrito de Castelo Branco.)


23 outubro, 2015

"O livro das emoções", de Laura Esquivel

Se as emoções se radiografassem, talvez nos bastasse enternecer-nos com o esforço de defesa e insegurança dos verdadeiramente sinceros e pudéssemos, ao mesmo tempo, cuidar dos mentirosos, ou estivéssemos capacitados para nos compadecermos dos enganados e lutássemos contra aos injustos. Talvez vivêssemos um pouco mais como somos verdadeiramente.
Neste pequeno livro de Laura Esquivel, há uma espécie de diálogo entre emoção e pensamento, que o converte num manifesto a favor de uma nova forma de olhar para o ser humano.
Será que a alegria nos cura? Que a tristeza nos põe doentes?
Por que razão, na nossa época, reinam a depressão e o stress?
A memória é um armazém pessoal de emoções?
Há pessoas, livros, filmes que nos agarram o coração, e outros que nos provocam repulsa. Porquê?
O que nos leva a tirar uma fotografia da caixa de recordações? Ou a ler a primeira carta de amor que recebemos? Ou a ir buscar ao baú das recordações a rosa murcha que nos deram naquele baile inesquecível?

Este livrinho ajudá-lo-á  a encontrar respostas para estas e muitas outras perguntas pertinentes.
E a perceber - que a vida não é mais que um conjunto de recordações, imagens, risos, lágrimas, através dos quais adquirimos consciência daquilo que somos.
E a conseguir - dizer às pessoas que nos rodeiam aquilo que significam para nós, dar um abraço a um amigo perdido, partilhar uma tarde de riso com os nossos filhos, contemplar uma chuva de estrelas, dar um beijo de amor ao nosso companheiro, amar, amar, amar.
Leia, leia!

O livro das emoções, de Laura Esquivel
Tradução de Carlos Sousa de Almeida
Ed. ASA, 2003
90 págs.

20 outubro, 2015

2º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


11- (1913?)
“Aprende a desligar as ideias de voluptuosidade e de prazer. Aprende a gozar em tudo, não o que ele é, mas as ideias e os sonhos que provoca. Porque nada é o que é, e os sonhos sempre são os sonhos.”

12 -(1913?)
“É nobre ser tímido, ilustre não saber agir, grande não ter jeito para viver.”

15- (1937?)
“O dinheiro é belo, porque é uma libertação. (…)
Os compradores de coisas inúteis sempre são mais sábios do que se julgam – compram pequenos sonhos. São crianças no adquirir.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


18 outubro, 2015

"Sinais de fogo" - Jorge de Sena

Sinais de fogo, os homens se despem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
Corria o ano de 1964 quando Jorge de Sena iniciou a escrita de um relato da vida portuguesa no período de 1936 a 1959, tendo por base as experiências de um narrador.
Lamentavelmente, não viveu o tempo necessário para completar tão ambiciosa obra. “Sinais de fogo”, publicado postumamente em 1979, não vai além do verão de 1936.
Geograficamente a história desdobra-se por Lisboa (56 páginas no início, outras tantas no final) e pela Figueira da Foz. O tema central é a adolescência, a descoberta do amor e do sexo, o despertar para a  política. As personagens são muitas e bem construídas.
Jorge, é o narrador do romance. Filho único de uma família da média burguesia de Lisboa, aluno empenhado, um bom amigo. Nas primeiras páginas ele apresenta os amigos Puigmal e Mesquita. Frequentam juntos a faculdade, são colegas desde o 6º ano do liceu. Dos três, Ramos Berenguer de Cabanellas Y Puigmal, é o mais extrovertido, mais endiabrado nas aulas, mais extravagante e…o menos empenhado no estudo. Puigmal vivia num mundo seu, onde não penetravam as ideias dos outros. Mesquita, o bom aluno, era o sempre reeleito chefe de turma, pelo prestígio das suas aventuras amorosas.
Os três eram livres para vagabundear ociosamente ( e disso ele nos dá conta) e só à aproximação dos exames de frequência se fechavam em orgias de estudo contínuo.
A segunda parte do romance começa com Jorge a viajar sózinho para a Figueira da Foz. É usual passar lá os meses de verão, em casa do tio Justino. Lá vai encontrar os amigos de verões anteriores. 
À chegada à estação da Figueira, estranha o comportamento de um grupo de veraneantes espanhóis agitados, aos gritos, a querer regressar rapidamente a Espanha. O que se passa?
Sabe depois, que em Espanha rebentou uma revolução e o seu tio Justino esconde em casa dois espanhóis revolucionários e prepara-lhes a fuga para Espanha.
O verão promete... as férias não se ficarão pelo convívio com os amigos Rodrigues, Rufinho, Ramos, Carlos, nem pela paixão desmesurada por Mercedes, nem pelas «pândegas de arromba».
Sobre estes amigos, diz Jorge: … todos eram meus amigos de Verão, que eu mal conhecia. (…) O não ter-se nada em comum, senão as circunstâncias que nos juntam, é que é a verdadeira sujeição mútua. Muito maior e mais profunda que a que me ligava à família, aos companheiros de sempre, a tudo o que sempre tivera um lugar marcado e habitual na minha vida. Tudo isto não é a nossa vida, mas o pretexto em que nos refugiamos, para não sermos atacados por ela.
No verão de 1936 Jorge vai viver experiências transformadoras ao iniciar-se no amor erótico, nos braços de Mercedes, na poesia, na política. E vai, também, envolver-se em situações absurdas, violentas e perigosas. 
Chegaram os tempos de mudança.
A vida de ninguém estava em condições de continuar a ser uma paz podre. Não seria também uma paz limpa. Era uma guerra, com tudo o que ela implica de podridão e de lixo.
Segue-se o regresso, antecipado, a casa dos pais… era-me estranha, e sê-lo-ia muito mais, depois de tudo o que havia acontecido, mesmo que eu me esquecesse de tudo, e me tornasse perfeitamente indiferente ao que mo lembrasse.
E o refúgio na poesia... porquê e para quê? Porque me sentia completamente só e necessitava de silêncio e, em consequência, precisava de palavras que dissessem não dizendo?

Você também vai necessitar de silêncio para interiorizar esta história.
Aviso que não é fácil de ler. A escrita é complexa e densa. E demasiado descritiva. E demasiado desbragada, em certos momentos. Pare, se necessário, mas não desista. 
Leia até ao fim.. este romance maior.

Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário.
Nasceu em Lisboa, em 1914 e faleceu na Califórnia, em 1978.

Sinais de fogo, de Jorge de Sena
Edições 70, 1988
526 págs.

16 outubro, 2015

Vale a pena ler ... "Conta-me histórias..."


A atividade cerebral dos mais novos aumenta quando ouvem histórias de embalar, garante um estudo científico de John S. Hutton, investigador do Centro Médico Hospital Infantil de Cincinatti, EUA.

Crescer com livros, ler em voz alta para as crianças são atos que ajudam ao desenvolvimento da linguagem e ao sucesso escolar, está comprovado.

Para o psicólogo clínico Eduardo Sá, «o sistema nervoso funciona como um músculo que precisa de ser estimulado, sob o risco de, ao não suceder assim, atrofiar. (…) porque o acesso à palavra nos permite vestir em palavras aquilo que sentimos, crianças que melhor verbalizam, podem tornar-e mais felizes. (…) As histórias juntam imagens e palavras, ajudam a pensar. Crianças que mais precocemente acedem às histórias são mais aptas para a matemática, para a língua materna, para a representação, e para a relação. Mais histórias significa crianças mais saudáveis e crianças mais inteligentes».”


Excerto da crónica de Katya Delimbeuf, publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 10 Outubro 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

13 outubro, 2015

"Primaveras românticas" - Antero de Quental


Versos

As flores que nossa alma descuidada
Colhe na mocidade com mão casta,
São belas, sim: basta aspirá-las, basta
Uma vez, fica a gente enfeitiçada.

Nascem num prado ou riba sossegada,
Sob um céu puro e luz serena e vasta;
Têm fragância subtil, mas nunca exausta,
Falam d’Amor e Bem à alma enlevada…

Mas as flores nascidas sobre o asfalto
Dessas ruas, no pó e entre o bulício,
Sem ar, sem luz, sem um sorriso do alto,

Que têm elas, que assim nos endoidecem?
Têm o que mais as almas apetecem…
Têm o aroma irritante e acre do Vício!

09 outubro, 2015

"Contos do nascer da terra" - Mia Couto

Peguei no livro, procurei o índice, atentei nos títulos dos contos.
Depois, contei-os e o empolgamento foi imediato: tantos! Bom de mais!
Então, iniciei a leitura do primeiro “O não desaparecimento de Maria Sombrinha”, e logo fiquei presa daquela prosa poética, das palavras inventadas, do realismo fantástico.
Já muita coisa foi vista neste mundo. Mas nunca se encontrou nada mais triste que caixão pequenino. (…) Deu-se o caso numa família pobre, tão pobre que nem tinha doenças. Dessas em que se morre mesmo saudável. (…) Em todo o mundo, os pobres têm essa estranha mania de morrerem muito. Um dos mistérios dos lares famintos é falecerem tantos parentes e a família aumentar cada vez mais.
Terminado o primeiro, avancei para o segundo, depois para o terceiro “A última chuva do prisioneiro”:
Antigamente, valia a pena ser preso. O cantinho da prisão nem era mau, comparado com o mundo que nos cabia, lá fora. Falo sério. Maioria do que aprendi foi na prisão. Ler, escrever, foi na prisão que me letrinhei. Minha vida era uma roda-ronda entre roubo e grades. Me prendiam: era um consolo cheio de sossego. Lá fora ficava o mundo, mais suas doenças, suas nauseabundâncias.
Agora o calabouço é um lugar definhado, de não valer a pena. Esse mundo torto já entrou na prisão. A cadeia se infernou, dá vontade só de escapar. Porque aqui dentro nos roubam mais que fora. Aqui somos roubados por polícia, roubados por ladrões. Já nem podemos estar livres na cadeira. Neste lugar nem os mortos estão seguros. Já perdi a escolha, doutor: a prisão me mata, a cidade não me deixa viver. A feitura deste mundo já não tem dentro nem fora.
e não mais parei de ler estes contos/retratos do povo simples moçambicano, da sua identidade cultural, da sua forte ligação à terra.
“Velho com jardim nas traseiras do tempo”:
No Jardim Dona Berta há um banco. O único que resta. Os outros foram arrancados, vertidos em tábua avulsa para finalidades de lenha. Nesse restante banco mora um velho. Cada noite, os dois se encostam mutuamente, assento e homem, madeira e carne. Dizem que o velho já tem a pele às listas, formatadas no molde das tábuas, seu externo esqueleto.
“Os negros olhos de Vivalma”:
Há mulheres que procuram um homem que lhes abra o mundo. Outras buscam um que as tire do mundo. A maior parte, porém, acaba se unindo a alguém que lhes tira o mundo.
Esse foi o destino de Vivalma, mulher entre as mulheres, cheia de desgraça, nem o Senhor punha oração nela.
São lindos os trinta e cinco contos deste livro. E ternurentos, como “A menina sem palavra”:
Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos… 
Vá, leia pelo menos esta belíssima história. O fim é espantoso!
Depois... depois vai lê-las todas, seduzido pela escrita de Mia Couto. Ela tem… XICUEMBO!

Contos do nascer da terra, de Mia Couto
Ed. Caminho, 1997
245 págs.