31 janeiro, 2014

"Todo o anjo é terrível" - Susanna Tamaro

Que sórdida tolice pensar que os laços ditados pelo sangue são os mais importantes!
Cativou-me esta surpreendente história de vida, relatada minuciosamente neste livro de memórias intimista, corajoso, intenso.
Fiquei a saber, que Susanna Tamaro nasceu numa cidade assombrada pelos fumos da História, o fumo do ódio racial, do ódio étnico, o fumo dos milhões de vidas sacrificados para restituir a cidade à Itália durante a Primeira Guerra Mundial, o fumo da desilusão.
Fiquei a saber, que os pais eram muito jovens e ausentes, e que cresceu num tempo em que não era hábito dar muita importância às crianças, num ambiente de não-amor, não-harmonia, silêncios, sofrimento - sofrimento humano, antes de mais, e depois criativo.
Fiquei a saber, que foi uma criança deprimida, ansiosa, que à noite não dormia a pensar na morte, e de dia chorava pelo poço de solidão dolorosa em que estava afundada.
Fiquei ainda a saber quase tudo sobre o irmão, os pais, os avós.
Como é evidente, não há só memórias tristes e sofridas, neste livro da menina que encontrou nas ciências naturais a âncora que a salvou do mundo descontrolado em que crescia, da adulta que nos dá a ler histórias emocionantes, perturbadoras, inesquecíveis. Há, também, recordações de muito amor, amizade, companheirismo, descoberta, alegria, diversão. Enfim, muitas histórias “dentro” da História.
O que sabemos realmente daquilo que se transmite, através dos genes, de uma geração para a outra?
Muito? Pouco? Nada?
Vai ter de ler para saber o que diz ela, na página 45.
 
Todo o anjo é terrível, de Susanna Tamaro
Tradução de Maria das Mercês Peixoto
Ed. Presença, 2013
219 págs.

24 janeiro, 2014

"Poesia completa" - Miguel Torga

E eis que num só livro foram reunidos todos os poemas de Miguel Torga.
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de Agosto de 1907, em São Martinho de Anta, Trás-os-Montes. Faleceu a 17 de Janeiro de 1995, em Coimbra, onde se licenciou em Medicina.
Considerado um dos grandes escritores portugueses contemporâneos, foi distinguido com vários prémios, nomeadamente com o Prémio Camões em 1989.
A sua obra está traduzida em diversas línguas.
 
Cântico
Mundo à nossa medida,
Redondo como os olhos,
E como eles, também,
A receber de fora
A luz e a sombra, consoante a hora.
 
Mundo apenas pretexto
Doutros mundos.
Base de onde levanta
A inquietação,
Cansada da uniforme rotação
Do dia a dia.
 
Mundo que a fantasia
Desfigura,
A vê-lo cada vez de mais altura.
Mundo do mesmo barro
De que somos feitos.
Carne da nossa carne
Apodrecida.
Mundo que o tempo gasta e arrefece,
Mas único jardim que se conhece
Onde floresce a vida.
 
Muito bom!
Com tantos, tantos poemas, pretendo ler um por dia ao longo deste ano.
Viva a poesia portuguesa!!
 
Poesia completa, de Miguel Torga
Ed. Dom Quixote, 2000
965 págs.

17 janeiro, 2014

"Contos escolhidos" - Carson McCullers

Se tivesse adivinhado o futuro, talvez agisse de outra maneira. (Sucker)
Depois de ler os contos reunidos neste livro, posso continuar a bradar aos quatro ventos, o quanto me encantam as pequenas histórias. Comprei-o por ser de contos, apenas por isso. Desconhecia, por completo, a obra de Carson McCullers (1917-67), a norte americana que trocou a música pela escrita, quando, aos quinze anos, lhe foi diagnosticada uma doença reumática grave.
Teve uma vida atribulada, esta contista. Vejamos:
Aos dez anos, Lula Carson Smith, o seu nome de baptismo, iniciou o estudo de piano.
Aos quinze, uma febre reumática afastou-a das aulas e foi durante a recuperação que descobriu o gosto pela escrita. Optou pelos contos e aos dezassete anos publicou o primeiro -“Sucker”.
Aos vinte, casou com Reeves McCullers. Foi uma relação conturbada, com muito ciúme, depressões, traições, álcool e tentativas de suicídio. Divorciaram-se e, mais tarde, voltaram a casar.
Carson é reconhecida no mundo literário, e não sabe lidar com o sucesso “sendo demasiado jovem para compreender o que me estava a acontecer ou a responsabilidade que implicava. Senti uma espécie de terror sagrado. Foi isso que, combinado com a minha doença, cedo me destruiu”.
Aos trinta e um, o lado esquerdo do seu corpo paralisou. Tentou o suicídio. Anos mais tarde, o marido propõe que se suicidem juntos. Ela não o faz. Ele morre sozinho.
Aos quarenta e cinco anos, sofre mais um golpe, quando lhe é diagnosticado cancro de mama.
Morre aos cinquenta anos, depois de 46 dias em coma.
Com uma vida tão cheia de episódios traumáticos, foi fácil ela encontrar tema para muitas histórias. A doença, o alcoolismo, o suicídio, a morte, os conflitos familiares, o trauma da adolescência, a desilusão, o fracasso… aparecem nas suas histórias de vida, pequenas, passadas em períodos de tempo curtos, bem concebidas e muito bem escritas.
Das doze histórias desta colectânea, destaco:
Wunderkind
O drama da jovem Frances, um prodígio ao piano, incapaz de lidar com os problemas da adolescência e as elevadas expectativas que depositam na sua carreira musical.
Após anos de estudo, algo de estranho começou a acontecer, as notas saíam como uma entoação falsa, morta.
Um dilema doméstico
Martin ama e odeia a mulher, prisioneira da tristeza rítmica do álcool.
Gerindo uma confusão de sentimentos, ele mantém a união familiar, garante a segurança dos filhos, enfrenta a vergonha e a humilhação dos amigos e colegas.
O rapazinho assombrado
Nesta história encantadora, o tema é o suicídio.
… aconteceu uma coisa estranha à minha mãe e depois disso ela ficou triste.
Hugh, o rapazinho, entra em pânico sempre que chega da escola e não encontra a mãe. Não esquece o que viu da “outra vez”.
Quem viu o vento?
My love, my love, my love, why have you left me alone?
Depois do sucesso do primeiro livro, Ken Harris vive o falhanço absoluto do segundo.
Incapaz de lidar com o fracasso, segue-se a desilusão, o álcool, a separação da mulher amada, a solidão, o medo e a ansiedade de uma página em branco na máquina de escrever.
O destino de Ken era incontrolável como o vento invisível.
Gostei!
Contos escolhidos, de Carson McCullers
Ed. Relógio de água, 2012
Selecção e tradução de Ana Teresa Pereira
162 págs.

10 janeiro, 2014

"Pequenos passos para mudar a sua vida" - Bill O'Hanlon

Na vida, quando nos sentimos perdidos, começamos muitas vezes a ver as coisas da mesma forma, repetidamente, ou seja, perdemos a criatividade na abordagem do problema.
Como me sinto perdida, decidi escolher um livro de auto-ajuda para primeira leitura de 2014.
Não é que as coisas estejam complicadas, estão estranhas. E eu não gosto.
Pensei, pensei, pensei e decidi reatar o controlo da minha vida e das minhas emoções, colorir o meu dia-a-dia, ultrapassar obstáculos, mudar o foco dos problemas, exorcizar fantasmas, assumir erros e falhanços.
Enfim, deu-me para isto…
Desfolhei, desfolhei e encontrei neste livro uma estratégia diferente, simples, rápida e divertida, orientada para a solução de problemas, problemas que teimam em complicar-me a vida.
São dez capítulos, dez problemas, dez soluções, numa abordagem que sugere:… concentração no futuro que gostaria de ter em vez de no passado ou no presente, de que não gosta.
Voltarei a este tema, lá para o final do ano, para confessar se consegui mudar a minha vida.
Entretanto… deixe cair as lágrimas, porque estas permitem saber que está vivo.
Eu deixo!
 
Pequenos passos para mudar a sua vida, de Bill O’Hanlon
Ed. Casa das Letras, 2008
Tradução de Luzia Almeida
219 págs.

03 janeiro, 2014

5º - Você sabe em que livro se esconde este "Primeiro parágrafo"?

É curioso que os beneméritos da humanidade sejam pessoas divertidas. Pelo menos na América é com frequência este o caso. Quem quiser governar o país tem também de o entreter.”
 
Resposta do 4º “Primeiro parágrafo”:
Em “Paris nunca se acaba”, de Enrique Vila-Matas, ed. Teorema, 2005