31 dezembro, 2014

Viver (e ler) é formidável! Bom 2015 para todos!


Estar vivo é formidável...
"A rainha da neve", de Michael Cunningham, Ed. Gradiva, 2014

... temos de nos conformar com aquilo que somos...
"As velas ardem até ao fim", de Sándor Márai, Ed. Dom Quixote, 2001

... amanhã correremos mais depressa...
"O grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald, Ed. Presença, 1985

... lê os melhores livros...
"Ravelstein", de Saul Bellow, Ed. Teorema, 2001

... lendo, fica-se a saber quase tudo...
"A caverna", de José Saramago, Ed. Caminho, 2005


Foto tirada da net.

23 dezembro, 2014

FELIZ NATAL para todos!


NATAL
O chefe de família limpou a boca ao guardanapo e afirmou
assim como dois e dois são quatro e não são outra coisa
O Natal é o Natal e não é outra coisa antes pelo contrário
E para provar o que dizia comeu uma asa de peru
com recheio de castanhas
e limpou os dedos gordurosos ao bordado da toalha
À volta da mesa metade da família discutia a mensagem
e comia
e a outra metade mais intelectual comia a mensagem
e discutia
sim tal não tal
sim tal não tal
não tal
não tal
Natal

Poema de Yvette Centeno (Portugal 1941-)
Foto tirada da net.

19 dezembro, 2014

"A pomba e a rosa" - conto de Ramiro Calle


A pomba e a rosa
“O Sol começava a despontar. Os primeiros raios rasgaram a escuridão da noite e, com a claridade do novo dia, uma pomba, volitando, entrou inadvertidamente num templo. Todas as paredes do santuário estavam cobertas com espelhos. No centro do santuário, em oferenda ao Absoluto, o sacerdote colocara uma belíssima rosa, que se reflectia nos espelhos provocando inúmeras imagens de si mesma. A pomba, tomando os reflexos da rosa pela rosa verdadeira, começou a lançar-se contra um e outro espelho, chocando violentamente contra eles, incansavelmente, até que o seu pequeno e frágil corpo sucumbiu. Morta, a pomba tombou sobre a rosa.

Em qualquer ser humano encontra-se o real e o adquirido; o essencial e o aparente. A busca do bem-estar exterior deve ser associada e complementada com a busca do bem-estar interior. Se uma pessoa puser toda a sua energia ao serviço da aparência, da imagem e da personalidade, consumirá a sua vida cativa dos reflexos, e de costas viradas para a sua natureza real, ou essência. É preciso aprender a distinguir entre o acessório e o substancial mediante o discernimento correcto, e ir recuperando esse “eu verdadeiro”, diferente do “eu social”. A rosa do conhecimento desponta dentro de nós mesmos.

Os Melhores Contos Espirituais do Oriente” – Ramiro Calle, ed. A esfera dos Livros.

Foto tirada da net.

16 dezembro, 2014

"O matrimónio" - conto de Ramiro Calle

O matrimónio
“Embora estivessem casados há apenas uns meses, não eram capazes de parar de discutir quase permanentemente e muito crispadamente. Por essa razão, decidiram visitar um homem que tinha fama de conselheiro. Puseram-no a par dos temas das discussões porque cada um pensava ter razão sobre o outro. O conselheiro disse:
- O par perfeito é aquele em que os dois se transformam num só.
E então, muito aflitos, ambos perguntaram em uníssono:
- Mas em qual dos dois?

O ego procura incansavelmente a maneira de se afirmar e de se reafirmar, de consolidar a sua estrutura e aumentar a sua burocracia, de exercer como um tirano e não ceder nas suas exigências. Um ego exacerbado rouba-nos a paz e a felicidade. Todos ficamos aflitos com a ideia de sentir o nosso ego ameaçado e não nos apercebemos de que o ego não é a nossa essência. A ego-realização, que nos acorrenta, é muito diferente da auto-realização, que nos liberta.”

Os Melhores Contos Espirituais do Oriente, de  Ramiro Calle, Ed. A esfera dos Livros.

Foto tirada da net.

12 dezembro, 2014

Acção, conspiração, aventura, humor - David Liss



Eis dois divertidos, exuberantes e arrebatadores romances históricos, que seguem as aventuras (e desventuras) de Benjamin Weaver - judeu português, detective, espadachim, antigo pugilista, caçador de criminosos, mestre do disfarce – no submundo do crime londrino do séc. XVIII.

"A Conspiração de Papel"
Benjamin Weaver trabalha para clientes aristocráticos na cobrança de dívidas difíceis. Vive afastado da família devido à má relação que tem com o pai, um abastado investidor da bolsa. Quando este é brutalmente assassinado, Weaver não pode ficar de braços cruzados.
Descendo ao submundo do crime londrino, Weaver ziguezagueia entre bordéis, cervejarias, prisões e casas de jogo, para descobrir uma conspiração que o ameaça não só a si, mas também à própria Inglaterra.

“O Grande Conspirador”
«Condeno-o à morte por enforcamento, Sr. Weaver, pelo hediondo assassinato que praticou.»
Ao ouvir a sentença do juiz, Benjamin Weaver começa um dos dias mais infelizes da sua vida.
Atirado para a terrível prisão londrina de Newgate, Weaver terá de empregar a sua considerável energia e inteligência para fugir para as ruas fedorentas da capital. Na sua mente, apenas um desejo: encontrar quem se deu a tanto trabalho para o incriminar por um assassinato que não cometeu.

Peça-os ao Pai Natal, leia e divirta-se.
Muito!!

05 dezembro, 2014

"A herança de Eszter" - Sándor Márai

Não sei o que Deus ainda me reserva. Mas antes de morrer, quero escrever a história do dia em que Lajos veio ver-me pela última vez e me roubou. Há três anos que venho adiando estes apontamentos. Agora, sinto como se uma voz, contra a qual não posso defender-me, me exortasse a escrever a história desse dia - e tudo, tudo o que sei acerca de Lajos -, porque esse é o meu dever, e já não tenho muito tempo.
Poucas vezes um início de romance me atraiu tanto. Foram ainda menos, as vezes que uma história de amor me comoveu e arrebatou. E muito menos ainda, as vezes que “ouvi” uma personagem.
Acreditem se quiserem, eu ouvi Eszter  contar a história do dia em que Lajos voltou para lhe tirar a única coisa de valor que ela possuía: a casa dos seus pais, onde vive com a velha Nunu, uma casa húmida e fria, maltratada pelo tempo, onde aconteceram muitas coisas e nem sempre alegres.  E na história daquele dia coube toda a vida de Eszter. Uma vida feita de anéis de mentiras.
Estranho?
Não, porque a escrita de Sándor Márai é perfeita e mágica!
Diz a sinopse:
Durante vinte anos Eszter viveu uma existência cinzenta e monótona, fechada sobre si própria, esperando a morte e sonhando com o retorno de um amor impossível. Até ao dia em que, inesperadamente, recebe um telegrama de Lajos, o único homem que amou e graças ao qual encontrou, por um breve período, sentido para a sua vida. Grande sedutor e canalha sem escrúpulos, Lajos não só traiu Eszter como destruiu a sua família, tirando-lhe tudo o que possuía. Agora, depois de uma ausência prolongada, regressa e Eszter prepara-se para o receber comovida e perturbada por sentimentos contraditórios.
Como não quero revelar mais sobre o enredo, não encontro as palavras exactas para falar de Eszter, nem estou interessada em imitar Lajos - que no meio das suas mentiras, se extasiava e chorava, continuava a mentir com as lágrimas nos olhos, e, por fim, para grande surpresa de todos, já dizia a verdade com a desenvoltura com que, no início, mentira - fico por aqui.
Antes, porém, recomendo vivamente que leiam (ou oiçam?!) esta história.
Ou melhor, eu recomendo que leiam tudo o que Sándor Márai escreveu. TUDO!
O homem vive, e corrige, ajusta, edifica, e destrói, algumas vezes, a sua vida; mas, passado tempo, dá-se conta de que o todo, tal como está, por força dos erros e do acaso, é imodificável.
Magnífico!

A herança de Eszter, de Sándor Márai
Tradução de Ernesto Rodrigues
Ed. Dom Quixote, 2006
150 págs.

02 dezembro, 2014

4º - Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?

“…Observo que estás muito mais despachado de espírito, e mesmo um pouco impertinente, considerando a situação, do que quando te vi pela primeira vez, Era um rapaz assustado, agora sou um homem, Não tens medo, Não, Tê-lo-ás, descansa, o medo chega sempre, até a um filho de Deus, Tens outros, Outros, quê, Filhos, Só precisava de um, E eu, como vim eu a ser teu filho, Tua mãe não to disse, Minha mãe sabe, Enviei-lhe um anjo a explicar-lhe como as coisas se tinham passado, pensei que to tivesse contado, E quando esteve esse anjo com a minha mãe, Deixa-me ver, se não erro nos cálculos, foi depois de teres saído de casa pela segunda vez e antes de fazeres aquela do vinho em Caná…”

Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

O título do livro nº 3 é:
História do cerco de Lisboa”, Editorial Caminho, 1989

01 dezembro, 2014

4º aniversário do "rol de leituras"

... e num abrir e fechar de olhos  passaram quatro anos.
Uau!
Nem tudo foi fácil, confesso. Neste quarto ano a minha relação com o rol de leituras foi um tanto ou quanto conturbada, com muitos desentendimentos e arrelias. 
Eu assumo alguma culpa, porque deixei que a “dona preguicite aguda” me acorrentasse ao sofá horas a fio, e me deixasse sem forças para virar as páginas dum livro e matraquear nas teclas do computador. Deixei, disse bem, porque já terminei com tal fantochada.
Fizemos as pazes. Agora, “abastecida” de pensamentos positivos e muito chá de camomila, vou continuar a publicar no meu rol de leituras, opiniões, frases, pensamentos e poemas, seleccionados das minhas leituras e releituras (cada vez mais, lamentavelmente).

Obrigada aos meus seguidores e a todos os que pararam aqui. 
Obrigada pelos comentários, pelas mensagens.
Obrigada Carlos (professor em Braga) pela mensagem grande, estimulante e inteligente. Ainda não respondi, mas não esqueci - vai ser difícil, pois todos os dias “lhe ponho os olhos em cima”. Verdade!
Obrigada a todos.

Por favor leiam, leiam, leiam!
Abraço!

28 novembro, 2014

"Holocausto brasileiro" - Daniela Arbex

O repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória.
Porque a história não pode ser esquecida. Porque o holocausto ainda não acabou.
(No prefácio assinado por Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista brasileira.)

Hospício de Côlonia, fundado em 1903- campo de concentração transvertido de hospital - destino de desafectos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos.
Com este livro-reportagem Daniela Arbex, jornalista brasileira, recuperou do esquecimento um capítulo macabro da história do século XX brasileiro: o genocídio de 60.000 pessoas no hospício de Colônia, feito pelas mãos do Estado, com a conivência de médicos, funcionários e população.
Homens, mulheres e crianças - a maioria internada sem diagnóstico de doença mental – foram violentamente torturados e mortos. Bebiam água do esgoto. Comiam ratos. Morriam ao frio e à fome. Eram exterminados com electrochoques tão fortes, que toda a cidade ficava sem luz, por sobrecarga da rede. Os bebés eram roubados às mães logo à nascença.
Ao morrer, davam lucro. Os cadáveres eram vendidos à faculdade de medicina. Quando o número de corpos excedia a procura, eram decompostos em ácido, no pátio, diante dos pacientes. Os ossos eram comercializados. Nada ali se perdia. Excepto a vida.
Para contar esta tenebrosa história, a jornalista investigou, ouviu sobreviventes e juntou imagens do fotógrafo Luiz Alfredo, que em 1961 entrou no hospício para fazer o registo mais dramático da sua carreira. Imagens chocantes de seres humanos em profunda tristeza, simplesmente à espera da morte.
Ó seu Manoel, tenha compaixão
Tira nós tudo desta prisão
Estamos todos de azulão
Levando o pátio de pé no chão
Lá vem a boia do pessoal
Arroz cru e feijão sem sal
E mais atrás vem o macarrão
Parece cola de colar bolão
Depois vem a sobremesa
Banana podre em cima da mesa
E logo atrás vêm as funcionárias
Que são umas putas ordinárias.
Leia. Divulgue. Não deixe esquecer. Não deixe que volte a acontecer.
Antes, prepare-se para um brutal murro no estômago.

Holocausto brasileiro, de Daniela Arbex
Ed. Guerra e Paz, 2014-11-23
255 págs.

25 novembro, 2014

Money, money, money... em "Da mão para a boca" - Paul Auster

O dinheiro falava, e na medida em que o escutássemos e obedecêssemos aos seus argumentos, aprenderíamos a linguagem da vida.
Imagina Paul Benjamin Auster (n.1947) – um dos nomes grandes da literatura norte-americana - a “apertar o cinto”? Não?
Pois isso aconteceu mesmo, como ele conta neste relato autobiográfico intimista, comovente e muito divertido.

"Entre os meus vinte anos e o início dos trinta, atravessei um período de vários anos em que tudo aquilo em que tocava se transformava num fracasso: o meu casamento terminou em divórcio, o meu trabalho como escritor soçobrou e vivi assoberbado por problemas de dinheiro. Não estou a falar de uma simples e ocasional escassez de fundos ou de alguma necessidade periódica de apertar o cinto, mas sim de uma falta de dinheiro contínua, crónica, opressiva, quase asfixiante, que me envenenava a alma e me mantinha num estado de pânico interminável.
Não podia culpar ninguém a não ser a mim próprio."
Leia mais.
"Provenho de uma família da classe média. A minha infância foi desafogada e nunca conheci nenhuma das carências e privações que afligem a maior parte dos seres humanos que vivem nesta terra. Nunca passei fome, nunca passei frio, nunca me senti em perigo de perder as coisas que tinha. (…) O meu pai era agarrado; a minha mãe esbanjadora. Ela gastava; ele não."
E ainda mais.
"Em rapaz, enquadrei-me no papel do fura-vidas clássico. Ao primeiro sinal de neve, começava a tocar às campainhas e perguntava às pessoas se queriam contratar-me para lhes desimpedir a entrada (…) Em Outubro, quando as folhas caíam, lá estava eu com o meu ancinho: tocava às mesmas campainhas e perguntava se queriam que limpasse os relvados (…) No verão, vendia limonada a dez cêntimos o copo no passeio defronte da minha casa."

Paul Auster, o escritor de sucesso, no seu melhor!
(Voltarei a este livro.)

21 novembro, 2014

"O Adeus às armas" - Ernest Hemingway

Quando as pessoas defrontam o mundo com tanta coragem, o mundo só pode quebrá-las matando-as, e por isso, é claro, mata-as. O mundo quebra toda a gente (...) Mas àqueles que não conseguem quebrar, mata-os. Mata os bons, os muito doces, os muito corajosos, imparcialmente.
AMOR e GUERRA, humor e tragédia, são os ingredientes essenciais de “O Adeus às armas”, terceiro romance de Ernest Hemingway, um clássico da literatura universal.
Protagonistas: FREDERIC HENRY (tenente norte-americano, condutor de ambulâncias do exército italiano) e CATHERINE BARKLEY (enfermeira inglesa). A eles juntam-se: Rinaldi (tenente, amigo de Henry), Helen Fergusson (enfermeira, amiga de Catherine), o padre e, claro, muitos outros.
Local da acção: ITÁLIA (Gorizia, pequena cidade a norte de Trieste, e Milão) e SUIÇA.
Tempo: Primeira Guerra Mundial - Outono de 1916
Narrador: O protagonista Frederic Henry.
Enredo: O amor de Henry e Catherine em tempo de guerra - um amor enorme, verdadeiro, atribulado. A separação. O reencontro. A fuga. A dor maior.
Linguagem: Próxima à realidade, sem artifícios, nua, crua.
Estilo: Directo, vivo, incisivo,
Palavras-chave: guerra, amor, paixão, amizade, lealdade, determinação, dor.
Diálogos: Simplicidade perfeita.
Género narrativo: romance.
Ufa!!
Termino dizendo - de forma simples, contida, sem floreados, sem adjetivos exagerados - que o romance “O Adeus às armas” (1929) é... um belíssimo poema em prosa.
- Estou farta de cabelo comprido. É muito incómodo de noite, na cama.
- Mas eu gosto dele.
- Não gostavas dele curto?
- Talvez. Mas gosto dele como está.
- Curto talvez ficasse bem. Então ficávamos ambos iguais. Oh, querido, eu queria tanto ser tu!
- E és. Nós somos um só.
- Bem sei. De noite somos.
- As noites são belas!
Concorda?
Pois é, se gosta de boas histórias de amor e guerra, leia esta e deslumbre-se.
(Lamechas, eu? Não! Romântica.)

O Adeus às armas, de Ernest Hemingway – Prémio Nobel de Literatura, 1954
Prefácio e tradução de Adolfo Casais Monteiro
Ed. Livros do Brasil, 2001
326 págs.

18 novembro, 2014

O amor e o medo à chuva... em "O adeus às armas", de Ernest Hemingway

"- Está a chover com toda a força.
- E hás-de amar-me sempre, é verdade?
- Hei-de.
- E a chuva não fará diferença?
- Não.
- Ainda bem. Porque eu tenho medo à chuva.
- Porquê?
- Não sei, querido. Sempre tive medo à chuva.
- Eu gosto dela.
- Gosto de passear à chuva. Mas é mau para o amor.
- Eu hei-de-gostar sempre de ti.
- Hei-de amar-te quer chova, quer neve, quer saraive e… que mais é?
- Não sei. Creio que estou com sono.
- Dorme, querido, hei-de amar-te de qualquer maneira.
- Não tens de facto medo à chuva, pois não?
- Quando estou junto de ti não tenho.
- Porque tens medo dela?
- Não sei.
- Diz.
- Não quero.
- Diz.
- Não.
- Diz.
- Está bem. Tenho medo à chuva porque às vezes vejo-me morta no meio dela."
- Não!"

16 novembro, 2014

Vale a pena ler... José Pacheco Pereira


"Vale a pena ler livros novos?
Todas as vezes que lemos um livro deixamos de ler outro. É mesmo assim, positivo e negativo, para os poucos milhares de livros que podemos ler, mesmo sendo grandes leitores. Já uma vez fiz este cálculo e na melhor das hipóteses, numa vida de grande leitor, dificilmente se pode ultrapassar os 4000-5000 livros e já a contar por cima.
Vale a pena ler livros novos? Ou dito de outra maneira, se não temos tempo para ler o património fundamental da literatura dos últimos 2500 anos, vale a pena perder tempo a ler livros “novos”, a esmagadora maioria dos quais desaparece da memória literária a alta velocidade, porque, no fundo, nada tinham a acrescentar de novo ao património anterior?
Não está tudo já escrito e reescrito com qualidade já testada e com real ligação com o que de mais indispensável existe na nossa história cultural? Como podemos viver sem Ibsen, Molière, Bocaccio, Stendhal, Cervantes, Safo, Virgílio, mesmo quando já não temos tempo para os ler como merecem sem também já escolhermos entre Proust ou Claudel, ou Dickens e Conrad, ou Nabokov e Updike?
É um problema que tem sentido colocar, porque, sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema. Tem de existir por isso argumentos a favor de o “novo” por testar e perder assim algo do antigo já testado."

Vale a pena ler excelentes crónicas, como esta publicada no jornal Público de 15 Novembro 2014

(foto tirada da net)

14 novembro, 2014

"Com a cabeça nas nuvens" - Susanna Tamaro

… para a minha fuga não acabar por se converter numa série de movimentos desordenados e inúteis, deveria ter uma meta precisa e que essa meta só poderia ser o império do tio Isaac, lá longe, naquele país onde tudo podia acontecer, isto é, na América.
Este romance de Susanna Tamaro – galardoado em 1989 com o Prémio Elsa Morante – relata a história de um adolescente que procura escapar ao destino inevitável de se tornar adulto refugiando-se num mundo de sonhos, fantasia e liberdade.
Ruben, o protagonista e narrador da história, vive com a avó e a bisavó (ambas mudas e cegas) nunca casa grande onde impera o silêncio, a tranquilidade e muita liberdade. Quando Ruben fez quinze anos e um professor chegou à casa grande para acompanhar a sua educação, a vida tranquila começou a esboroar-se como um biscoito sob as lagartas de um carro de combate.
O professor é severo, exigente e obriga-o a cumprir regras. 
Era indispensável descobrir o mais depressa possível um remédio para aquela tirania.
Como as avós não o podem salvar, Ruben foge, rumo à América, onde crê ser possível continuar a ser criança. A viagem é mirabolante e hilariante.
Desiludido, Ruben regressará a casa e descobrirá que...
… não vou contar mais nada, logo, vai ter que ler para saber.
Vale a pena conhecer o Ruben.
Leia e divirta-se!

Com a cabeça nas nuvens, de Susanna Tamaro
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
Ed. Presença, 1996
123 págs.

11 novembro, 2014

"As pontes da vida" - Vítor Gomes e Alfredina Ribeiro

TRAPOS DE TERNURA
Sabes
Queria ter sido a tua boneca
Feita de trapos e segredos
Pintada com as cores
Da tua inocência
E vestida com mil afectos

Queria ter sido a tua boneca
Para descobrir o mundo contigo
Dentro do teu próprio mundo
Recolheria os teus medos
Mas noites escuras da imaginação

Queria ter sido a tua boneca
Para te ver crescer na vida
E caminhar por ela suavemente

Queria ter sido a tua boneca
E sobre as rugas do tempo
Saborear os frutos da tua existência
Em velhas brincadeiras com sangue novo

Queria ter sido a tua boneca
Para um dia te ver partir
Na empoeirada prateleira da memória
Carregada de sonhos escondidos
Num recanto profundo da tua alma
Queria sido a tua boneca.

Lindo, lindo, lindo!

07 novembro, 2014

"O triunfo dos porcos" - George Orwell

Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.
Duvido que haja alguém que não tenha lido este romance satírico de George Orwell, - uma critica aos regimes políticos totalitários do século XX, nomeadamente a ditadura  repressiva e violenta exercida por Josef Stalin na União Soviética, entre 1922 1953 - que narra a revolta dos animais da Quinta «Manor» contra a exploração e dominação dos humanos, e aborda temas como corrupção, traição, opressão e exploração. 
Não deis ouvidos a quem vos disser que o homem e os animais têm interesses comuns, que a prosperidade de uns é a prosperidade dos outros. Isso é tudo mentira! Afirmava o velho porco Major, cérebro da revolta que levará ao afastamento do proprietário da quinta, o Sr. Jones.
Depois da  morte de Major, dois porcos robustos e inteligentes assumem a liderança da quinta: Snowball e Napoleão. Como ambos sabem ler e escrever, cabe-lhes a missão de condensar os princípios dos Animais em sete mandamentos:
1) Tudo o que anda com dois pés é inimigo.
2) Tudo o que anda com quatro patas ou tem asas é amigo.
3) Nenhum animal usará roupa.
4) Nenhum animal dormirá na cama.
5) Nenhum animal beberá álcool.
6) Nenhum animal matará outro animal.
7) Todos os animais são iguais.
Para os animais menos inteligentes, incapazes de aprender os sete mandamentos, Snowball cria a máxima: «Quatro pernas bom, duas pernas mau» e todos se entendem.
Passa o verão, passa o outono, e no inverno gelado a polémica à volta da construção de um moinho de vento abala a liderança dos dois porcos. Vão a eleições. Os restantes animais, divididos em dois grupos, gritam palavras de ordem:
- Votai por Snowball e três dias de trabalho por semana!
- Votai por Napoleão e muita comida!
Napoleão, seduzido pelo poder, não espera pela contagem dos votos e, com a ajuda do seus cães, expulsa Snowball. De seguida, estabelece na quinta uma ditadura opressiva e corrupta, muda-se para casa do Sr. Jones, dorme na cama, bebe álcool, executa outros animais, anda sobre as duas patas traseiras, altera o texto de alguns mandamentos.
A vida é dura para os restantes animais, mas não deixam de aclamar o líder «Nosso Chefe, Camarada Napoleão».
Na primavera, a Animal Farm proclama a República e Napoleão é eleito, por unanimidade, presidente.
Na quinta, agora mais próspera e melhor organizada, apenas enriquecem os porcos e os cães.
Os mais velhos recordam os primeiros tempos da Revolta, sem perder a esperança nem o sentimento da honra e do privilégio de fazem parte da Animal Farm.
Actualíssimo, não?!
Se ainda não leu, por favor leia.

O Triunfo dos porcos, de George Orwell
Tradução de Maria Antunes
Ed. Perspectivas e Realidades, 1980
111 págs.

04 novembro, 2014

3º - Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?

“Está demonstrado, portanto, que o revisor errou, que se não errou confundiu, que se não confundiu imaginou, mas venha atirar-lhe a primeira pedra aquele que não tenha errado, confundido ou imaginado nunca. Errar, disse-o quem sabia, é próprio do homem, o que significa, se não é erro tomar as palavras à letra, que não seria verdadeiro homem aquele que não errasse. Porém esta suprema máxima não pode ser utilizada como desculpa universal que a todos nos absorveria de juízos coxos e opiniões mancas, Quem não sabe deve perguntar, ter humildade, e uma precaução tão elementar deveria tê-la sempre o revisor…”

Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

O título do livro nº 2 é:
O ano da Morte de Ricardo Reis”, Editorial Caminho, 1984

01 novembro, 2014

"A rainha da neve" - Michael Cunningham

As visões são respostas. Respostas implicam perguntas.
Nas primeiras dezassete páginas deste romance, o protagonista Barrett Meeks é maltratado pelo amor e dias depois vê no céu uma luz celestial. Como o romance tem 278 páginas, a história promete, não?

Novembro 2006
(Não vão reeleger George Bush. Não podem reeleger George Bush.)
Barrett Meeks está a viver mais um desgosto amoroso. O seu último amante, um canadiano de forte compleição que chegou a dizer-lhe “Podia até amar-te”, com quem partilhara cinco meses de sexo, comida e piadas, pusera fim à relação, inesperadamente e por SMS: Olá Barrett. Calculo q sabes do q se trata. Olha, demos o melhor de nós, certo?... Desejo-te felicidades e sorte no futuro. xxx
Aos trinta e oito anos, Barrett já passou por várias separações abruptas e dolorosas - nunca comunicadas por mensagem - mas continua a não saber lidar com o desamor.
Quatro dias depois, quando caminha de cabeça baixa pelo Central Park, dirigindo-se para casa depois de um exame dentário, é impelido a olhar para o cima e vê no céu uma luz a olhar para ele. Não. A olhar, não. A captá-lo. É uma pálida luz azul-cobalto, translúcida, um retalho de véu, à altura das estrelas, que logo depois se desvanece e deixa no céu a normal escuridão nocturna.
Por momentos, Barrett - que não acredita em visões, nem em Deus - continua parado a olhar para o céu, depois, incrédulo e perturbado, prossegue o caminho para casa. (Casa que não é sua. A sua perdeu-a e como não tinha dinheiro para alugar outra, foi viver com Tyler e Beth).
Tyler é o seu irmão mais velho. Tem quarenta e três anos, é formado em Ciência Política, é um músico falhado que toca em bares.  De momento, Tyler busca inspiração nas drogas, que esconde na gaveta da mesa-de-cabeceira, para compor a mais bela canção de amor para Beth, a noiva que luta contra um cancro em fase terminal. Mas voltemos a Barrett.
Na manhã seguinte a ter visto a estranha luz, durante a sua corrida habitual de dois quilómetros, a pergunta surge: O que é que a luz quereria, precisamente, que ele levasse por diante ou fizesse?
Barrett vai manter tudo como está: o regime de exercício e dieta sem hidratos de carbono; a releitura de Flaubert; o emprego na loja de venda a retalho de Liz, (ainda não disse, mas Barrett formou-se em Yale); o quarto em casa do irmão, num bairro pobre de Brooklyn; a procura do verdadeiro amor.
Barrett, o jovem que parecia tão obviamente destinado a voos vertiginosos, está à beira da catástrofe: falido e destroçado. Talvez comece a ir à igreja.
Acabou, não desvendo mais…

Novembro 2008 
(Este país não está preparado para um Presidente negro.)
Terá Barrett encontrado o amor?
- Queres contar-me o que era aquilo sobre uma luz? – pergunta Sam.
- Isso é uma história estranha. – diz Barrett.
- Eu gosto de histórias estranhas.
- Gostas, não gostas? Gostas mesmo de histórias estranhas.
De estranho não tem nada este romance “brilhante”, inteligente, divertido e comovente, sobre as emoções humanas. A trama está bem urdida. As personagens são consistentes e cativantes. A escrita é, como tudo o que o autor já nos deu a ler, envolvente.
Falta apenas dizer que me fascinou a ligação fortíssima dos irmãos Meeks; me emocionou o amor de Tyler por Beth; me cativou a força de Liz (a patroa de Barrett)  e o seu amor estranho e secreto por... não digo.
Gostei!
(Mas continuo a preferir... "Sangue do meu sangue".)

A rainha da neve, de Michael Cunningham
Tradução de Lucília Filipe
Ed. Gradiva, 214
278 págs.

28 outubro, 2014

O Céu piscou-te o olho, não foi?... em "A rainha da neve", de Michael Cunningham

"O Céu piscou-te o olho, não foi? Talvez. Talvez o tenha feito. Ou talvez fosse apenas um avião ou uma nuvem. Mas, se o Céu pisca o olho a qualquer pessoa, é provavelmente aos menos evidentes, aos que procuram entre trapos e farrapos do lixo, àqueles que optam pela vereda em vez da avenida, o buraco na sebe em vez dos portões triunfais. Talvez por isso não existam provas verificáveis, não é? O universo só pisca o olho àqueles em que ninguém irá acreditar.”

24 outubro, 2014

"Inês da minha alma" - Isabel Allende

O meu nome é INÊS SUÁREZ, habitante da leal cidade de Santiago de Nova Extremadura, no Reino do Chile, neste ano de Nosso Senhor de 1580. Não tenho certeza da data exacta do meu nascimento, mas a minha mãe assegura que nasci depois da grande fome e do tremendo surto de peste que assolou a Espanha logo após a morte de Filipe, o Belo.
Começa assim a história - misto de realidade e ficção - de Inês Suárez, a costureira espanhola que rumou ao Novo Mundo em busca do amor, aventura e liberdade, participou na conquista e fundação do Reino do Chile e se tornou rica e influente.
Inês nasce na Estremadura espanhola, em 1507. Aos dezanove anos conhece Juan de Málaga, que virá a ser o seu primeiro marido. Ele é bonito, alegre, tem porte de guerreiro. Mas também é vaidoso, preguiçoso e gastador. Inês trabalha e ele gasta. Logo ela percebe que aquele casamento foi um erro e, por isso, quando Juan parte à aventura para o Novo Mundo, no outro lado do Atlântico, a paixão que ambos partilhavam já há muito se transformara num desgosto.
Quando Inês deixa de receber notícias do marido, decide ir procurá-lo e segui-lo na sua aventura, custasse o que custasse, não por amor, porque já não o sentia, nem por lealdade, que ele não merecia, mas porque sonhava ser livre.
Sem dizer nada a ninguém, trata dos preparativos da viagem e quando obtém a licença real ruma ao Novo Mundo. Com ela leva Asunción, a sobrinha de quinze anos. É a primeira vez que o navio do Mestre Manuel Martín transporta mulheres e ele aconselha prudência a Inês.
Em Agosto de 1537, o navio chega a Cartagena das Índias. Para as duas mulheres começam as aventuras: Asunción casa no dia seguinte, com um passageiro da embarcação; Inês mata o marinheiro que entra no seu quarto sem ser convidado. O Mestre Martín desfaz-se do corpo e aconselha-a a sair de Cartagena, quanto antes. Inês parte sozinha para a cidade do Panamá e dali embarca para o Peru.
No Peru, Inês sabe da morte do marido. Decide não regressar a Espanha.
Diz ela: Juan de Málaga estava morto e eu estava livre. Posso afirmar com toda a certeza que foi nesse dia que a minha vida começou.
E começou mesmo, quando encontrou Pedro, o grande amor da sua vida. Com Pedro de Valdivia vivi um amor digno de uma lenda, e com ele conquistei um reino… a minha vida só vale a pena ser contada porque participei na conquista do Chile, junto de Pedro de Valdivia.
Pedro era mestre de campo, herói de muitas guerras, homem ambicioso, rico e poderoso. Quando conhece Inês já tinha decidido abandonar o Peru, onde havia tesouros incalculáveis, mas não chegavam para tantos pedinchões, e partir à conquista de outro território para deixar fama e memória de si. Sendo amantes inseparáveis, Pedro desafia Inês a acompanhá-lo:
Vamos para o Chile, Inês da minha alma…

Bem, decidi não desvendar mais sobre a vida desta singular senhora.Tendo ela vivido setenta e três anos - bem vividos - você não pode imaginar o quanto ficou por revelar.
Acredite que vale a pena ler (ou reler, como foi o meu caso) tudo o que ela contou à filha Isabel.
A propósito, Isabel nasceu do casamento de Inês com Rodrigo de Quiroga.
Confuso? Não, empolgante!

Inês da minha vida, de Isabel Allende
Tradução de Ana Mendes Lopes
Ed. Difel, 2006
342 págs.

21 outubro, 2014

"A vida de Gandhi" - Edmond Privat

"A religião de Gandhi consistia principalmente na maneira de viver. Ao deixar a Índia, já considerava a verdade como base de toda a conduta. Não se tratava apenas de dizer a verdade e ser honesto, mas de vivê-la e ser bom. Colocar-se na posição do vizinho parecia-lhe ciência e lei. Uma estrofe de Shamal Bhatt em guzerate, sua língua materna, inspirou muitas das suas experiências na arte de pagar com juros o Mal com o Bem.

Por uma pequena cuia de água, dá um copioso repasto;
A uma saudação amável, inclina-te mais ainda.
Por uma moeda de cobre, oferece outra de ouro,
E se te salvam a vida, oferece a vida outra vez.
Observa assim os atos e as palavras dos sábios.
Vê como pagam dez vezes o favor mais modesto.
Um coração nobre percebe que os homens não são senão um
E alegremente paga o Mal com o Bem.

A vida de Gandhi é a história de um hindu que pouco a pouco se foi firmando na certeza de que a coragem tranquila e o sacrifício voluntário têm um grande poder de convicção sobre os nossos semelhantes."

Há que ler... para aprender.

(Foto tirada da net.)

17 outubro, 2014

"As velas ardem até ao fim" - Sándor Márai

Uma pessoa prepara-se para alguma coisa durante a vida inteira. Primeiro, sente-se ofendido. Depois quer vingança. A seguir, fica à espera.
Decidi reler este extraordinário romance, ou melhor, este “tratado sobre a amizade, a paixão e a honra”, precisamente dez anos depois da primeira leitura, e voltei a deslumbrar-me com a excelência da escrita de Sándor Márai e a emocionar-me com a amizade que une Henry e Konrád. Só uma profunda amizade é capaz de sobreviver à passagem do tempo, à distância, à mentira, à traição.
Henry (filho de um oficial da guarda) e Konrád (filho de um funcionário público) conhecem-se num colégio interno localizado próximo de Viena. Têm ambos dez anos e, a partir desse dia, viverão como gémeos idênticos no útero da mãe: juntos no colégio militar, juntos nas férias e no Natal, juntos quando prestam juramento, juntos no apartamento arrendado junto da corte, nos primeiros anos de serviço.
Unia-os uma amizade séria e silenciosa, e ambos perdoavam ao outro o pecado original: Konrád perdoava ao amigo a riqueza, o filho do oficial da guarda perdoava a Konrád a pobreza.
Konrád era sereno e reservado. Gostava de música. Tocava piano com a mãe de Henry. Lia livros sobre história, sobre o desenvolvimento social. Nunca há-de ser um verdadeiro soldado, dizia o oficial da guarda ao filho.
Henry não tinha ouvido para a música e achava-a perigosa. Apenas lia livros sobre cavalos e viagens. Seguiu a carreira militar. Chegou a general.
Havia algo no relacionamento dos dois, ternura, seriedade, dedicação, algo fatal…
Fatal foi Konrád ter apresentado Krisztina, sua amiga de infância, a Henry.
Logo depois, Henry casa com Krisztina, o seu único grande amor.
A relação dois dois amigos começa a mudar e, inesperadamente, sem dar conhecimento nem se despedir dos amigos, Konrád desaparece da cidade.
Mas regressa, quarenta e um anos e quarenta e três dias depois, e logo faz chegar uma carta ao general.
No castelo, que encerra segredos, silêncios e memórias, o velho general lê e relê a carta do amigo que lhe pede para o receber no castelo. Henry fala com Nini, a velha ama que o viu nascer e amamentou, a confidente – sabiam tudo um do outro – e pede-lhe para organizar um jantar como antigamente, sem esquecer as velas azuis na mesa.
- Que é que queres deste homem? – pergunta a ama.
- A verdade – disse o general.
- Conheces bem a verdade.
- Não conheço… É mesmo a verdade que não conheço.
- Mas conheces a realidade – disse a ama numa voz aguda, ofensiva.
- A realidade não é a verdade – retorquiu o general. – A realidade é apenas um pormenor.
Na hora do encontro, os dois amigos, agora com setenta e três anos de idade, examinam-se um ou outro. Konrád sabia que outra vez tinha de voltar ali e o general sabia que um dia chegaria esse momento. Viviam por essa razão.
Na sala de jantar, onde durante vinte anos não entrou um só convidado, os dois amigos estão sentados nos dois extremos da mesa, onde se alinham candelabros de porcelana com velas azuis. A meio da mesa está uma cadeira vazia. Aquele era o lugar de Krisztina, a mulher do general, que morreu aos vinte e oito anos de idade, oito anos após a fuga de Konrád.
Depois do jantar, ainda as velas ardiam no candelabro, o general faz ao amigo as duas perguntas que o atormentaram nas últimas décadas.
Pois é, mas... as velas arderam até ao fim e eu, às escuras, não posso revelar mais sobre o enredo deste excelente romance. Posso, sim, aconselhar vivamente a sua leitura. Será inesquecível.

As velas adem até ao fim, de Sándor Márai
Tradução de Mária Magdolna Demeter
Ed. Dom Quixote, 2001
153págs.

14 outubro, 2014

Temos de suportar... em "As velas ardem até ao fim", de Sándor Márai


"Temos de suportar o nosso carácter, o nosso temperamento, já que os seus defeitos, egoísmo e avidez, não os mudam nem a experiência, nem a compreensão. Temos de suportar que os nossos desejos não tenham plena repercussão no mundo. Temos de suportar que as pessoas que amamos, não nos amem, ou que não nos amem como gostaríamos. Temos de suportar a traição e a infidelidade, e o que é mais difícil entre todas as tarefas humanas, tempos de suportar a superioridade moral ou intelectual de uma outra pessoa."

10 outubro, 2014

"Os factos" - Philip Roth

“E enquanto ele falava eu pensava: em que histórias as pessoas transformam a vida, em que vidas as pessoas transformam as histórias."
(Nathan Zuckerman, em The Counterlife)

O livro "Os Factos - Autobiografia de um Romancista” abre com uma carta de Philip Roth para Nathan Zuckerman. (Conhecem, não?! Ele é o protagonista-narrador de nove romances de Philip Roth)).
Nessa carta, Roth explica o porquê do livro, escrito absolutamente ao contrário, pegando naquilo que já imaginei e, por assim dizer, dissecando-o, para assim devolver a minha experiência à sua factualidade original e pré-ficcionada. Para provar que existe um fosso importante entre o escritor autobiográfico que as pessoas pensam que eu sou e o escritor autobiográfico que sou.
O livro vale alguma coisa? Sê franco.
De seguida, escreve sobre cinco episódios da sua vida:
- a infância urbana e protegida, nos anos trinta e quarenta
- a preparação para a vida americana numa universidade conservadora, nos anos cinquenta
Eu acabei o liceu em janeiro de 1950 … tinha querido desesperadamente ir para uma universidade longe de casa… não tinha conseguido bolsa de estudos… acabei por ficar em Newark e continuar a viver em casa dos meus pais.
Em Março de 1951, os meus pais e eu fizemos a viagem de sete horas de carro até Lewisburg… ia ser admitido em Bucknell.
- o envolvimento tumultuoso, quando era jovem e ambicioso, com a pessoa mais colérica que conheceu em toda a sua vida («a rapariga dos meus sonhos», como Roth lhe chama)
Josie (nome verdadeiro Margaret Martinson, a mulher com quem viveu mais anos) trabalhava como secretária na Divisão de Ciências Sociais… Conhecemo-nos (1956) e tornámo-nos amantes… Não vou descrever o que foi a nossa vida… exceto para dizer que me espanta tanto hoje como me espantou na altura que não tivéssemos acabado – um de nós ou ambos – mutilados ou mortos… Não há dúvida de que ela foi o meu pior inimigo de sempre mas, tenho de reconhecer, foi também o mais espantoso de todos os meus professores de escrita criativa, especialista por excelência em estética da ficção extremista.
Casei com ela.
- o choque com um influente grupo de judeus indignados com o seu Goodbye, Columbus
A humilhação que sofri perante os beligerantes da Yeshivá – ou antes, a raivosa oposição judaica que despertei praticamente desde o início – foi a melhor coisa que podia ter-me acontecido. Marcou-me a fogo.
- e a descoberta, nos excessos dos anos sessenta, de um lado inexplorado do seu talento
O que encontrei então em Nova Iorque, quando me separei da minha mulher (1962) e me mudei de Princeton… foram os ingredientes que inspiraram O Complexo de Portnoy, cuja publicação em 1969 determinou todas as opções importantes que fiz na década seguinte.
O livro termina com a carta-resposta de Nathan Zuckerman.
Li o manuscrito duas vezes. Aqui está a franqueza que me pedes:
- Não publiques - sais-te muito melhor a escrever sobre mim do que a relatar “fielmente” a tua vida… O meu palpite é que já escreveste tantas metamorfoses de ti mesmo que não fazes mais ideia do que és ou alguma vez foste. Agora não passas de um texto ambulante.
Ainda bem que ele publicou, pela “festa” que é “escutar” um dos maiores romancista americanos do século XX falar de si.
Será tudo verdade?
Isso não interessa. O que interessa é que Philip Roth é genial.
As recordações do passado não são recordações de factos mas recordações da nossa imaginação dos factos.

Os factos, de Philip Roth
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2014
228 págs.

07 outubro, 2014

2º - Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?

“Tenho de abrir consultório, vestir a bata, ouvir doentes, ainda que seja só para deixá-los morrer, ao menos estarão a fazer-me companhia enquanto viverem, será a última boa acção de cada um deles, serem o doente médico de um médico doente, não diremos que estes pensamentos sejam de todos os médicos, deste sim, pelas suas particulares razões por enquanto mal entrevistas, e também, Que clínica farei, onde, e para quem, julga-se que tais perguntas não requerem mais do que respostas, puro engano, é com actos que respondemos sempre, e também com os actos que perguntamos.”

Se não identifica o livro, depois eu direi qual é.
Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

O título do livro nº 1 é:
Memorial do convento”, publicado pela Editorial Caminho, em 1982

05 outubro, 2014

Há que divulgar...



A sessão de lançamento do livro de Rui Bernardino e de Cláudia Cambraia será no dia 18 de Outubro, sábado, às 17h30, no ISCAC – Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra.

Eis a sinopse:
"A doença que tem acompanhado o Rui Bernardino, a ataxia de Friedreich, limitou-lhe os movimentos e prendeu-o a uma cadeira de rodas, quando este tinha apenas vinte anos de idade. Porém, nunca conseguiu limitar-lhe a capacidade de sonhar. Hoje, com 36 anos de idade, o Rui continua a acreditar que “é possível”. O livro de que hoje se fala é a prova disso mesmo.
Como revela a editora, "É possível" é um livro de 108 páginas, que relata episódios verídicos, mais ou menos caricatos, de um percurso de vida, desde o nascimento até aos dias de hoje. O livro partilha a alegria e a tristeza.
A personagem principal é Rui Bernardino. Dotado de uma personalidade fortíssima, embora por vezes ingénuo, Rui revela a forma muito própria como vem lidando com uma vida condicionada pela cadeira de rodas. O livro destaca os pilares principais deste percurso: o tio Tó, também portador de ataxia de Frierdeich e a principal referência do Rui, Miguel Abrantes, o melhor e fiel amigo até aos dias de hoje, e a esposa Michelly Abreu. "Como os últimos são os primeiros", ela é sem dúvida a sua maior força.
Este livro é inspirador. Ele mostra que ser feliz só depende da nossa atitude, além de motivar todos os leitores a encontrarem o que de melhor têm para dar aos outros.
Todo o caminho do Rui é cheio de "coisas" diferentes. Hoje com um grau de incapacidade de 95%, sente as suas forças renovadas pela filha e pelos "ares" da cidade. O melhor ainda está, certamente, por vir!”

Força, Rui Bernardino!

03 outubro, 2014

Vale a pena ler...


P: Continua a ler os clássicos portugueses?
R: Continuo. Já estou numa fase de releitura, a começar pelo meu “amigo” Padre António Vieira.
Quando comecei a querer escrever, perguntei ao meu pai o que devia fazer. E ele disse: “Leia o Padre Vieira.” Depois perguntei: “E o segundo?” “Leia o Padre Vieira.” “E o terceiro?” “Leia o Padre Vieira.” 
Foi uma profecia. Passei a vida lendo o Padre Vieira…”

Excerto da entrevista concedida por José Sarney (31º Presidente do Brasil) a Manuel Carvalho, publicada no jornal Público de 28 Setembro 2014.
Vale a pena ler na íntegra. 

30 setembro, 2014

"O Progresso do amor" - Alice Munro

Mesmo que vivamos atormentados por problemas, que sejamos doentes e pobres e feios, temos uma alma para carregar vida fora como um tesouro numa salva. (O progresso do amor)
Pois é, voltei aos magníficos contos de Alice Munro.
Como são tantos os livros dela nas livrarias, escolhi aleatoriamente “O progresso do amor” para uma segunda deambulação pela obra da contista.
Arrebataram-me os contos desta colectânea (1986) sobre o AMOR (a natureza e os tormentos do amor), as relações familiares, a perda, a dor, o desespero, as escolhas, as memórias.
Li os onze e queria mais. Não cansa ler Alice Munro. Os seus textos são encantatórios. Tal deve-se à mestria da escrita, à sensibilidade no desnudar da natureza humana, à capacidade de conceber histórias críveis e de “montar” personagens com sentimentos. O resultado é impressionante e arrepiante.
Dos onze excelentes contos destaco dois:
- Líquen
A história começa com a chegada de David e a sua namorada Catherine (uma mulher alta e frágil, ossuda, com cabelo louro e pele delicada), à casa de Stella, uma casa onde as conversas tendem a espalhar-se… nenhuma das divisórias interiores vai até ao tecto... excepto as da casa de banho… isso favorece muito a vida familiar.
Mas Stella, (uma mulher baixa, gorda e de cabelos brancos… pele macia e bronzeada, um corte de cabelo acriançado, os olhos castanhos e grandes…. escreve para o jornal local… faz parte dum grupo de leitura teatral, de um coro da igreja, do clube de produtores de vinhos e de um grupo informal cujos membros se recebem mutuamente uma vez por mês em jantares de convívio), vive sózinha, na casa de férias construída pelo pai, junto ao lago Huron.
David e Stella foram casados vinte e um anos. Estão separados há oito. Continuam a falar de amor e a partilhar segredos.
E mais não conto…
- Miles, City, Montana
O meu pai atravessou o amplo carregando nos braços o cadáver do rapaz que se tinha afogado… O rapaz chamava-se Steve Gauley. Tinha oito anos… Levar tais notícias, tais provas, a uma família à espera, sobretudo uma mãe, bastaria para justificar o andar pesado dos membros da equipa de busca, mas naquele caso a situação ainda era pior… era o facto de não haver mãe nenhuma, mulher nenhuma – nem avó, nem tia, nem irmãs – para receber Gauley e o chorar como devia.
Bem... arrepia, ou não?
Já ando eufórica a pensar no que encontrarei no livro seguinte. Qual será? Depois se verá.
Um pingo de ódio na tua alma é o suficiente para descolorir tudo, como um pingo de tinta preta no leite. (O progresso do amor)
Leiam Alice Munro.

O progresso do amor, de Alice Munro – Prémio Nobel de Literatura, 2013
Tradução de José Miguel Silva
Ed. Relógio d’Água, 2013
305 págs.

Fartança de gralhas n' “O Progresso do amor”, de Alice Munro

- Uma vez quis pregar um susto ao papá. Parece que ela (ele) andava interessado numa rapariga que… (pág. 28)

- Collin estava a ajudar Glenna na limpeza… estava exausta, depois de ter organizado um jantar mais complexo… que ninguém senão ela saberia apreciar. Não, estava enganada. Ele apreciaria… David (Collin) apreciava… (pág. 84)

- A princípio, com as luzes e o todo o alarido… (pág. 85)

- Enquanto observava os meus pais à distância e experimentava aquele (aquela) nova e desagradável sensação… (pág. 107)

- O que acontecia é que Robert dava crédito a cada uma das essas (dessas) hipóteses… (pág. 123)

- Foi a primeira -- (vez) que eu ouvi alguém usar a palavra... (pág. 172)

Há mais. Lamentavelmente!

26 setembro, 2014

Há que divulgar...

Apesar do ainda estar longe o lançamento do novo romance de Ana Gil Campos - 24 de Outubro – fica já aqui a capa e a sinopse:

“Sara, uma mulher determinada e ambiciosa, no pico da sua carreira como arquitecta sente um grande vazio interior, uma frustração que a consome apesar de ter uma vida aparentemente perfeita. Assim, desloca-se perturbada a Vieira do Minho, a sua terra natal no norte de Portugal, para procurar ajuda da única pessoa que a pode ajudar, a sua alma gémea. A Sara quer desaparecer da sua vida sem que ninguém perceba! De regresso a Lisboa, vê-se nos meandros da maçonaria feminina onde ser apercebe, em pânico, estar envolvida num caso de corrupção com uma ministra do governo português. O seu casamento também se encontra em crise pois vive de aparências. O casal vive como dois estranhos dentro de casa, completamente desligados um do outro, onde a tensão é constante. O Pedro, o seu marido que também é arquitecto, aceita o compromisso de trabalhar em São Paulo e faz-lhe um ultimato: ou vai viver com ele para o Brasil ou o casamento está definitivamente terminado. Desesperada e sem saber o que fazer relativamente à maçonaria, ao seu envolvimento no caso de corrupção e ao próprio casamento, resolve fugir para Barcelona, onde se refugia na casa do seu amigo Barden, alto membro da maçonaria espanhola. Durante estas semanas em Barcelona vai descobrir o verdadeiro segredo maçónico e tomar as decisões mais importantes e determinantes da sua vida.“

Gosto do enredo. Vou ficar de olho.
Muito sucesso, Ana Gil Campos.

23 setembro, 2014

"A verdade sobre o caso Harry Quebert" - Joël Dicker

- Gostaria de o ensinar a escrever, Marcus, não para que saiba escrever, mas para vir a ser escritor. Porque escrever livros não vale nada: toda a gente sabe escrever, mas nem todos são escritores.
- E como sabemos que somos escritores, Harry?
- Ninguém sabe se é escritor. São os outros que lho dizem.
Aurora- New Hampshire - 30 de Agosto de 1975 (noite)
Na pequena e pacata cidade à beira-mar, junto à fronteira com Massachusetts, Deborah Cooper, ao olhar pela janela da cozinha, vê uma jovem a ser perseguida por um homem na floresta. Avisa imediatamente a polícia. Deborah é assassinada minutos depois do telefonema.
Nessa mesma noite, Nola Kellergan, uma jovem de quinze anos, desaparece misteriosamente da cidade. Não é encontrada. As investigações policiais não conduzem a nada. O processo é arquivado.
Nova Iorque – início de 2008
Marcus Goldman tinha vinte e oito anos de idade quando publicou o seu primeiro romance. O sucesso foi imediato e retumbante. Vendeu dois milhões de exemplares e assinou com a editora um contrato para o lançamento de cinco livros.
Um ano depois, Marcus, a nova coqueluche das letras americanas, não tinha ainda escrita uma única linha do segundo romance. A inspiração desaparecera.
Em 2008, o seu agente passou da advertência à pressão: Está a fazer-nos perder dinheiro! Apresente uma boa obra, escreva um bom livro e salve a sua honra. Dou-lhe seis meses…
Marcus Goldman liga, então, para a única pessoa que o pode ajudar a vencer o abismo da página em branco – Harry Quebert, o seu antigo professor na universidade, o Mestre, o grande amigo, o escritor de sucesso. 
Uma semana mais tarde Marcus chega a casa de Harry, em Aurora, casa que já conhecia bem, de estadias anteriores.
- Por vezes os escritores têm falhas, faz parte dos ossos do ofício… Lance- se ao trabalho, verá que isso se desbloqueará sozinho… vou ajudá-lo a reencontrar a inspiração… Que pensava, Marcus? Que ia escrever um segundo romance como quem põe um ovo? Uma carreira constrói-se, meu caro.
Um dia, sozinho em casa, Marcus descobre numa caixa de madeira, recortes de jornal sobre o desaparecimento de Nola Kellergan, em 1975, e uma série de fotografias de Harry com a jovem.
- Quem é Nola?
- Não me pergunte quem é Nola… amei-a, Marcus, amei-a muito… foi a mulher da minha vida.
Aurora – New Hampshire- 12 de Junho de 2008 (manhã bem cedo)
Nos arredores de Aurora, no jardim duma propriedade em Goose Cove, com vista para o mar e acesso directo à praia, a empresa de jardinagem contratada para plantar hortênsias num canteiro junto à casa construída em pedra e madeira, ao revolver a terra, encontra ossadas humanas a um metro de profundidade. Chama a polícia.
A casa é de Harry Quebert, sessenta e sete anos, um homem só, sem família, professor universitário, escritor de sucesso, autor do premiadíssimo romance “As Origens do Mal”, publicado em 1976.
Os restos mortais enterrados no seu quintal são de Nola Kellergan, a adolescente desaparecida há trinta e três anos. Enterrado junto dela os investigadores encontram o manuscrito do livro "As Origens do Mal" - a história de um homem e de uma mulher que se amavam sem na verdade, terem o direito de se amar.

Em Nova Iorque Marcus Goldman fica a saber, ao mesmo tempo que toda a América, que o professor Harry Quebert é suspeito da morte de Deborah Cooper e do rapto e assassínio de Nola Kellergan. Estupefacto, pega no livro “As Origens do Mal” e lê uma vez mais, a dedicatória do Mestre:
Para Marcus, o meu mais brilhante aluno.
Com toda a amizade
H.L. Quebert, Maio de 1999
Que mal seria esse? O amor entre um homem adulto e uma adolescente?
Convencido da inocência de Harry, Marcus volta a Aurora para investigar os acontecimentos ocorridos no verão de 1975, que conduziram ao desaparecimento e assassinato da jovem Nola e... escrever o seu segundo romance “A verdade sobre o caso Harry Quebert”, um relato minucioso do caso, tendo por base a sua própria investigação.
- O primeiro capítulo Marcus, é essencial. Se os leitores não gostarem, não lerão o resto do livro. Como tenciona começar o seu?
- Não sei Harry. Pensa que algum dia conseguirei?
- Conseguirá o quê?
- Escrever um livro.
- Tenho a certeza.
Bem, bem, o livro foi escrito, eu li-o (sem saltar nenhuma das quase setecentas páginas) e fiquei a saber - quem matou Nola Kellergan. Mas não foi uma leitura fácil, não. A história, bem escrita, não me empolgou. Só não desisti de querer saber o nome do assassino, porque encontrei o entusiasmo necessário para continuar a virar as páginas, nos conselhos do Mestre ao jovem escritor Marcus, sobre escritores, livros e amor. Fabulosos!
- Alimente o amor, Marcus. Faça dele a sua mais bela conquista, a sua única ambição. Atrás dos homens, outros homens virão. Atrás dos livros, outros livros. Atrás da glória, outras glórias. Atrás do dinheiro, mais dinheiro. Mas atrás do amor, Marcus, atrás do amor, só lágrimas salgadas.
Enfim!

A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joël Dicker
Tradução de Isabel St. Aubyn
Ed. Alfaguara, 2013
684 págs.

12 setembro, 2014

"A Irmã" - Sándor Márai

O que sabemos sobre a vida? Nada que seja real.
Este romance de Sándor Márai – o último que escreveu antes do exílio - divide-se em duas partes.
Na primeira parte, um escritor (narrador do romance) relata a sua estadia numa albergaria isolada nas montanhas da Transilvânia, e o reencontro com Z., o famoso Z., o célebre e laureado pianista e compositor húngaro que uma doença rara afastou dos palcos.
O mau tempo de meados de Dezembro, com avalanches de neve, uma chuva misturada com granizo e muito nevoeiro, “aprisionava” na albergaria os poucos hóspedes, apenas sete, o dono e a mulher, duas criadas e um pastor, que no inverno ajudava como criado.
Os hóspedes esperavam e desesperavam, naquele castigo forçado. Passavam o dia na sala escura e húmida a fumar, conversar, jogar às cartas, ouvir no rádio de pilhas as notícias sobre a guerra, as cidades destruídas, os milhares de mortos.
… já não havia paciência e a boa vontade também parecia esgotar-se.
Aquele isolamento, terminará no dia de Natal, o terceiro desde que começara a Segunda Guerra, depois de um casal de amantes, de meia-idade, ambos casados, com filhos, cumprir, no melhor quarto da albergaria, o triste desejo de arrumar a desordem da vida. São encontrados deitados na cama, lado a lado, serenos, ele morto, ela ainda consciente. Não resistirá.
Dias depois, já no exterior da albergaria, o escritor cruza-se com Z.. Falam sobre a estranha doença, diagnosticada no início da guerra, que o afastou dos palcos: Nunca mais vou dar consertos… Simplesmente, não posso voltar a tocar. Nunca mais.
Passados alguns meses, o escritor lê num jornal a notícia do falecimento de Z., na Suíça. Três semanas depois, recebe um envelope com o espólio de Z.. Dentro está o relato detalhado e comovente da dolorosa doença que o impediu de voltar a tocar, do longo internamento no hospital de Florença, e da sua relação com E., uma mulher casada que ambos conhecem.
A reprodução integral do manuscrito, onde Z. reflecte sobre as questões da vida e da morte, sobre as grandes emoções que movem o homem, como a fé, o amor e a paixão, é a segunda parte deste romance.
No auge da sua carreira de pianista e compositor, Z. é convidado pelo governo italiano para visitar e tocar em Florença. O convite é feito através do embaixador do país, um homem estranho que ele conhecia da casa de E, uma das casas do círculo fechado e hermético da “alta sociedade”, que ambos frequentavam. Há bastantes anos que Z. mantinha uma estranha relação com E. e o marido. Muitos viam ali um triângulo amoroso – um artista célebre, uma mulher formosa e culta e um marido diplomata, já um pouco velho. Pensaria o mesmo o embaixador e daí o convite e o encorajamento a viajar e a dar concertos?
Z. aceita o convite - depois de se aconselhar com E. e o marido - e parte.
A guerra está longe. Os jornais noticiam a queda de Varsóvia. O comboio aproxima-se da fronteira italiana e Z. é acordado às quatro horas da manhã. Senta-se no beliche. Sente uma tristeza profunda.
Já em Florença, onde é recebido com honras de convidado do estado, sozinho no quarto do hotel, como se estivesse definitivamente só no universo, continua sem perceber o que lhe aconteceu no comboio.
À noite, no concerto, não sabia se tocava bem ou não… estava no palco pela última vez, como quem morre e volta a nascer…
No final da actuação diz sentir dores atrozes. É levado ao hospital.
- Qual é a minha doença? - Vou ficar paralisado?
- A doença que tem não é nada comum mas, de certeza, um dia ficará curado…esta doença é uma prova de paciência.
Seguem-se três meses de internamento, e de contacto diário com profissionais conhecedores da sua estranha enfermidade: o médico (o professor), o médico assistente e quatro irmãs-enfermeiras.
Com o médico Z. terá intensos e interessantes diálogos:
- O senhor ... teve durante quarenta anos, uma relação extremamente íntima com a música. Nem os deuses conseguiriam aguentar isso.
- Mas o que me sugere para substituir a música?
- Vire-se para a vida…
Certa noite, no torpor de mais uma injecção de morfina, Z. escuta, ao lado da cama, uma voz feminina sussurar: “Não quero que morra”.
- Porque é que não quer que morra?
Seguiu-se um silêncio longo… um silêncio que o ajudou a entender o passado e a repensar o futuro, já que finalmente percebeu que não era completamente inocente em relação à doença….
Mattutina, Cherubina, Charissima, Dolorissa,  as ajudantes silenciosas, os anjos celestes, uma delas é a Irmã do título deste romance.
Descubra qual é e “perca-se” numa história extraordinária sobre o mistério da vida.
A vida é um veneno, quando apenas serve para a vaidade, a ambição e a inveja…
Fabuloso!

A irmã” – Sándor Márai
Tradução de Piroska Felkai
Ed. D. Quixote, 2013
213 págs.