27 setembro, 2013

Frases soltas... "Ravelstein" de Saul Bellow

“O cérebro é um espelho e reflete o mundo”.

“Aprendi tarde na vida o tonto que é insistir em que estamos certos.”

“A vida foge-nos.”

“O coração é um mistério… leal na sua função desde o útero até ao nosso último suspiro.”

“Quanto mais envelhecemos, piores se tornam as descobertas que fazemos acerca de nós próprios.”

“… dos escritores, esperamos que nos façam rir ou chorar.”

“Um homem devia ser capaz de ouvir, e de aguentar, e de ultrapassar, o pior que pudesse ser dito dele.”

“Hoje em dia já nada no plano sexual é proibido, mas o desafio é mantermo-nos nós próprios no meio da anarquia sexual.”

“Associa-te às pessoas mais nobres que puderes encontrar; lê os melhores livros; convive com os poderosos; mas aprende em solidão a ser feliz.”

“Não podemos aplicar a tudo a nossa medida humana.”
 
(Foto tirada da net)

25 setembro, 2013

A Ana mandou-me um poema... e eu gostei.

Gosto de acordar com vontade
De agarrar o dia
Pendurar-me no Sol
E sugar-lhe a energia

Gosto de pensar que ele me leva
Ao longo das horas
Nas suas crinas douradas
E me faz ver o mundo pequenino
Numa harmonia de cores e formas
Que encanta

Gosto da segurança majestosa
Do seu demiurgo modo de estar
A apontar-me as flores e as searas
As árvores a rebentar em frutos
E os risos das crianças nos jardins

Gosto da ternura com que ele se aproxima
Dos idosos sentados nos bancos das cidades
E da forma como se insinua
Por entre as frechas tristes
Das janelas dos hospitais
Para realizar a magia de um sorriso
Num rosto dilacerado pela doença

Gosto, quando ele me convence
Que há um sentido perene em tudo
Que há um tempo para amar
E um tempo para morrer

Poema de Ana Wiesenberger (querotrazerpoesiaparaarua)
(O Sol, tirei da net)

21 setembro, 2013

A vida (es)corre...

Tão breve o Verão, antes do Outono e, depois, o Inverno.
In "Desgraça", de J.M. Coetzee, ed. Dom Quixote, 2000

(Foto tirada da net)

20 setembro, 2013

Dois autores, dois estilos, o mesmo verbo: "derramar"


 Contos, de Virginia Woof (1882-1941)
… refulgiam róseas e de novo refulgiam alaranjadas quando o sol, derramando-se pelas macieiras, incidia nelas. (No pomar)
… quando Miss Milan lhe pusera o espelho na mão e Mabel se olhara com o vestido novo, finalmente pronto, uma felicidade extraordinária se derramara no seu coração. (O vestido novo)
… o ramo de uma árvore à sua frente embebia-se e penetrava a sua admiração pelas pessoas daquela casa; derramava-se em gotas de outro; ou permanecia erecto como uma sentinela. (Resumo)
… Sasha já não se sentia capaz de derramar por cima do mundo inteiro a sua nuvem de ouro. (Resumo)
… o espelho começou a derramar sobre ela uma luz que parecia fixá-la, que parecia um ácido corroendo o acessório e superficial para deixar apenas a verdade. (A senhora no espelho: uma reflexão)
 
A travessia, de Cormac McCarthy (1933-)
… onde o regato se derramava para sul.
… em cujo seio o mundo audível se derramava.
… olhou para ele à luz que se derramava da porta aberta.
… a luz do meio-dia se derramava sobre os campos.
… o cabelo escuro dela derramava-se sobre o ombro do irmão…
… examinou aqueles mundos derramados nas suas pálidas ignições sobre a noite sem nome…
…cabelo claro que ele já não cortava há muito tempo derramado em volta dele…
 
O que eu me diverti a procurar, sublinhar, contar e guardar estas frases.
Enfim, o calor de Agosto faz destas coisas…
 
(“Derramar”, do inglês spill, shed, pour in)

13 setembro, 2013

Contos de... Virginia Woolf

Foi talvez por meados de Janeiro deste ano que vi pela primeira vez, ao olhar para cima, a marca na parede. Quando queremos fixar uma data precisamos de nos lembrar do que vimos.
Começa assim “A marca na parede”, o primeiro dos contos desta compilação da Relógio d’Água (2004), que só agora descobri, comprei, devorei e… adorei.
Por momentos “emperrei “ no primeiro conto e desanimei, mas logo “mergulhei” no segundo, rejubilei e não mais parei.
. A marca na parede
. Objectos sólidos
… qualquer objecto de mistura tão profundamente com a matéria do pensamento que perde a sua forma real e se reconstitui de modo ligeiramente diferente numa forma ideia que assombra a mente quando menos se espera.
. Um romance que não foi escrito
A vida é o que se vê nos olhos das pessoas.
. A casa assombrada
. Segunda ou terça-feira
. No pomar
. O vestido novo
. Uma melodia simples
. Resumo
. Momentos de ser: “Os alfinetes da Slater’s não seguram”
Enfiava a tarde no colar dos dias memoráveis, que não era demasiado comprido para que pudesse recordar este ou outro dia; esta vista, aquela cidade; para lhes tocar, para os sentir, saboreando, num suspiro, a qualidade que o tornava único.
. A senhora no espelho: uma reflexão
. O fascínio do pequeno lago
O encanto do lago residia no facto de lá terem sido depositados pensamentos por pessoas que haviam partido e sem os seus corpos os seus pensamentos vagueavam por ali livres, cordiais e comunicativos, no fundo comum.
. Três quadros
. Ode parcialmente escrita em prosa ao ver o nome Cutbush sobre um talho de Pentonville
. A duquesa e o joalheiro
. A caçada
. Lappin e Lapinoca
Eram amigos e, ao mesmo tempo, inimigos; ele era o senhor, a senhora era ela: enganavam-se um ao outro, precisavam um do outro, temiam-se reciprocamente, e ambos o sentiam e sabiam todas as vezes que as suas mãos se tocavam assim naquela saleta escura, com a luz branca lá fora, a árvore com seis folhas, o ruído distante da rua e os cofres-fortes atrás.
. O holofote
. O legado
. O símbolo
. A estância balnear
. A velha Mrs.Grey
. A história de Septimus Warren Smith
Gostei mais de uns que de outros, claro, mas Objectos sólidos, Três quadros, A duquesa e o joalheiro (que escrita fabulosa!), Lapin e Lapinova e O legado conseguiram empolgar-me.
Virginia Woolf, uma das mais conceituadas escritoras inglesas do séc. XX - autora do extraordinário romance “Mrs. Dalloway” (1925), divulgado mundialmente pelo filme “As horas”, de Stephen Daldry e baseado na obra homónima de Michael Cunningham -, não ficou conhecida como contista, porém, escreveu algumas das mais delicadas e sublimes pequenas histórias da literatura inglesa.
Nestes vinte e três contos é notável a mestria narrativa, a escrita arrebatadora, a construção psicológica perfeita das personagens e o retrato da vida da época que, de tão rigoroso, permite compreender melhor a vida, o sofrimento e a morte (uma entrada no lago, sem regresso) da escritora.
Coloque este livro na sua lista de prendas do próximo Natal, “mergulhe”, também, nestas belíssimas histórias e descubra o que era a marca na parede… a tal, do primeiro conto.
 
Contos, de Virgina Woolf
Relógio d´Água, 2004
Tradução de Miguel Serras Pereira, Manuela Porto, Clara Rowland e Margarida Vale de Gato
251 págs.

06 setembro, 2013

"A travessia" - Cormac McCarthy

… a imagem do mundo é tudo o que os homens conhecem do mundo, e esta imagem do mundo é perigosa.
Diz a sinopse:
A Travessia tem por cenário os ranchos do sul dos EUA durante os anos que antecederam a II Guerra Mundial e narra as aventuras de Billy Parham, de dezasseis anos, e do seu irmão mais novo, Boyd.
Fascinado por uma ardilosa loba que tem atacado a propriedade da família, Billy captura o animal. Mas, ao invés de o matar, parte em busca da sua origem – as montanhas do México – com o intuito de o devolver ao seu ambiente natural.
No regresso, Billy depara-se com um mundo irreversivelmente mudado. A perda da sua inocência tem um preço e, mais uma vez, o horizonte brilha com a sua desoladora beleza cruel e promessa.
Paulo Faria, o tradutor, escreveu no excelente prefácio:
Nunca como aqui foi tão patente que a escrita de Cormac McCarthy é ela própria uma viagem que nos leva até ao mais fundo de nós mesmos, uma jornada pelos meandros do nosso destino…

... a lição de uma vida nunca se basta a si mesma.
Este é o mais longo dos romances de McCarthy. O tema é o mesmo de outras obras do autor: a crueldade do ser humano, a dureza da vida, a luta pela sobrevivência, a violência do mundo selvagem, a descoberta do mundo que nos rodeia, a busca dos valores no íntimo de cada homem.
De todos os que já li dele, este é o mais comovente e…o menos violento.
As personagens são espantosamente bem construídas e reais. Destaco a principal, Billy Parham, o rapaz de dezasseis anos que fala com os animais, o vaqueiro solitário, obstinado e corajoso, que tem a estranha ideia de levar para as montanhas do México a loba que apanhou numa armadinha e que transportava no ventre a sua primeira ninhada. Inesquecível!
É uma leitura que aconselho a quem gosta de longas, encadeadas e pormenorizadas histórias.
Se ainda não se iniciou na leitura de McCarthy comece por este romance e deixe-se enlear por uma história empolgante e uma escrita poderosa, cativante e viciante.
Os diálogos são assombrosos. Repare só:
Isso é um lobo, caramba.
É, sim, senhor.
Rapaz, o que é que se passa contigo? Se essa criatura se solta desse açaimo, come-te vivo.
Sim, senhor.
O que é que ‘tás a fazer com ele?
Não é ele, é ela.
É o quê?
É ela. É uma loba.
Co’a breca, não faz diferença nenhuma se é ele ou ela. O que é que ‘tás a fazer com essa criatura?
‘Tou-me a preparar prà levar para casa.
Pra que é que ‘tás a levar esse animal pra casa?
É assim a modos que uma longa história.
Bom, eu cá gostava imenso de a ouvir.
E sempre foste maluco?
Não sei. A verdade é que até hoje ainda não tinha sido posto à prova, a bem dizer.
Que idade tens?
Dezasseis.
Dezasseis.
Sim, senhor.
Bom, tu não tens o juízo que Deus dá a um ganso. Sabias?
Talvez o senhor tenha razão.
Como é que esperas que o teu cavalo tolere um disparate deste tamanho?
Caso eu lhe consiga deitar a mão, não lhe vou pedir opiniões sobre o assunto.
Fazes tenção de levar esse animal à corda atrás do cavalo?
Faço, sim, senhor.
E como é que esperas obrigar a loba a fazer isso?
Também não lhe vou deixar grande escolha na matéria.
Fabuloso, não?
Termino com uma das marcas de McCarthy: a utilização excessiva (mas não repulsiva) do “e”:
Ele ia dando palmadinhas no cavalo e falava com ele e baixou o braço e soltou a fivela do estojo da sela e retirou de lá a espingarda e desmontou e deixou cair as rédeas.
Foi, derramada (roubei ao autor) no meu sofá, que saboreei este romance.
Gostei!
 
A Travessia, de Cormac McCarthy
Relógio d’Água, 2012
Tradução de Paulo Faria
393 págs.

03 setembro, 2013

Resposta do Desafio nº 20

Claro que se trata do nosso poeta primeiro - Luis de Camões.
Neste pequeno livrinho estão compilados 204 sonetos, e a sua leitura é puro deleite.
Parabéns para quem acertou.

01 setembro, 2013

1º - Você sabe em que livro se esconde este "primeiro parágrafo"?

“Foi no Verão de 1998 que o meu vizinho Coleman Silk – que, antes de se reformar dois anos atrás, fora professor de estudos clássicos no Ahena College durante vinte e tal anos, além de ter servido dezasseis como reitor da faculdade – me confidenciou que, aos 71 anos, tinha um caso com uma empregada de limpeza de 34, que trabalhava na universidade.”

Voltei!

Que saudades eu já tinha deste meu cantinho.
Agora que voltei, começo por fazer uma declaração: cumpri os objectivos a que me propus no início de Agosto e li todos os livros. Uau!
Comecei com “Pensageiro frequente”, de Mia Couto, o mais pequenino deles todos, uma compilação de textos sobre o meu país do coração, Moçambique: encantador.
Passei ao Cormac McCarthy, “A Travessia”, um pouco a medo da excessiva pormenorização e violência, uma marca do autor, mas, enganei-me: brilhante.
Depois, aos “Contos”, de Virginia Woolf, e descobri uma enorme escritora: puro encantamento.
Revirei, em “Todos os nomes”, de José Saramago, um arquivo de verbetes bem ordenados: extraordinário.
Terminei com “Em parte incerta” de Gillian Flynn, um triller bem esgalhado: empolgante.
 
O que fiz mais?
Peguei em romances que já li e procurei os “primeiros parágrafos” mais surpreendentes, (para mim, claro!), aqueles que, em muito casos, ditaram a leitura do livro.
Foi uma tarefa simplesmente deliciosa.
 
E quanto a novas leituras?
Comecei “Os moedeiros falsos”, de André Gide, um romance sobre a crise de valores da burguesia intelectual parisiense dos anos 20.
E que mais?
Depois se verá.
Para já, é bom estar de volta.
Boas leituras para todos.