29 março, 2013

Poema de... Miguel Torga

ALELUIA
Não foi milagre ressurgir, Senhor,
Num dia natural de primavera.
Tudo ressurge quando tem calor.
É por calor que toda a morte espera.

Milagre era acordar no inverno, era
Subir da cova frio como a dor,
E, com neve nas dobras da quimera,
Mostrar a Madalena a carne em flor.

Contra a seiva da vida e a sua lei
É que valia a pena demonstrar…
Viver dentro da morte é que era um salto!

Assim, vejo-te apenas como sei:
Um corpo que parou de levedar,
E veio à tona ver o céu mais alto.

22 março, 2013

"Quando a neve começa a derreter" - A. D. Miller

Na Rússia não há histórias de negócios. E não há histórias de política. Não há histórias de amor. Só há histórias de crime.
… mas Nick, o narrador deste romance, um advogado inglês de 38 anos, relata não só histórias de crime, mas também histórias de amor, decadência moral, corrupção, desespero, sobrevivência, segredos, impunidade e embuste. São histórias perturbadoras em que se deixou enganar e envolver e quase destruíram os seus padrões éticos. São histórias tensas sobre a sociedade corrupta de uma nova Rússia. São histórias de segredos e crimes hediondos, revelados no fim do longo e frio inverno moscovita, quando a neve começa a derreter e os corpos (os fura-neve) surgem à luz do dia.
Os pecados que o inverno esconde, por vezes para sempre.
Nick é um dos muitos advogados ocidentais que vivem em Moscovo e trabalham em escritórios que avaliam pedidos de empréstimos feitos por homens de negócios, os homens do petróleo, a bancos estrangeiros.
Pacífico? Não, porque há histórias mirabolantes pelo meio…já que aos bancos não importa o destino dos empréstimos, mas apenas fazer negócios em Moscovo, onde os russos se afogam em petrodólares.
Convida um porco para jantar e ele há-de pôr as patas em cima da mesa.
Nick vive há quatro anos em Moscovo. Vive sozinho, num bloco de apartamentos construído pouco antes da revolução, deambula a pé pela cidade, frequenta clubes noturnos, “emborca” vodka e fala um russo fluente.
A sua vida decorre calma e normal, mesmo na guerra do quotidiano russo, até aquele dia de Setembro em que se cruza com a sedutora Masha numa plataforma do Metro, olha para ela mais tempo do que devia e… o caos instala-se.
Só nas ratoeiras é que há queijo à borla.
Gostei deste primeiro drama-romance, mas não me empolgou.
Realço, porém, que encontrei um enredo delicado e inteligente, uma escrita elegante e fluída, uma análise conhecedora e cuidada da sociedade russa (A.D. Miller foi correspondente da revista The Economist em Moscovo), excelentes e credíveis personagens, uma descrição brilhante do gelado inverno russo.
… quando o fim do mundo chegar, há de vir da Rússia.
Talvez, talvez, digo eu… enregelada!
 
Quando a neve começa a derreter, de A.D. Miller
Ed. Civilização, 2011
Tradução de Ana Baer
208 págs.

15 março, 2013

"O sol nas noites e o luar nos dias" - Natália Correia


POEMA INVOLUNTÁRIO
Decididamente a palavra
quer entrar no poema e dispõe
com caligráfica raiva
do que o poeta no poema põe.

Entretanto o poema subsiste
informal em teus olhos talvez
mas perdido se em precisa palavra
significas o que vês.

Virtualmente teus cabelos sabem
se espalhando avencas no travesseiro
que se eu digo prodigiosos cabelos
as insólitas flores que se abrem
não têm sua cor nem seu cheiro.

Finalmente vejo-te e sei que o mar
o pinheiro a nuvem valem a pena
e é assim que sem poetizar
se faz a si mesmo o poema.

12 março, 2013

Fandy

 
"Porque tu morreste, experimento pela primeira vez o sopro da eternidade - acredito agora que há um lugar do lado de lá onde tu me esperas. Não sorrias - não é ainda a Fé. Esse lugar de mortos, vejo-o como planície de cinzas. Um sítio largo onde habita a melancolia dos que se recusam a largar a vida, como tu. Um lugar sem Deus - mas contigo."
 
Como não encontrei dentro de mim quaisquer palavras, fui roubá-las ao livro "Fazes-me falta", de Inês Pedrosa.
Como não tenho um jardim de rosas amarelas, as tuas preferidas, fui roubá-las ao infinito da net.
Desculpa!

Tenho para dar... livros de Marion Zimmer Bradley

 Há um ano, decidi dar todos os livros que tenho de Marion Zimmer Bradley e que, sinceramente, já não me dizem nada. Disseram, e muito… Quem não gosta de histórias mágicas, espectacularmente bem escritas?
Na altura fui contactada por bastantes interessados (especialmente do Brasil) mas, por isto, ou por aquilo, os livros não chegaram a sair da minha estante.
Houve quem sugerisse que eu os entregasse numa biblioteca. Não é de excluir.
Houve quem me pedisse este ou aquele livro em particular. Não os tenho todos.
Volto ao assunto e, para facilitar o processo, indico todos os livros de MZB que tenho para dar e, já agora, informo que vivo no concelho de Cascais:
 
- As Brumas de Avalon: O rei veado
- As Brumas de Avalon: Rainha suprema
- As Brumas de Avalon: O prisioneiro da árvore
- As Brumas de Avalon: A senhora da magia
- O poder supremo: A fonte da possessão
- O poder supremo: Círculo de Blackburn
- O poder supremo: As forças do oculto
- A sacerdotisa de Avalon
- A casa da floresta
- A herdeira
- As mulheres da casa do tigre
 
Aproveito para pedir desculpa a todos aqueles que me mandaram mensagens e eu não respondi ou não dei o devido seguimento, mas… o tempo corre demasiado depressa, aqui por estas bandas.
Será que finalmente, num efeito de pura magia, vou ficar com espaço disponível na minha estante?
Será?!

08 março, 2013

"Caim" - José Saramago

A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.
… é de novo José Saramago, numa interpretação muito própria, polémica, irreverente e satírica da bíblia.
Desta vez é uma intuitiva e definitiva história sobre caim e os seus desentendimentos com deus.
A história começa com a expulsão de adão e eva do jardim do éden, depois de terem desobedecido ao senhor ao comerem fruta da árvore do conhecimento do bem e do mal.
… acabara-se a boa vida.
No exterior do jardim esperava-os uma terra árida e inóspita, muito frio, muita fome e muito trabalho.
Mas um dia, adão pôde comprar um pedaço de terra, levantar uma casa de toscos adobes e preparar o nascimento dos seus três filhos, caim, abel e set.
Era voz unânime, entre os vizinhos, que aquela família tinha futuro… e ia tê-lo, com a sempre indispensável ajuda do senhor…
Os irmãos mais velhos eram grandes amigos, faziam tudo de comum acordo. Discordavam apenas na vocação:
Abel preferia o gado, caim as enxadas e as forquilhas.
Até que um dia o futuro entendeu que já era hora de se apresentar.
E foi nesse dia, aziago, que caim assassinou abel. E quando deus apareceu, caim culpou-o por não ter evitado que ele matasse o irmão. E deus respondeu-lhe que ele, caim, era o único culpado.
Depois de muita conversa deus faz um acordo de responsabilidade partilhada com caim:
A minha porção de culpa não absorve a tua, terás o teu castigo, Qual, Andarás errante e perdido pelo mundo… porei um sinal na tua testa, ninguém te fará mal… é o sinal da tua condenação… mas é também o sinal de que estarás toda a vida sob a minha protecção…
E caim aceita o seu destino e parte, levando na testa uma mancha negra.
O que se segue?
- o relato irónico dos encontros de caim com protagonistas de episódios bíblicos do Antigo Testamento, bem conhecidos do leitor;
- fantasiosos e hilariantes diálogos de caim com o criador.
….não haverá nada mais que contar.
Termina, assim, esta história polémica, irreverente, hilariante, viciante e muito fácil de ler.
Saramago afirmou, aquando da sua publicação: “Escrevo para desassossegar, não quero leitores conformados, passivos, resignados”.
 
Caim é o último livro de Saramago.
Aconselho a sua leitura a toda a gente, especialmente àqueles que têm medo de “penetrar” nas histórias do nosso Nobel.
Eu considero que este é o livro certo para se iniciarem no prazer de ler Saramago. Independentemente da polémica, o divertimento é total.
Nos pormenores é que está o sal.
Acreditem!
 
Caim, de José Saramago
Ed. Caminho, 2009
181 págs.

05 março, 2013

Poema de... Florbela Espanca


O MEU ORGULHO
Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Eu lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velho fez nascer as rosas!

As minhas mãos, outrora carinhosas,
Pairavam com pombas... Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!

São sempre os que eu recordo que me esquecem...
Mas digo para mim: «Não me merecem...»
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!

Sonetos, de Florbela Espanca
(Inclui estudo crítico de José Régio)
Bertrand, 1978

01 março, 2013

Desafio nº 15 - É um clássico, sim senhor, este romance português, feito de intrigas de clérigos e beatas. Haverá quem não tenha lido? Duvido!

Ameliazinha do meu coração. Não posso atinar com as razões maiores que a não deixaram responder ao bilhetinho que lhe dei em casa da senhora sua mamã; pois que era pela muita necessidade que tinha de lhe falar a sós, e as minhas intenções eram puras, e na inocência desta alma que tanto lhe quer e que não medita o pecado.
Deve ter compreendido que lhe voto um fervente afecto, e pela sua parte me parece (se não me enganam esses olhos que são os faróis da minha vida, e como a estrela do navegante), que também tu, minha Ameliazinha, tens inclinação por quem tanto te adora...
… Porque não respondeste pois?
… Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliazinha, que até às vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos!
 
Ajuda se eu disser que para Antero de Quental este romance “perfeito” tem “o magnetismo da vida”?
Ajuda se eu disser que é o retrato de uma sociedade analfabeta e medrosa, “atulhada nos formalismos de uma religião”?
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Resposta do Desafio nº 14:
É de Gonzalo Torrente Ballester esta “Crónica do Rei Pasmado”, publicada em 1989.
Vale a pena ler.
Parabéns para quem acertou.