31 dezembro, 2013

2013 está a terminar... viva 2014!

 UM EXCELENTE 2014 PARA TODOS

Os dias são longos, mas os anos são curtos... diz Gretchen Rubin, em "Projecto felicidade".
Eu, infelizmente (ou felizmente?!), tenho de concordar.
Teresa, isso assusta-te?
NÃO! SIM!
Bem, o melhor é brindares à chegada de mais um ano, e pedir que traga, paz, saúde, amor e… muitos livros.
 
A vida foge-nos... diz Saul Bellow, em “Ravelstein”.
Eu, infelizmente (ou felizmente?!), tenho de concordar.
Teresa, continuas assustada?
NÃO! SIM!
Bem, tem calma. Agora que já brindáste e fizeste o teu pedido para 2014, vamos ambos...
 
Pendurar um poema e atravessar com ele a noite inteira sem sequer nos darmos conta de que se fez noite... como diz Valter Hugo Mãe, em "A Desumanização".
Hum! Parece-me bem. 
Gostei de falar contigo, senso comum.
(Será que ando a ler demasiadas histórias de Saramago?!)

22 dezembro, 2013

NATAL é sempre que "eu" quiser...

FELIZ NATAL PARA TODOS 

NATAL
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

- Mas quando será de todos?

Poema de Sidónio Muralha (Lisboa, 1920)
Foto tirada da net.

20 dezembro, 2013

"Gratidão" - Louise L. Hay

Estou grata pelo hoje e pelos amanhãs que hão-de vir.
Estou grata pela Vida agora e sempre.
 
Louise L. Hay (uma das primeiras difusoras do conceito de autoajuda) reúne neste livro cinquenta reflexões inspiradoras, sobre a capacidade que a gratidão tem de transformar a nossa vida.
Seleccionei algumas:
 
“… quando derem por vós presos ao terror das coisas que parecem estar mal, lembrem-se de fazer uma oração de gratidão por todas as coisas que estão bem.” – Joan Borysenko
 
“Com o passar dos anos, apercebi-me de que quanto mais gratidão sinto em relação ao passado, mais feliz sou no presente.” – Lee Coit
 
“A gratidão espalha um brilho de optimismo em toda a minha vida. Quanto mais grata estou por tudo na vida, mais razões encontro para estar grata.” – Terah Kathryn Collins
 
“A gratidão é uma força milagrosa, como um íman mágico, que gera e depois atrai muito mais do que já recebemos.” – Nicholas Eliopoulos
 
"A força interior advém do facto de nos agarrarmos à única pessoa que nos pode ajudar – nós!" (Sylvia Friedman)
 
“A gratidão altera a forma como vemos a vida e como nos vemos a nós próprios.” – Sharon Huffman
 
“Um coração grato recarrega a alma e revitaliza o corpo.” – Christian Sorenson
 
Decidi criar o meu "Livro de Gratidão".
Nele, vou dar graças pela dádiva da vida, pelo amor e ... por poder ler todos os géneros literários.
Valeu!
 
Gratidão, de Louise L. Hay
Ed. Pergaminho, 2006
230 págs.

13 dezembro, 2013

"A Desumanização" - Valter Hugo Mãe

… o planeta é feminino e apenas por ser assim se mantém em ordem.
Esta é a história de Halla, uma menina diferente, que cresceu demasiado depressa, e transporta dentro dela toda a dor do mundo.
Uma história assombrosa, dura e perturbadora, sobre o amor, a família, o sofrimento, a solidão, a morte. Uma história também sobre livros – as pessoas que não leem apagam-se do mapa de deus, sobre poesia, sobre a cultura islandesa.
Halla vive numa aldeia nos fiordes islandeses, um lugar desumanizado, onde se queimam páginas arrancadas a livros para sobreviver ao frio.
Aos onze anos, apareceram-lhe as flores de sangue e passou a ser mulher.
Aos doze anos, tudo em seu redor se dividiu por metade, com a morte de Sigridur, a irmã gémea.
Halldora, a menos morta, tem de lidar com tamanha dor e, ainda, com a doença da mãe, que antes tocava piano e agora despedaça animais e corta os braços com lâminas por não ter sabido salvar uma filha, e com a tristeza do pai, pescador, pensador e fantasioso, que escreve poemas para descobrir aquilo que não sabe.
É deitada sobre a campa da irmã que encontra conforto. É nos braços de Einar, o tolo da aldeia, que encontra carinho.
Halla fica grávida sem maldade, numa idade criminosa para a maternidade, mas.. um dia cai da cama, a barriga “estala” e o filho morto é atirado para a boca de deus.
Aos treze anos, sai de casa dos pais e vai viver com Einar para a igreja da aldeia. Ele, tolo e apaixonado, diz que juntos encontrarão a felicidade. Ela, sente apenas compaixão e tristeza. Aprenderá a amá-lo.
 
Esta é a primeira parte da história. Propositadamente não “falei” de outras personagens da trama.
Propositadamente, também, não vou “falar” sobre a segunda parte da história. Há por lá segredos, e segredos não são para desvendar.
Estive para abandonar a leitura deste romance, logo nas primeiras páginas. Disso dei conta no meu rol.
Ainda bem que não o fiz, pois acabei por gostar de ouvir a voz desta menina, parecida com uma mulher, que “encontrei” nos fiordes islandeses, para onde me levou VHM e o seu grande amor pela Islândia.
Quando for grande, quero ser de outra maneira. Quero ser longe.
Maravilha!
 
A desumanização, de Valter Hugo Mãe
Porto Editora, 2013
238 págs.

10 dezembro, 2013

"Olhos de cão azul" - Gabriel García Márquez

Sonho sempre com um homem que me diz: olhos de cão azul… preciso de encontrar o homem que em sonhos me diz isso mesmo.
Eu não sonhei com estes contos, mas gostava de encontrar quem os escreveu. Oh! Se gostava.
Como seria estar ao lado de um dos meus escritores preferidos? Um enorme prazer... e um susto!
Um susto, mas um grande susto mesmo,  senti ao ler estas onze histórias mórbidas, melancólicas, pessimistas, amargas. Ou não fosse a MORTE o tema central de todas elas.
Tudo o que me assusta e entristece está nestas  histórias, escritas entre 1947-1945. (“Cem anos de solidão” foi publicado em 1967), críveis pela escrita mágica de GGM.
Eu acreditei logo na primeira, sobre um rapaz que passou a infância morto - “A terceira resignação” (1947)  
- Minha senhora, o seu filho tem uma doença grave: está morto.
… a mãe mandou-lhe fazer um caixão pequeno, de madeira nova; um caixão de criança, mas o médico mandou que lhe fizessem uma caixa maior, uma caixa para um adulto normal, pois aquela, pequena, poderia atrofiar o crescimento e viria a ser um morto disforme ou um vivo anormal.
… a mãe mandou fazer um caixão grande, para um cadáver adulto… depressa começou a crescer dentro da caixa.
Acreditei mesmo?!
Que importância tem... os meus olhos são castanhos… e leais (a GGM).
Olhos de cão azul, de Gabriel García Márquez
Ed. Quetzal, 1993
Tradução de Maria da Piedade Ferreira
158 págs.Oh! Se gostava.

06 dezembro, 2013

"O homem duplicado" - José Saramago

… achou-se a perguntar a si mesmo, de súbito intrigado, de súbito perplexo, que estranhos motivos, que particulares razões teriam sido as que levaram o colega de Matemática… a aconselhar-lhe com tanta insistência o filme… Quem Porfia Mata Caça… quando a verdade é que nunca a chamada sétima arte havia sido assunto de conversa entre ambos.
Então, depois das aulas, Tertuliano aluga o filme, vai para casa, janta, lava a loiça, senta-se na sala para ver a comédia “Quem Porfia Mata Caça”, não gosta e diz em voz alta: amanhã vou devolver esta merda.
Ainda intrigado, vai para o quarto, deita-se na companhia do livro sobre as “antigas civilizações mesopotâmicas”, lê quatro páginas, adormece, acorda uma hora depois com um barulho estranho em casa, percebe que vem da sala, levanta-se da cama, pega num sapato à falta de arma mais contundente, vai à procura do intruso. Sim, porque Tertuliano Máximo Afonso, não é nenhum cagarolas.
Com o coração a galope, avança pelo corredor, casa de banho, cozinha, de novo corredor e aproxima-se da sala. Não tem dúvidas, o intruso está na sala. Tertuliano entra, olha em redor, não vê ninguém, mas repara que o aparelho de televisão está ligado, que o leitor de vídeo continua a passar o filme “Quem Porfia Mata Caça”. Era, então, aquilo.
Decide voltar a ver a fita, todo ele olhos, já sem risos nem sorrisos. De repente…
… de joelhos diante do televisor, com a cara tão perto do ecrã quanto lho permitia a visão, tem uma revelação tremebunda: o actor do filme é igualzinho a ele, é uma cópia perfeita, um duplicado seu.
O que vai Tertuliano fazer, agora que descobriu que na cidade há um homem que, a avaliar pela cara e pela figura em geral, é o seu vivo retrato?
Investigar, investigar e conhecê-lo!
Conseguirá? Como?
Eu já sei. Você, para saber vai ter de ler... sem esquecer as entrelinhas.
A seu tempo saberá porquê.
Mas, quem é Tertuliano Máximo Afonso?
Tertuliano é professor de História numa escola do ensino secundário e está ciente de que a História que ensina, tem uma enorme quantidade de rabos de fora.
Já foi casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio. Divorciou-se e não quer lembrar-se dos motivos por que se separou. Tem uma namorada, Maria da Paz, mas ele não se deixa prender demasiado.Vive só, ou melhor, com o seu senso comum, com quem tem longas e interessantes conversas.
 
Dos romances de Saramago que já li, não vou dizer que este é o melhor, mas digo que é brilhante.
Ter conhecido Tertuliano Máximo Afonso, o professor encarregado, pelo director da escola, de preparar uma proposta para o Ministério, em que as matérias históricas fossem estudadas do presente para o passado em vez de o serem do passado para o presente, foi…
... o máximo!
 
O homem duplicado, de José Saramago
Ed. Caminho, 2002
318 págs.

05 dezembro, 2013

Nelson Mandela (1918-2013)

 
"Tenho lutado contra a dominação branca e contra a dominação negra. Tenho acalentado o ideal de uma sociedade democrática e livre em que todas as pessoas possam viver juntas, em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para cuja concretização espero viver. Mas se for necessário, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer."
Palavras proferidas por Nelson Mandela, no decurso do seu julgamento, em 1964.
 
"Amigos, camaradas e compatriotas sul-africanos.
Saúdo-vos em nome da paz, da democracia e da liberdade para todos.
Estou aqui, perante vós, não como um profeta mas como um humilde servo vosso, do povo. Os vossos sacrifícios incansáveis e heróicos tornaram possível a minha presença hoje aqui. Deposito, pois, os anos de vida que me restam nas vossas mãos."
Palavras dirigidas por Nelson Mandela à multidão que se concentrou na Cidade do Cabo no dia da sua libertação, em 11 de Fevereiro de 1990.
 
"Estou aqui como representante dos milhões de pessoas que ousaram insurgir-se contra um sistema social que tem na sua essência a guerra, a violência, o racismo, a opressão, a repressão e o empobrecimento de uma população inteira.
Estou também, em representação dos milhões de pessoas do movimento antiapartheid espalhados pelo mundo inteiro, dos governos e organizações que se juntaram a nós, não para combater a África do Sul enquanto país, mas sim para se opor a um sistema desumano e pôr rapidamente cobro ao crime contra a humanidade perpetrado pelo apartheid.
... A ferida de um indíviduo é de todos, e por isso eles agiram em coerência na defesa da justiça e do elementar respeito humano.
Graças à sua coragem e determinação ao longo de muitos anos, podemos mesmo, hoje, prever o dia em que a humanidade inteira se reunirá para festejar uma das mais memoráveis vitórias humanas do nosso século."
Excerto do discurso de Nelson Mandela, na cerimónia de aceitação do Prémio Nobel da Paz , em 1993.
 
Adeus Madiba!

03 dezembro, 2013

4º - Você sabe em que livro se esconde este “primeiro parágrafo"?

"Fui a Key West, Florida, e inscrevi-me na edição deste ano do tradicional concurso de duplos do escritor Ernest Hemingway. A competição teve lugar no Sloppy Joe’s, o bar favorito do escritor quando vivia em Cayo Hueso, no extremo sul da Florida. Escusado será dizer que apresentar-se nesse concurso – repleto de homens robustos, de meia-idade e com uma farta barba grisalha, todos idênticos a Hemingway, idênticos inclusive na sua vertente mais estúpida – é uma experiência única.”
 
Resposta do 3º “Primeiro parágrafo”:
Em “Sputnik meu amor”, de , Haruki Murakami, ed.Casa das Letras, 2005

01 dezembro, 2013

3º aniversário do "rol de leituras"



Nunca prestei grande atenção ao calendário, nunca comemorei datas.
Tenho para mim um relógio íntimo que marca outro compasso nisso que chamamos tempo.
Diz Mia Couto, em “Pensageiro frequente”.
 
Já eu... olho diariamente para o calendário, aplaudo o tempo que passa, comemoro dias, minutos e segundos, rejubilo com festas, festanças e festarolas.
Daí... não hesitar em comunicar que vou comemorar o 3º aniversário do meu rol de leituras.
Como?
Lendo, lendo muito... para esquecer tristezas, desilusões e desencantos, que teimam em perturbar o compasso do meu tempo
 
Obrigada a todos os meus seguidores.
Obrigada a todos os que apenas passaram por aqui.
Obrigada pelos comentários, pelas mensagens.
Abraço!


29 novembro, 2013

Poema de... David Mourão-Ferreira

DESPOJO
Já depois de colhido
pela mão do segredo,
o amor foi cortado
com a faca do medo.

Das metades mordidas
na vertente das fugas,
tão-somente ficaram:
remorsos, raivas, rugas.

26 novembro, 2013

Frases soltas... "Vermelho e Negro" de Stendhal

“O romance é um espelho que se passeia por uma longa estrada além. Ora reflecte aos olhos do leitor o azul dos céus, ora o lodo dos lamaçais da estrada. O homem que leva o espelho será indubitavelmente acusado de imoral! O espelho mostra a lama, e acusais o espelho! Acusai antes a estrada onde fica o lamaçal, e ainda mais o inspector das estradas que deixa acumular-se a água e formar-se o lamaçal.”

22 novembro, 2013

"Em parte incerta" - Gillian Flynn

Era uma vez uma rapariga de Manhattan
Que só dormia sobre lençóis de cetim
O marido escorregava e deslizava
E os seus corpos colidiam
Por isso faziam algo obsceno em latim.

Amy Elliot, a rapariga de Manhattan, desapareceu. Será Nick Dunne, o marido, um assassino?
… não contes, mostra…
Está bem, eu não conto. Mostro a capa do livro e desvendo apenas umas coisitas, que não beliscarão o mistério deste “triller psicológico”. Viciante, dizem os entendidos. Será mesmo? Respondo no fim.
A história relata o misterioso desaparecimento de Amy - jovem, linda, inteligente, filha única de dois escritores, jornalista, mulher de Nick, escritor de revistas - precisamente no dia em que celebravam o 5º aniversário de casamento, na casinha junto ao rio Mississípi, e pode dividir-se em duas partes.
Na primeira parte os capítulos alternam entradas do diário de Amy (com revelações inesperadas), com o dia-a-dia de Nick após o desaparecimento da mulher (a pressão da polícia e dos media).
Depois de muitas voltas e reviravoltas, chega-se à segunda parte. Bem, a segunda parte começa assim: Sou mais feliz agora que estou morta. E mais não digo.
Amy e Nick estavam desempregados e quase falidos, quando deixaram a casa oferecida pelos pais de Amy em Manhattan, a frenética e excitante terra do futuro, e se mudaram para Cartago do Norte, a cidadezinha de perdedores conformados, onde Nick nasceu.
“Abatidos” pela Internet, pela recessão, pelo público americano que preferia ver televisão, ou jogar videojogos, precisavam rapidamente de novas carreiras, de novos desafios.
Nick dá umas aulas e, como o mundo vai querer sempre uma bebida, investe as últimas poupanças de Amy na concretização de um sonho antigo: abre um bar. Um bar que gere com Margo, a sua irmã gémea, também desempregada. Um bar que o afasta de casa e da mulher. Um bar que encobre um namoro secreto.
Sozinha, Amy, a escritora de questionários de personalidades, que adora charadas e jogos, sobretudo jogos psicológicos, desespera, sem estratégia de vida viável.
Vai vingar-se. Como?
Deixa de falar e passa a jogar… um jogo perverso.
Amy! Amy! Amy!
 
Bem, a publicação deste triller foi um sucesso – chegou a nº 1 no New York Times - com os críticos a apelidá-lo de engenhoso, viperino, irresistível, pungente, brilhante, etc. etc. etc..
Eu... bem, eu ... desfolhei todas as 515 páginas, não deixei para trás um só parágrafo deste casamento surpreendente, numa América decadente, mas não me entusiasmei.
Pelo contrário, desesperei com a “xaropada” da segunda parte.
Casamento é compromisso e trabalho duro, e depois mais trabalho duro, comunicação e compromisso. E depois trabalho.
Verdade!
 
Em parte incerta, de Gillian Flynn
Bertrand Editora, 2013
Tradução de Fernanda Oliveira
515 págs.

19 novembro, 2013

"O Principezinho" - Antoine de Saint-Exupéry e "Encontrei o Principezinho" - Jorge Cabral dos Santos

 
"Era uma vez um principezinho que habitava num planeta pouco maior que ele e precisava de um amigo…"

Carta a Saint-Exupéry:
"... andava eu na serra da Arrábida à procura do meu amigo Tiago que por lá se perdeu, quando encontrei o principezinho. Suponho que foi esta cumplicidade que nos aproximou um do outro: ambos procurávamos um amigo! Só que nele era mais forte a certeza de te encontrar, ao contrário da minha em achar o Tiago, que começava a morrer como morre o pôr do Sol na paisagem de uma tarde que nós queremos conservar para sempre."

… só na solidão podemos reconhecer um amigo e só no silêncio o podemos compreender.
 
Não encontrei um amigo para partilhar o que senti, ao ler este testemunho de amizade, amizade verdadeira.
Partilho, então, com todos os que passarem por aqui.
Doeu, doeu muito, mesmo muito, muito.
 
(O Tiago, vinte anos, escuteiro, desapareceu em Julho de 1988 na serra da Arrábida. Conhecia bem a serra. Nunca foi encontrado.)

15 novembro, 2013

"Desgraça" - J.M. Coetzee

Talvez seja bom sofrer uma queda de vez em quando. Desde que não nos quebremos.
Quem o diz é David Lurie, 52 anos, divorciado, professor adjunto de comunicação na Universidade Técnica de Cape, na Cidade do Cabo.
Lurie não gosta de ensinar dá aulas apenas para ganhar a vida, mas gosta de poesia e de escrever sobre pessoas mortas.
Do que ele gosta mesmo, mesmo é de mulheres. Muito!
Cresceu rodeado delas e cedo aprendeu a seduzi-las, amá-las e... abandoná-las. Transformou-se num amante das mulheres, num mulherengo.
… durante anos, décadas, foi essa a espinha dorsal da sua vida.
Os anos passam e um dia, sem aviso prévio, Lurie perde os seus poderes de sedução. As mulheres passam a ignorá-lo e ele entra numa fase de nervosismo e promiscuidade: tem casos com as mulheres dos colegas, engata turistas nos bares, paga a prostitutas, persegue alunas. É raro passar um período sem se apaixonar por alguma das suas alunas.
Ora, numa tarde, ao regressar a casa, avista uma delas, Melanie Isaacs, trinta anos mais nova do que ele, aluna do curso de teatro. Sedutor, aproxima-se dela, sorri, ela... devolve-lhe o sorriso.
- Eu vivo aqui perto. Posso convidá-la para um copo?
Melanie diz que sim e o professor Lurie, um homem solitário, com dois casamentos falhados e uma filha ausente, vai cometer um erro, um enorme erro.
“Professor acusado de assédio sexual”…
Lurie admite publicamente a culpa, demite-se da universidade, fecha a casa, abandona a cidade e parte para junto da filha, Lucy.
- Ficas cá algum tempo? – pergunta ela.
- Uma semana? Podemos pensar numa semana? Só receio que te aborreças.
- Não me aborreço.
- Bom, sabes que és bem-vindo se quiseres ficar.
- É muito simpático da tua parte, querida, mas eu gostava que continuássemos amigos. Longas visitas não são boas para as amizades.
- E se não lhe chamarmos visita? Se lhe chamarmos refúgio? Aceitarias um refúgio sem termo certo?
Aceitou.
Lucy, filha de mãe holandesa, vive sózinha numa pequena quinta, isolada, que comprou com a ajuda do pai, desde que Helen, a companheira, partiu para Johannesburg.
Na quinta, Lucy cultiva hortaliças, frutas e flores. Cria gado. Tem um canil.
Tem o apoio de Petrus, antigo colaborador, agora co-proprietário, que vive na quinta com a família. Amigos, amigos, apenas os vizinhos Bev e Bill Shaw, dois acérrimos defensores dos direitos dos animais.
Lurie aprende a relacionar-se com a filha, a interessar-se pelos animais, a defender o vegetarianismo, a viver numa nova sociedade e a aceitar as complexidades raciais.
Tudo corre bem, até uma tarde de pesadelo, de violência extrema, que os vai modificar, a ambos, de forma profunda e imprevisível.
A história de um país em mudança, falou através da brutalidade de três homens… uma história de maldade.
Segue-se o choque, o medo, a dor, o silêncio, a descoberta, a vergonha.
Lurie sugere que Lucy deixe a quinta, até que as coisas melhorem no país.
- Se eu partir agora… nunca mais volto.
Ele volta para a cidade, experimenta o arrependimento, pede perdão e volta. Volta para dar e receber amor.
O que acarretará ser avô?
Tem de ler novamente Victor Hugo, o poeta dos avós. Poderá aprender alguma coisa.
Aconselho a todos a leitura desta história dura, carinhosa, comovente, grandiosa.
Não se esquece.
 
Desgraça, de J.M. Coetzee (Prémio Nobel de Literatura 2003)
Ed. Dom Quixote, 2000
229 págs.

12 novembro, 2013

"Encalhei" na pág. 51 do último romance de Valter Hugo Mãe

Escreve Valter Hugo Mãe, na página 37 do seu romance:
Descobrir o nome e o significado de deus não compete a ninguém.
Eu sei isso... e não peço tanto... peço apenas a ajuda de quem já leu o romance, para :
 
- compreender o significado de tudo o que li / vi (já nem sei) até à página 50;
 
- avançar para além do assustador primeiro parágrafo da página 51, onde encalhei: Por vezes, a minha mãe sangrava nos pratos.
 
- não me desapontar com parágrafos que já espreitei mais à frente, como este, por exemplo: Tu podes chegar à morte com tanta facilidade. Cada passo é um perigo na nossa vida. Se não te acautelares, morres de distraída.
 
- ler tudo, mesmo tudo,  para poder entender o último parágrafo: Quem não sabe perdoar , só sabe coisas pequenas.
 
Vai ser difícil perdoar-te, Valter Hugo Mãe.
Só com muitas ajudas...

08 novembro, 2013

"O amor é para os parvos" - Manuel Jorge Marmelo

- O amor é para os parvos.
- O amor é para os parvos.
Repetiste, antes de te voltares para trás e deixares que as lágrimas rolassem como gotas de chuva lavando a poeira das paredes. Chorámos ambos, abraçados, para que não pudesses ver o meu rosto, nem eu o teu. O Verão extinguia-se lá fora e nós soubemos, em algum momento daquele nosso abraço, que não era só a estação que chegava ao fim. Talvez tu o soubesses já, mesmo antes de me dizeres que
- O amor é para os parvos.
 
Hoje saí de casa e é já outra vez Outono como no dia em que partiste. Disseste que
- O amor é para os parvos
E foste embora sem olhar para trás, deixando sobre a fronha um resto de ti, uma imagem desfocada, e um recado em que dizias que eu era o teu
- Maior amor
Que partias para me deixar com a vida que é minha e à qual tu não pertencerias nunca. É já tarde, eu sei, mas agora que penso nisso vejo que havia tanto para te dizer. Devia ter-te dito que o meu amor por ti é independente do resto da minha vida; que é como um pássaro enjaulado que quer voar mas tem medo do mundo lá fora porque sente as asas frouxas. Tenho pensado tanto nisso; tenho pensado tanto em ti.
 
Eu amo-te, tu amas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo que ser assim e não podia ser de outra maneira. E se calhar tinhas razão – o amor é mesmo para os parvos.
 
Voltei à estante da minha filhota e abasteci-me de uma dulcíssima dose de amor.
Encontrei este monólogo sobre os laços do amor, escrito em prosa poética, escorreita, imaginativa e sensível. E, por vezes, perturbadora.
Quando o tema é o amor… tudo pode acontecer… até “virarmos” parvos.
Paciência!
 
O amor é para os parvos, de Manuel Jorge Marmelo
Ed. Campo das Letras, 2000
117 págs.

05 novembro, 2013

3º - Você sabe em que livro se esconde este "primeiro parágrafo"?

Na primavera dos seus vinte e dois anos, Sumire apaixonou-se pela primeira vez na vida. Foi um amor intenso como um tornado, abatendo-se sobre uma vasta planície -, capaz de tudo arrasar à sua passagem, atirando com todas as coisas ao ar no seu turbilhão, fazendo-as em pequenos pedaços, esmagando-as por completo.”
Resposta do 2º “primeiro parágrafo”:
Em “A sombra do vento”, de Carlos Ruiz Zafón, ed. Dom Quixote, 2004

01 novembro, 2013

"Este dia em que nos encontramos é sexta-feira…

… donde se tirará facilmente por conclusão que o dia de ontem foi quinta-feira e o de anteontem quarta. A muitos irão parecer provavelmente escusas, óbvias, inúteis, absurdas, e até estúpidas, as informações complementares com que resolvemos beneficiar os dias de ontem e de anteontem, mas desde já nos adiantamos a contrapor que qualquer crítica que viesse a expressar-se nesses termos só por má-fé ou ignorância o faria, uma vez que, como é geralmente conhecido, línguas há no mundo que chamam a quarta-feira, por exemplo, mercredi, miercoles, mercoledi ou wednesday, à quinta-feira jeudi, jueves, giovedi ou thursday, e à própria sexta-feira, se não tivéssemos o cuidado de lhe proteger frontalmente o nome, não faltaria por aí quem começasse já a chamar-lhe freitag. Não é que não o possa vir a ser no futuro, mas tudo tem o seu tempo."

In "O homem duplicado", de José Saramago, ed. Caminho, 2002

(Foto tirada da net)

29 outubro, 2013

Frases soltas... "Os moedeiros falsos" de André Gide


Chega o dia em que o verdadeiro ser, que o tempo lentamente despiu de todo o vestuário de empréstimo, aparece de novo; e se for desses adornos que o outro estiver apaixonado, só estreitará contra o coração um invólucro desabitado, uma lembrança… só luto e desespero.”



(Foto tirada da net)

25 outubro, 2013

"Vermelho e Negro" - Stendhal

… as paixões são acidentes na vida…
Eis um dramático, denso e poderoso romance psicológico, cuja acção decorre no período pós Revolução Francesa.
Stendhal escreve sobre os dramas, alegrias e paixões do jovem plebeu Julien Sorel e, pelo meio, critica violentamente a igreja e a sociedade parisiense da época.
Julien tem dezanove anos, é filho de um carpinteiro de Verrières, sonha com a glória do exército de Napoleão e ambiciona riqueza e estatuto social. É arrogante, ambicioso, sedutor, traiçoeiro, sarcástico, interesseiro, mas também, cavalheiro, inteligente, sagaz, trabalhador, e com uma destas memórias espantosas que tantas vezes acompanham a estupidez.
(Enquanto leitores, ou se gosta ou se odeia. Eu consegui gostar, graças à magnífica construção da personagem e à escrita envolvente e viciante, mesmo que nem sempre fácil.)
A história está dividida em duas partes::
- na primeira parte, Julien estuda teologia com o padre Chélan (o bom velhinho que vê nele um jovem inteligente, com uma alma generosa), memoriza a Bíblia (para impressionar a alta sociedade, que despreza), e deixa a casa do pai para se tornar perceptor dos dois filhos do rico e poderoso Sr. Rênal, perfeito de Verrières. Julien odeia as crianças, mas, sendo ele um perfeito fingidor, encanta a mãe delas, uma mulher ainda jovem, bela, bondosa, muito tímida, carente de afecto e atenção, que nunca lera romances de amor. Apaixonam-se: ela perdidamente, ele…
Uma carta anónima põe fim à relação adúltera. Para evitar o escândalo, Julien é obrigado a partir para um seminário em Besançon.
Ali, é perseguido, odiado e invejado pelos outros seminaristas. Vale-lhe o apoio do padre Pinard que o aconselha… recorre a Deus, que, para te castigar da tua presunção, te deu essa necessidade de ser odiado; que a tua conduta seja pura: é o único recurso que te resta e, para o salvar daquela perseguição o recomenda, como secretário, ao Marquês de La Mole. Julien é contratado e parte para a grande cidade: Paris. Antes, porém, encontra-se secretamente com a amante e amiga, a Sra. De Rênal.
- na segunda parte, Julien vive no palácio de La Mole e não esquece as palavras do padre Pinard: para pessoas da nossa condição, o único caminho para a fortuna são as boas relações com a fidalguia.
Julien, trabalha na magnífica biblioteca do palácio. Sendo ele um leitor compulsivo, é lá que encontra algum conforto… nos donos da casa havia tanto orgulho como tédio. Estavam habituados a ultrajar os outros para se divertirem… e é lá que um dia se cruza com a menina De La Mole, a altiva e orgulhosa Mathilde. Ele, interesseiro, inicia a conquista, ela rejeita-o… mas, despois, deixa-se seduzir.
O casamento com Mathilde é impedido por uma carta da Sra. De Rênal.
Perdido de raiva, Julien dispara dois tiros contra a amiga. Será ele a morrer na guilhotina, poucos meses depois, não sem antes descobrir o amor verdadeiro e sentir prazer nas lágrimas.
Julien tem vinte e três anos.
Não faltei eu a nada do que me devo a mim próprio? Desempenhei bem o meu papel? E que papel! O de um homem acostumado a ser brilhante com as mulheres.
Gostei de bisbilhotar a vida intricada de Julien Sorel.
Que grande romance!
 
Vermelho e Negro, de Stendhal (Henry Marie Beyle, 1783-1842)
Editorial Inquérito
Tradução de José Marinho
494 págs.

22 outubro, 2013

Frases soltas... "Todos os nomes" de José Saramago

 
"… o dia já tinha vinte e quatro horas quando foi decidido que as tivesse, a hora tem e sempre teve sessenta minutos, os sessenta segundos do minuto vêm desde a eternidade, se um relógio começa a atrasar-se ou a adiantar-se não é por defeito do tempo, mas da máquina…”


(Foto tirada da net)

18 outubro, 2013

"Pensageiro frequente" - Mia Couto


… o paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos dentro de nós.
Desafio-o a dar asas à maginação, e deixar-se levar pelos céus de Moçambique. Lá de cima poderá admirar um país feito de mosaicos coloridos, aqui pintados por quem conhece bem aquela terra e as suas gentes – Mia Couto, aquele que escreve prosa com cheirinho a poesia.
- Gosta de futebol?
No meu bairro, o futebol era a grande celebração. Preparávamo-nos para esse momento, como os crentes se vestem para o dia santo.
Soou o apito e “Fintado por um verso”, dá o pontapé de saída para a leitura de 26 interessantes crónicas, escritas para a revista de bordo das Linhas Aéreas Moçambicanas, e agora compiladas em livro.
- Quer ver baleias?
Sim, então leia “O riso das baleias” e visite-as na baía de Nacala, uma das maiores e mais belas baías do mundo.
- Sabe que ligação tem o rio Zambeze com a Amazónia?
Não, então leia “O Zambeze desaguando na Amazónia” e perca-se no ritmo do Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa.
Diz Mia Couto…dos lugares da terra prefiro os que são feitos de água. Eu também!
- E você, nunca pensou nisso?
Inspire-se nas dez pinceladas coloridas de “As águas da terra”: Manica, Tete, Sofala, Cabo Delgado, Niassa, Gaza, Inhambane, Nampula, Maputo e Zambézia, e descubra locais onde a paisagem, de tão bela, chega a doer.
Continuemos a voar.
Não é o voarmos sobre os lugares que marca a memória. É o quanto esses lugares continuarão voando dentro de nós, escreve ele n ”Os lugares voadores”, onde nos ensina que: os lugares não se comparam. Como as pessoas, cada um deles acontece num momento único, numa única e irrepetível vida. Eu concordo!
- Sabia que a Munhava tem mais céu do que chão?
Não, então leia “Um barco no céu na Munhava” e deslumbre-se e fique a saber que ser menino é estar cheio de céu por cima.
- Acha que já vimos tudo?
Pouco do mundo teremos visto senão tivermos olhado os pássaros.
Eu olhei, em “Outras formas de voar” e descobri um amor a toda a prova pela escrita de Mia Couto e pelo meu país do coração: Moçambique.
 
Lembrei-me, agora, que tenho medo de andar de avião. Não parece, pois não?
Somos todos de algum mato.
Lindo!
 
Pensageiro frequente, de Mia Couto
Ed. Caminho, 2011
133 págs.

15 outubro, 2013

"Olá! Está aí alguém?" - Jostein Gaarder

O tempo que dura uma vida humana não chega para aprender tudo.
Joakim tem oito anos e espera a chegada de um irmãozinho que vai nascer.
Na noite em que o bebé quer sair da barriga da mamã, os pais correm para o hospital e Joakim fica sozinho em casa, esperando a tia Helene.
Contemplava as estrelas, através da janela do quarto, quando viu uma estrela cadente cruzar o céu, tão próxima que parecia que iria cair no seu jardim.
Logo de seguida, do jardim chegou até ele um grande e estranho barulho. Seriam os papás com o mano? Não!
Era Mika, um rapazinho que se baloiçava na macieira em frente da janela do seu quarto, pendurado pelo elástico dos calções.
Mika, o menino que chuchava o polegar sempre que reflectia e sacudia os dedos quando tinha de explicar uma coisa.
Mika, o menino que fazia uma vénia a perguntas profundas e nunca a respostas inteligentes – uma resposta é o caminho que deixaste para trás. Só uma pergunta pode apontar para diante.
Mika, o menino de um planeta distante, que nasceu dentro de um ovo, não tem umbigo, e que sabe tudo sobre os mistérios do universo e o enigma da vida humana.
Ficam amigos, brincam e interrogam-se sobre o que se esconde por detrás das coisas que o nosso olhar distraído considera “normais.”
Nem sempre as coisas mais normais são tão normais como cremos.
Entretanto, o dia amanheceu, o mano de Joakim nasceu e Mika desapareceu.
Terá sido um sonho?
Com Jostein Gaarder (autor do célebre "O Mundo de Sofia") nunca se sabe.
Mas eu sei que os seus livros são para ler e aprender e isso basta-me.
Encantador!
 
Olá! Está aí alguém?, de Jostein Gaarder
Editorial Presença, 1998
Tradução de Maria Bragança
111 págs.

11 outubro, 2013

"Os moedeiros falsos" - André Gide

… posso duvidar da realidade de tudo, mas não da realidade da minha dúvida.
“Les faux-monnayeurs”, de André Gide, publicado em 1925, é um acutilante retrato da crise de valores da burguesia intelectual parisiense dos anos vinte, um romance sobre os tormentos e tentações da adolescência, sobre a perversão e a marginalidade.
É um romance que “puxa” pela nossa imaginação, uma história sobre a amizade, o amor e muito ciúme, entre dois jovens candidatos a escritores e dois romancistas rivais:
Bernard Profitendieu, jovem candidato a escritor, muito audacioso e ambicioso, de carácter decidido, no início do romance descobre ser filho bastardo e abandona a família. Aproxima-se da família Molinier.
Olivier Molinier, candidato a escritor, terno e imaturo, é o maior amigo de Bernard.
Édouard, romancista, tio de Olivier, o seu sobrinho preferido. Édouard termina um romance, a que chama “Os Moedeiros Falsos” (o livro dentro do livro, onde a ficção se mistura com a realidade) e escreve um diário, onde guarda confidências sobre as personagens do romance. Bernard, o seu secretário, apanha o diário e passa o seu conteúdo para nós, leitores.
Robert de Passavant, o romancista vaidoso, hipócrita, egoísta, que lança a revista literária “Avant-Garde” e convida Olivier para redactor-chefe. Este aceita, para grande desgosto e muito ciúme do tio.
Vincent Molinier, irmão de Olivier, cobarde e desastrado, amante do jogo e de Laura Douviers.
Confuso?
Talvez esteja, mas, atenção… não se pode julgar a vida dos outros pelo exterior.
E quem são, afinal, os moedeiros falsos, do livro de André Gide (ou será de Édouard )?
Estará a resposta no "assunto profundo" do livro de Édouard? Confirme.
... a rivalidade entre o mundo real e a representação que dele fazemos. A forma como o mundo das aparências se nos impõe e como tentamos impor ao mundo exterior a nossa interpretação particular, constitui o drama da nossa vida.

Ufa! 
Não foi fácil ler este romance.
A trama é interessante, apesar de complexa, as personagens geniais, a escrita brilhante, mas a acção… é parada - muito parada - paradíssima.
Não foi o drama da minha vida, mas quase.
Já lhes aconteceu terem na mão uma moeda falsa?
Pensem bem, antes de responder.
 
Os moedeiros falsos, de André Gide (Prémio Nobel de Literatura 1947)
Ed. Ambar, 2004
Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira
422 págs.

08 outubro, 2013

Hoje não escrevo...

Não há espaço para cantar
 
Hoje não escrevo
Alguém
Escreva por mim
 
Neste bairro
Não há espaço
Para cantar
 

As palavras, roubei ao Mar Arável. Desculpa!
O pôr-do-sol, fotografei da minha janela.

04 outubro, 2013

"Todos os nomes" - José Saramago

A solidão do Sr. José … nunca foi boa companhia, as grandes tristezas, as grandes tentações e os grandes erros resultam quase sempre de se estar só na vida…
O Sr. José é o protagonista deste romance soberbo de Saramago.
Solteiro, de meia-idade, tímido, de natureza melancólica, com medo das alturas e sofredor de insónias, o Sr. José é um cumpridor auxiliar de escrita, nunca promovido, da Conservatória Geral do Registo Civil, e vive numa pequenina vivenda modesta e rústica, mesmo ao lado da Conservatória, a única das muitas casinhas construídas para os funcionários que se mantém de pé. A casa tem duas portas: uma, exterior, que dá para a rua e outra, muito discreta, no interior, que dá para a grande nave dos arquivos da Conservatória. Dá, ou melhor, dava, pois a serventia daquela porta foi superiormente proibida ao inquilino da casa.
Mas será  que a chave não roda mesmo naquela porta?
Talvez, talvez.
… quando chegamos a velhos e percebemos que se nos está a acabar o tempo, dá-nos para imaginar que temos na mão o remédio de todos os males do mundo e desesperamos por não nos prestarem atenção.
O Sr. José ocupa grande parte do seu tempo livre com uma invulgar colecção: notícias e fotografias de celebridades, recortadas de jornais e revistas e guardadas meticulosamente em processos individuais, divididos por dois grupos - os cem mais famosos; os que não conseguiram tanto – a que acrescenta dados pessoais copiados dos verbetes que retira do registo oficial da Conservatória, em rápidas e arriscadas andanças nocturnas.
Sendo a sua vida profissional e pessoal medíocre, monótona e muito solitária, só a colecção lhe permite penetrar na intimidade de outras pessoas, e pasme-se, famosas.
A colecção do Sr. José parece-se muito com a vida.
Mas a vida prega partidas e o Sr. José está prestes a sabê-lo, ao levar para casa o verbete de uma mulher desconhecida, agarrado aos verbetes dos famosos. É uma mulher de trinta e seis anos, e o verbete tem apenas dois averbamentos: um de casamento, outro de divórcio. Nada mais.
Quem é ela? O que faz? Onde vive?
Ele quer saber tudo sobre essa mulher. Quer conhecê-la, falar com ela. Quer saber se ela é feliz ou infeliz.
Firme nessa decisão, o Sr. José traça objectivos, esgalha estratégias, esquece as vertigens e as insónias e parte em busca da mulher misteriosa... acabando por se encontrar a si próprio.
… a pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós, por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos.
 
A leitura deste livro comoveu-me sobremaneira.
Nunca a imaginação, a escrita e a sensibilidade de Saramago me pareceram tão extraordinariamente grandiosas.
Este é, para mim, um dos melhores romances do mestre.
Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo… tens de aprender a viver com a escuridão de fora como aprendeste a viver com a escuridão de dentro.
Se você ainda não leu, corra a ler.
Fuja da solidão e ... encontre-se!
 
Todos os nomes, de José Saramago
Ed. Caminho, 1997
279 págs.

01 outubro, 2013

2º - Você sabe em que livro se esconde este "primeiro parágrafo"?

Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desfiavam-se os primeiros dias do Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derramava sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido.”
Resposta do “Primeiro parágrafo”:
Em “A mancha humana”, de Philip Roth, ed. Dom Quixote, 2002

27 setembro, 2013

Frases soltas... "Ravelstein" de Saul Bellow

“O cérebro é um espelho e reflete o mundo”.

“Aprendi tarde na vida o tonto que é insistir em que estamos certos.”

“A vida foge-nos.”

“O coração é um mistério… leal na sua função desde o útero até ao nosso último suspiro.”

“Quanto mais envelhecemos, piores se tornam as descobertas que fazemos acerca de nós próprios.”

“… dos escritores, esperamos que nos façam rir ou chorar.”

“Um homem devia ser capaz de ouvir, e de aguentar, e de ultrapassar, o pior que pudesse ser dito dele.”

“Hoje em dia já nada no plano sexual é proibido, mas o desafio é mantermo-nos nós próprios no meio da anarquia sexual.”

“Associa-te às pessoas mais nobres que puderes encontrar; lê os melhores livros; convive com os poderosos; mas aprende em solidão a ser feliz.”

“Não podemos aplicar a tudo a nossa medida humana.”
 
(Foto tirada da net)

25 setembro, 2013

A Ana mandou-me um poema... e eu gostei.

Gosto de acordar com vontade
De agarrar o dia
Pendurar-me no Sol
E sugar-lhe a energia

Gosto de pensar que ele me leva
Ao longo das horas
Nas suas crinas douradas
E me faz ver o mundo pequenino
Numa harmonia de cores e formas
Que encanta

Gosto da segurança majestosa
Do seu demiurgo modo de estar
A apontar-me as flores e as searas
As árvores a rebentar em frutos
E os risos das crianças nos jardins

Gosto da ternura com que ele se aproxima
Dos idosos sentados nos bancos das cidades
E da forma como se insinua
Por entre as frechas tristes
Das janelas dos hospitais
Para realizar a magia de um sorriso
Num rosto dilacerado pela doença

Gosto, quando ele me convence
Que há um sentido perene em tudo
Que há um tempo para amar
E um tempo para morrer

Poema de Ana Wiesenberger (querotrazerpoesiaparaarua)
(O Sol, tirei da net)

21 setembro, 2013

A vida (es)corre...

Tão breve o Verão, antes do Outono e, depois, o Inverno.
In "Desgraça", de J.M. Coetzee, ed. Dom Quixote, 2000

(Foto tirada da net)

20 setembro, 2013

Dois autores, dois estilos, o mesmo verbo: "derramar"


 Contos, de Virginia Woof (1882-1941)
… refulgiam róseas e de novo refulgiam alaranjadas quando o sol, derramando-se pelas macieiras, incidia nelas. (No pomar)
… quando Miss Milan lhe pusera o espelho na mão e Mabel se olhara com o vestido novo, finalmente pronto, uma felicidade extraordinária se derramara no seu coração. (O vestido novo)
… o ramo de uma árvore à sua frente embebia-se e penetrava a sua admiração pelas pessoas daquela casa; derramava-se em gotas de outro; ou permanecia erecto como uma sentinela. (Resumo)
… Sasha já não se sentia capaz de derramar por cima do mundo inteiro a sua nuvem de ouro. (Resumo)
… o espelho começou a derramar sobre ela uma luz que parecia fixá-la, que parecia um ácido corroendo o acessório e superficial para deixar apenas a verdade. (A senhora no espelho: uma reflexão)
 
A travessia, de Cormac McCarthy (1933-)
… onde o regato se derramava para sul.
… em cujo seio o mundo audível se derramava.
… olhou para ele à luz que se derramava da porta aberta.
… a luz do meio-dia se derramava sobre os campos.
… o cabelo escuro dela derramava-se sobre o ombro do irmão…
… examinou aqueles mundos derramados nas suas pálidas ignições sobre a noite sem nome…
…cabelo claro que ele já não cortava há muito tempo derramado em volta dele…
 
O que eu me diverti a procurar, sublinhar, contar e guardar estas frases.
Enfim, o calor de Agosto faz destas coisas…
 
(“Derramar”, do inglês spill, shed, pour in)

13 setembro, 2013

Contos de... Virginia Woolf

Foi talvez por meados de Janeiro deste ano que vi pela primeira vez, ao olhar para cima, a marca na parede. Quando queremos fixar uma data precisamos de nos lembrar do que vimos.
Começa assim “A marca na parede”, o primeiro dos contos desta compilação da Relógio d’Água (2004), que só agora descobri, comprei, devorei e… adorei.
Por momentos “emperrei “ no primeiro conto e desanimei, mas logo “mergulhei” no segundo, rejubilei e não mais parei.
. A marca na parede
. Objectos sólidos
… qualquer objecto de mistura tão profundamente com a matéria do pensamento que perde a sua forma real e se reconstitui de modo ligeiramente diferente numa forma ideia que assombra a mente quando menos se espera.
. Um romance que não foi escrito
A vida é o que se vê nos olhos das pessoas.
. A casa assombrada
. Segunda ou terça-feira
. No pomar
. O vestido novo
. Uma melodia simples
. Resumo
. Momentos de ser: “Os alfinetes da Slater’s não seguram”
Enfiava a tarde no colar dos dias memoráveis, que não era demasiado comprido para que pudesse recordar este ou outro dia; esta vista, aquela cidade; para lhes tocar, para os sentir, saboreando, num suspiro, a qualidade que o tornava único.
. A senhora no espelho: uma reflexão
. O fascínio do pequeno lago
O encanto do lago residia no facto de lá terem sido depositados pensamentos por pessoas que haviam partido e sem os seus corpos os seus pensamentos vagueavam por ali livres, cordiais e comunicativos, no fundo comum.
. Três quadros
. Ode parcialmente escrita em prosa ao ver o nome Cutbush sobre um talho de Pentonville
. A duquesa e o joalheiro
. A caçada
. Lappin e Lapinoca
Eram amigos e, ao mesmo tempo, inimigos; ele era o senhor, a senhora era ela: enganavam-se um ao outro, precisavam um do outro, temiam-se reciprocamente, e ambos o sentiam e sabiam todas as vezes que as suas mãos se tocavam assim naquela saleta escura, com a luz branca lá fora, a árvore com seis folhas, o ruído distante da rua e os cofres-fortes atrás.
. O holofote
. O legado
. O símbolo
. A estância balnear
. A velha Mrs.Grey
. A história de Septimus Warren Smith
Gostei mais de uns que de outros, claro, mas Objectos sólidos, Três quadros, A duquesa e o joalheiro (que escrita fabulosa!), Lapin e Lapinova e O legado conseguiram empolgar-me.
Virginia Woolf, uma das mais conceituadas escritoras inglesas do séc. XX - autora do extraordinário romance “Mrs. Dalloway” (1925), divulgado mundialmente pelo filme “As horas”, de Stephen Daldry e baseado na obra homónima de Michael Cunningham -, não ficou conhecida como contista, porém, escreveu algumas das mais delicadas e sublimes pequenas histórias da literatura inglesa.
Nestes vinte e três contos é notável a mestria narrativa, a escrita arrebatadora, a construção psicológica perfeita das personagens e o retrato da vida da época que, de tão rigoroso, permite compreender melhor a vida, o sofrimento e a morte (uma entrada no lago, sem regresso) da escritora.
Coloque este livro na sua lista de prendas do próximo Natal, “mergulhe”, também, nestas belíssimas histórias e descubra o que era a marca na parede… a tal, do primeiro conto.
 
Contos, de Virgina Woolf
Relógio d´Água, 2004
Tradução de Miguel Serras Pereira, Manuela Porto, Clara Rowland e Margarida Vale de Gato
251 págs.

06 setembro, 2013

"A travessia" - Cormac McCarthy

… a imagem do mundo é tudo o que os homens conhecem do mundo, e esta imagem do mundo é perigosa.
Diz a sinopse:
A Travessia tem por cenário os ranchos do sul dos EUA durante os anos que antecederam a II Guerra Mundial e narra as aventuras de Billy Parham, de dezasseis anos, e do seu irmão mais novo, Boyd.
Fascinado por uma ardilosa loba que tem atacado a propriedade da família, Billy captura o animal. Mas, ao invés de o matar, parte em busca da sua origem – as montanhas do México – com o intuito de o devolver ao seu ambiente natural.
No regresso, Billy depara-se com um mundo irreversivelmente mudado. A perda da sua inocência tem um preço e, mais uma vez, o horizonte brilha com a sua desoladora beleza cruel e promessa.
Paulo Faria, o tradutor, escreveu no excelente prefácio:
Nunca como aqui foi tão patente que a escrita de Cormac McCarthy é ela própria uma viagem que nos leva até ao mais fundo de nós mesmos, uma jornada pelos meandros do nosso destino…

... a lição de uma vida nunca se basta a si mesma.
Este é o mais longo dos romances de McCarthy. O tema é o mesmo de outras obras do autor: a crueldade do ser humano, a dureza da vida, a luta pela sobrevivência, a violência do mundo selvagem, a descoberta do mundo que nos rodeia, a busca dos valores no íntimo de cada homem.
De todos os que já li dele, este é o mais comovente e…o menos violento.
As personagens são espantosamente bem construídas e reais. Destaco a principal, Billy Parham, o rapaz de dezasseis anos que fala com os animais, o vaqueiro solitário, obstinado e corajoso, que tem a estranha ideia de levar para as montanhas do México a loba que apanhou numa armadinha e que transportava no ventre a sua primeira ninhada. Inesquecível!
É uma leitura que aconselho a quem gosta de longas, encadeadas e pormenorizadas histórias.
Se ainda não se iniciou na leitura de McCarthy comece por este romance e deixe-se enlear por uma história empolgante e uma escrita poderosa, cativante e viciante.
Os diálogos são assombrosos. Repare só:
Isso é um lobo, caramba.
É, sim, senhor.
Rapaz, o que é que se passa contigo? Se essa criatura se solta desse açaimo, come-te vivo.
Sim, senhor.
O que é que ‘tás a fazer com ele?
Não é ele, é ela.
É o quê?
É ela. É uma loba.
Co’a breca, não faz diferença nenhuma se é ele ou ela. O que é que ‘tás a fazer com essa criatura?
‘Tou-me a preparar prà levar para casa.
Pra que é que ‘tás a levar esse animal pra casa?
É assim a modos que uma longa história.
Bom, eu cá gostava imenso de a ouvir.
E sempre foste maluco?
Não sei. A verdade é que até hoje ainda não tinha sido posto à prova, a bem dizer.
Que idade tens?
Dezasseis.
Dezasseis.
Sim, senhor.
Bom, tu não tens o juízo que Deus dá a um ganso. Sabias?
Talvez o senhor tenha razão.
Como é que esperas que o teu cavalo tolere um disparate deste tamanho?
Caso eu lhe consiga deitar a mão, não lhe vou pedir opiniões sobre o assunto.
Fazes tenção de levar esse animal à corda atrás do cavalo?
Faço, sim, senhor.
E como é que esperas obrigar a loba a fazer isso?
Também não lhe vou deixar grande escolha na matéria.
Fabuloso, não?
Termino com uma das marcas de McCarthy: a utilização excessiva (mas não repulsiva) do “e”:
Ele ia dando palmadinhas no cavalo e falava com ele e baixou o braço e soltou a fivela do estojo da sela e retirou de lá a espingarda e desmontou e deixou cair as rédeas.
Foi, derramada (roubei ao autor) no meu sofá, que saboreei este romance.
Gostei!
 
A Travessia, de Cormac McCarthy
Relógio d’Água, 2012
Tradução de Paulo Faria
393 págs.

03 setembro, 2013

Resposta do Desafio nº 20

Claro que se trata do nosso poeta primeiro - Luis de Camões.
Neste pequeno livrinho estão compilados 204 sonetos, e a sua leitura é puro deleite.
Parabéns para quem acertou.

01 setembro, 2013

1º - Você sabe em que livro se esconde este "primeiro parágrafo"?

“Foi no Verão de 1998 que o meu vizinho Coleman Silk – que, antes de se reformar dois anos atrás, fora professor de estudos clássicos no Ahena College durante vinte e tal anos, além de ter servido dezasseis como reitor da faculdade – me confidenciou que, aos 71 anos, tinha um caso com uma empregada de limpeza de 34, que trabalhava na universidade.”

Voltei!

Que saudades eu já tinha deste meu cantinho.
Agora que voltei, começo por fazer uma declaração: cumpri os objectivos a que me propus no início de Agosto e li todos os livros. Uau!
Comecei com “Pensageiro frequente”, de Mia Couto, o mais pequenino deles todos, uma compilação de textos sobre o meu país do coração, Moçambique: encantador.
Passei ao Cormac McCarthy, “A Travessia”, um pouco a medo da excessiva pormenorização e violência, uma marca do autor, mas, enganei-me: brilhante.
Depois, aos “Contos”, de Virginia Woolf, e descobri uma enorme escritora: puro encantamento.
Revirei, em “Todos os nomes”, de José Saramago, um arquivo de verbetes bem ordenados: extraordinário.
Terminei com “Em parte incerta” de Gillian Flynn, um triller bem esgalhado: empolgante.
 
O que fiz mais?
Peguei em romances que já li e procurei os “primeiros parágrafos” mais surpreendentes, (para mim, claro!), aqueles que, em muito casos, ditaram a leitura do livro.
Foi uma tarefa simplesmente deliciosa.
 
E quanto a novas leituras?
Comecei “Os moedeiros falsos”, de André Gide, um romance sobre a crise de valores da burguesia intelectual parisiense dos anos 20.
E que mais?
Depois se verá.
Para já, é bom estar de volta.
Boas leituras para todos.