27 novembro, 2012

Poema de... Rudyard Kipling

SE
Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê...Se vais faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...

Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu
risonho...

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...

Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio, a construir de novo...

Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante...

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...

Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraia em séculos fecundos...

Então, óh ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
alegra-te, meu filho, então serás um homem!...

Poema de Rudyard Kipling (1865-1936)), tradução de Félix Bermudes
Pintura de António Palolo, Portugal (1946-2000)

23 novembro, 2012

"Um país para lá do azul do céu" - Susanna Tamaro


Há muitas tragédias que são devidas a falhas de comunicação.
Pois é, voltei aos contos. E voltei a SusannaTamaro, uma magnífica contadora de histórias. As suas histórias não são fáceis de ler, por serem histórias tristes, histórias de sofrimento, histórias que perturbam e emocionam, histórias que dificilmente se esquecem, histórias que são a própria vida. Mas são belas e bem escritas e, por isso, não conseguimos deixar de as ler.
Este livro é constituído por quatro histórias dramáticas, acerca do terrível flagelo que é a emigração ilegal. São histórias sobre comportamentos xenófobos, violência, falta de comunicação, exclusão social.
Em todas elas, Susanna Tamaro dá voz ao sofrimento dos desenraizados, e reflecte sobre a angústia e a aflição humanas, o desejo de mudança e a vontade de viver.
Há peixes que, embora sejam pequenos, não são devorados pelos peixes grandes.
Em todas elas, o desespero conduz a desfechos trágicos. E que desfechos…
– "O que diz o vento?"
Esta história tocou-me particularmente. É sobre Nabila, a mãe corajosa, que escondida no porão de um navio chega à Europa com o filho pequeno, numa fria noite de inverno. O que encontra à chegada não é o paraíso, é o inferno.
"Do céu"
Esta história deixou-me atordoada. É sobre a adopção de Arik, um menino africano muito desejado e amado, por um casal italiano. Um menino estranho. Uma história de amor com um final sinistro.
Haveria outro país, para lá do azul do céu? Se calhar, havia: devia ser o país das mães e dos pais.
Leiam estas pequenas histórias e deslumbrem-se e interroguem-se:
Onde é que este mundo vai parar?
 
Um país para lá do azul do céu, de Susanna Tamaro
Ed. Presença, 2003
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
92 págs.

20 novembro, 2012

Vale a pena ler...Monge Matthieu Ricard

Matthieu Ricard nasceu em França, em 1946. Cientista de sucesso, na área da Filosofia, em 1972 abandonou a carreira e dedicou-se ao Budismo Tibetano.
De bem com a vida, respondeu assim à jornalista:
P: Os cientistas consideram-no o homem mais feliz do mundo. Qual é o segredo?
R: Isso é um exagero, não acho que seja bem assim. Mas posso dar alguns conselhos. Primeiro, há que reconhecer que se quer se feliz e não negligenciar as emoções, o nosso interior.
Egoísmo, arrogância, agressividade são tudo sentimentos que nos fazem sentir mal, que controlam as nossas mentes e impedem a felicidade. Não são sentimentos que nos sejam impostos, somos nós os responsáveis por eles, e todos sabemos o mal que fazem. A verdade é que podemos treinar a mente. Cá fora, o nosso controlo é limitado, já no cérebro só depende de nós.
P: E quais são os primeiros passos a dar para o conseguirmos fazer?
R: Primeiro, devemos olhar para dentro e ver o que nos proporciona felicidade. Como o amor altruísta, por exemplo. É preciso controlar o excesso de desejo. E como o fazemos? Simples: libertando-nos dessa ansiedade de querer ter tudo. Como é que podemos dissipar a raiva? Como amor, afeição. É preciso reconhecer que precisamos de mudar de atitude, e depois não basta fazê-lo um dia ou um mês. É algo para a vida. E se o fizerem, acreditem, vão sentir mudanças.
P: Mas temos de pôr de lado os prazeres mundanos para sermos felizes?
R: [risos] Não há mal nenhum no prazer. Mas o prazer não tem nada a ver com felicidade.
Excerto da entrevista concedida a Paula Cosme Pinto, publicada na Revista, do jornal Expresso de 28 Abril 2012
Vale a pena ler na íntegra.

16 novembro, 2012

"O ano da morte de Ricardo Reis" - José Saramago

Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheias nas lezírias.
Assim começa esta narrativa sobre os últimos nove meses de vida do médico Ricardo Reis, o heterónimo mais conhecido de Fernando Pessoa.
Na sua biografia consta que nasceu no Porto, em 1887 e nada é dito sobre o ano da sua morte. Saramago decide, então, criar a sua versão da história, entrelaçando factos oficiais com factos imaginados, e pôr um ponto final na vida do médico monárquico. Ricardo Reis morrerá em 1936, ano do início do longo tormento português.
Sou o ano de mil novecentos e trinta e seis, venham ser felizes comigo.
Foi em 1919 que Ricardo Reis fugiu para o Brasil como exilado político. Dezasseis anos depois voltou a fugir, desta vez da ditadura de Vargas e regressou a Portugal. Chegou a Lisboa em Dezembro de 1935, precisamente um mês após a morte do grande amigo e mestre Fernando Pessoa.
Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções…
Em Lisboa, Ricardo Reis, homem grisalho e seco de carnes, começou por se instalar no famoso hotel Bragança, num quarto com vista para o rio. Por agora o hotel bastará, lugar neutro, sem compromissos, de trânsito e vida suspensa. Mais tarde alugou um apartamento, no Alto de Santa Catarina. Procura privacidade e deseja despistar a polícia que insiste em persegui-lo.
Sem consultório para exercer a profissão, ocupa o tempo a dormir, a ler, a caminhar pelas ruas da cidade, a entrar e a sair de restaurantes, bares e casas de pasto onde escuta, observa e testemunha a afirmação do fascismo na sociedade portuguesa, o futuro de Espanha a braços com uma guerra civil, a ascensão do nazismo na Europa.
O que pede ele à vida? Nada!
Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir.
No hotel conheceu as duas mulheres da sua vida: Lídia, a criada, uma mulher feita e bem feita, que lhe ensinará a arte do amor e Macenda, uma jovem pura e doce de Coimbra, com vinte e três anos, que busca nos hospitais de Lisboa cura para uma mão paralisada.
A vida, qualquer vida, cria os seus próprios laços, diferentes de uma para outra…
Foi, também, no hotel, que na noite da passagem do ano reencontrou o mestre Fernando Pessoa, depois da longa ausência.
A partir desse primeiro encontro veem-se com regularidade no hotel, na rua, no apartamento alugado e têm longas e curiosas conversas sobre as encruzilhadas da vida, o amor, a solidão, a morte, sobre o país de Salazar, sobre o mundo.
Diga-me só uma coisa, é como poeta que eu finjo, ou como homem, O seu caso, Reis amigo, não tem remédio, você, simplesmente, finge-se, é fingimento de si mesmo, e isso já nada tem que ver com o homem e com o poeta.
Gostam de conversar, divagar, interrogar.
Até à noite em que Fernando Pessoa comunica: Vim cá para lhe dizer que não tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim.
Fernando Pessoa parte. Sem qualquer hesitação, Ricardo Reis acompanha-o.
A vida é um desacerto de sortes…
Gostei de me perder no mundo das metáforas do nosso Nobel.
Sorte!
 
O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago
Ed. Caminho, 1984
415 págs.

13 novembro, 2012

Poema de... Florbela Espanca


A UM LIVRO
No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto!...

Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que dizes!... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!...

Poema de Florbela Espanca, Portugal (1894-1930)
Pintura (Silence) de Henry Fuseli, Suiça (1741-1825)

09 novembro, 2012

"A hora má: o veneno da madrugada" - Gabriel García Márquez

“É proibido falar de política”, diz um letreiro pregado na parede da barbearia.
- Quem te autorizou a pôr ali aquele letreiro? - perguntou o alcaide, apontando o aviso.
- A experiência – respondeu o barbeiro.
- Aqui só o Governo tem o direito de proibir seja o que for – disse. – Estamos numa democracia.
Pois é, este hilariante romance foi escrito por GGM em 1962, precisamente vinte anos antes da conquista do Nobel e cinco anos antes da publicação da sua obra-prima “Cem anos de Solidão”.
A acção tem lugar num pequeno povoado perdido no interior de um qualquer país da América Latina. Um povoado em tempos devassado por guerras políticas e repressão brutal mas onde agora reinava a ordem social. Todos viviam “numa santa paz”. Verdadeira?
Não! Os jogos de poder, a corrupção, a miséria e os conflitos sociais eram um prenúncio de tragédia e esta chegou de repente, como se Deus tivesse resolvido que aconteceriam todas juntas as coisas que durante anos deixaram de acontecer.
E chegou com um tiro que rasgou a madrugada.
Um tiro que sobressaltou o padre Ángel, que se preparava para celebrar missa, na sua igreja infestada de ratos; despertou o alcaide, que tentava adormecer, depois do oitavo analgésico para atenuar uma dor de dentes; alarmou os habitantes do povoado, que correram em roupa de dormir para a praça.
O tiro foi disparado por César Montero, um comerciante de gado. O atingido de morte foi Pastor, um humilde tocador de clarinete.
Porquê?
Por causa de um papel – um pasquim - colado na porta de casa de Montero, informando-o da infidelidade da mulher. Mas era verdade ou mentira?
Para o doutor Giraldo, os pasquins dizem o que toda a gente sabe, e que quase sempre é verdade.
Há já algum tempo que apareciam afixados nas portas das casas do povoado. Sempre de madrugada, sempre anónimos, faziam denúncias sobre a vida privada dos cidadãos, como traições, assassinatos, infidelidades, segredos de família envolvendo filhos bastardos e abortos escondidos. Todos se sentiam ameaçados. Qualquer um podia ser o autor ou a próxima vítima. O medo, a raiva e a vingança desencadeiam uma onda de violência colectiva.
Pastor foi vítima dessa violência mas os pasquins continuaram a aparecer, à hora má das madrugadas.
Para o velho e pobre padre Ángel os pasquins são obra da inveja numa terra exemplar, a terra mais cumpridora de toda a Comunidade Católica.
Já o juiz Arcadio, que tratava as persistentes dores de cabeça com analgésicos e cerveja, diz que os pasquins não são obra de uma única pessoa e aposta com o escrivão que vai descobrir os seus autores.
O alcaide corrupto, responsável pela segurança do povoado, impõe o recolher obrigatório e ordena aos seus guardas que façam rondas nocturnas. Pede, até, ajuda a uma adivinha. Nada resulta: os pasquins continuam a ser afixados.
São muitos e convincentes os personagens desta excelente história, narrada com a marca inconfundível de um grande autor e merecido Nobel.
São muitas as vítimas dos pasquins, muitos os eventuais autores e muitos os segredos revelados.
- Se pelo menos se soubesse quem os põe.
- Quem os põe sabe.
Eu penso que sei… mas não digo!
Pós-escrito:
Está a chover novamente. Com este Inverno e as coisas que em cima te conto, creio que nos esperam dias amargos.
Soube-me bem este “veneno da madrugada”. Morri, apenas, de riso. Haja Deus!
Obrigada Carlos Reys, pela excelente sugestão de leitura. 
 
A hora má: o veneno da madrugada, de Gabriel García Márquez
Tradução de Egito Gonçalves
Dom Quixote, 2008
187 págs.

06 novembro, 2012

Desafio nº 11 - Que romance é este que um nome grande da nossa literatura classificou de "proeza literária"?

- E a sua vida? Ainda não sei nada de si… Diga-me, o que é a sua vida?
- A minha vida são os meus livros. As palavras que conduzo. As situações que rego. Os homens que invento para os outros homens. As mulheres que nunca consegui encontrar para o corpo de acção, para o espírito das palavras. Às vezes ando quinze dias atrás duma mulher que encontro casualmente na rua, a observá-la, a segui-la, até casa, até ao emprego, para lhe fixar os mínimos (gloriosos) pormenores para depois os lançar ao papel como um osso a um cão. Mas acabo sempre por desistir porque nunca conseguiria reproduzir-me como uma fotografia ou uma radiografia. Os meus livros não são um guia automobilístico nem o roteiro de uma cidade. Estão abandonados no sangue até que deles participe todo o mundo. E às vezes esqueço-me de viver a minha própria vida. Sim, a minha vida é um veículo que se alimenta de sol em vez de gasolina e que anda só em sentido contrário…
- Porque escreve então?
- Porque não sei falar…
 
Ajuda se eu disser que o autor é português e tinha apenas vinte anos quando publicou este pequeno romance?
Ajuda se eu disser que ganhou o Prémio de Novelística Almeida Garrett?
 
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Resposta do Desafio nº 10:
Claro que é o gostoso “Como água para chocolate”, da escritora mexicana Laura Esquível, publicado em 1989.
Parabéns para quem acertou.

02 novembro, 2012

"Até ao fim da terra" - David Grossman


As famílias são altas matemáticas – demasiadas incógnitas, demasiados parêntesis e demasiadas elevações ao quadrado…
Virada a 684ª página deste avassalador e inesquecível romance, o livro de uma vida, ou “um épico doméstico”, como diz o autor - fiquei sem palavras para escrever sobre ele. A sério!
Resta-me uma para o definir: EXTRAORDINÁRIO!
Mas como quero que todos leiam este romance, vou tentar escrever qualquer coisa.
Para já, cito o autor:
Comecei a escrever este livro no mês de Maio de 2003, meio ano antes do fim do serviço militar do meu filho mais velho, Yonatan, e meio ano antes da incorporação do seu irmão mais novo, Uri. Ambos serviram no Corpo de Blindados…. Uri cumpriu a maior parte do serviço militar nos Territórios Ocupados, em patrulhas, vigias, emboscadas e nos checkpoints e, de vez em quando, partilhava comigo as suas experiências.
Nessa época eu tinha o sentimento – ou mais exatamente o desejo – de que o livro que estava a escrever o protegesse.
A 12 de agosto de 2006, nos momentos finais da Segunda Guerra do Líbano, Uri foi morto no sul do Líbano. O seu tanque foi atingido por um míssil…
Agora, nesta história imaginada é Ora, mãe do soldado Ofer, que foge das más notícias dos “notificadores”. Pensa ela que se não a encontrarem, não lhe podem comunicar a morte do filho e enquanto isso se mantiver, ele continuará vivo.
Mas vamos ao início da história:
Ora festeja a desmobilização do filho e prepara-se para uma caminhada com ele pela Galileia. As mochilas estão prontas. Inesperadamente, Ofer diz à mãe que não farão a caminhada porque tem de partir imediatamente para outra missão, desta vez na Cisjordânia.
Ela sabe depois, que ele se ofereceu como voluntário, para um período de mais vinte e oito dias. Como foi capaz de a enganar o único dos seus homens que fora sempre leal para com ela.
Ora está separada do marido Ilan e é mãe de Ofer e Adam, o filho mais velho, que vive com o pai. Estão ambos de férias fora do país.
Desiludida, triste, sozinha e temendo a pior notícia que uma mãe pode receber , Ora foge de casa, para não poder ser encontrada durante todo o período em que Ofer estiver em missão.
Decide, então, fazer a caminhada e “arrasta” consigo Avram, o artista, o pacifista, antigo namorado e amante, ex-prisioneiro de guerra do Egipto e o melhor amigo dela e de Ilan.
Uma das regras, provavelmente a mais importante, determinava que ela estivesse sempre em movimento e é isso que faz, caminhando sem cessar por montes e vales “até ao fim da terra”.
E falam, falam muito. Aliás, ela fala e ele ouve embevecido interiorizando lentamente o facto de que pela primeira vez em trinta e cinco anos estava só com ela, realmente, sem Ilan, até mesmo sem a sombra de Ilan.
Mas também há silêncios, silêncios difíceis de suportar.
E há segredos escondidos, verdades amargas, alegrias, angústias, tristezas, sofrimento, desilusões, paixões e muitas histórias contadas para o ventre da terra. Principalmente sobre Ofer, o ser que ambos trouxeram ao mundo.
- Devias saber que enquanto falo contigo sobre ele, ele está bem, está protegido.
- Como?
- Não sei. É o que eu sinto. Está pura e simplesmente resguardado.
- Sim.
- Parece-te loucura?
- Não.
- Conto mais?
- Sim.
Sem ordem cronológica, Ora vai desfiando a sua vida inteira, nos pormenores íntimos da sua família, nos seus amores e desamores, nos dramas físicos e psicológicos da guerra sobre os homens que ama. Uma vida inteira sem sentido, num país enfraquecido, com um povo de exilados sempre em busca de novos caminhos. Reencontrará o amor?
Mas é por Ofer que ela fala, é por Ofer que ela caminha, na companhia do pai daquela criança curiosa que, quando soube que em Israel havia quatro milhões de pessoas, ficou impressionado e até sossegado…. Mas depois quis saber “quantos são contra nós” e não descansou enquanto não soube o número de habitantes dos países muçulmanos no mundo.
Uma criança que, com o seu dinheiro de bolso, compra um pequeno bloco laranja e aponta nele diariamente, a lápis, quantos israelitas restam depois do último atentado terrorista.
Um dia descobriu que uma parte dos israelitas são árabes… Descobriu que os seus cálculos estavam todos errados…
Ofer que lhe sussurrou ao ouvido, no momento da despedida, em frente das câmaras e de todos, que…
O que ele lhe disse pode ter mudado tudo?
Pode abandonar-se um país que se ama mas que não sabemos se sobreviverá?
Que grande mulher esta Ora de David Grossman.
Sobre ela, disse Paul Auster: uma personagem viva e autêntica como não há outra na ficção recente.
Grossman, também caminhou durante 500 quilómetros ao longo de Israel Trail, do extremo norte, na fronteira com o Líbano, até Jerusalém.
Premonição?
Por favor, leiam, chorem, riam, deslumbrem-se com a escrita do aclamado "profeta secular de Israel", o escritor que gosta das palavras e que sabe construir personagems femininas com nenhum outro.
Que grande Ora!
 
Até ao fim da terra, de David Grossman
Ed. Dom Quixote, 2012
Tradução de Lúcia Liba Mucznik
684 págs.