30 maio, 2012

Vale a pena ler... Princesa Laurentien da Holanda


P: Pode dar-me um exemplo de algo que ajude a combater a iliteracia?
R: Ler em voz alta. Não custa dinheiro – o que, em tempos de crise económica, é uma solução low-cost. E podemos fazê-lo desde o início da vida de uma criança, em bebé. Mas requer um contexto familiar em que tem de se investir: A escola só não basta. E, aí, nem todos os adultos têm noção do papel que podem desempenhar na literacia das crianças.
P: Lê alto para os seus filhos?
R: Todos os dias. E, quando não estou em casa, alguém lê para eles. Fazemos isso desde que têm 6 meses. Percebo perfeitamente que pareça estranho ler em voz alta para um bebé de 6 meses. O meu próprio marido achou que eu era louca. Podem ser livros muito simples. Mas devemos tornar os pais conscientes da importância desse ato.

Excerto da entrevista publicada na Revista, jornal Expresso, de 19 Maio 2012
Foto tirada da net.

29 maio, 2012

Fiquei sem palavras...

Pois é, "perdi-me de amores" por uma lua cheia e luminosa que avistei da minha janela e fiquei sem palavras para o meu rol.
Não há drama...

25 maio, 2012

"A livraria" - Penelope Fitzgerald

Um bom livro é o precioso sangue vital de um espírito mestre, embalsamado e entesourado de propósito para uma vida para lá da vida, e como tal deverá seguramente ser um bem de primeira necessidade.
Em 1959, Florence Green, uma mulher de meia-idade, solitária, pequena, delgada e seca, decide abrir uma livraria, em Hardborough.
Será a primeira livraria de Hardborough, uma vila costeira longe de tudo e onde tudo falta, uma vila fria e triste.
Com a pequena soma que o falecido marido lhe deixara, e um empréstimo bancário, compra a Old House, um edifício há muito abandonado e em mau estado de conservação, que diziam estar assombrado. Ali vai viver. Ali vai instalar a sua livraria. Ali vai abrir, depois, uma biblioteca. Ali vai enfrentar as pessoas que se julgam importantes, a traição, a inveja e até forças naturais adversas.
Ouve quem a avisasse: Diz-se por aí que está prestes a abrir uma livraria. Isso demonstra que está preparada para enfrentar coisas imprevisíveis.
Está preparada?
Não!
O negócio é sabotado desde o primeiro dia. À frente dos sabotadores está Mistress Gamart, uma mulher má e poderosa, que vai fazer tudo para fechar a livraria.
A Florence só resta o apoio de Christine, uma garota de dez anos, a sua assistente, a sua ajudante, a sua companhia nos finais de tarde frios e cinzentos na livraria.
Seis meses depois da abertura, seis meses de muito esforço, seis meses de poucos lucros e muitos dissabores, um cliente sugere a Florence que encomende e coloque à venda a primeira edição de Lolita, de Nabokov. Será a sua fortuna, diz-lhe.
Florence hesita e pede conselho ao velho e solitário Mr. Brundish, o habitante mais culto da vila, aquele que a incentiva a manter o negócio.
Diz-lhe ele: É de facto um bom livro e, portanto, deveria tentar vendê-lo aos habitantes de Hardborough. Não irão compreendê-lo, mas melhor assim. Compreender torna a mente indolente.
Quando Lolita chega à livraria, os lucros aumentam proporcionalmente à fúria dos habitantes. A vila sofre um “terramoto” devastador.
Estranhamente, a seguir o Parlamento aprova uma lei que viabiliza a aquisição compulsiva da Hold House para ali ser instalado um Centro de Artes.
Cansada e derrotada, Florence começa a suspeitar que: uma terra sem uma livraria é, muito possivelmente, uma terra que não merece qualquer livraria.
O que fará?
Gostei de ler esta história triste sobre o mundo dos livros, sobre os sonhos e as vicissitudes da vida.
Falta-lhe, talvez, um pouco mais de “corpo”. O enredo é interessante e envolvente e as personagens convincentes, mas no final experimentamos aquela sensação de… falta aqui algo.
A caracterização das personagens é perfeita. Sentimos desagrado por Mistress Gamart, uma mulher sem escrúpulos; simpatia por Mr. Brundish, um velhinho que admira a virtude e a coragem do ser humano; carinho por Christine, uma estudante-trabalhadora com talento para a organização e classificação de livros; assombro por Mr. Keble, o gerente bancário, não ler porque isso exigia tempo.
Como disse o Daily Mail - Um livro que é uma jóia.

A livraria, de Penelope Fitzgerald
Clube do Autor, 2011
Tradução de Eugénia Antunes
174 págs.

22 maio, 2012

Poema de... Ana Marques Gastão

PAPIRO
Branco pranto em folha de papiro. As palavras deste texto são abandono, reflexo antigo, regresso em excesso a um tempo solar; modificam um rumo, o nosso, contraditório, irreal, não permitem a fala, o vocabulário abissal, agitam-se, sobem, riem, extenuam-se, inauditas, revoltam-se, possuem, pálidas, um resto de luz; são caligrafia deformada, sonoridade anterior, restauro, esboço, bosque. As palavras deste texto são a outra que me vê em branco pranto numa folha de papiro onde me firo afinal.

Poema de Ana Marques Gastão, Portugal (1962-)
Desenho de Almada Negreiros, Portugal (1893-1970)

18 maio, 2012

"Um amor feliz" - David Mourão-Ferreira

… sempre me fez a maior impressão o raio de semelhança que existe entre a palavra «adulto» e a palavra «adúltero».
Adultos, adúlteros. Curioso!
David Mourão-Ferreira (1927-96) era já autor consagrado com vários contos, novelas, textos para teatro, ensaios e poesia publicados, quando, na década de oitenta, se estreia no romance e publica “Um amor feliz”.
No ano da sua publicação, 1986, este romance conquistou vários prémios e o reconhecimento dos leitores e críticos, que o consideraram um dos mais belos romances publicados em língua portuguesa no séc. XX.
Li pela primeira vez este romance em 1990, na tranquilidade de umas férias junto ao mar, e recordo que estranhei a narrativa original, arrojada e por vezes despudorada, utilizada pelo autor para contar uma história de amor.
Recordo que estranhei, ainda mais, a forma nua e crua, mas ao mesmo tempo fantástica, como é retratado o universo feminino.
Sabendo nós que a imagem de sedutor sempre se colou à pele de David Mourão-Ferreira – poeta dos amores e dos sentidos – entendemos o conhecimento e aplaudimos a subtileza.
O romance é feito de memórias desfolhadas pelo narrador / personagem, um artista plástico, próximo dos sessenta anos, casado, à mulher que lhe confiou a fórmula de certas circunstâncias indispensáveis à existência de “um amor feliz”: uma pessoa casada… só com outra pessoa casada.
Memórias de vários amores e desamores, encontros e desencontros, destacando-se a história de amor vivida com uma mulher estrangeira – a quem chama simplesmente Y – vinte e um anos mais nova e também ela casada.
Tal como o nome, ainda menos que o nome, também a idade não deveria ter grande importância. Mas tem. Oh, se tem!
Mas enganem-se os que pensam que este romance se limita a descrever simples relações adúlteras.
Não!
O autor faz um retrato impiedoso de Lisboa e do país: a crise de valores, a opressão social e política, a crise económica e muito, muito mais.
Como é triste Lisboa
em tempos de amores vivos!
… fala de forma enternecedora sobre a família, os amigos, a vida, a doença e a morte, os segredos, a alegria e a tristeza, a arte e a cultura: a relação com a mulher, pediatra; a relação com a mãe, doente; o regresso aos amigos do passado; o enfado com os conhecidos do presente.
… descreve de forma poética o trabalho e os encontros adúlteros no espaço do atelier – onde o Amor era o centro do Mundo - poesia que, aliás, perpassa por todo o livro.
Os amores felizes não têm história.
Será?
Vou lembrar e guardar para reler de novo este extraordinário romance, escrito em português.
Se ainda não leu... corra a ler!

Um amor feliz, de David Mourão-Ferreira
Presença, 1986
299 págs.

15 maio, 2012

"Rio dos bons sinais" - Nelson Saúte

Contos, contos e mais contos.
Não há dúvida, este ano estou “virada” para os livros de contos.
Este é um pequenino livro (126 págs.) de um escritor moçambicano (o meu país do coração), com dez histórias sobre tradições relacionadas com a morte e o ritual dos funerais.
Dez histórias mágicas sobre um povo que aceita a morte como a continuidade da vida
Mórbido? Nem pensar.
Magnífico!

Sobre este livro, disse Mia Couto:
“Este Rio dos Bons Sinais” é uma deambulação pela história recente de um país recém-chegado ao mundo e de gente que não se demarcou do estado de fantasma. Há, nestas histórias, mortos que encontram a Morte, homens de luto perpétuo que apenas visitam a vida nas cerimônias fúnebres, jovens que amanhecem pendurados numa corda de sisal. A morte atravessa todos estes relatos mas a sua marca não é a do definitivo desfecho: os mortos permanecem vivos, eternos sussurra dores de luzes e lendas”.

Começa assim a história “A sombra vagabunda”:
- Estou a apodrecer vivo.
Olhei para trás e dei de chofre com o homem que pronunciara aquela frase. Mais do que uma pessoa parecia o fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixamente. Tinha um olhar que encenava a sua própria tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e parecia levitar. Caminhava empurrado pela aragem. Com ele, havia a manhã de sol e algum frio naquele sábado findava. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.
Gostei!
Kanimambo, Nelson Saúte.

11 maio, 2012

"Para uma voz só" - Susanna Tamaro

A vida é tudo menos sábia.
Numa “sessão” de arrumação das estantes cá de casa (onde já não cabem mais livros – socorro!) encontrei este livro de Susana Tamaro, comprado em 1997 e que nunca li.
Estranho porque, por norma, eu só coloco os livros na estante depois de lidos. Até lá andam à deriva no sofá, na mesa-de-cabeceira e até em torres inestéticas, mas estáveis, que crescem por todo o lado.
Este escapou à norma.
Curiosa, abri-o de imediato e deparei-me com um conjunto de contos (eu que gosto tanto de livros de contos deixei escapar este), cinco no total, e que contos…
Diz a sinopse: São histórias de crianças solitárias, ultrajadas, tristes; de criaturas expostas, denunciadoras de um mal-estar contemporâneo que transparece nas palavras dos seus diários, dos seus diálogos.
E são mesmo!
São histórias belíssimas mas terríveis sobre a vulnerabilidade e o sofrimento infantil, temas que muitos continuam a ignorar.
São histórias brutais que arrepiam a alma, nos afligem o coração e nos inquietam os sentidos.
São histórias que podem passar-se na nossa casa, na casa de familiares, na casa de amigos, na casa de um vizinho, e que nós ou não vemos ou não queremos ver.
São histórias contadas por uma escritora sensível e inteligente que nos encaminha, com subtileza, pelas profundezas da alma humana.
Dizem que os papões já não existem, mas os papões ainda existem. O meu pai de dia é advogado e de noite é um papão. Quando estou a dormir e tenho medo que a porta se abra, agarro-me ao Teddy. O Teddy é o meu urso, há muito tempo que somos amigos.
Aconselho este livro a todas as mães, ou melhor, a todas as mulheres, ou melhor ainda, a toda a gente.
Comprem, leiam, deslumbrem-se… e desculpem a noite de insónias.
Seja como for, amanhã é um novo dia.

Para uma voz só, de Susanna Tamaro
Editorial Presença, 1997
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
157 págs.

08 maio, 2012

Desafio nº 6: Espelho meu, espelho meu, há quem não saiba quem isto escreveu?

Aureliano Buendía e Remedios Moscote casaram-se num domingo de Março diante do altar que o padre Nicanor Reyna mandou montar na sala de visitas. Foi o culminar de quatro semanas de sobressaltos em casa dos Moscote, porque a pequena Remedios atingiu a puberdade antes de superar os hábitos de infância. Apesar do que a mãe lhe ensinara sobre as mudanças da adolescência, certa tarde de Fevereiro irrompeu aos gritos pela sala onde as irmãs estavam a conversar com Aureliano e mostrou-lhes as cuecas sujas de uma substância achocolatada. Marcou-se o casamento para daí a um mês. Mas houve tempo para lhe ensinar a lavar-se e a vestir-se sozinha, a compreender os assuntos elementares de um lar. Deu muito trabalho a convencê-la da inviolabilidade do segredo conjugal, porque Remedios andava tão perturbada e ao mesmo tempo tão maravilhada com a revelação, que queria comentar com toda a gente os pormenores da noite de núpcias.

Ajuda se eu disser que é considerado o maior escritor hispano-americano desde Cervantes?
Ajuda se eu disser que é um romance mágico sobre o amor e a condição humana?

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Reposta do Desafio nº 5:
Trata-se de “Afirma Pereira” (1994), autoria do, recentemente falecido, Antonio Tabucchi.
O romance é a história atormentada da tomada de consciência de um velho jornalista solitário e infeliz, e tem como pano de fundo o salazarismo português, o fascismo italiano e a guerra civil espanhola.
Parabéns para quem acertou.

04 maio, 2012

"O teu rosto será o último" - João Ricardo Pedro

… além dos cabelos brancos, o pai parecia-lhe profundamente triste. Mas, pela primeira vez, era uma tristeza que Duarte compreendia. Uma tristeza que não era apenas um olhar vago, uma certa maneira de fumar, um alheamento, um azedume. Era uma tristeza que se materializava em sinais inequívocos. Palpáveis. Na pele. Na carne. Nos olhos. Nas mãos.
Li este romance, escrito na nossa língua, emocionada, a exultar de curiosidade e aconchegada numa manta quentinha, num dia frio de Abril, enquanto…
Lá fora, a chuva caía, como se escorresse por invisíveis fios de prumo.
A história, surpreendente, séria e ao mesmo tempo risível, arrebatou-me desde o primeiro capítulo e deixou-me, literalmente, sem palavras para escrever sobre ela.
Por diversas vezes parei de ler e me interroguei:
Como é que JRP, um estreante, escreve tão bem?
Como é que JRP, um estreante, tem uma imaginação tão extraordinária?
Como é que JRP, um estreante, tem o dom de me levar à leitura compulsiva desta história?
Mas, também por diversas vezes, dei por mim a aplaudir a atribuição do prémio Leya 2011 a JRP.
Lembro que JRP se viu forçado a fazer uma mudança na vida, quando, em 2009, foi demitido da empresa onde trabalhava como engenheiro eletrotécnico e se viu “ metido” numa situação embaraçosa, com dois filhos, casado e uma casa por pagar. Não demorou a tomar a decisão – acertada – de escrever um livro, este que o levará à ribalta das letras portuguesas, tenho a certeza.
A estrutura do romance é original - uma vertigem de histórias soltas mas entrelaçadas, que tanto avançam no tempo como recuam.
A escrita é inteligente – simples mas apurada, com elementos repetitivos que não cansam, com palavrões que não ofendem.
A trama é genial – memórias e segredos de três gerações de uma família marcada por anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial.
Tudo começa no dia 25 de Abril de 1974, numa pequena aldeia com nome de mamífero, no sopé da Serra da Gardunha, onde vive o doutor Augusto Mendes, médico de profissão, filho de uma das mais abastadas e notáveis famílias do Porto, com negócios no Brasil e em África.
O doutor Augusto Mendes adquire a propriedade onde vive ao amigo Policarpo, que abandona o país quando Salazar sobe ao poder. Este país não interessa nem ao menino Jesus. Antes a Rússia. Mil vezes a Rússia. Por isso, enquanto for novo e dinheiro não me faltar, adeusinho ó pátria lusa mais as estrofes de Camões, que só um país miserável tem um poeta zarolho como herói nacional.
Policarpo cumpriu a promessa que fez ao amigo e escreve-lhe longas cartas que relatam o que se passa no mundo: Da invasão de Paris pelos alemães à salvação da Europa pelas tropas aliadas. Da morte de Estaline aos golos de Eusébio. Da primeira pegada na Lua ao fim do império britânico. Tudo ele relatava.
Mas a história não se fica pelas cartas de Policarpo e continua em Queluz, onde vive António, filho do doutor Augusto Mendes, casado com a madrinha de guerra que conheceu numa livraria no Chiado, quando se preparava para partir para a segunda comissão em Angola e o seu neto Duarte, que nasceu com um dom extraordinário para a música, um pianista precoce que deixa de tocar por “ódio” ao seu dom.
Entre a aldeia com nome de mamífero e Queluz, nos arredores da grande cidade, vivem-se histórias tristes e alegres e recorda-se a guerra colonial, a campanha de Humberto Delgado, o terror da PIDE, a revolução dos cravos, a descoberta da liberdade, o ruir das ilusões nascidas em Abril, o fim da União Soviética, etc., etc.. …
...um dia, Duarte perguntou: «Pai, quem é que foi o Salazar?»
O pai responde sem hesitações: «Foi um defesa esquerdo do Belenenses.»
Apesar do ar sério do pai, a resposta afigurou-se-lhe totalmente incompatível com o pouco que sabia de Salazar. Tentou circunscrever o contexto: «Não, pai, o Salazar mau, aquele mesmo muita mau de que às vezes falam na televisão.»
O pai pousou os óculos sobre o jornal, olhou o teto, olhou o filho e disse: «Foi o cabrão que matou o teu avô, o pai da tua mãe.»
A mãe veio a correr da cozinha: «António, francamente.» Duarte virou-se para ela: «É verdade, mãe?»
Ela disse: «Não, filho, não é verdade, não ligues ao teu pai, um dia a mãe explica-te.»
Esse dia só haveria de chegar alguns anos depois.
Mas que grande primeiro romance!

O teu rosto será o último, de João Ricardo Pedro
Leya, 2012
207 págs.

01 maio, 2012

Poema de... José Manuel Carreira Marques

POR QUE RIOS TE PERDESTE
Por que rios te perdeste
de que chuvas te lavaste
em que águas a mim chegaste?

Diz-me neste lugar de silêncios
diz-me devagar
a que árvore te entregaste
enquanto a minha erosão te buscava

Num poente de distâncias
uma ténue pedra branca
me ancorou a ti
ferida a ferida
barco a barco
até chegares

E agora meu amor
se chegar for partir?

Poema de José Manuel Carreira Marques, Portugal (1943-)
Pintura de Maluda, Portugal (1934-99)