30 março, 2012

"Tudo o que eu tenho trago comigo" - Herta Müller

Quando se tem só pele e osso, sentimentos são coragem. Eu prefiro ser cobarde.
No Posfácio deste romance sobre a deportação de seres humanos no pós-guerra, ficamos a saber que a mãe da autora estava entre os alemães residentes na Romênia, com idades compreendidas entre os 17 e os 45 anos, deportados por Estaline para prestarem trabalhos forçados em campos soviéticos. Interessada em divulgar este episódio maldito vivido no final da Segunda Grande Guerra, Herta Müller inicia, em 2001 a recolha de testemunhos sobre o quotidiano nesses campos, junto de sobreviventes deportados da sua aldeia. Esses testemunhos de horror estão na base deste romance.
Sentei-me à mesa e esperei pela meia-noite. E a meia-noite chegou, mas a patrulha estava atrasada. Ainda tiveram de passar mais três horas, foi quase insuportável de aguentar. Depois chegaram. A mãe segurou-me o sobretudo debruado a veludo preto. Enfiei-me nele. Ela chorou. Calcei as luvas verdes. No corredor, precisamente onde fica o contador do gás, a avó disse: EU SEI QUE VOLTAS.
Eram 3 da madrugada do dia 15 de Janeiro de 1945 quando a patrulha me foi buscar.
E foram cinco os anos que Leopold Auberg, de dezassete anos, passou num campo de trabalhos forçados. Cinco anos de muito sofrimento, que o tornaram um ser humano diferente, mas não um monstro, impedido pelas memórias familiares que não deixou morrer e pela da frase da avó: eu sei que voltas.
O quotidiano no campo, onde cada um vive o seu presente, onde o frio corta, a fome engana, o cansaço pesa, a saudade corrói, os percevejos e os piolhos mordem, é narrado em 64 pequenos capítulos de pura e dura prosa poética.
Tudo é descrito de forma tão real que nos sentimos transportar para aquele universo de horror, dor, morte e muita, muita fome.
Como é que uma pessoa anda por este mundo, quando sobre si nada mais sabe dizer, a não ser que tem fome. Não há palavras adequadas ao sofrimento da fome. Eu como literalmente a própria vida, desde que não tenho de passar fome. Gosto tanto de comer que não quero morrer, porque depois nunca mais como.
No princípio de Janeiro de 1950, Leopold regressa a casa da família, mas ali sente-se agora um estranho. Nada daquilo tinha a ver comigo. Conhecíamo-nos uns aos outros como já não somos e nunca mais seremos.
Começa a trabalhar, constitui família mas acaba sozinho Um dos seus tesouros diz: Preciso muito de proximidade, mas sou incapaz de me entregar. Domino o sedoso sorriso da esquiva. Desde o anjo da fome, não permito que ninguém me tenha.
Não foi só o protagonista / narrador deste romance avassalador, cruel, duro e triste que cresceu e se tornou uma pessoa diferente. Também eu, enquanto leitora, senti um possante muro no estômago que me ensinou sobre a precariedade da vida, sobre o comportamento humano perante a injustiça, o medo, a fome, a crueldade e a morte.
Há uma eternidade que não chorava, tinha ensinado a saudade a ter os olhos secos.
Hoje, voltei a chorar.

Tudo o que eu tenho trago comigo, de Herta Müller (Prémio Nobel de Literatura 2009)
Dom Quixote, 2010
Tradução de Aires Graça
290 págs.

27 março, 2012

Poema de... Ruy Belo

O PORTUGAL FUTURO
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem da enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Poema de Ruy Belo, Portugal (1933-78)
Pintura (Procissão Corpus Christi) de Amadeo de Souza-Cardoso, Portugal (1887-1918)

25 março, 2012

Outro Desafio TAG

Obrigada Mlle (romancenalma) por mais este desafio.
Não irei fazer perguntas, mas desafio quem por aqui passar a responder também às tuas.
Seguem as minhas respostas:
1. Qual foi o livro mais divertido que leste?
Foram vários por isso destaco não um mas três: “O Complexo de Portnoy”, de Philip Roth; “Solar”, de Ian McEwan; “A Questão Finkler”, de Howard Jacobson.
2. Se pudesses encarnar uma personagem literária, qual seria?
A menina má de Mario Vargas Llosa, por pura provocação.
3. Que livro tens à espera para ler a seguir?
“Tudo o que eu tenho trago comigo”, de Herta Müller.
4. Em que local estás a responder a este questionário?
Numa salinha onde vejo televisão, leio, converso e escrevo num computador.
5. Que livro não conseguiste acabar?
Por norma acabo todos os livro. Claro que com uns demoro um pouco mais…
6. Qual é a tua cor preferida?
Azul – a cor do mar, que é a minha predição.
7. Doces ou salgado?
Ambos, q.b.
8. Escritor português preferido?
Três: Eça de Queirós, Fernando Pessoa e Saramago.
9. Próximo livro a comprar?
O primeiro de João Ricardo Pedro, Prémio Leya 2011, nas bancas a partir de 31 de Março 2012. Estou curiosíssima!
10. Lês com óculo ou sem óculos?
Sempre com óculos. A idade já fez estragos…
11. Cor do verniz que usas neste momento?
Uau! Esta semana optei pelo rosa bem clarinho nas mãos e vermelhão nos pés (já apetece usar sandálias…).

Gostei, mas aviso já que não responderei a mais Desafios TAG, certo?!

Desafio TAG

Obrigada Landa (horizonte dos livros) por te lembrares de mim e me colocares 11 perguntas interessantes.
Não irei fazer o meu próprio questionário mas desafio quem por aqui passar a responder a estas mesmas perguntas.
Seguem as minhas respostas:
1. Quais são os teus hobbies preferidos para além da leitura?
Cinema, música, fotografia, cozinhar, pintar e… conversar (muito).
2. Qual é a tua personagem literária preferida?
Se tenho de escolher apenas uma decido-me pela Blimunda, de Saramago.
3. Se escrevesses um livro que género escolherias?
Um poderoso romance histórico.
4. Se fosses agora a uma livraria, que livro da tua wishlist comprarias?
O segundo volume de Guerra e Paz, de Tolstoi.
5. Qual é a tua comida favorita?
Babo-me por um bom arroz de pato (carne), por um dourado bacalhau com broa (peixe) e por um arroz doce cremoso (sobremesa). Fiquei com forme!
6. Quais são os locais onde gostas mais de ler?
Sempre, sempre sentada no meu sofá com um lápis à mão. Na cama nunca (adormeço de imediato) e em esplanadas também não (distraio-me com tudo e mais alguma coisa).
7. Quais são as tuas principais manias como leitor?
São várias: não leio se não tiver um lápis à mão; não leio livros emprestados (por não os poder sublinhar); se gosto de um autor devoro toda a sua obra (em maratonas alucinantes).
8. Se te oferecessem uma viagem para conhecer um local de um livro que tivesses lido qual escolherias?
Voltaria ao país do tango – Argentina.
9. Gostas de ver filmes baseados em livros que já leste?
Não, não gosto porque o produto final é normalmente mau.
10. Gostas de reler os livros?
Gosto, claro. Não tenho feito outra coisa desde que iniciei, há um ano, o rol de leituras. É que eu já leio há muitos, muitos anos…
11. Os teus gostos literários alteraram com a criação do teu blog?
Nem pensar nisso, nunca deixaria que um simples blog alterasse os meus gostos literários. Já aconteceu foi comprar um livro em função do que li sobre ele em outro blog.

Gostei da experiência!

24 março, 2012

"Middlesex" - Jeffrey Eugenides

Começarei por dizer que nasci duas vezes: primeiro, como menina bebé, num dia invulgarmente limpo na cidade de Detroit, em Janeiro de 1960. Depois, outra vez, como rapaz adolescente, numa sala de urgências perto de Petoskey, Michigan, em Agosto de 1974.
Com um primeiro parágrafo destes, alguém resiste a seguir a fantástica história de um gene que atravessa três gerações de uma família de gregos americanos, até florescer no quinto cromossoma de um hermafrodita, uma menina que ao crescer se revela no seu contrário?
Não!
Então preparem-se para a viagem longa, atribulada, apaixonante, alucinante, divertida e repleta de segredos, dum gene raro que, escondido durante duzentos e cinquenta anos na linha de sangue da família Stephanides, floresce no corpo da jovem Calliope (era assim que estava registada na certidão de nascimento) e desencadeia a série de acontecimentos que levaram Cal (é este o nome assinalado na carta de condução do diplomata, em Berlim) a escrever, aos 41 anos, a sua história.
E que história…
Como Tirésias, fui primeiro uma coisa e depois outra. Fui ridicularizado por colegas, usado como cobaia por médicos, apalpado por especialistas e investigado. Fui conduzida para uma batalha urbana por um tanque do exército; tornei-me um mito numa piscina; deixei o meu corpo a fim de ocupar outros – e, tudo isto, antes de fazer 16 anos.
Promete, não?!
O interessante neste livro é a forma intimista como Cal nos conta a sua própria história, falando das mutações do seu corpo, das peripécias na infância, da adolescência conturbada, dos amores ingénuos e dos amores adultos que teimavam em acabar antes de começar, tudo isto encadeado de forma magistral nas oito décadas de vida da sua família e nos factos políticos, sociais e culturais que mudaram países e mentalidades: o desmoronamento do Império Otomano (provoca a fuga dos avós da Grécia para a América, em 1922), os gloriosos tempos de Detroit industrial nos anos vinte, a Depressão de 1929, a Segunda Guerra Mundial, os motins raciais de 1967, etc.
São muitos os cenários da acção desta saga familiar: Grécia; Detroit e Middlesex, na América; Berlim, na Alemanha – esta cidade, outrora dividida faz-me lembrar a minha própria pessoa.
São muitos e inconfessados os segredos desta família: Sourmelina não era apenas minha prima germana em segundo grau, era igualmente minha avó. O meu pai era sobrinho da sua própria mãe (e pai). Para além de já serem meus avós, Lefty e Desdemona eram meus tio e tia-avós, respectivamente. Os meus pais seriam meus primos segundos de primeiro grau e o Capítulo Onze seria meu primo em terceiro grau, bem como meu irmão.
Confuso?
Li pela primeira vez este livro em 2004. Agora, as tristes notícias na imprensa sobre o declínio da cidade de Detroit impuseram que voltasse a ele. A leitura ou releitura de grandes livros é sempre agradável – não me arrependi.
As coisas mais importantes nunca dependem de nós. O nascimento, a morte. E o amor, diz Cal.
Infelizmente, digo eu.

Middlesex, de Jeffrey Eugenides
Dom Quixote, 2002
Tradução de Pedro Serras Pereira
521 págs.

 

23 março, 2012

Patricia, segue em frente!


Há uns dias que não "visitava" o meu próprio blog. Ele há coisas...
Hoje, ainda antes de colocar o comentário sobre o livro que acabei de reler, "espreitei" alguns dos blogs que sigo e foi com tristeza que fiquei a saber que a Patricia, do ler por aí, está desanimada e determinada a "fechar" o blog que mantém desde 2006.
Patricia, como não pude deixar um comentário no teu blog resolvi deixar-te aqui um recadinho.
É precisamente por gostares de ler, por gostares de registar a tua opinião sobre o que lês, que não  deves "fechar" o teu blog.
Ignora os comentários desagráveis e segue em frente.
Eu, e tenho a certeza muitos outros bloguistas, respeito as tuas preferências e aprecio as tuas opiniões.
Sabes, há dias em que também me apetece parar, mas logo a seguir aparece um livro que me entusiasma e corro para o meu rol e volto a animar.
Faz uma pausa, reduz o número de postagens, mas não desistas.
Lembra-te que  "os cães ladram e a caravana passa".
Segue em frente!

20 março, 2012

Contos de... Gabriel García Márquez

Acabei de comprar esta grande (709 págs.) compilação de contos, escritos por Gabriel García Marquez desde os finais dos anos 1940, até meados dos anos 1990.
Segundo a sinopse: é um conjunto de 41 histórias que nos permite desfrutar de todo o encanto e mestria do genial escritor colombiano, e que nos leva a um mundo inesquecível cuja realidade se expressa mediante fórmulas mágicas e lendárias.
Histórias fantásticas que reflectem a cultura sul-americana, misturando acontecimentos surreais e detalhes do quotidiano, escritas com o estilo que caracteriza a obra de García Márquez, em que os milagres se inserem no dia a dia e a prosa se aproxima inevitavelmente do seu destino fatal: a poesia.

Uau, tanta coisa boa para ler!
Reparem só no primor do título duma das histórias: “A incrível e triste história da Cândida Eréndira e da sua avó desalmada”.
Encontrarei tempo para tanta magia?
Por que é que o dia tem só 24 horas?!

16 março, 2012

"o remorso de baltazar serapião" - valter hugo mãe

disse à minha ermesinda que se estendesse nua na cama. que eu a queria ver à luz da vela, muito próxima de cada pedaço da sua pele.
depois, ela perguntou se teria de ganhar barriga por cada vez que eu a conhecesse. e eu sorri com a sua burrice, e até a amei mais ainda, por corresponder perfeita à estupidez que se espera numa mulher.
Neste romance, baltazar serapião, narrador e protagonista, conta a história da sua família - os sargas. Não eram os serapião, nome de família, eram os sargas, nome da vaca, magra, feia, tonta da cabeça que vivia com eles e lhes arrebatara o próprio nome.
É uma história feita de ignorância, medo, tristeza e vergonha: éramos os sargas nascidos de bichos e que nos matávamos uns aos outros como bestas.
Uma história de exploração, humilhação, brutalidade e muita violência física e sexual: exploração dos homens por dom afonso de castro o senhor feudal; brutalidade e violência física e sexual cometida pelos homens contra as mulheres.
E, sem dúvida, uma história de mulheres. Mulheres submissas, anuladas, caladas, tristes, infelizes.
uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada.
a mãe, velha, quase cega, sofredora, estropiada pelo marido, que com as mãos lhe remexia as entranhas "convicto de que, se coisa ficara ali ou ali crescia, haveria de a enganchar numa unha e trazê-la cá para fora".
brunilde, a irmã que aos onze anos vai trabalhar para casa de dom afonso, e morre depois do senhor “lhe ter feito barriga”.
ermesinda, a mulher de serapião, “o anjo mais belo”, que ele estropia sem dó, atormentado por ciúmes.
teresa diaba, viciada em homens, que “se abria como lençóis estendidos e recebia um homem com valentia sem queixa nem esmorecimento”.
a mulher queimada, a bruxa enviada do diabo que “em desespero de fomes ou saudades, vinha às portas da terra com fúria e urgência em demasia” e que disse um dia a serapião: não vás ficar a julgar que dotes de mulher são só devaneios de loucas incursões. terás prova, amarás as mulheres para aprenderes a valorizá-las, e só depois te conhecerás de verdade.
Horrorizei-me com o que diz baltazar serapião sobre as mulheres, através das minúsculas de valter hugo mãe:
as mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. não é heresia, pensa bem, se parecessem mais com cabras do que com homens nem natureza para nós teriam. precisam de nos parecer sem alcançar igualdade, que para isso estamos cá nós.
e mais:
e depois, beleza assim até aumentada, o que lhes tirou deus em préstimo de espírito deu-lhes em curvas e cor, servem perfeitamente para nos multiplicar e muito agradar.
e ainda mais:
mas isso da inteligência é como te disse, cuidado com o que sabem porque acham mais do que sabem.
e há mais, muito mais:
não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício, mesmo que dotadas de burrice grande ou estupidez perigosa.
Também eu mereço o céu…
por ter chegado ao fim de um livro desconcertante, delirante, estranho, arrepiante, escrito num português arcaico e repleto de minúsculas (descobri uma maiúscula na pág. 58 – um “D” enorme, mas não foi o suficiente para me animar), que me ofendeu, arrepiou e estarreceu.
Foi um parto difícil a escrita desta minha opinião, mas não tanto como o medonho parto de brunilde, descrito na pág. 220 deste livro.
Senhor valter hugo mãe – não havia necessidade…

o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe
Alfaguara, 2011
256 págs.

15 março, 2012

Politiquices...

Nós transgressores? Nunca!

"Somos dados à transgressão?
Somos um povo obediente, e como a obediência não se pode conservar sempre, somos de transgressão clandestina. Transgredimos na sombra. Achamos que devemos pagar os impostos, mas fazemos tudo para não os pagar. Nos países nórdicos, de uma forma geral, as pessoas pagam os impostos porque têm consciência de que são utilizados de uma forma útil para todos. Aqui são utilizados para o BPN e outras coisas assim. Compreende-se que depois não apeteça pagá-los. É um ciclo vicioso."

Excerto da entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Coimbra de Matos (conceituado psicanalista português), publicada na Pública, revista do jornal Público de 4 Março 2012.

14 março, 2012

Parabéns Carolina!

Hoje, 14 de Março, a minha netinha Carolina faz  um aninho.
Como é fácil de perceber, estou louca de alegria.
Ora, quem me conhece sabe que quando eu estou louca de alegria - pulo, rio e... compro livros.
Sendo assim, para ela começar a fazer a sua própria biblioteca comprei-lhe "O meu primeiro livro" - o primeiro de muitos, faço questão.
Como lá por casa reinam os grossos livros sobre leis, achei que ela iria gostar de coisas mais ligeirinhas...
Carolina, espero que venhas a gostar de livros, pelo menos tanto quanto a avó Teresa, e os trates como pequenos, silenciosos, disponíveis, amiguinhos.
Parabéns minha querida.

13 março, 2012

Poema de... Al Berto

RECADO
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a arvore das cassiopeias cobrir-te
e as louca aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante dessa noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Poema de Al Berto, Portugal (1948-1997)
Pintura (Erotismo e morte 1985) de Graça Morais, Portugal (1948-)

11 março, 2012

Politiquices...

Os filmes da Tobis já são tesouro nacional.
O Conselho de Ministros classificou como tesouro nacional o património cinematográfico e documental da Tobis.
É a primeira vez que património fílmico português consegue este estatuto.

“… a importância do cinema português é uma questão de História, e do “tesouro” fazem parte também os filmes que cada um de nós não gosta, mas que nos dizem sobre o que somos e o que fomos capazes de fazer: salvar o cinema português não é salvar um conjunto de delícias estéticas – é salvar a memória de um país.”

Excerto do comentário de Luís Miguel Oliveira, publicado no jornal Público de 8 de Março 2012.

09 março, 2012

Prémio Dardos

Uau! Ganhei um prémio da Paula, do blog viajando pela leitura

"O Prémio Dardos reconhece os valores que cada blogueiro mostra em cada dia no seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais... que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras."

Possui três regras:
1- Se aceitar, exibir a imagem.
2- Linkar o blog que lhe ofereceu o prémio.
3- Escolher 15 blogs para entregar o Prémio Dardos

Agradeço muito e vou também premiar 15 blogs que visito com regularidade:

Façam como eu. Entreguem o prémio aos blogs que considerem merecedores.
Bjs.


08 março, 2012

Tenho para dar... livros de Marion Zimmer Bradley

Como não acabei a leitura d’ o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe, esta semana não tenho opinião para publicar.
Decidi, então, ocupar este espaço dando livros. Por quê?
Primeiro porque as prateleiras estão cheias cá em casa (o maridão já se queixou), depois, porque compreendi que tenho livros guardados que já me disseram muito, mas que agora podem voar para outros lugares. Entre deitar fora ou dar – claro que optei por dar.
Vou começar por Marion Zimmer Bradley (sim, eu sou do tempo em que se devoravam livros desta excelente autora do fantástico...), mas tenho mais, muitos mais.
Nunca me meti numa coisas destas, portanto, os interessados terão que me indicar como tudo se vai processar. Ou seja, eles agora são meus – como passam a ser teus?
Como os livros são um bocadinho de mim, tenho por hábito assiná-los e anotar o mês e ano da leitura, pelo que levarão um borrão numa das primeiras páginas. As restantes estão "limpinhas", pois na altura, ainda não fazia sublinhados e anotações nas margens.
Ora bem, aqui estão eles:




06 março, 2012

Desafio nº 4: A que extraordinária novela fui buscar este excerto?

Muitas vezes se sentou num banco do parque, quando o sol caía já por trás de Veneza, para observar Tadzio, vestido de branco e com um cinto colorido, que se entretinha com uma bola no pátio de gravilha… era clara a alegria, a surpresa, a admiração, quando o seu olhar encontrou os olhos daquele cuja ausência sentira – e nesse momento Tadzio sorriu. Sorriu para ele, falando-lhe quase, familiar, encantador e franco, com lábios que muito lentamente se abriam num sorriso. Era o sorriso de Narciso que se inclina sobre o espelho da água, o sorriso profundo, encantado, demorado, com que estende os braços para o reflexo da sua própria beleza – um sorriso muito ao de leve desfigurado, desfigurado pelo desejo vão de beijar os lábios apetecíveis de uma sombra, um sorriso coquette, curioso e ligeiramente atormentado, fascinado e fascinador.
Recebeu este sorriso e afastou-se com ele como uma oferenda funesta.

Ajuda se eu disser que Luchino Visconti a levou ao cinema, em 1971?

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Resposta do Desafio nº 3:
O poema é “Tabacaria”, de Álvaro de Campo, heterónimo do poeta maior da literatura portuguesa: Fernando Pessoa.
Parabéns para quem acertou.

04 março, 2012

Politiquices...

E por cá?
O antigo primeiro ministro grego, Giogios Papandreou, declarou:
“O nosso sistema político é colectivamente responsável por todos os funcionários que nós empregámos por favoritismo, pelos privilégios que nós concedemos por lei, pelas exigências escandalosas que nós satisfizemos, pelos sindicalistas e homens de negócios que nós favorecemos e pelos ladrões que não metemos na cadeia”.

02 março, 2012

"Olhos azuis, cabelo preto" - Marguerite Duras

Uma noite, ele descobre que ela o olha através da seda preta. Que ela olha com os olhos fechados. Que ela olha sem olhar. Acorda-a, diz-lhe que tem medo dos olhos dela. Ela diz que é da seda preta que ele tem medo, não é dos olhos dela. E que além disso tem medo de outra coisa ainda. De tudo. Disso, talvez.
Este livro de Marguerite Duras foi publicado em 1986, dez anos antes da sua morte e após o enorme sucesso de “O amante” (livro autobiográfico que narra um episódio da sua adolescência – a iniciação sexual e o amor proibido aos quinze anos por um jovem chinês dez anos mais velho).
“Olhos azuis, cabelo preto” é um livro pequenino apenas no número de páginas. O conteúdo é enorme e misterioso: uma história de amor branca e desesperada.
O texto é em parte obra de teatro e argumento cinematográfico (não fosse a autora argumentista) e a história passa-se em três cenários: o átrio do hotel, o café e o quarto do homem elegante.
O enredo é a paixão desesperada de dois desconhecidos - o homem elegante e a mulher esbelta – por um estrangeiro de olhos azuis e cabelo preto, que viram no átrio de um hotel perto do mar.
Quando se encontram num café, ambos sofrem com a partida do estrangeiro e ambos vão procurar consolo nos encontros incompletos que terão no quarto do homem elegante.
São encontros doloridos e silenciosos de dois amantes perdidos.
Ele não fala, não lhe toca, só quer olhá-la.
- Não posso tocar o seu corpo. Não lhe posso dizer mais nada, não posso, é mais forte do que eu, do que a minha vontade.
Ela diz-lhe que sempre soube isso.
Ele fala com ela e toca-lhe quando ela dorme.
Ela não ouve. Ele chora.
Talvez o amor possa viver-se assim de uma maneira horrível.
Sublime!
Gostei IMENSO de reler este ENORME livrinho.

Olhos azuis, cabelo preto, de Marguerite Duras
Colecção Mil Folhas, 2002
Tradução de Teresa Coelho
96 págs.