25 maio, 2012

"A livraria" - Penelope Fitzgerald

Um bom livro é o precioso sangue vital de um espírito mestre, embalsamado e entesourado de propósito para uma vida para lá da vida, e como tal deverá seguramente ser um bem de primeira necessidade.
Em 1959, Florence Green, uma mulher de meia-idade, solitária, pequena, delgada e seca, decide abrir uma livraria, em Hardborough.
Será a primeira livraria de Hardborough, uma vila costeira longe de tudo e onde tudo falta, uma vila fria e triste.
Com a pequena soma que o falecido marido lhe deixara, e um empréstimo bancário, compra a Old House, um edifício há muito abandonado e em mau estado de conservação, que diziam estar assombrado. Ali vai viver. Ali vai instalar a sua livraria. Ali vai abrir, depois, uma biblioteca. Ali vai enfrentar as pessoas que se julgam importantes, a traição, a inveja e até forças naturais adversas.
Ouve quem a avisasse: Diz-se por aí que está prestes a abrir uma livraria. Isso demonstra que está preparada para enfrentar coisas imprevisíveis.
Está preparada?
Não!
O negócio é sabotado desde o primeiro dia. À frente dos sabotadores está Mistress Gamart, uma mulher má e poderosa, que vai fazer tudo para fechar a livraria.
A Florence só resta o apoio de Christine, uma garota de dez anos, a sua assistente, a sua ajudante, a sua companhia nos finais de tarde frios e cinzentos na livraria.
Seis meses depois da abertura, seis meses de muito esforço, seis meses de poucos lucros e muitos dissabores, um cliente sugere a Florence que encomende e coloque à venda a primeira edição de Lolita, de Nabokov. Será a sua fortuna, diz-lhe.
Florence hesita e pede conselho ao velho e solitário Mr. Brundish, o habitante mais culto da vila, aquele que a incentiva a manter o negócio.
Diz-lhe ele: É de facto um bom livro e, portanto, deveria tentar vendê-lo aos habitantes de Hardborough. Não irão compreendê-lo, mas melhor assim. Compreender torna a mente indolente.
Quando Lolita chega à livraria, os lucros aumentam proporcionalmente à fúria dos habitantes. A vila sofre um “terramoto” devastador.
Estranhamente, a seguir o Parlamento aprova uma lei que viabiliza a aquisição compulsiva da Hold House para ali ser instalado um Centro de Artes.
Cansada e derrotada, Florence começa a suspeitar que: uma terra sem uma livraria é, muito possivelmente, uma terra que não merece qualquer livraria.
O que fará?
Gostei de ler esta história triste sobre o mundo dos livros, sobre os sonhos e as vicissitudes da vida.
Falta-lhe, talvez, um pouco mais de “corpo”. O enredo é interessante e envolvente e as personagens convincentes, mas no final experimentamos aquela sensação de… falta aqui algo.
A caracterização das personagens é perfeita. Sentimos desagrado por Mistress Gamart, uma mulher sem escrúpulos; simpatia por Mr. Brundish, um velhinho que admira a virtude e a coragem do ser humano; carinho por Christine, uma estudante-trabalhadora com talento para a organização e classificação de livros; assombro por Mr. Keble, o gerente bancário, não ler porque isso exigia tempo.
Como disse o Daily Mail - Um livro que é uma jóia.

A livraria, de Penelope Fitzgerald
Clube do Autor, 2011
Tradução de Eugénia Antunes
174 págs.

5 comentários:

  1. Já li e gostei muito.
    Bom fim-de-semana.

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    1. Obrigada, Isabel, também para ti.

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  2. Também já o li este ano e gostei! Fiquei com a ideia, naquilo que referes que "falta algo" é que uma mulher da época não tinha assim tanto fôlego para dar um "murro na mesa", como possivelmente aconteceria nos dias de hoje...

    Penso que há situações que têm de ser enquadradas no tempo em que decorrem... :)

    Beijocas!

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    1. Uma vez que já conheces a história, diz-me se não ficaste com a ideia de que se trata do argumento para um filme, daí a falta de profundidade?
      Bjs e bom fim-de-semana.

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  3. Outro livro que também quero ler. ;)

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