31 outubro, 2011

Sumário de leituras...





Li ou reli em Outubro 2011
. C, de Tom McCarthy
. A estrada, de Cormac McCarthy
. Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa



Dou nota máxima
. A estrada, de Cormac McCarthy

28 outubro, 2011

"Emprestadar" livros...

Tinha eu 12 anos, a Nina tornou-se a minha melhor amiga. Éramos da mesma idade. Andávamos na mesma escola. Vivíamos no mesmo prédio. Éramos inseparáveis.
A Iolanda, irmã da Nina, tinha mais dez anos que nós. Naquela altura dez anos de diferença, fazia mesmo uma grande diferença. A Iolanda já trabalhava, nós estudávamos. A Iolanda já namorava, nós devorávamos cinema, coleccionávamos cadernetas de cromos, líamos fotonovelas e ouvíamos vezes sem conta as canções meladas da época.
Teria eu dezoito anos, a Iolanda, agora mãe solteira de um lindo menino loiro, adoptado por todos os vizinhos, deixou a casa dos pais e foi viver sozinha para um apartamento pequeno, lindo e perto de nós.
Adorava ir a casa dela. Era arrumada, confortável, bem decorada e… tinha muitos livros.
Naquela altura eu já tinha largado as fotonovelas (ou fui obrigada?!) e lia fogosamente tudo o que me aparecia à frente. Recordo que encomendava livros a livrarias da Metrópole e que os recebia muitos dias depois pelo correio. Era uma alegria abrir aqueles embrulhos - previamente vistoriados pela polícia política - tirar os livros com o maior cuidado, cheirá-los, desfolhá-los, assiná-los e devorá-los, literalmente, mas com alguma calma porque a próxima remessa tardaria a chegar.
Ora bem, voltando à Iolanda, recordo o dia em que sentada num sofá da sua sala, olhando, remirando e mexendo nos seus livros, lhe pedi para me emprestar "A Cidade e as Serras", de Eça de Queirós, e ela respondeu sem qualquer hesitação.
- Não! Podes ler aqui esse livro e todos os outros, levares é que não.
Emudeci estupefacta. Poisei o livro e saí.
Durante muito tempo não fui a casa dela. Acabei por esquecer, e continuámos amigas. Não deixei que um livro nos separasse, mas não voltei a pedir-lhe nenhum. Nem li nada lá em casa.
A partir de dada altura os livros tornaram-se os meus amigos silenciosos e disponíveis e foi quando entendi a atitude da Iolanda.
Passei a assiná-los, a anotar o mês e o ano da leitura, a sublinhar frases, a fazer anotações nas margens, enfim, deixaram de ser do autor e passaram a ser meus.
Ainda não consigo dizer NÃO quando me pedem para emprestar um livro, e isso deixa-me furiosa.
Certamente que na estante da Iolanda não faltam livros. Na minha faltam vários, que emprestei e nunca mais recebi de volta.
Sei o nome de todos eles, e são bastantes. Sei com quem estão. Sei também que nunca os conseguirei pedir de volta. Falta-me a determinação da Iolanda.
Há uns anos atrás a minha filha emprestou, sem eu saber, um livro meu a um amigo dela. Quando dei pela falta d’ “O Perfume”, de Patrick Süskind, fiz uma cena danada e exigi que ela pedisse a devolução urgente do livro. Passaram-se meses, passaram-se anos e ela não aparecia com o livro. Perdi-o para sempre, pensava eu.
Ela, tal como eu, lamentavelmente, não conseguia pedir o livro ao amigo e, para me calar, comprou-me um livro novo.
Calei-me, mas voltei a lembrar-lhe que não emprestasse livros dela e muito menos meus.
Hoje, olho para “O Perfume” e não o reconheço como meu. Falta-lhe tudo lá dentro.
Recordo o meu livro e assusta-me pensar que ele está dentro de outra casa que não a minha, a ser manuseado por outras mãos que não as minhas, a ser lido segundo o fio condutor das minhas anotações.
Dói muito, “emprestadar” livros!

25 outubro, 2011

Poema de... Antero de Quental

À  GUITARRA
Três cordas tem a guitarra,
Uma d’ouro, outra de prata…
Á terceira, que é de ferro,
Todos lhe chamam ingrata.

Ninguém faça ramalhetes
Com flores que hão-de murchar…
Ninguém tenha cordas d’ouro,
Se as não quer ver estalar!

Aprendam todos comigo
O que pode acontecer
A quem canta os seus amores
Num cabelo de mulher…

Das três cordas da guitarra
Só a terceira dá ais…
Bastou-me um amor na vida,
Um só amor e nada mais!

Quadras de Antero de Quental, Portugal (1842-1891)
Pintura (Velho guitarrista cego 1903) de Pablo Picasso, Espanha (1881-1973)

21 outubro, 2011

"Travessuras da menina má" - Mario Vargas Llosa

Este foi o primeiro romance que li de Mario Vargas Llosa, escritor peruano premiado em 2010 com o Nobel da Literatura.
Não me fascinou, por aí além.
Talvez não tenha feito a escolha certa para ir à descoberta de Llosa, autor de uma variada obra.
Não sei.
Aconteceram coisas extraordinárias naquele verão de 1950.
Mas o facto mais notável foi a chegada a Miraflores (Peru), de duas irmãs, vinda de Santiago (Chile). A mais velha chamava-se Lily, teria catorze ou quinze anos, dançava com um ritmo agradável e muita graça, sorrindo e cantarolando a letra da canção. Apaixonei-me como um bezerro, a forma mais romântica de uma pessoa se apaixonar.
Eu pedia a Deus um desejo, que fossemos namorados, nos amássemos, passássemos a noivos e nos casássemos e acabássemos em Paris ricos e felizes.
Mas não foi bem assim que aconteceu.
No final do verão, Ricardo descobre que Lily e a irmã mentiram, intrujaram, inventaram e desapareceram.
Ricardo Somocurcio, narrador e personagem principal deste romance, desde que tinha o uso da razão que sonhava viver em Paris.
Os tios, que substituíram os seus pais mortos por atropelamento tinha ele dez anos, incentivam-no a partir.
Em Paris vivia-se a febre da revolução Cubana, com jovens a chegarem dos cinco continentes.
Ricardo integra o grupo que prepara a revolução peruana e conhece a camarada Arlette (ou Lily a falsa chileninha?). Nele renasce a paixão do verão de 1950, nela  a indiferença.
Três anos depois, já a trabalhar como tradutor-intérprete, Ricardo encontra a camarada Arlete (ou Lily?), agora como Madame Robert Arnoux, casada com um diplomata francês.
Ele – o Ricardito, o menino bom (é assim que ela o chama) - continua apaixonado.
Ela – a menina má (é assim que ele a chama) - vê nele um borra-botas, nada mais.
Vivem fogosos encontros apaixonados, até que ela… desaparece.
Volta a encontrá-la quatro anos mais tarde, agora como Mrs. Richardson.
Ele ama-a cada vez mais. Ela conta mais mentiras que verdades e… volta a desaparecer.
O próximo encontro é no Japão, era ela uma advogada “japonesinha”, secretária de um perverso e mafioso homem de negócios.
Ele continua apaixonado, ela entrega-se mas a seguir... afasta-o.
São 40 longos anos de encontros e desencontros, com momentos de amor, de amizade, de desejo, de paixão, de egoísmo, de humor, de mentira, de dor, de tragédia, de obsessão e perversão.
… estava havia muitos anos apaixonado por uma mulher que aparecia e desaparecia na minha vida como um fogo-fátuo, inflamando-a de felicidade por curtos períodos, e, depois, deixando-a seca, estéril…
Qual será o verdadeiro rosto do amor?

Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa
D. Quixote, 2006
Tradução de J. Teixeira de Aguilar
375 págs.

18 outubro, 2011

Pétalas de sabedoria...


Os meus livros são como água; os dos grandes génios são vinho.
Felizmente toda a gente bebe água.


Mark Twain
Escritor norte-americano (1835-1910)

14 outubro, 2011

"A estrada" - Cormac McCarthy

Está tudo bem contigo?, perguntou. O rapaz fez que sim com a cabeça. E então puseram-se os dois a caminhar no asfalto sob a luz metálica, cinzento-azulada, a arrastar os pés na cinza, e cada qual era o mundo inteiro do outro.
Um pai e um filho – personagens sem nome - caminham sozinhos pelas estradas de uma América devastada. Dirigem-se para sul e o seu destino é a costa, embora não saibam o que os espera, ou se algo os espera. A paisagem devastada pelas chamas é estéril, silenciosa e maléfica. Nada possuem, apenas uma pistola para se defenderem dos bandidos que assaltam a estrada, as roupas que trazem vestidas, comida que vão encontrando – e um ao outro.
O que é que disseste, papá?
Nada. Está tudo bem. Dorme.
Vai correr tudo bem, não vai papá?
Vai, sim.
E não nos vai acontecer mal nenhum, pois não?
Claro que não.
Porque nós transportamos o fogo.
Sim. Porque nós transportamos o fogo.
A Estrada é o relato dramático e comovente da luta do bem contra o mal, do melhor e do pior da natureza humana: a destruição última, a persistência desesperada e o afecto que mantém duas pessoas vivas enfrentando a devastação total.
Não vejo nada.
Eu sei. Vamos ter de dar um passo de cada vez.
Está bem.
Não me largues a mão.
Está bem.
Aconteça o que acontecer.
Aconteça o que acontecer.
Os diálogos entre pai e filho são simplesmente FABULOSOS!

Ler ou reler (a primeira leitura deste livro foi em 2007) Cormac McCarthy é sempre um ENORME prazer.
Descobri este autor quando li “Meridiano de sangue”. Livro duríssimo. Foram várias as vezes em que fechei o livro e me interroguei se deveria ou não continuar a ler tanta, mas mesmo tanta, violência. Seria um livro só para homens? Teimosa e curiosa não desisti e foi assim que descobri o meu segundo autor estrangeiro preferido.
Depois li “Este país não é para velhos” e tornei-me fã incondicional do autor.
Seguiu-se "Suttree" e a admiração pelo autor cresceu desmesuradamente.
Preparo-me para devorar “Nas trevas exteriores” o último livro editado por cá e "O guarda do pomar" que há já vários meses me olham da estante ansiosos por eu os desfolhar.
Sei que não me vão desiludir. Vão sim, assustar e maravilhar – como sempre!

A estrada, de Cormac  McCarthy
Relógio d'Água, 2007
Tradução de Paulo Faria
187 págs.

11 outubro, 2011

Poema de... Florbela Espanca

LÁGRIMAS OCULTAS
Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Poema de Florbela Espanca, Portugal (1894-1930)
Pintura (Femme aux bras croisés 1902) de Pablo Picasso, Espanha (1881-1973)

07 outubro, 2011

"C" - Tom McCarthy

Ao respirar, vivemos; ao falar, comungamos do sublime. Nas nossas conversas uns com os outros – quando ouvimos e respondemos – criamos as nossas ligações: amizades, inimizades e amores.
Ao longo de 395 páginas, repartidas por quatro capítulos, Cde Carbon: o elemento básico da vida - dá-nos a conhecer a fantástica mas curta vida de Serge Carrefax (1898-1922), uma vida marcada pelos mistérios da comunicação, num período em que o mundo passa por grandes mudanças e tragédias.
Coifa – o 1º capítulo, descreve a infância de Serge em Versoie, na província inglesa, num ambiente familiar único: o pai é um homem fascinado pelas experiências com as comunicações sem fio, que ao mesmo tempo dirige uma escola para crianças surdas; a mãe é responsável pela produção de seda; a irmã, com quem ele tem uma relação que o marcará para toda a vida, domina a química, a botânica e a criptografia.
Após a morte estranha da irmã, Serge deixa a casa da família e busca numa estância termal remédio para os seus problemas de saúde.
Chuto – o 2º capítulo, o eclodir da I Guerra Mundial leva Serge a ingressar na Academia da Força Aérea. Vai pilotar um avião que ao sobrevoar o lado alemão emite sinais codificados que guiarão as bombas inglesas para os alvos inimigos. Descobre a cocaína e começa a andar permanentemente dopado.
Colisão – o 3º capítulo, a guerra acaba e Serge viaja compulsivamente entre Versoie e Londres, como se ao ”andar bastante de um lado para o outro o mundo se arrumasse à sua volta”. Em Londres estuda arquitectura, trabalha no Ministério das Comunicações e “perde-se” em sessões de espiritismo e nos prazeres do sexo e das drogas.
Chamada – o 4º capítulo, Serge parte para a derradeira aventura no Egipto. Sempre ligado às comunicações é convidado para colaborar na montagem da rede de comunicações sem fios do Império Britânico. Morre em 1922, o ano da fundação da BBC.
Tom McCarthy, considerado “uma das vozes mais originais da sua geração”, não me entusiasmou.
Achei a sua escrita inteligente mas demasiado descritiva, explicativa e até repetitiva.
Achei, também, que este é um livro super colorido. Veja abaixo como cheguei a esta conclusão.

C, de Tom McCarthy
Editorial Presença, 2011
Tradução de Maria João da Rocha Afonso
395 págs.

"C" - Tom McCarthy (curiosidades)

Apercebi-me, logo na primeira página do livro, que o autor usava e abusava das cores: pássaros negros, mala castanha, aparelho… preto, papel amarelo, frutos brancos entre folhagem verde e vermelha
A partir daí fui anotando as cores que iam aparecendo ao longo do texto e o resultado foi este:


Cor
1º Capítulo
2º Capítulo
3º Capítulo
4º Capítulo
Total
negro
22
14
2
22
60
preto
7
3
3
3
16
amarelo
5
10
2
1
18
laranja
4
5

1
10
cinzento
7
2
1
1
11
branco
18
16
4
10
48
encarnado
1


1
2
verde
8
7
3
3
21
azul
14
7
4
4
29
vermelho
17
15
5
3
40
dourado
3
1

1
5
roxo
2


1
3
prateado
2


1
3
castanho
9
10

1
20
carmesim
3


2
5
lilás

1


1
violeta

1


1
púrpura



1
1
rosa



1
1

Certamente que deixei passar muitas outras, mas estas bastam para eu dizer que cor é coisa que não falta a este livro de Tom McCarthy.
Que me desculpe o autor esta brincadeira.

Tomas Tranströmer - Prémio Nobel da Literatura 2011

Tomas Tranströmer, psicólogo e poeta, nasceu em Estocolmo, em 1931.
É o poeta sueco mais traduzido em todo o mundo.
No nosso país o novo prémio Nobel está apenas representado na colectânea “21 poetas suecos”, editada pela Vega, em 1981.
Pouco, muito pouco. Aguardemos.

A árvore e a nuvem
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.