28 fevereiro, 2011

Sumário de leituras


Li ou reli em Fevereiro 2011
• Uma vida pela metade, de V. S. Naipual
• Seis suspeitos, de Vikas Swarup
• Entre assassinatos, de Aravind Adiga
• Álbum de família, de Penelope Lively
• Sangue do meu sangue, de Michael Cunningham
• Retratos de família, de Kate Atkinson
• Matteo perdeu o emprego, de Gonçalo M. Tavares
• Almas cinzentas, de Philippe Claudel
• Um novo mundo, de Eckhart Tolle
• Divorcio em Buda, de Sándor Márai

Dou nota máxima:
• Sangue do meu sangue, de Michael Cunningham
• Almas cinzentas, de Philippe Claudel

25 fevereiro, 2011

"Uma vida pela metade" - V.S. Naipaul

Uma vida pela metade” é a história de dois homens rebeldes – pai e filho – que lutam contra as tradições da família, na esperança de viverem a sua própria vida.
O pai de Willie é descendente de uma longa linhagem de sacerdotes, que perdeu tudo com a conquista do país pelos Muçulmanos e depois com a ocupação inglesa.
A segurança da família foi conseguida servindo o marajá.
Ao pai de Willie estava destinado tirar uma licenciatura, com uma bolsa concedida pelo marajá, casar com a filha do reitor do colégio do marajá e continuar a servir o marajá.
Mas ele não está interessado na servidão eterna.
É a luta pela independência do país que lhe interessa. Quer fazer parte desse movimento, quer lutar contra as tradições, quer viver a sua vida.
Resolve virar costas à linhagem, a todas as esperanças que a família depositara nele, abandonar os estudos, fazer um voto de silêncio, viver de esmolas e casar com a mulher mais miserável que encontrar.
Encontrou-a, e desse casamento nasceu Willie - para sempre o filho do pedinte da porta do templo.
Humilhado ... aos vinte anos, Willie Chandran, o aluno da missão que não completara os estudos, sem saber o que queria fazer a não ser fugir daquilo que conhecia e, contudo sem perceber muito bem o que existia para além daquilo que conhecia... parte para Londres, em busca de uma nova vida, a sua própria vida.
Assume uma nova identidade, mas nem assim consegue encontrar-se.
Em Londres conhece aquela que virá a ser sua  mulher. Partem ambas para o país dela, em África, uma colónia portuguesa que vive os últimos dias do colonialismo.
Mas, também ali toma consciência de que está a viver a vida pela metade, que está a viver a vida dela e não a sua.
Volta a partir. Sózinho.
Leia para conhecer Willie Chandran. Já agora, a colónia portuguesa para onde ele vai com a Ana, a mulher, é...
Gostei!

Este foi o primeiro livro que li de V. S. Naipaul, autor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, em 2001. Descobri-o na estante da minha filha.

Uma vida pela metade, de V. S. Naipaul
Dom Quixote, 2001
Tradução de Maria João Delgado
195 págs.

"Seis suspeitos" - Vikas Swarup

Vikas Swarup é o autor do famoso “Quem quer ser bilionário?”, que tanto êxito teve na sua adaptação ao cinema.
Não li o livro, mas vi o filme.
Em 2010 publicou o segundo romance e a curiosidade levo-me a comprá-lo e lê-lo, de imediato.
Não deverá ter o sucesso da primeira obra, mas isso não significa que não seja interessante.
Trata-se de um romance policial, que “oferece um olhar perspicaz sobre o coração e a alma da Índia contemporânea”, uma alta comédia de costumes.
A Índia vive uma grande mudança, o povo luta por uma sociedade mais justa, luta pela ascensão ao patamar confortável das classes mais elevadas.
Este livro, inspirado em acontecimentos reais, é o relato de um crime. Os suspeitos são “um grupo heterogéneo, uma curiosa mistura de maus, belos e feios”.
Não podia ser de outra forma, pois ”mesmo no crime há um sistema de castas….”.
Lê-se com agrado, compulsivamente, na tentativa de descobrirmos se o assassino será apanhado e julgado.
Ou terá cometido o crime perfeito?

Seis suspeitos, de Vikas Swarup
Asa, 2010
Tradução de Isabel Alves
488 págs.

"Entre os assassinatos" - Aravind Adiga

Aravind Adiga é o autor do famoso “O tigre branco”, vencedor do Man Booker Prize, de 2008.
Esta sua primeira obra, é uma sátira mordaz à corrupta classe dominante, num país em que o povo é imobilizado pelo sistema social de castas.

Em 2010 aparece nas bancas o seu segundo romance "Entre os assassinatos".  Não o considero tão “poderoso” como o primeiro mas… vale pelo retrato das transformações que acontecem no seu país.
São catorze histórias vividas numa cidade imaginária, situada na costa sudoeste da Índia, durante o período que decorreu entre os assassinatos de Indira Gandhi e do seu filho Rajiv.
Nesta obra, o autor volta a muitos dos temas presentes no seu primeiro livro (do qual já dei a minha opinião), mas agora recorre a vários narradores de castas, religiões e até línguas diferentes.

Entre os assassinatos, de Aravind Adiga
Editorial Presença, 2010
Tradução de Alice Rocha
305 págs.

16 fevereiro, 2011

"Sabores Além-Mar" - Chefe Silva


Gosto de livros de culinária.
Gosto de livros de culinária com fotografias.
Gosto de livros de culinária que contem histórias.
Gosto de livros de culinária que me transportem para outras culturas.
Este livro do Chefe Silva tem tudo isso.
As receitas são originárias de países que partilham connosco a língua portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Brasil, Goa, Macau e Timor.
Se aprecia uma gastronomia exótica, aqui encontrará receitas fáceis de confeccionar e fotografias fantásticas.
A componente cultural também lá está. O Dr. Sérgio de Carvalho sintetiza a relação de Portugal com cada uma dos países.
Vamos deliciar-nos com: Frango à cafreal (Moçambique), Cachupa (Cabo Verde), Muamba (Angola), Feijoada (Brasil), Chacuti (Goa), Chau-Min (Macau) e Bebinca (Timor).
Bom apetite!

09 fevereiro, 2011

"Álbum de família" - Penelope Lively

A leitura desta saga familiar, de Penelope Lively, recordou-me dois livros fabulosos, que li há já vários anos: "Sangue do meu sangue", de Michael Cunningham e "Retratos de família", de Kate Atkinson. Falarei deles de seguida.

“A cozinha era o coração de Allersmead. Claro. Tal como em qualquer casa de família harmoniosa, e Allersmead era um santuário de família.”
Seria?
“A casa ouve tudo. A casa sabe. Sabe tudo o que foi dito, tudo o que foi feito.”
Sabia?

Na casa habitavam Paul,o pai, escritor que passava os dias no escritório e não gostava de ser perturbado; Alison, a mãe, dona de casa dedicada, a fada do lar; os filhos Gina, Sandra, Paul, Katie, Roger, Clare e Ingrid, a criada enigmática.
Com o regresso dos filhos adultos a Allersmead, as vivências de três décadas são reveladas, examinadas, admitidas, como sempre à volta da mesa da cozinha.
Mas do segredo devastador, que todos conheciam, ninguém falava. Ninguém desejava discuti-lo.
Até a casa mantinha silêncio, guardando o que foi feito, dito e pensado.
É o olhar frio e avaliador de Gina, depois do seu afastamento de Allersmead, que revela, sem mostrar demasiado, a vida da família, desde os anos 70.
Mas são os seis irmãos, que falam dos seus relacionamentos, dos seus interesses profissionais, políticos e sociais, do estado da nação, sempre intercalando com episódios da infância e adolescência.

Penelope Lively foi nomeada três vezes para o Booker Prize. Em 1987 recebeu o prémio com o muito aclamado "Anel de Areia".

Álbum de família, de Penelope Lively
Civilização, 2010
Tradução de Marlene Campos
247 págs.

"Sangue do meu sangue" - Michael Cunningham

Li este livro em 2001. Para mim continua a ser o melhor de Michael Cunningham.

Michael Cunningham, numa voz de grande força emocional e sensibilidade, encanta-nos com esta história épica de três gerações de uma família americana, das ambições, violências, desilusões, das barreiras emocionais e sexuais, dos amores que marcam vidas.
Fantástico, duro, inesquecível, genial, fabuloso!
Este é um daqueles livros que não se esquecem.

Sangue do meu sangue, de Michael Cunningham
Gradiva, 2000
Tradução de Rui Pires Cabral
423 págs.

07 fevereiro, 2011

"Retratos de família" - Kate Atkinson

Li em 1999, este genial primeiro romance de Kate Atkinson.
Adorei!

Em "Retratos de Família", Ruby Lennox narra a história da sua família, desde os finais do século XIX aos finais do século XX, descrevendo com rigor a sua infância, adolescência e idade adulta, e também os momentos da sua concepção e nascimento (pouco antes da Coroação).
Um romance maravilhoso, espirituoso e divertido.
Lê-se de uma assentada.

Retratos de família, de Kate Atkinson
Planeta Editora, 1998
Tradução de Ana Faria
371 págs.

02 fevereiro, 2011

"Matteo perdeu o emprego" - Gonçalo M. Tavares

Matteo perdeu o emprego” foi a primeira obra que li de Gonçalo M. Tavares.
Talvez não tenha sido boa ideia.
Vou ter de ler mais (aceito sugestões) para confirmar se, e apenas na minha perspectiva, estamos perante o grande escritor português do século XXI, de quem Saramago disse: “Prevejo que ele virá a ganhar o Prémio Nobel”.

O livro está dividido em duas partes.
Na primeira parte temos 25 pequenas histórias caricatas, vividas por 25 personagens. Em cada uma delas há um pormenor que faz a ligação com a história seguinte. As histórias aparecem por ordem alfabética dos personagens. “Matteo perdeu o emprego” é a 25ª história, e a mais desenvolvida.
Na segunda parte, num Posfácio, o autor analisa os contos e explica a ligação entre os vários acontecimentos, onde tudo acontece por ordem alfabética. “tudo responde pela ordem alfabética do seu nome. Mas uma ordem inclui dentro de si a possibilidade de infinitas combinações.”
Eis o último parágrafo do livro:
“A hierarquia pelo alfabeto não é, pois, uma brincadeira de crianças. Pode representar a salvação (já passaram a minha letra), uma condenação (sou eu!) ou representar ainda o tempo da ameaça suspensa (ainda não chegaram à minha letra).”

Matteo perdeu o emprego, de Gonçalo M. Tavares
Porto Editora, 2010
210 págs.

"Almas cinzentas" - Philippe Claudel

Li este livro em 2005, sem parar.
Se não conhecem, POR FAVOR, corram a uma livraria, comprem, leiam e confirmem que, como este, há poucos.
Dizia Le Nouvel Observateur: “Aqui está um romance como já não se lia há muito tempo, como já não se escrevia há muito. Que escritor!”
Sinopse: “Inverno de 1917. Numa pequena povoação de Lorena, a poucos quilómetros do campo de batalha onde decorre uma das maiores carnificinas da história da Europa, é descoberto o cadáver de uma menina de dez anos. O assassino é encontrado na figura de um jovem desertor que é executado, ainda que uma testemunha diga que viu a criança encontrar-se com o insondável Procurador da terra na noite do crime.
Muitos anos depois, vai ser o polícia da aldeia, que desde o início duvidara da culpa atribuída ao rapaz, a relembrar o dia do crime e a cadeia de acontecimentos que o precederam e que se lhe seguiram.
Uma história que termina com a tomada de consciência de que, na fronteira entre o bem e o mal, todos somos a um tempo culpados e inocentes, justos e injustos, almas cinzentas e atormentadas.”
Mais palavras, para quê?
Trata-se de um romance genial, em jeito de thriller, sobre o assassínio de Lírio-do-Vale, uma menina de 10 anos, investigado pelo narrador, que é polícia. Sem condenar nem julgar alguém, mas sempre duvidando da participação no crime do jovem que foi executado, descobre que a verdade é indesejada quando os poderosos da terra estão envolvidos, e que existe algo mais forte do que o ódio: as regras sociais.
Almas Cinzentas, de Philippe Claudel (Prémio Renaudot 2003)
Asa, 2004
Tradução de Isabel St. Aubyn
185 págs.

01 fevereiro, 2011

"Um novo mundo" - Eckhart Tolle

Em 2008 a minha cunhada, Fandy, falou-me deste livro. O seu entusiasmo foi tanto, que me levou a comprá-lo, lê-lo, anotá-lo e guardá-lo, na estante dos livros a que volto com alguma regularidade.

“A vida é sempre agora. Toda a nossa vida se desenrola neste constante Agora. Até os momentos passados ou futuros só existem se nos lembrarmos deles ou se os anteciparmos, e fazemo-lo pensando neles no único momento que existe: o momento presente.
O momento presente é útil como um meio para atingir um fim. Conduz-nos a um momento futuro que é considerado mais importante, apesar de o futuro nunca existir a não ser na forma do momento presente, não passando, por isso, de um pensamento na nossa cabeça. Por outras palavras, nunca estamos plenamente aqui porque estamos sempre ocupados a tentar chegar a outro sítio.”

“Quando você começa a pensar que conseguiu atingir o seu objectivo ou que pertence aqui, o movimento de retorno inicia-se. Talvez as pessoas que lhe são próximas comecem a morrer, pessoas que faziam parte do seu mundo. Depois, a sua forma física enfraquece; a sua esfera de influência diminui. Em vez de se tornar mais, você torna-se agora menos… O seu mundo começa a contrair-se e você pode pensar que já não controla as coisas. Em vez de agir sobre a vida, é a vida que agora age sobre si, reduzindo lentamente o seu mundo. A consciência que se identifica com a forma está agora a viver o seu ocaso, a dissolução da forma. É então que, um dia, também você desaparece.
A vida de cada pessoa representa um mundo, uma forma única de experiência… e quando essa forma se dissolve há um mundo que chega ao fim – um entre inúmeros mundos."

Um novo mundo, de Eckhart Tolle
Pergaminho, 2006
259 págs.

"Divórcio em Buda" - Sándor Márai

Foi em 2004 que descobri este autor, quando li “As velas ardem até ao fim”, ia já na 4ª edição portuguesa. Considerei-o, então, um romance deslumbrante, um hino à amizade, uma pérola que figurará na lista dos meus livros preferidos.
Posteriormente comprei (mas ainda não li) “A herança de Eszter”.
Este ano descobri / comprei / li o “Divórcio em Buda”. O autor continuou a não me desiludir.

Divórcio em Buda” é o retrato de um triângulo amoroso, feito de paixões negadas, silêncios amargos e confissões impossíveis, numa sociedade decadente às portas da Segunda Guerra Mundial.
O processo de divórcio dos Greiner era um dos muitos que chegavam à mesa de trabalho do juiz Kristóf Kómives.
No geral, num processo de divórcio cabia ao juiz confirmar que duas pessoas não se suportavam e não conseguiam viver juntos. Apenas isso.
Mas o divórcio dos Greiner é muito diferente e irá perturbar o sossego da respeitável vida burguesa deste juiz em Budapeste, neto e filho de célebres juízes, educado num espírito rigoroso, de fundo humanístico, como era tradição na família.
Imre Greiner, tinha sido seu colega de escola, mas nunca íntimo. Ela, Anna Greiner, era a jovem esquiva que o juiz conheceu no baile da Faculdade de Direito e nunca esqueceu. Anna amou-o em segredo e também não o esqueceu. Loucura ou obsessão? “O modo como os segredos ardem na alma talvez seja semelhante ao incêndio de uma mina, que vai queimando em fumo lento”.
No oitavo ano do casamento, os Greiner decidem divorciar-se. Formavam um casal perfeito. Eram um exemplo para os amigos. Divorciavam-se por “não suportarmos o que calávamos um frente ao outro”.
Na noite anterior à audiência Imre Greiner procura o juiz na sua casa, fala-lhe sobre o seu casamento e comunica-lhe o suicídio de Anna.
Tendo como pano de fundo o estalar iminente da segunda Guerra Mundial, a morte da mulher que ambos amaram dá-lhes oportunidade de reflectirem sobre vivências e sentimentos que nunca foram capazes de partilhar com ninguém e redimir os erros que os levaram à situação actual”.

Sándor Márai nasceu, em 1900, em Kassa, na Hungria.
Passou um período de exílio voluntário na Alemanha e na França e em 1948, com a chegada do regime comunista ao seu país, emigra para os Estados Unidos da América.
Foi só depois da queda do regime que a sua obra foi conhecida na Hungria e no mundo inteiro.
Sándor Márai suicidou-se em 1989, na Califórnia.

Divórcio em Buda, de Sándor Márai
Dom Quixote, 2010
Tradução de Ernesto Rodrigues
184 págs.