31 janeiro, 2011

Sumário de leituras

 
Li ou reli em Janeiro 2011:
• O poder e a glória, de Graham Greene
• A matéria do poema, de Nuno Júdice
• O tempo entre costuras, de Maria Duenãs
• Homem invisível, de Ralph Elisson
• Obra poética 1948-1988, de David Mourão-Ferreira
• Comer, orar, amar, de Elisabeth Gilbert
• No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares
• Ao cair da noite, de Michael Cunningham
• Projecto felicidade, d e Gretchen Rubin

Dou nota máxima:
• O poder e a glória, de Graham Greene
• Homem invisível, de Ralph Elisson

24 janeiro, 2011

"O poder e a glória" - Graham Greene

Comprei este romance no verão de 2010.
Porquê só agora? Não interessa. O que interessa é que o descobri e o li. Nunca é tarde…
Publicado pela primeira vez em 1940, numa modesta edição de 3500 exemplares, foi o livro, em língua inglesa, mais lido no séc. XX e considerado a obra-prima de Graham Greene.
O romance foi escrito após uma viagem do autor ao México, em 1938, nomeadamente às províncias de Tabasco e Chiapas, onde nos anos vinte ocorreu uma das mais ferozes perseguições religiosas.
Outras obras do autor: O Cônsul Honorário, O Americano Tranquilo, Assassino a Soldo, O Nosso Agente em Havana, O Terceiro Homem.

Sinopse: “O livro descreve as peripécias e os dramas do único sacerdote católico que continuava a exercer, clandestinamente, o seu ministério. Perseguido pela polícia, carregava consigo as cicatrizes do tempo: os gestos denunciavam um passado diferente e um temor em relação ao futuro. Não era nem herói nem santo, vivia como fugitivo, cheio de medos, com a consciência de ser um pecador, com o remorso de ter uma filha e, embora debilitado pela bebida, dizia zombeteiramente que com um pouco de conhaque era capaz de desafiar o demónio.
Era um mau sacerdote e sabia disso. Queria fugir, porém, era escravo do seu povo. Era considerado um traidor e qualquer um que o protegesse tornava-se traidor como ele.”

Romance comovente, sobre a perseguição / peregrinação de um padre católico, fraco, cobarde, alcoólico, que foge da polícia e dos fiéis, que tem um segredo, que tem medo da morte, que é humilhado, “que se supunha salvar almas, o que outrora lhe parecera uma coisa muito simples… mas agora parecia um mistério…. tinha consciência da sua própria e desesperada inadequação”, que já não encontra significado na oração, mas continua a exercer o seu ministério.
Genial!

O poder e a glória, de Graham Greene
Casa das Letras, 2010
Tradução de Manuel Cordeiro
247 págs.

"A matéria do poema" - Nuno Júdice

Não encontro palavras para falar deste livro de Nuno Júdice.
Fico-me pelo silêncio...

O silêncioPego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

“A matéria do poema” , de Nuno Júdice
Dom Quixote, 2008
140 págs.

"Os melhores contos espirituais do oriente" - Ramiro Calle

Na sequência de várias viagens à Índia e Ásia, Ramiro Calle compilou cerca de mil contos. Destes, seleccionou e traduziu duzentos e cinquenta. Depois, acrescentou a cada conto um breve comentário e divulgou tudo num livro encantador.

O fio condutor dos contos é o despertar da consciência, para nos tornarmos melhores seres humanos.
Aqui fica um, escolhido entre tantos que me marcaram, apenas por ser pequenino:

O riso
“Um monge vivera os últimos anos da sua velhice na mais absoluta paz. Encontrava-se no seu leito, agonizante, e os seus colegas do mosteiro choravam à sua volta. De repente, o monge lançou três sonoras gargalhadas.
- Irmão – sussurravam os monges -, como se pode rir se nós estamos a chorar?
- A primeira gargalhada foi pelo vosso medo da morte; a segunda, porque não estão preparados para enfrentá-la; e a terceira porque eu passo da fadiga ao descanso e vocês, em vez de se alegrarem, andam por aí a choramingar.
Dito isto, fechou os olhos aprazivelmente e expirou.

A morte faz parte da vida. Uma e outra correspondem-se e complementam-se. Não é fácil relacionarmo-nos com a morte e, menos ainda, afrontá-la com equanimidade. Mas a morte pode encarar-se como conselheira e pode ajudar-nos a superar a nossa petulância, os apegos tolos e as mesquinhices."

Este é um livro para colocar num lugar bem visível da nossa estante.
Porquê? Para nos socorrer quando necessitarmos de "alimento" para a mente e para o coração.

Os Melhores Contos Espirituais do Oriente, de Ramiro Calle
A esfera dos livros, 2006
Tradução de Margarida Cardoso de Meneses
430 págs

17 janeiro, 2011

"Obra poética I" - Sophia de Mello Breyner Andresen

O mar é um dos grandes temas da obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Seleccionei três poemas. Descubram muitos mais.

PRAIA
As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços.

MEIO-DIA
Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo,
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso, solitário e antigo,
Parece bater palmas.


MAR SONORO
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

"Três mulheres poderosas" - Marie Ndiaye

Foi por mera curiosidade que comprei e li "Três mulheres poderosas" no verão passado, depois de saber que estava a ser um fenómeno literário em França e do prémio que havia conquistado. Não conhecia nada da obra da autora.
Não me arrependi, pois deliciei-me com um retrato riquíssimo, impecável, duro, doce, de comportamentos, sentimentos e relações humanas.

“Três mulheres poderosas”, Prémio Goncourt 2009, pela primeira vez atribuído a uma escritora negra, conta a história de três mulheres – Norah, Fanta e Khady Demba, que para preservarem a dignidade face às humilhações que a vida lhes inflige, tiveram de aprender a dizer NÃO.
A ligá-las: a África, a França, o drama das migrações e a difícil integração.

A primeira história, a que mais me tocou, é o relato da resposta de Norah, 38 anos, ao chamamento do pai “…muito me honrarias e dar-me-ias um insigne prazer se não te importasses, e se as tuas forças te permitirem, de te separar da tua família durante um período mais ou menos longo, para vires a minha casa, a casa do teu pai, pois tenho de te falar de coisas graves e importantes…”
Mesmo pensando “não faz sentido e não há qualquer interesse em ter como pai um homem com o qual não é literalmente possível entender-se e cujo afecto foi sempre improvável”… ela foi ter com aquele pai que abandonara, em França, a mulher e duas filhas, com 8 e 9 anos, e fugira para África com o filho Sony.
Mas “aquele homem terrível, intratável” agora sozinho, dobrado sobre o peso da idade, da doença e do desgosto, era o seu pai. O que se passou para a chamar?
A terceira história, a que mais me abalou, relata o drama da jovem Khady, que depois da morte inesperada do marido foi desprezada e abandonada pela família dele. A partir daí, começou o seu inferno.

Três mulheres poderosas, de Marie Ndiaye
Teorema, 2010
Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira
296 págs.

"O tempo entre costuras" - María Duenãs


Sinopse: O tempo entre costuras” é a história de Sira Quiroga, uma jovem modista empurrada pelo destino para um arriscado compromisso. Sem aviso, os pespontos e alinhavos do seu ofício convertem-se na fachada para missões obscuras que a enleiam num mundo de glamour e paixões, riqueza e miséria, mas também de vitórias e derrotas, de conspirações históricas e políticas, de espias.
Um romance de ritmo imparável, costurado de encontros e desencontros, que nos transporta, em descrições fiéis pelos cenários de uma Madrid pró-Alemanha, dos enclaves de Tânger e Tetuán e de uma Lisboa cosmopolita repleta de oportunistas e refugiados sem rumo.”

Grande sucesso da literatura espanhola de 2009, de autora desconhecida, estreante na ficção, centra a acção no período entre a Guerra Civil Espanhola e a II Guerra Mundial e a trama é cheia de reviravoltas, romance, traição, drama e suspense.
A primeira frase do romance “uma máquina de escrever arruinou o meu destino” alerta-nos para a reviravolta que se irá seguir. E que reviravolta.
Sira, a personagem principal e narradora, é uma jovem que cresceu num bairro pobre de Madrid, segue a profissão da mãe (modista) e está noiva de um rapaz simples mas generoso.
Seduzida pelo vendedor da máquina de escrever, abandona tudo e foge com ele para Marrocos. Ali, é ele que a abandona, a rouba, a deixa cravada de dívidas.
Impossibilitada de regressar a Espanha, refaz a vida em Tetuán, torna-se uma modista de sucesso e paga todas as dívidas.
Tudo corre bem, até que uma das suas clientes, uma inglesa que se tornará a maior amiga, lhe faz uma estranha proposta: voltar a Madrid, costurar para as mulheres dos altos cargos nazis e espiar para os serviços secretos britânicos.

Não gostei nem desgostei do que li. Simplesmente, considero que este livro não irá ficar por muito tempo na minha memória.
Já me aconteceu com outros livros e certamente voltará a acontecer.

O tempo entre costuras, de María Dueñas
Porto Editora, 2010
Tradução de Carlos Romão
632 págs.

12 janeiro, 2011

"O meu livro do chocolate"

Como na vida nem tudo é amargo, muito menos sério, deliciei-me a saborear com o olhar mais de oitenta receitas em que o ingrediente principal é o chocolate.

Todos sabemos que o chocolate promove uma sensação de bem-estar e que basta um quadradinho para alegrar um dia mau. Vamos experimentar, então, estas óptimas receitas.

Bom apetite!

10 janeiro, 2011

"Homem invisível" - Ralph Ellison

Sinopse: “Invisível para os brancos racistas, para os brancos emancipados, e para os próprios negros radicais, o protagonista desta obra deseja apenas ser como é. E não como realmente acontece, ou seja, um “homem invisível”, já que realmente todos vêem o que o rodeia e não a ele próprio.
Homem Invisível revela a dor da existência do homem negro num mundo branco. É a história da viagem de um jovem negro pelos estados sulistas da América nos primeiros anos do século XX. Com o passar do tempo, entre experiências frequentemente contraditórias, o protagonista fica a conhecer o mundo dos negros, o mundo dos brancos e o seu próprio mundo. Trata-se de uma peregrinação excepcionalmente esclarecedora sobre questões fundamentais como a raça, a existência humana ou os ideais democráticos.”

Num texto muito bem organizado, muito bem escrito, o narrador, sempre incógnito, transporta-nos ao passado e, a partir daí, tece o enredo: excelente aluno, frequenta uma universidade para negros, que para ele era o melhor dos mundos possíveis, e pretende ficar na universidade como professor ou como membro do conselho administrativo. Devido a uma falta considerada muito grave, cometida no âmbito das severas regras de comportamento, foi expulso. O reitor entrega-lhe várias cartas de recomendação para administradores que o poderão ajudar na procura de emprego. Mas a mensagem nelas contida….

Primeiro romance de um autor desconhecido, provocou intensa polémica aquando da sua publicação, em 1952. Posteriormente foi considerado pela crítica uma obra-prima e reconhecido por muitos como a melhor obra afro-americana de sempre.

Frases que escolho: “Demorei muito tempo e muitas reviravoltas dolorosas das minhas expectativas até atingir um resultado que a todos parecia evidente: que não sou ninguém a não ser eu próprio. Mas primeiro tive de descobrir que sou um homem invisível!!. E, contudo, não sou nenhuma aberração da natureza nem da história. Não me envergonho de os meus avós terem sido escravos. Só me envergonho de mim próprio por em certa altura me ter envergonhado.” (pág. 19)

Homem invisível, de Ralph Ellison
Casa das Letras, 2006
Tradução de Salvato Telles de Menezes e Rui Andrade
470 págs.

"Obra poética 1948-1988" - David Mourão-Ferreira

Escada sem corrimão

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p’rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.


Este belissimo poema (pág. 158) é um dos muitos que encontramos neste livro de David Mourão-Ferreira. Como diz Eduardo Prado Coelho na introdução "apuro e maestria de uma arte das palavras".

Obra poética 1948-1988, de David Mourão-Ferreira
Presença, 1988
427 págs.

"Promessa" - Crónica de José Manuel dos Santos

"O tempo só nos diz se o dissermos. Por isso, a cada ano que acaba, damos uma palavra que o diga, para com ela nos dizermos também. Aqui e em muitos outros lugares, caem sobre 2010 as palavras de um dicionário que apenas as tivesse amargas ou assustadoras. Essas sabemo-las de cor, porque, ultimamente, as temos ouvido em todos os momentos e as temos lido em todos os títulos.
Uma revista francesa pediu a escritores para escolherem palavras que fossem o nome deste ano que finda. Cada um, escolheu uma: crise, dívida, gerir, excesso, invisível (para apontar o que se quer esconder), identidade (francesa, claro), limpeza (étnica, por causa da expulsão dos roms) e ainda os nomes de gente que esteve no centro de acontecimentos e escândalos (o "affaire Bettencourt", por exemplo). Em Portugal, se fizéssemos a mesma pergunta, algumas palavras seriam as mesmas. Outras seriam diferentes: juros, rating, cortes, défice, desemprego, desigualdade, pobreza, chuva, euro, FMI, BPN, Rosalina Ribeiro. E, agora, em todo o mundo, a palavra mais repetida é WikiLeaks e, com ela, vem Assange. Sabemos que estas são palavras de passe a levar-nos de 2010 para 2011.
Nestes dias, oiço o que se exclama sobre o ano que termina, e a palavra mais ouvida é dita para com ela se dizer tudo o que nos afasta da felicidade ou da ilusão dela: "merda". "Foi um ano de merda!", afirma-se. "Que merda de vida!", protesta-se. "Merda para isto", repete-se. "São todos a mesma merda!", lamenta-se. "Merda" é uma palavra que dá sorte no teatro. Segreda-se aos atores, em noites de estreia, desejando-lhes palmas em vez de pateadas. Fora dessas salas onde nos vemos nos outros a fazer de outros, a mesma palavra não é de sorte ou de êxito que fala - é de azar e de fracasso. Na política ou na economia, no trabalho ou em casa, dizemos "merda" para dizer que 2010 foi um ano para esquecer - e, por isso mesmo, não o esquecemos.
Eu olho os dias deste ano e também exclamo: "Que merda!" Isso aqui fui escrevendo, mesmo sem escrever a palavra que alguns chamam "mot de Cambronne", do nome do general de Napoleão que, na batalha de Waterloo, quando o general britânico Colville lhe ordenou que se rendesse, mandou-o à merda. Por isso, ficou na história. Às vezes, mandar alguém à merda pode ser a última forma de heroísmo...
Quando digo "este foi um ano de merda", não digo tudo o que o ano foi. Olho para trás e vejo que, às vezes, uma luz atravessou a sombra. Nesta passagem do tempo, trago aqui essa luz, fazendo dela um bom augúrio. Trago essa luz da luz que, numa tarde fria, vi acender-se, entre o céu cinzento e o rio triste, mudando a cor ao mundo. Trago-a das palavras ditas pela voz de uma mulher: "Sou velha, mas estou viva." Trago-a do grito gritado contra a prepotência ávida: "Estes gajos pensam que são nossos donos, mas não são!" Trago-a dos versos de Jaime Gil de Biedma, tornados meus numa tarde de verão: "No jardim, lendo,/ a sombra da casa obscurece-me as páginas/ e o frio repentino de final de agosto/ faz que pense em ti." Trago-a da mão que me tocou com uma lentidão próxima do desejo. Trago-a da terceira sinfonia de Górecki, morto este ano, ou da oitava sinfonia de Mahler, cantada por Lucia Popp. Trago-a do sorriso que sorriu no rosto de um desconhecido quando, numa rua cheia de gente, íamos chocando. Trago-a de um pensamento de Levinas, lido numa manhã ainda não passada, e que é uma condenação do mundo de hoje: "Depois de ti": "Esta fórmula de delicadeza devia ser a mais bela definição da nossa civilização." Trago-a de um recado escrito pela minha mãe, a dizer-me que havia cerejas à minha espera, e descoberto há pouco numa gaveta onde o guardara, como se ela mo tivesse voltado a escrever com a sua letra aguda e lenta. Trago-o dos erros cometidos, para fazer deles a lua de uma prudência ou o sol de uma ousadia. Trago-a das palavras enviadas por tantos, depois de aqui me lerem, e que, mesmo quando há silêncio na minha resposta, esse é ainda um silêncio de reconhecimento. Trago-a do aforismo de Wittgenstein, lido num livro que nunca fecho: "A ambição é a morte do pensamento." Trago-a de uma noite mudada num grande dia do corpo. Trago-a da festa feita a um gato e por ele devolvida num olhar limpo e longo. Trago-a da chama que, no Bosch que revi no Museu da Arte Antiga, arde a um ritmo que se acelera no nosso olhar. Trago-a da firmeza de um amigo, afirmando a vida contra a doença que a nega. Trago-a da luz de uma gema translúcida, vinda de um tempo antigo e de um país distante, que toco para sentir melhor que o mundo não começou ontem, nem existe só para nós. Trago comigo esta luz que atravessou a sombra de 2010. Trago esta luz até nós - e olho com ela o ano que chega, assim chegasse a uma janela que se abre. "

Não falho na leitura das crónicas semanais do José Manuel dos Santos, publicadas na revista ACTUAL (Jornal Expresso). Nunca me desiludiram.
Este texto, que me tocou particularmente, saiu na revista de 30 de Dezembro de 2010.
Peço desculpa ao autor pela ousadia na sua reprodução.
Obrigada!


06 janeiro, 2011

"Comer, orar, amar" -Elizabeth Gilbert

Sinopse: “Aos trinta anos, Elizabeth Gilbert tinha um marido, uma casa de campo, uma carreira de sucesso – tudo aquilo que uma mulher pode desejar. Ou talvez não…
Decide deixar tudo para trás e, depois de uma arrasadora crise existencial e de um divórcio difícil, parte à aventura.”

Li, com bastante agrado este divertido e inteligente relato de uma viagem libertadora de doze meses, que serviu à autora para se reencontrar.
A viagem começou em Itália (onde experimentou os prazeres mundanos) “descobri que tudo o que realmente queria era comer boa comida e falar italiano o mais possível… portanto declarei como principais prazeres estas dois coisas – falar e comer… será assim tão horrível viajar por alguns meses da nossa vida sem outra ambição a não ser descobrir a próxima refeição deliciosa?”, continuou pela Índia (onde procurou o equilíbrio espiritual “passo quatro a cinco horas por dia nas cavernas da meditação… consigo fazer companhia a mim mesma durante horas seguidas, sem me deixar perturbar pela minha existência no planeta… às vezes, as minhas meditações são experiências surrealistas… tento entregar-me a elas com a menor resistência possível… outras vezes, sinto um contentamento calmo e doce, e também é bom… as frases continuam a formar-se na minha mente e os pensamentos continuam a fazer a sua dança, mas agora conheço tão bem os padrões do meu pensamento que já não me incomodam” e finalizou na Indonésia (onde encontrou o amor) “estou feliz, saudável e equilibrada….não fui salva por um príncipe, fui eu a administradora do meu próprio salvamento”.

Não gostei da adaptação cinematográfica, protagonizada por Julia Roberts e Javier Bardem.

Mas gostava, ou se gostava, de fazer uma viagem idêntica...

Comer, Orar, Amar, de Elizabeth Gilbert
Bertrand, 2008
Tradução de Fernanda Oliveira
372 págs.

05 janeiro, 2011

"No teu deserto" - Miguel Sousa Tavares

Sinopse: “Ali estavas tu, então, tão nova que parecias irreal, tão feliz que era quase impossível de imaginar. Ali estavas tu, exactamente como te tinha conhecido. E o que era extraordinário é que, olhando-te, dei-me conta de que não tinhas mudado nada, nestes vinte anos: como nunca mais te vi, ficaste assim para sempre, com aquela idade, com aquela felicidade, suspensa, eterna, desde o instante em que te apontei a minha Nikon e tu ficaste exposta, sem defesa, sem segredos, sem dissimulação alguma.
Foi ao terceiro dia da nossa viagem, na estrada entre Oran e Argel, Novembro de 1987”.
Mais um excelente livro do Miguel Sousa Tavares.
Um “quase romance” que se devora em pouco mais de duas horas.
Um homem e uma jovem partem juntos, por simples acaso, para uma travessia do deserto.
São 40 dias “de inocência, de iniciação, de descoberta pelo Sahara adentro, pelas nossas almas adentro”. No final da travessia separam-se e não voltam a ver-se.
Um hino à amizade, ao amor, ao companheirismo.
Fabuloso!

Frase que escolho: “…não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.” (pág. 97)
No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares
Oficina do Livro, 2009
125 págs.

04 janeiro, 2011

"Ao cair da noite" - Michael Cunningham

Sinopse: “Peter e Rebecca Harris, na casa dos quarenta e a viver em Manhattan, aproximam-se do apogeu das suas carreiras em arte: ele, negociante; ela, editora numa boa revista da especialidade. Com um moderno e espaçoso apartamento, uma filha adulta a estudar na universidade em Boston e amigos inteligentes e animados, levam um invejável estilo de vida urbano contemporâneo e parecem ter todas as razões para serem felizes. Mas é então que o irmão de Rebecca surge em cena. Extremamente parecido com ela, mas muito mais novo, Ethan (conhecido na família como Mizzy, «O Erro») resolve visitá-los. Na sua presença, Peter começa a pôr em causa os artistas, o trabalho destes, a sua carreira – todo o mundo que construíra com tanto cuidado.
Tal como o aclamado romance As Horas, vencedor do Prémio Pulitzer, esta nova obra de Cunningham constitui uma visão dolorosa do modo como vivemos hoje em dia. Plena de peripécias inesperadas, faz-nos pensar (e sentir) com profundidade nas utilizações e no significado da beleza e no papel do amor nas nossas vidas."

Tive alguma dificuldade em ler este último livro de Michael Cunningham.
Primeiro, pela forma como o narrador “penetra” na história, opinando, comentando, interferindo.
Depois, porque de capitulo para capítulo me via obrigada a desmontar o perfil que construía das personagens.
Depois ainda, porque o clima de desastre, que surge no primeiro capítulo com o atropelamento de um cavalo numa rua de New York, aumenta sem cessar até ao final da narrativa, o que me deixou extenuada e aterrorizada com a crise da alma de todas as personagens.
Peter, elegante, próspero e sensível negociante de arte, vive com a mulher Rebecca uma calma, cúmplice e bela história de amor. Tudo se desmorona a partir da chegada do cunhado Mizzy, jovem, belo, toxicodependente, viajante, que instila desejo, atracção e repulsa.
Peter envolve-se e o caos instala-se.
Mizzy atrai, destrói e volta a partir.
Peter e Rebecca continuarão a manter a relação, tentando, falhando e tentando de novo.
Trata-se de uma história sobre os mistérios da beleza e do desejo, da arte e da ilusão, do tempo e do amor.

Frases que escolho: "A juventude é a única tragédia sexualmente atraente." (pág. 155) "Construimos palácios para que os mais jovens os possam destruir, para que possam pilhar as adegas e mijar das varandas adornadas de tapeçarias" (pág. 302)

Ao cair da noite, de Michael Cunningham
Gradiva, 2010
Tradução de Ana Falcão Bastos
306 págs.

03 janeiro, 2011

"Projecto felicidade" - Gretchen Rubin

“Numa tarde chuvosa, a advogada americana Gretchen Rubin teve uma revelação no mais improvável dos lugares: um autocarro urbano: «Os dias são longos, mas os anos são curtos. O tempo está a passar, e eu não me estou a concentrar suficientemente nas coisas realmente importantes.» Resolveu, então, dedicar-se ao seu «Projecto felicidade»: durante um ano, fez tudo aquilo que os livros, pesquisas e mestres pregavam como os verdadeiros conceitos de felicidade. Durante a experiência, arrumou os armários, cantou de manhã e deixou de implicar (tanto) com o marido. As suas conclusões são por vezes óbvias, por vezes surpreendentes, aparentemente simples, nem sempre fáceis. O blogue acabou por se transformar neste livro.
Escrito com charme e humor, o Projecto felicidade é esclarecedor, divertido e de leitura compulsiva.”

É um daqueles livros que cativa desde os primeiros parágrafos, nos faz sorrir e pensar.
Tenho a certeza de que voltarei a ele para buscar ideias que ajudem a cimentar a minha felicidade.
Porquê não criar o meu próprio projecto felicidade? Vou pensar no assunto.

Projecto felicidade, de Gretchen Rubin
Estrelapolar, 2010
Tradução de Pedro Soares
329 págs